domingo, 20 de julho de 2008

Ficções - Jorge Luís Borges



Sempre que viajo, procuro ao máximo conhecer aspectos da cultura local, e para alguém que lê tanto como eu uma das primeiras coisas é buscar apreciar a literatura do lugar. Estava com viagem marcada para as terras argentinas, tudo devidamente organizado, os guias consultados, pesos adquiridos, quando me toquei que faltava uma coisa bem importante. Tive vergonha em imaginar que chegaria ao país vizinho sem ter tido contato com absolutamente nada que tivera sido escrito através dos séculos de suas história. Na verdade, já havia lido um grande clássico argentino, Martín Fierro, a epopéia gauchesca, mas já faz muitos anos e numa versão adaptada, na época em que eu estava começando os estudos de espanhol, por isso não lembro muito bem, não conta. Então resolvi escolher logo o maior representante da literatura argentina, Jorge Luís Borges.

Borges é um autor mundialmente conhecido, expoente da alta literatura, mas eu o conhecia apenas porque diversas vezes eu havia visto seu nome no caderno “Prosa e Verso”, do jornal O Globo, na coluna “Meu Clássico”, onde famosos e quase famosos indicam seu livro predileto. A priori tenho um pouco de receio com estes livros e autores muito elogiados, tendo em vista experiências passadas, com caras como Joyce e García Marquez. Mesmo assim, resolvi pegar “Ficções”, até porque era o único livro argentino disponível na estante do meu tio, primeira opção nessas horas.

“Ficções” é um livro de contos, o que reduz a possibilidade de eu não gostar e parar no meio – para um cara escrever um livro de contos e nenhum prestar, tem que ser péssimo, péssimo escrito. Com este estado de espírito, comecei o primeiro conto, com o singular nome “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Nas primeiras páginas, uma linguagem confusa, difícil, sem objetividade. Pensei, aquilo não ia terminar muito bem, mas alguma coisa me fazia não largar o conto. Eu estava sendo envolvido aos poucos, como se estivesse sendo seduzido para uma armadilha, até que fui agarrado definitivamente no último parágrafo. Aquilo me chocou! Li imediatamente o segundo, “A aproximação de Almotásim”, e ocorreu a mesma coisa, e foi assim através das páginas do livro. A cada conto que começava, Borges me enganava, fazia eu pensar, “ah, este é fraco!”, o que me obrigava a humildemente pedir desculpas ao final. Começam confusos, e só são compreendidos nas últimas páginas (um deles exatamente na última linha!). Não menos do que três contos eu reli imediatamente após terminar para pegar as sutilezas passadas despercebidas.

Já na metade do livro, reparei meu erro inicial: Borges não tem uma escrita difícil nem rebuscada, mas sim sofisticada, inteligente, como se estivesse utilizando sua incrível capacidade de contar histórias para brincar comigo, rir da minha cara, me sacanear, mas de um modo cordial e amigável, sem querer me humilhar. São freqüentes as citações a artistas, personalidades históricas e filósofos, sobretudo Schopenhauer e Lewis Carrol. Longe da superficialidade de contos que existem simplesmente para contar histórias, transbordam das páginas de “Ficções” discussões interessantíssimas sobre abstrações como o tempo, a realidade, o conhecimento, e sobram recursos da genial mente de Borges, que desenvolve suas tramas cercadas de preocupações com a lógica e a simetria – neste caso, influência clara de Carrol, autor de “Alice no País das Maravilhas”.

Sobre os dois primeiros contos citados acima, Borges explica no prólogo: “Desvario laborioso e empobrecedor o de compor vastos livros; o de explanar em quinhentas páginas uma idéia cuja exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que estes livros já existem e apresentar um resumo, um comentário.” É isso mesmo, tanto nestes dois contos como em “O exame da obra de Herbert Quain” o autor inventa livros e os comenta, de forma tão genial que, na época, leitores portenhos tentavam encomendar os tais livros em livrarias londrinas! Apesar de não ser o melhor conto “O exame da obra de Herbert Quain” deixa clara a capacidade de Borges no sentido da ironia: “Herbert Quain morreu em Roscommon; comprovei sem espanto que o ‘Suplemento Literário’ do Times apenas lhe concedeu meia coluna de piedade necrológica, na qual não há epíteto laudatório que não esteja corrigido (ou seriamente admoestado) por um advérbio.” Hahaha, mais engraçado e ao mesmo tempo inteligente, impossível! E quanto a este: “A fama divulgou que The Secret Mirror era uma comédia freudiana; essa interpretação propícia (e falaz) determinou seu êxito. Infelizmente, Quain já completara os quarenta anos; estava aclimatado ao fracasso e não se resignava docemente a uma mudança de regime.” Hahaha!

Ficções prossegue com “Pierre Menard, autor do Quixote”, uma brincadeira inteligente com Don Quixote e a questão do tempo. “As ruínas circulares”, o texto mais esquisito, é um esquizofrenia delirante sobre os limites da realidade, que só fui entender na última linha. “A loteria em Babilônia” é uma interessantíssima discussão sobre o acaso. Em “O jardim dos caminhos que se bifurcam”, a discussão sobre o tempo é levada ao extremo, bem como realidades alternativas. Este foi tão marcante para mim que, lendo-o após o almoço (quando o sono é inevitável), adormeci, mas estava tão ligado na leitura que sonhei com labirintos, que estão presentes aqui. Já “Funes, o memorioso” fala sobre memória e conhecimento através de um jovem de memória absurda, mas o autor explica no prólogo que “é uma vasta metáfora da insônia”. Quem sou eu para discutir...

Outros contos representam simples histórias inventadas, “ficções” sem discussões sobre temas estranhos, mas nem por isso deixam de ser geniais. “A forma da espada” conta um caso de traição durante a guerra civil irlandesa. É surpreendente, inteligente e mais fácil que os demais, tão bom que li duas vezes seguidas. O mesmo fiz em “Tema do traidor e do herói”, que remete a uma conspiração e manipulação da História, mas se este eu li duas vezes foi para entender, pois é mais complicado. “Três versões de Judas” é uma interessante reavaliação do papel do apóstolo como traidor, e “O sul” fala sobre sentimentos que sinceramente não consigo explicar, mas Borges escolheu este como seu melhor conto.

Apesar de já ter apresentado histórias geniais deste livro, o ponto mais alto tem nome: “A biblioteca de Babel”. Aqui o autor discute tão bem a questão do conhecimento e da realidade que, ao final da leitura, não acreditei que alguém pudesse ter escrito isso, e imediatamente voltei ao início e reli tudo, e só não li mais porque ainda queria conhecer os outros textos. A preocupação com a matemática e a filosofia é mais marcante que em qualquer outro texto, abarcando em poucas páginas diferentes correntes filosóficas, da idéia de realidade passível de conhecimento total ao exatamente oposto, a tentativa inútil do homem em alcançar o conhecimento absoluto. É tão fantástico que não tenho mais o que escrever sobre este conto, só lendo e se emocionando mesmo.

Alguns contos não tem a mesma vitalidade dos anteriores, como “A morte e a bússola”, “O milagre secreto”, “A seita da fênix” e “O fim”, este último com citações a Martín Fierro, que talvez por não conhecer muito bem este livro não aproveitei tão bem. Mas ainda que estes quatro últimos não tenham a mesma força que o resto do livro, não fez a menor diferença: a obra-prima já estava feita.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 176
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

p.s: Nas músicas de Raul Seixas, encontrei pelo menos duas referências a este livro, já que o autor de algumas letras Paulo Coelho é fã declarado de Borges: as músicas “Loteria em Babilônia” e “Judas”, mas procurando com mais calma deve ter mais. Também sou fã do Raulzito, e é sempre interessante conhecer estes detalhes.

sábado, 19 de julho de 2008

Que haja a escrita - Luiz Antonio Aguiar


Muitas vezes nós, leitores por hábito e de coração, somos surpreendidos por estilos ou gêneros que achamos que não é o nosso. “Que haja a escrita” é um daqueles livrinhos catalogados como infanto-juvenil que fazem a alegria também dos jovens mais grandinhos – 25 anos, no meu caso, mas recomenda-se para crianças de até 85, quem sabe até mais. Trata-se de um livro muito instrutivo para qualquer faixa-etária, dos que estão começando a estudar os caminhos da História aos que já se formaram, mas insistem em aprender sempre algo novo.

O livro escrito por Luiz Antonio Aguiar – autor de diversos livros do segmento infanto-juvenil e ganhador do Prêmio Jabuti, mas também de obras ditas adultas como “Almanaque Machado de Assis” – o livro apresenta de forma agradável mitos de criação da escrita de dez povos antigos: gregos, sumérios, egípcios, tuaregues, vikings, maias, celtas, babilônios, hindus e chineses. São pequenos contos de cerca de cinco páginas cada um que majoritariamente mostram situações comuns aos mitos das antigas civilizações: o homem bruto, à mercê dos caprichos dos deuses, recebem de presente a escrita (como qualquer outra coisa da vida humana). Muito instrutivo para, além de mostrar para os adolescentes a estrutura das línguas (alfabetos e escrita pictográfica), apresentar a linguagem e a construção dos mitos, bem como promover um primeiro contato com personagens famosos e marcantes da cultura mundial, como Zeus, Thor ou Shiva. Interessante também é a seção didática, logo após o conto, com duas páginas que explicam a história da civilização retratada e a estrutura de sua escrita, com mapas e simpáticas ilustrações de Salmo Dansa.

Em todos os mitos, fica clara a importância da escrita para o ser humano como qualquer outra invenção. Graças à sua criação, hoje podemos apreciar este maravilhoso e viciante mundo dos livros. Dá para imaginar nossas vidas sem livros, só vendo novelas e ouvindo rádios de música popular? Não, não dá. Então, que haja a escrita!

Editora: Quinteto Editorial
Páginas: 112
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

terça-feira, 15 de julho de 2008

Guia do Solteiro - P.J.O´rourke



O que é ser solteiro? A maioria das pessoas certamente responderá que se trata de um estado civil, mas na verdade, ser solteiro é muito mais do que isso. É um estado de espírito. Eu, por exemplo, passei mais de cinco anos com o estigma de casado em meus documentos, mas graças às minhas atitudes diante dos desafios da vida moderna – cuidados com a casa, hábitos e horários nem um pouco fixos – sempre fui um solteiro de coração.

Apesar disso, eu sentia que alguma coisa estava mudando em minha vida, não sei, estava aos poucos perdendo esta vitalidade dos solteiros, o relaxamento com a panela suja guardada estrategicamente no forno, a poeira soprada para debaixo do sofá, a toalha com murrinha no canto do banheiro, enfim, eu estava me rendendo, ficando careta. Foi quando encontrei em promoção num evento de animes em São Paulo o “Guia do Solteiro – Como fazer de sua casa um confortável chiqueiro”, de P.J. O’Rourke, e decidi que era a hora de fazer meu curso de reciclagem.

Não tenho idéia de como apresentar o livro de forma melhor que o autor fez, por isso vou transcrever o prefácio, intitulado “Agora somos todos solteirões”:

“A vida doméstica como a entendemos é tão natural para nós quanto uma gaiola para um periquito” – George Bernard Shaw
“Este livro destina-se ao verdadeiro solteirão, um homem adulto e bem educado, que nunca se casou e nem pretende fazê-lo.

Somos um grupo seleto, sem compromissos pessoais, entraves sociais, ou pares de meia que combinam. Respiramos o ar frio e puro da solidão (...) Não precisamos, a não ser quando em dúvida sobre alguma receita, dos tediosos e gordurosos laços familiares.

Sherlock Holmes foi um solteirão. E também (...) Nietzsche (...) Voltaire e quase todos os papas. O rei Henrique VIII tentou o tempo todo se tornar um. (...)

O que foi feito dos solteirões de outrora? Dos professores de Oxford? Dos bilionários misantropos casados apenas com a própria ganância? Bem, alguns, no fim das contas, faziam parte daqueles grupos de risco (Patolino, por exemplo, aposto). Outros desistiram, casaram e estão pagando uma fortuna em pensão alimentícia. E o resto de nós se transformou em ‘solteiros’.

Este livro é, portanto, realmente dirigido aos subgerentes regionais de venda, universitários que vivem fora do campus, caras divorciados, jovens que tenham ouvido dos pais um ‘dá o fora dessa casa’ e qualquer um cuja namorada não quer casar porque o primeiro marido dela era um vagabundo. Ou seja, é dirigido a todos os homens que moram em casas com panelas sem cabo.

Este livro também é dirigido aos maridos cujas esposas descobriram as carreiras, a auto-realização, ou que estouraram os limites astronômicos do cartão de crédito. Assim como todos nós, esses solteirões de meio período devem encarar aquele estábulo cujo nome é cozinha.

Na verdade, este livro é também destinado à dona de casa tradicional e mãe que adoraria deixar os filhos em um hotelzinho para cachorro e ir jogar golfe – no que tem o meu total apoio. Vale qualquer bobagem. Pouco importa. A vida doméstica em nossa sociedade já se desintegrou. As crianças chegam em casa e descobrem que seus pais (que, incluindo padrastos e madrastas, somam mais de dez) foram para o trabalho, encontros amorosos, jogar bingo, ou para centros de desintoxicação. (...) Mesmo os recém-casados não passam muito tempo juntos. Principalmente agora que os poucos casamentos duram menos do que a garantia dos eletrodomésticos.

(...) Nós estamos descobrindo, de uma nova forma, o que qualquer velho operário (ou mamãe, se a tivéssemos ouvido) poderia ter nos ensinado: manter uma casa é tão desagradável e imundo quanto minerar carvão, e a remuneração é muito pior.

Assim, no que concerne especificamente a cuidar de uma casa, este livro é dirigido a todas as pessoas. Nós todos somos solteiros agora, ‘estranhos neste ninho que nunca construímos’”.

Não posso negar que este guia foi muito instrutivo para mim, pois me ensinou dicas e procedimentos muito úteis para o meu dia-a-dia. Imagine você só pelo título dos capítulos: “O básico da faxina”, “Por que ter uma casa para limpar?”, “A culinária do solteiro”, “Recebendo visitas”, “Cuidados com o jardim”... Algumas foram tão interessantes que farei um apanhado das principais:

Sala de Jantar – Você pode manter sua sala de jantar limpa comendo na cozinha.
Sala de Estar – Todo mês, mais ou menos, remova as cortinas e jogue fora. Desligue as luzes se não quer que os vizinhos vejam o que você está fazendo. (...) Não use nenhum produto de limpeza de estofados ou tapetes. Se alguma coisa não sair com água quente e sabonete liquido, trata-se provavelmente de alguma coisa que já faz parte do meio ambiente e precisa ser preservada.
Cozinha – Toda cozinha deve ter uma lavadora de pratos. De preferência bem bonitinha, usando apenas um avental e nada mais. Na falta de uma, existe uma abordagem minimalista para evitar pratos sujos: usar pauzinhos chineses e a mão em concha.
Outros cômodos – Feche a porta.
Produtos de limpeza doméstica – Evite todos os produtos de limpeza doméstica que dizem ser eficientes contra a gordura. A gordura é escorregadia e evita que a sujeira grude nos utensílios da cozinha, louças e vidraria.
Controle de insetos:
Baratas – As baratas têm sido duramente atacadas. Elas não mordem, não fedem e nem entram na sua bebida. Quem dera todos os convidados fossem tão bem comportados. (...) Não faça nada a respeito das baratas. Não há nada que você possa fazer mesmo.
Camundongos – Não coloque queijo na ratoeira. Camundongos são mais atraídos por gordura, sebo, pasta de amendoim e encadernações de livros. E, se você examinar essa lista, você verá que, se o camundongo queria, você provavelmente não ia querer. Portanto, não faça nada a respeito deles também.
Ratos – Ratos são outro assunto. Voce tem de fazer alguma coisa a respeito, mas não os envenene pois eles podem morrer dentro das paredes. E um rato morto na parede é uma coisa que pode, eu lhes asseguro, fazer a casa de um solteirão ficar pior do que já está.
Eu vivi uma vez numa casa que tinha ratos. Tomei um punhado de pílulas para emagrecer e fiquei sentado a noite toda com uma garrafa de uísque e um revolver esperando para estourar as suas cabeças. Lá pelas quatro da manhã eu vi um grande número de ratos, muitos deles em alaranjado brilhante e usando roupinhas de balé. Esta técnica não funciona muito bem.

Limpeza da mobília – Não existe como enfiar uma cadeira na máquina de lavar ou mesmo um banquinho do banheiro. A mobília não pode ser limpa. A melhor coisa a fazer é cobrir com alguma coisa tipo a pele de um animal selvagem. Uma loira, por exemplo.

Decoração com álcool:
1-Comece com uma sala vazia tome um drinque generoso.
2-Veja, já parece melhor. Tome mais um.
3-Beba mais um tanto.
4-Ei, este lugar parece ótimo, caramba! Pegou o espírito da coisa? Este é um lugar danado de bom. Parece ótimo.

“A casa de um homem casado dá a ele um lugar para onde voltar. Mas o lar de um solteirão faz melhor do que isso – dá a ele um lugar de onde partir. E, considerando-se a bagunça, quanto mais cedo, melhor.”

É pena que não posso reproduzir aqui as dezenas de fotos didáticas espalhadas pelo livro, que são também muito instrutivas. Uma delas por exemplo mostra o autor com uma borracha d’água regando uma pilha de panelas no chão da cozinha, com a legenda: Faça tarefas difíceis em conjunto. Espere até que o chão esteja realmente sujo para lavar a louça.” Faz sentido.

O autor (por favor, não me faça escrever este nome complicado de novo) escreve para a revista Rolling Stone e é bastante experimentado em livros do mesmo naipe, como podemos perceber em alguns de seus títulos: Holidays in Hell, Give War a Chance, Etiqueta Moderna...

Editora: Conrad
Páginas: 142
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O Mago - Fernando Morais

“A incrível história de Paulo Coelho, o menino que nasceu morto, flertou com o suicídio, sofreu em manicômios, mergulhou nas drogas, experimentou diversas formas de sexo, encontrou-se com o diabo, foi preso pela ditadura, ajudou a revolucionar o rock brasileiro, redescobriu a fé e se transformou em um dos escritores mais lidos do mundo”. Esta é a chamada para “O Mago”, a biografia de Paulo Coelho, e o que despertou meu interesse em ler o livro (exceto a partir da parte que diz “redescobriu a fé”).

Adoro biografias, independente do que a pessoa fez na vida. Se teve uma vida interessante e contribuiu para a história, me interessa. No caso de Paulo Coelho, a vida que é contada no livro é interessantíssima, e a contribuição a que me refiro diz respeito às músicas de Raul Seixas, e não aos seus livros esotéricos de auto-ajuda. Na verdade, até então eu não tinha uma opinião formada sobre a obra de Paulo Coelho. Apesar de já ter lido três de seus livros (“O Diário de um Mago”, “As Valkírias” e “Veronika decide morrer”), eu não podia dar minha opinião sobre eles, já que suas leituras aconteceram na adolescência, nebulando (na verdade anulando) minha memória, e mesmo que lembrasse acho arriscado dar opiniões de uma época de formação, quando minhas idéias estavam nascendo e minhas experiências literárias eram quase nulas. Só me lembrava que gostava, mas a última leitura havia sido há dez anos, aos 16 aninhos. Foi o suficiente para pegar na estante alguns livros e dar uma folheada e me certificar que a opinião da crítica não é nada injusta: os livros são uma merda mesmo! Mesmo assim, tenho gratidão por Paulo Coelho, primeiro por seus livros representarem a fase em que eu comecei a ler livros “de adulto”, ou seja, seus livros me incentivaram para o mundo da leitura, e depois porque vi uma entrevista em que ele recomendava “Trópico de Câncer”, de Henry Miller, dizendo que o livro havia revolucionado sua vida. Depois disso procurei o livro, li e também revolucionou minha vida (agora sim eu realmente entrava no mundo dos livros “de adulto”), mas hoje penso: como é que alguém que se inspira em Henry Miller pode se tornar um escritor tão ruim?

“O Mago” foi escrito por Fernando Morais, excelente escritor de quem eu já tinha lido o fantástico “Corações Sujos”. Acho que é a primeira vez na história que surge uma biografia de um escritor em que o biógrafo é melhor do que o biografado. Além de sua escrita leve, dinâmica e muitas vezes engraçada e irônica, Morais mostra que promoveu uma extensa pesquisa sobre a vida de Paulo Coelho, utilizando fotos, memórias alheias e documentos oficiais (contratos, laudos médicos, ficha no DOPS), mas sobretudo um baú onde Paulo Coelho guardava um diário desde sua adolescência, que ele planejava que fosse queimado depois de sua morte, mas que mudou de idéia (talvez pelas cifras prometidas pela editora) e liberou para o biógrafo.

Fernando Morais apresenta uma vantagem e uma desvantagem marcantes neste livro. A vantagem é que não escreveu um livro apologético, tentando valorizar o escritor, mas mostrou lados obscuros dele em detalhes. Parece até que a biografia foi feita sobre alguém já morto, o que evitaria constrangimentos, e isso eu tenho que admirar em Paulo Coelho: ele foi contra Roberto Carlos na confusão provocada pela publicação de sua biografia, e aparentemente não interferiu em nada escrito no livro. Morais também não poupa as pessoas que se relacionaram com ele, mas a desvantagem de sua escrita é que a vantagem desaparece num certo ponto do livro. A partir do momento em que se junta a Cristina, sua atual mulher, alguns detalhes, como as peripécias sexuais desaparecem, e muito de sua vida após cerca de 1990 deixa de ser interessante, justamente por escassearem os podres. Me parece que aí o autor amarelou, ficou com medo de ofender a mulher dele, não sei. Mas o livro não perde a graça por completo, pois é nesta parte que aparecem as críticas aos livros de Paulo Coelho, e mostra como ele foi escroto com seus contratos, seus lançamentos e sua candidatura à ABL.

“O Mago” é uma leitura muito divertida, e diria até instrutiva, para que as pessoas conheçam melhor quem é o "mago" por trás das belas colunas de jornais de grande circulação que iluminam as semanas de donas de casa de todo o país. Afaste seus preconceitos e esqueça o lixo literário produzido por Paulo Coelho: "O Mago" é um livro que vale a pena ler.

Editora: Planeta
Páginas: 632
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Alguns dos “melhores momentos” do livro:

“Cissa foi acordada às duas da manhã por um estrondo assustador, como se uma bomba tivesse explodido dentro da casa. Levantou-se apavorada e deu com o marido na sala do apartamento, com um rojão queimado na mão. Devidamente abastecido de um bom baseado, ele decidira festejar seu aniversario e estava explodindo rojões para o céu, para desespero da vizinhança. Tudo, claro, registrado par a posteridade pelo gravador:

Paulo – Agora é 1:59 do dia 24 de agosto de 1976. Estou completando 29 anos. Vou soltar um foguete comemorando quem sou eu e vou gravar o barulho. [ruído do estouro do foguete]. Que barato! As pessoas vieram pra janela!
Cecília – Paulo!!
Paulo – O que é? Todo mundo acordou, os cachorros estão latindo...
Cecília – Isso é um absurdo!
Paulo – O que?
Cecília – Você está maluco?
Paulo – Fez um esporro bonito! Ecoou por toda a cidade! Eu sou o campeão!! [rindo muito] Que ótimo eu ter comprado esses foguetes naquele dia! Que ótimo! Puta merda, foi um barato! [rindo muito] Que barato meu Deus do céu! Que loucura! Acho que me libertou de coisas pra caralho, soltar esse foguete!
Cecília – Fica um pouquinho aqui comigo que eu estou nervosa.
Paulo – Por que você ta nervosa? É alguma premonição, alguma coisa assim?
Cecília – Nããão, Paulo, é porque foi um dia muito pesado.
Paulo – Ah, graças a Deus! Porra, isso foi uma libertação, Cecília. Solta um foguete que você também vai ficar tranqüila, imediatamente. Solta na janela daqui.
Cecília – Não! Quem ouvir o barulho vai ver de onde veio. Esquece esse negócio de foguete. Fica um pouquinho comigo, fica?
Paulo – [ri muito] Que barato! Duas horas da manhã, um foguete comemorando meu aniversário, as estrela enchendo o céu. Ai, meu Deus do céu! Muito obrigado! Vou disparar mais fogos pela cidade! [barulho de rojões explodindo]
Cecília – Paulo! Os porteiros de todos os prédios vão ver que é daqui.”

“Ontem fui com a mulher mais velha da zona – e a mais velha com quem já dormi em toda a minha vida (eu não trepei, paguei apenas para olhar). O seio parecia um saco sem nada dentro e ela ficava na minha frente, nua, passando a mão na boceta. Eu a olhava sem compreender por que ela me inspirava piedade e respeito ao mesmo tempo. Ela era pura, extremamente carinhosa e profissional, mas era uma mulher muito velha, ninguém pode imaginar quanto. Talvez uns 70 anos. (...) Trabalha das 18 às 23 horas, depois toma um ônibus, vai para casa e onde mora é uma velhinha respeitável. Ninguém diz, meu Deus! Eu não posso me lembrar dela nua porque me dá uma tremedeira e uma mistura muito grande de sentimentos. Esta velhinha jamais vai sair da minha cabeça. Muito estranho.”

“Já estava de novo instalado na casa dos pais e a peça continuava em cartaz, quando o diabo da homossexualidade decidiu tentá-lo mais uma vez. Agora a iniciativa não partiu dele, mas dde um ator de cerca de trinta anos que também trabalhava na peça. Na verdade, os dois só havia trocado algumas palavras e olhares, mas numa noite, após o espetáculo, o outro o abordou sem meias palavras:
-Quer dormir comigo lá em casa?
Nervoso e surpreso com a cantada inesperada, Paulo respondeu o que lhe veio à boca:
- Sim, quero, sim.
Passaram a noite juntos. Apesar de se lembrar, muito tempo depois, que sentira certa abjeção ao se ver trocando carícias com um homem, fez sexo com ele, penetrando-o e se deixando penetrar. Paulo voltaria para casa, no dia seguinte, ainda mais confuso do que antes. Não sentira nenhum prazer e continuava sem saber se era ou não homossexual. Meses depois voltaria à carga e de novo escolheria entre os colegas de palco o companheiro para a experiência. Na casa deste, uma quitinete em Copacabana, sentiu enorme constrangimento quando o parceiro propôs que tomassem banho juntos. O mal-estar prosseguiu noite adentro. O sol começava a entrar no pequeno apartamento quando afinal conseguiram fazer sexo – e Paulo Coelho se convenceu, de uma vez por todas, de que não era homossexual.”

“Aí, no começo de 1972, um estranho apareceu na redação – na verdade uma modesta sala no décimo andar de um edifício comercial no centro do Rio de Janeiro. Usava um terno lustroso, desses que nunca amarrotam, gravata fina e pasta de executivo na mão – e anunciou que queria falar com “o redator Augusto Figueiredo”. Na hora Paulo não associou o visitante a alguém que lhe telefonara dias antes, perguntando pelo mesmo Augusto Figueiredo. Foi o suficiente para despertar paranóias adormecidas. O sujeito tinha toda a pinta de policial, devia estar ali por causa de alguma denúncia – drogas? – e o problema é que Augusto Figueiredo não existia, era um dos nomes que usava para assinar suas matérias. Apavorado, mas tentando simular naturalidade, tentou despachar o intruso o mais depressa possível:
- O Augusto não está. Quer deixar recado?
- Não. É só com ele mesmo. Posso sentar e esperá-lo?
Confirmado, o homem era mesmo um tira. Sentou-se a uma mesa, pegou um exemplar antigo da Pomba, acendeu um cigarro e passou a ler, com ar de quem não estava com a menor pressa. Uma hora depois continuava lá. Havia lido todos os números velhos da revista, mas não dava sinais de que pretendia ir embora. Paulo lembrou-se da lição adquirida durante os saltos sobre a ponte, na infância: a melhor maneira d diminuir o sofrimento é enfrentar o problema no nascedouro. Decidiu contar logo a verdade para o policial – tinha absoluta certeza de que se tratava de um policial. Antes, porém, tomou o providente cuidado de vasculhar as gavetas da redação e certificar-se de que ali não restava nem um fragmento de beata, nome dado às guimbas de cigarros de maconha. Tomou coragem e, piscando muito, confessou que mentira:
- O senhor me desculpe, mas não existe nenhum Augusto Figueiredo aqui. Quem escreveu o artigo fui eu, Paulo Coelho. Qual foi o problema?
O visitante abriu um largo sorriso e dois braços compridos, como se oferecesse um abraço, e falou com forte sotaque baiano:
- Mas então é com você mesmo que eu quero falar, rapaz! Muito prazer, meu nome é Raul Seixas.”

“Paulo não fala os nomes do Paraguai, do ex-presidente Fernando Collor (...) Corta caminho sempre que vê uma pena de pombo na calçada, jamais passando por cima dela. Um de seus amigos (...) é testemunha de que essa esquisitices do escritos são antigas. Ele se lembra de certa noite, no começo dos anos 70, os dois saiam juntos de um bar do Rio de Janeiro quando Paulo de repente o agarrou pelo braço, atravessou a rua, puxando-o imprudentemente por entre os veículos, até achar uma árvore (a superfície de madeira mais próxima) e bater nela três vezes, sofregamente. Quando o intrigado Pepe pediu um explicação, ele confidenciou:
-Acabei de ver uma mulher grávida falando num telefone público. Isso atrai energias negativíssimas."

Algumas críticas engraçadas:

“O autor escreve muito mal. Não sabe usar a crase, emprega muito mal os pronomes, escolhe aleatoriamente as preposições, ignora coisas simples como a diferença entre os verbos ‘falar’ e ‘dizer’”.

“O que ele talvez devesse anunciar com mais galhardia é que faz chover. Pois Paulo Coelho faz mesmo – na horta dele.”

“O Alquimista é desses livros que, quando a gente larga, não consegue mais pegar.”


*Quadrinhos* Batman - edição brasileira 1988-1989



Me entristece muito ver como os quadrinhos estão hoje: caros e, de modo geral, péssimos. Nas bancas, o mais barato que se encontra são gibis Marvel e DC, R$6,90 por cem páginas, com histórias sonolentas e desenhos medíocres. Por isso que há anos não compro nada, leio escaneados na internet, em parte por curiosidade de saber como anda, em menor grau para garimpar as poucas coisas boas que saem nos States, mas majoritariamente para me sentir aliviado ao pensar “que bom que não gastei dinheiro com esta merda!”.

Mas nem sempre foi assim. Bons tempos em que os gibis eram realmente gibis, em formato pequeno, com papel ruim, impressão tosca, mas em contrapartida baratos e muito divertidos. Hoje, o gibi vende menos e as editoras têm que encarecer para tirar o prejuízo, e como eles ficam mais caros, menos gente compra, como eu, mas as editoras acham que este é o melhor caminho, então... Eu é que não gasto o meu assim, prefiro perambular por sebos e caçar preciosidades para minha antiga coleção, como as revistas antigas do Batman.

O Homem-Morcego já foi publicado aqui no Brasil por diversas editoras, mas na minha época era a Editora Abril que monopolizava os quadrinhos Marvel e DC (hoje é a Panini). Foram lançadas diversas séries intituladas Batman pela Editora Abril, mas a melhor de todas foi a segunda. Lançada entre setembro de 1987 e dezembro de 1988, teve apenas dezesseis edições, mas apesar da pouca quantidade, esta pequena série é objeto de veneração para mim até hoje.

Logo no primeiro número, foi apresentada a saga “Batman: Ano Um”, de Frank Miller, autor de Sin City, 300 de Esparta e da época de ouro do Demolidor, e David Mazzuchelli, desenhista com um estilo adulto, sombrio, misterioso. Em poucas palavras, “Ano Um” é considerado não apenas uma das melhores histórias de Batman, mas um momento de mudança radical nos quadrinhos, que perdiam sua ingenuidade para dar lugar a temas e estilos cada vez mais sombrios na década de 1980. Ao final desta saga, as histórias continuam muito bacanas e com passagens importantes, como o surgimento do segundo Robin, Jason Todd, que algum tempo depois seria assassinado pelo Coringa e se tornaria uma grande trauma na vida de Batman (há alguns anos atrás, a DC, editora que detém os direitos do personagem, lamentavelmente “ressuscitou” o mesmo Robin, para variar...). Ademais, alguns números da revista contaram com a arte de desenhistas importantes como Alan Davis (na época que seus desenhos eram novidade e ainda não tinha começado a se fazer enjoativos) e, na última edição, Jim Aparo, na minha opinião o melhor desenhista de Batman de todos os tempos.

Aqui no Brasil, quase sempre as revistas eram (e são) completadas com outras histórias de personagens que não têm potencial para vender uma revista com seu nome, mas que nem por isso deixam de ser interessantes. Logo no primeiro número, recebemos de presente uma história do Monstro do Pântano de Alan Moore, a lenda viva (melhor autor de todos os tempos, pai de Liga Extraordinária, Do Inferno, Watchmen, só para citar obras suas que viraram filme). Nas edições seguintes, pudemos ler histórias fantásticas do Sombra, desenhadas por Bill Sienkiewicz, artista estranhíssimo, com um traço sujo, sombrio, diria até surrealista, que na época eu não entendia e não gostava, mas que hoje admiro bastante. E também tinha as histórias do Questão, também de tema nada infantil.

Uma atração à parte são as propagandas da época: o jogo da Estrala “Vira Monstro Vira Herói” (com um bonequinho dizendo “Não, estou virando um monstro!”), a pilha Duracell vestida de Rambo, a coleção de bonecos do He-Man, a lata antiga do Nescau, o Guaraná Brahma...

Depois destes 16 meses, a revista foi cancelada, e o Batman voltou na terceira série, com formato americano (maior que o gibi) e só com duas histórias, todas do Batman, sem as histórias auxiliares. Esta também seria cancelada depois de 29 meses para dar lugar a outras séries. A segunda série de Batman pode ser encontrada sem muita dificuldades em sebos e lojas especializadas. Eu tenho a minha lá completa, e sempre que bate a saudade...


Retrato do artista quando jovem - James Joyce

Este é o primeiro livro de “alta literatura” que eu leio este ano. Já há muito tempo que eu ouvia falar de James Joyce (inclusive antes de eu conhecer o primeiro nome dele eu achava que era uma mulher!), que era um excelente escritor e tudo mais, e ouvia muita gente reconhecer “Ulisses”, sua obra mais famosa, como o melhor livro de todos os tempos. Me deu até vontade de ler e baixei em documento de word, mas depois, sabendo que é uma obra dificílima de compreender (daquelas que todo mundo gosta mas ninguém entende) e que em livro impresso são quase mil páginas, decidi que era melhor não arriscar uma leitura estafante em frente ao computador. Como o livro é muito caro (mais de 80 reais), busquei uma leitura inicial de Joyce mais fácil, e encontrei na coleção de meu tio “Retrato do artista quando jovem”.

Neste livro, Joyce narra o processo de amadurecimento de um jovem, de forma mais ou menos biográfica, em conflitos pessoais, sobretudo religiosos, mas abrindo discussões interessantes também sobre diversos temas, como política (a questão da Irlanda), família, sociedade, estética, sexualidade, todos os conflitos com que um jovem tem de lidar até a maturidade pessoal e, no presente caso, artística. No sentido estético, Joyce realmente faz jus à sua fama. Sua escrita é maravilhosamente bela, emocionante, captando pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Selecionei alguns dos melhores trechos para ilustrar melhor minha fala:

“Lá pela aurora, acordou. Oh! Que doce música! A sua alma estava toda molhada de orvalho. Por sobre os seus membros adormecidos haviam passado frias ondas, muito pálidas, de luz. Estava deitado, quieto, como se a sua alma jazesse entre águas frígidas, consciente duma leve e doce música. O seu espírito ia acordando vagarosamente para um trêmulo conhecimento da manhã, para a inspiração da manhã. Tomava-o todo um espírito, puro como a mais pura água, brando como o orvalho, movediço como a música. Mas como isso era meigamente inalado, tão apaixonadamente como se os serafins mesmo é que tivessem respirado sobre ele! A sua alma estava acordando devagarinho, com receio de acordar de todo. Era essa aquela hora soporosa da madrugada em que a loucura desperta, em que estranhas plantas se abrem à luz e a mosca foge voando silenciosamente.”

As divagações dos personagens também são interessantes, como esta que discute a beleza do corpo feminino: “Os gregos, os turcos, os chineses, os coptas, os hotentotes – disse Stephen -, todos eles admiram um tipo diferente de beleza feminina. Isso parece uma confusão da qual não podemos escapar. Vejo, no entanto, duas saídas. Uma é a seguinte hipótese: que todas as qualidades físicas admiradas pelos homens nas mulheres estão em conexão direta com as múltiplas funções das mulheres para a propagação da espécie. Deve ser assim. O mundo, é evidente, é mais monótono do que tu mesmo Lynch, imaginas. Por minha parte desagrada-me esta saída. Ela cnduz antes à eugenia do que à estética. Conduz-te, através da confusão, para dentro duma nova e aparatosa sala de leitura onde MacCann, com uma das mãos sobre A Origem das Espécies e a outra sobre o Novo Testamento, te dirá que tu admiraste os grandes flancos da Vênus porque sentes que ela deve das à luz uma geração, e lhe admiravas os seus grandes seios porque sentes que ela deve dar bom leite a seus filhos e aos teus.”

Há outras passagens muito boas também, sobretudo uma apresentação por parte de um padre sobre a vida após a morte para os pecadores, o inferno, o pecado, a culpa. É tão convincente que eu quase tive medo de ir para lá. Não tenho dúvidas, James Joyce é um escritor magnífico, cheio de recursos, inteligente, mas só tem um problema: é chato demais! Apesar de toda essa bola que eu enchi dele até agora, devo admitir que demorei semanas para terminar este livro que nem é tão grande, mas que apresenta uma escrita densa, difícil, o enredo não anda, o que impede a leitura consecutiva de muitas páginas por dia. Conheço outro autor que tem o mesmo estilo de contar histórias, sem uma linha narrativa organizada, mas que consegue o que Joyce não conseguiu comigo, me prender na leitura: Henry Miller. Seus livros também não apresentam uma história com início, meio e fim, mas sua escrita é tão boa quanto à de Joyce e tem um algo mais que não sei explicar, deve ser o sexo, ou a expressão de sentimentos com os quais me identifico bastante, o que não ocorre com Joyce. Outro exemplo que poderia citar é Ernest Hemingway em “O sol também se levanta”, livro que me emocionou demais.

Fico pensando, ainda bem que não experimentei James Joyce com o tal do Ulisses, que deve ser desses livros superestimados, que todo mundo diz que é maravilhoso, como “Cem anos de solidão”, do repetitivo e pouco criativo García Marques, autor do qual não li mais nenhuma obra mas que sei que todos os seus livros são iguais porque minha mulher gosta dele e me conta suas histórias e personagens “surpreendentes”. Mas, como gostei muito do estilo de Joyce, talvez eu leia outro livro dele no futuro. Provavelmente não vai ser Ulisses, mas deve ser um chamado “Dublinenses”, que é de contos, deve ser de mais fácil digestão. Um livro chato deve ser considerado ruim, mas com uma escrita genial como a de Joyce deve ser considerado bom ou excelente, por isso, para mim “Retrato do artista quando jovem” é regular. Em busca de beleza e inteligência, leia-o, mas numa semana de tédio, corra!

Editora: Alfaguara / Objetiva, e uma edição da Ediouro mais barata
Páginas: 267
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *


A escravidão na África - Paul E. Lovejoy


A História tem modas, e tirando as muito momentâneas provocadas por datas comemorativas (transferência da corte, 1968, imigração japonesa), a bola da vez aqui no Brasil é a História da África. Em relação à História européia, o estudo sistemático e sério sobre a África é muito recente, coisa de algumas décadas, e mais recente ainda é sua popularização, mas já vemos os efeitos da lei de 2003 que obriga o ensino de História da África nas escolas, em alguns livros didáticos, nos cursos de pós-graduação e na reformulação do currículo das faculdades de História. Eu mesmo embarquei nessa onda e fiz minha pós em História da África, já que na minha época de faculdade ainda não existiam disciplinas afins, nem mesmo eletivas, e eu não queria ficar ultrapassado nesse ponto. Confesso que, pelo fato do curso ter tido uma qualidade muito abaixo do esperado, eram raras as vezes que eu assistia a um sábado inteiro de aula, sendo mais comum eu chegar, assinar a lista e nem saber como é a cara do professor, mas sempre me esforcei individualmente lendo todos os textos e indo muito além da bibliografia básica, coisa que faço até hoje para fortalecer meus conhecimentos a respeito do assunto. E por isso resolvi ler “A escravidão na África – uma história de suas transformações”, de Paul E. Lovejoy, um livro fundamental para os estudiosos da área.

Lovejoy faz aqui uma obra de síntese, apresentando o panorama da escravidão em todas as regiões da África, em diversos momentos históricos, seja sob a égide dos europeus ou dos próprios africanos, que já a praticavam tradicionalmente, mas que isso não sirva de justificativa histórica para o tráfico de escravos para a América, já que antes se tratava de uma escravidão doméstica de linhagem, diferente da escravidão desenvolvida nas grandes plantações de cana e café. Não se sabe quando a escravidão teve início na África, mas o fato é que perdurou até a década de 1930 em algumas áreas. É, já estava acontecendo Copa do Mundo, vôos comerciais, cinema falado e ainda existia escravidão no mundo, dá para acreditar? Ma pensando melhor, não é nada surpreendente, já que uma década depois ainda viria a ocorrer o Holocausto, e o apartheid só terminaria meio século mais tarde...

O livro é iniciado com uma breve explicação sobre aspectos fundamentais da escravidão na África, sua importância na configuração social, a influência do islamismo e o tráfico de escravos, e depois parte para uma abordagem mais particular para as três regiões destacadas pelo autor: África islâmica, Costa Ocidental e África Central e Oriental. Há uma progressão temporal através dos capítulos, e percebe-se claramente as mudanças ocorridas através dos séculos em que o tráfico de escravos foi se desenvolvendo, e o inferno que a África foi se tornando por causa da demanda de escravos dos europeus, que contribuiu para o aumento das razias (tipo de guerras com o fim de escravizar prisioneiros), da instabilidade política e do caos total.

Outro mérito deste livro é a discussão a respeito da autonomia da África em relação à sua História: os europeus tiveram óbvia influência no desencadear dos acontecimentos no continente negro, mas não foram eles que determinaram sua História, mas sim as situações vividas na própria África, desde a questão da escravização até as lutas contra a escravidão, determinadas pela reação dos escravos, e não só pelo abolicionismo inglês, como muito já foi mostrado erroneamente. Já o lado negativo do livro são algumas partes muito específicas sobre certas regiões africanas, digamos, algumas páginas dedicadas à quantidade de escravos utilizados na plantação de cravo em Zanzibar na década de 1840, coisas do tipo.

“A escravidão na África – uma história de suas transformações” é uma das leituras básicas da História da África para historiadores e professores nos dias de hoje, esclarecedor e, para os que não são familiarizados com o assunto, surpreendente. Mas apesar de ser uma obra de síntese, a linguagem é especializada, requerendo conhecimentos prévios do leitor, e muitas vezes maçante. Se você não é da área, não se dê ao trabalho de ler suas quase 500 páginas; em caso de dúvida ou curiosidade, consulte o professor de História mais próximo de você.

Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 497
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Jesuítas portugueses e espanhóis no sul do Brasil e Paraguai coloniais - Beatriz Franzen

Este livro reúne textos de Beatriz Vasconcelos Franzen, doutora em História pela Universidade de Lisboa, e analisa a importância da atividade dos jesuítas na região do Prata e sul do Brasil. Os textos são uma coleção capítulos de doutorado e apresentações em simpósio, e como na maioria das vezes que isso é feito, muitas partes soam repetitivas, mas ainda assim é um bom livro para se entender esta parte da História da América ou, no meu caso, rever e atualizar conhecimentos da faculdade. Como também quase sempre ocorre com compilações, há alternância de textos bons e ruins; alguns deles me fizeram perder um bom tempo resumindo informações valiosas, enquanto por outros se ativeram a fatos e citações sem importância para a linha de raciocínio. Recomendo só para historiadores ou nerds muito estudiosos, pois apesar de conter informações valiosas e ser de fácil leitura, ainda se trata de um trabalho acadêmico, o que na maioria das vezes não é muito palatável ao grande público.

Editora: Unisinos
Páginas: 125
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

A Viagem de Théo - Catherine Clément


Fui atraído pela viagem de Théo por ter ouvido falar sobre o que se tratava o livro: um garoto nerd francês de 14 anos descobre que tem uma doença grave e que lhe resta pouco tempo de vida, quando aparece sua tia que vive no exterior e lhe carrega para uma viagem pelo mundo para conhecer todas as principais religiões do planeta. Vale dizer que ela é milionária, pois em questão de meses os dois visitam Israel, Egito, Itália, Índia, Indonésia, Japão, Senegal, República Tcheca, Estados Unidos, Rússia e até o Brasil. Haja dinheiro!

A trama é boba, o desenrolar idiota (e piora quando a autora começa a meter fantasia sobrenatural no meio – eu esperava algo mais cético) e o final é absolutamente previsível. Contudo, não é isso que interessa em “A Viagem de Théo”, que na época de seu lançamento foi um best-seller, o que tira a possibilidade de algo mais ácido. O que me fez procurar o livro e ler suas 625 páginas foi a questão das religiões em si. Além de ser rica, sua tia também é uma pessoa muito influente, pois em cada lugar que eles passam ela é amiga de algum representante da religião dominante do local, que explica pacientemente todos os seus preceitos religiosos e conta a história da religião e do país em questão. Isso é bacana.

Catherine Clément aborda não só as religiões de mais adeptos do mundo (budismo, confucionismo, taoísmo, judaísmo, cristianismo e islã) como também as minoritárias e as particularidades de cada uma, como os diversos ramos do cristianismo, por exemplo. No Brasil, adivinhe qual foi a pedida? Macumba*, é claro! Para tanta religião, a autora precisou de muitas páginas, e ao que parece precisava de até mais. É que quando vai chegando no final do livro, ela começa a passar pelas religiões que restaram bem rapidinho, enquanto no início ela trabalha melhor a questão. Ao que parece, a autora deve ter passado os originais para sua agente aos poucos, e quando chegou lá pela página quinhentos e tanto e ainda faltava muita coisa, ela deve ter sido repreendida: “Querida, lembre-se que isto é um best-seller, pelas pesquisas de mercado vamos perder 37% das vendas se o livro tiver mais de 600 páginas!”. Passou um pouquinho, mas não acredito que tenha interferido nas vendas, há uns dez anos atrás ele fazia muito sucesso.

Recomendo “A viagem de Théo” para quem quer conhecer melhor um pouquinho de cada religião do mundo de forma introdutória e agradável, mas não sugiro sua compra, pois não vale o alto preço que custa (mais de 50 reais) e pode ser facilmente encontrado em bibliotecas públicas, como eu fiz, e de repente até em sebos.

*licença poética. Eu sei que algumas pessoas podem entender o termo macumba como pejorativo, mas por favor, compreendam que comprometeria o texto substituir a palavra por algo como "religiões afro-brasileiras, como candomblé e umbanda". Eu tenho umbandistas na minha família e me sinto à vontade de utilizar a palavra macumba sem nenhum sentido ofensivo, já que eles mesmos também a utilizam sem se ofenderem. Só pra constar antes da chegada da patrulha ideológica.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 625
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital

O Tigre de Sharpe - Bernard Cornwell


Após ler a excelente série "As crônicas de Artur", fiquei curioso para conhecer melhor o trabalho de Bernard Cornwell. Tratei de comprar "O tigre de Sharpe", primeira aventura de Richard Sharpe, então recruta do exército britânico na Índia, com a missão de derrotar um monarca muçulmano que emperra os negócios do Império Britânico no subcontinente.

A saga de Sharpe é a mais volumosa das obras de Bernard Cornwell, contendo até o momento 21 livros e 16 produções para a tv inglesa, e conta a vida e as aventuras de Richard Sharpe, que inicia sua carreira enfrentando inimigos dos ingleses na Índia em 1799 e chega a derrotar o exército de Napoleão em Waterloo, em 1815. Resolvi começar a acompanhar as aventuras de Sharpe pelo primeiro volume cronológico – originalmente, a série não foi lançada na ordem exata dos acontecimentos, mas no Brasil optou-se por seguir a cronologia das histórias. Juro que tentei ler o livro sem compará-lo com a trilogia arturiana, já que me fora avisado previamente que “As crônicas” era o melhor trabalho de Cornwell, mas não consegui resistir à tentação.

“O tigre de Sharpe” é um bom livro de aventura, mas nem se compara às “crônicas”. A marca de Cornwell é perceptível: anti-heróis com defeitos humanos, situações limites com saídas surpreendentes e inimigos de diversos naipes. Alguns deles são sacanas, covardes e traiçoeiros (tem um sargento que exerce a mesma função do bispo Sansum das “crônicas”, características idênticas, até imaginei a mesma voz para eles dois), mas outros capazes, corajosos e honrados. Como fez com Aelle nas “cônicas”, Cornwell banca o advogado do diabo com o comandante Gudin, oficial francês que auxilia os muçulmanos contra os ingleses, e até com o próprio sultão Tipu, mostrando-os como excelentes inimigos, o que é interessante, pois valoriza a vitória do protagonista. O estilo descritivo cáustico do autor também está presente aqui, mas parece que não surte o mesmo efeito com canhões e fuzis; a meu ver, Cornwell é mais feliz com decapitações e eviscerações do que com tiros e explosões. E, como em todos os seus livros, o autor termina com uma interessantíssima nota histórica. Em alguns livros, a imaginação do autor exerce quase toda a função de criação de cenários, personagens e situações, mas neste caso, antagonicamente, Cornwell afirma que em quase todo o livro foi seguida a veracidade histórica dos acontecimentos, incluindo os personagens.

Este primeiro volume da série “As aventuras de Sharpe” me agradou como entretenimento, mas não me fez ter vontade de terminar de ler o mais rápido possível como “As crônicas de Artur”, já que a estória não tem reviravoltas mirabolantes, nem acontecimentos surpreendentes, e ademais os personagens não são muito cativantes. Desde as primeiras páginas já se tem uma idéia de como o livro vai terminar, e fora isso existem muitos furos na narrativa. Não vou citar a maioria deles sob o risco de estragar a leitura de alguém, ainda mais porque não são muitas as surpresas guardadas nas 400 páginas do livro, mas uma pelo menos eu acho que posso contar (afinal, com este título e com as passagens logo no início do livro, quem não suspeita que Sharpe enfrentará tigres?): mesmo com muito esforço imaginativo, não consegui conceber como alguém pode dar um tiro na boca de um tigre saltando em sua direção e depois rolar por debaixo dele. Há também uma parte que, para um personagem, um certo cadeado é um ferrolho que só pode ser aberto com vários tiros, enquanto para outro o mesmo cadeado é frágil e facilmente aberto. Coisinhas pequenas que não interferem no andamento da narrativa, mas que não passam despercebidas.

Pelo que li em uma página da internet, entendi que esta aventura de Sharpe foi escrita depois do andamento da série, como um conto do passado do protagonista, e me pareceu uma criação pressionada pelo sucesso da série de tv, me dando a impressão que eu vou apreciar mais as aventuras anteriores. “O tigre de Sharpe” é uma leitura agradável, mas nada essencial. Se este tivesse sido o primeiro livro de Bernard Cornwell lido por mim, consideraria a possibilidade de ler outras obras do mesmo autor, mas não o acharia genial como ainda acho.

Editora: Record
Páginas: 402
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital

Y: The Last Man - Brian K Vaughan e Pia Guerra


Já se imaginou vivendo num mundo onde só exista você como representante do seu sexo, e o restante da humanidade toda do sexo oposto? Bem, alguém imaginou antes de você, ou pelo menos colocou a ideia no papel primeiro. Escrita pelo ótimo Brian K. Vaughan, que já passou pelas principais editoras norte-americanas e tem no currículo obras que fazem sucesso entre os apreciadores da nona arte (Ex-Maquina, Pride of Baghdad), Y: The Last Man conta a história de Yorick Brown, um jovem mágico especialista em fugas que num belo dia acorda e descobre que todos os homens e animais com cromossomo Y (masculino) foram exterminados (incluindo até espermatozoides congelados), menos ele e seu macaco de estimação. Sonho erótico machista? Nem tanto, pois infelizmente algumas mulheres estão atrás dele não por necessidade sexual, mas por questões políticas, científicas ou por puro fundamentalismo feminista, pondo sua vida em constante risco. Apesar deste paraíso livre de testosterona, Yorick tem como objetivo inicial encontrar sua namorada na Austrália, mas no meio do caminho ele se junta a uma cientista e uma agente secreta, que o ajudam a se safar da gigantesca gaiola das loucas que o mundo se tornou.

O roteiro de Y: The Last Man é muito intenso, prende a atenção e da vontade de ler cada próxima edição, apesar de furos lógicos. Tudo bem, o mundo se tornou um caos, metade da população deixou de existir, e se você considerar ocupações majoritariamente masculinas, como mecânicos, pedreiros, soldados, a situação piora ainda mais. Mas, até onde eu li até agora, já se passaram mais de dois anos. Se fosse só pelos seres humanos, até vai, mas todos os seres? Considerando o ciclo vital de insetos e outros bichos esquisitos, não daria nem dois meses para acontecer uma catástrofe ecológica que dizimaria todos os ecossistemas, já que, como aprendi na escola, quando uma só espécie é retirada da cadeia alimentar, todas as outras são afetadas. Acho que em pouco tempo só sobrariam plantas, isso se desconsiderarmos a ação de animais polinizadores ou responsáveis pela contenção de um crescimento exagerado de determinada espécie. Outro detalhe: assim que eu contei para uma amiga bióloga sobre esta história, ela me disse que os galos teriam sobrevivido e as galinhas não, porque nestes bichos os cromossomos sexuais são invertidos. E o cavalo marinho, que é o macho que engravida?

Ok, ok, licença para a ficção científica, Y: The Last Man é muito divertido e vale uma leitura. Estou lendo a versão original escaneada, mas já foram lançados vários volumes aqui no Brasil, me parece que por diferentes editoras. Quem tem os direitos da série no momento é a Editora Pixel, e acho que eles vão começar a publicar desde o começo na revista Pixel Magazine, uma revista que traz ótimas histórias do selo Vertigo (especializado em quadrinhos adultos) mas que se torna inviável pelo preço que se cobra (R$ 10,90 por uma revista de 100 páginas!). Depois querem que eu compre gibi para ajudar o mercado nacional. Eles não me ajudam, porque eu vou ajudá-los? De qualquer forma, Y: The Last Man já foi encerrada nos EUA na edição 60, e como estou quase terminando, não tem porque começar desde o início de novo. Eu até gostaria de comprar uma edição encadernada em português, mas com o dólar lá embaixo, vale mais até importar o original.

*Atualização (agosto-2014): Atualmente já foi lançada toda a série pela editora Panini em 10 encadernados, mas não há disponibilidade nas principais livrarias.

Editora: Panini
Páginas: 10 volumes encadernados
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * *

Perry Rhodan vol.1-6 - vários autores


Você já ouviu falar em Perry Rhodan? Se não ouviu, deveria, pois é simplesmente a maior série de ficção científica da História, talvez até a maior série de livros da História. Iniciada em 1961 como uma publicação semanal de cerca de 100 páginas, a série já superou a marca de 2300 edições na Alemanha, país de origem. Aqui no Brasil foram lançados 500 e poucos números de 1975 até 1991 pela Ediouro, e agora uma nova editora (SSPG) voltou a publicar a partir do número 600 (eu acho), mas no momento a publicação está interrompida até que ela pague o que deve à franquia...

Comecei a ler Perry Rhodan por acaso: achei um número num sebo e, como sou fã de ficção cientifica, comprei pra ver como era aquele livrinho com uns astronautas com pistolas laser na capa. O volume em questão era “A Casta dos Trombas-Brancas”. Adorei de cara logo nas primeiras páginas, e com o tempo fui lendo outras destas aventuras espaciais, mas sempre de forma espaçada, sem seqüência de volumes. Mas isso não é muito problema, pois apesar de ter uma seqüência lógica dos fatos (a série é dividida em ciclos, de 50 ou 100 volumes cada), todas as histórias que peguei eram independentes. Mesmo que tenham continuação, dá para ler um início, meio e fim em um só volume na maioria das vezes. Mas eu ainda não tinha tido a oportunidade de ler os primeiros volumes da série, apesar de saber o que acontecia (eles botam uns resuminhos para nós ficarmos bem situados). Até que eu encontrei alguns deles em sebos, e outros na biblioteca do centro cultural da prefeitura da cidade onde eu moro.

A monstruosa saga de Perry Rhodan começa na década de 1960 em nosso planeta. A Guerra Fria inclui também a China, e o mundo vive uma tensão maior ainda. A corrida espacial pega fogo, e os EUA conseguem levar o homem primeiro à lua (lembre-se que a história foi escrita em 1961, e o fato ocorreu em 1969 na nossa realidade; quer dizer, pelo menos é a versão oficial...). Chegando lá, o major Perry Rhodan entra em contato com uma civilização alienígena decadente, e tem acesso a uma tecnologia super-avançada. A partir de então Perry Rhodan consegue forçar as potências terrestres a interromper a competição, impedindo uma catástrofe nuclear, se torna o líder da Humanidade e leva a Terra aos acontecimentos do Universo (invasões alienígenas, exploração e descoberta de novas galáxias, essas coisas básicas...). A saga se estende por séculos (décadas, no nosso mundo), já que o protagonista tem acesso a meios que o possibilitam a imortalidade relativa.

Os seis primeiros volumes da série mostram o processo em que Rhodan entra em contato com a tecnologia dos arcônidas e impede a catástrofe nuclear, formando uma coalisão mundial para impedir a primeira tentativa de invasão da Terra por extraterrestres malvados. Além disso, são apresentados os mutantes, pessoas que sofreram influência da radiação e nasceram com poderes extraordinários. Já ouviram algo parecido? Pois é, muitos dos mutantes de Perry Rhodan têm inclusive os mesmos poderes dos X-Men (telepatia, teletransporte), só que a série foi criada em 61, enquanto os mutantes do titio Stan Lee só apareceram dois anos depois.

Estes primeiros volumes não se comparam a outras fases da série. Acostumado a aventuras intergalácticas contra aliens aterrorizantes, não fiquei lá muito satisfeito. As primeiras histórias são muito focadas em acontecimentos na Terra, além das coisas demorarem a acontecer. A parte mais legal mesmo é a dos mutantes. Vale a pena só mesmo para matar a curiosidade de admiradores da série em momentos posteriores. Se você quer começar a ler Perry Rhodan, sugiro não fazê-lo pelo início, mas sim por volumes acima do 200.

Editora: Ediouro.
Páginas: 170 (primeira edição, menor) ou 100 (reedição, maior) cada volume.
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * *

Livros Digitais

Deus, um delírio - Richard Dawkins


“Deus, um delírio” tem a ambição de ser formador de opinião (negativa, obviamente) a respeito da religião, para não dizer doutrinador (seria um trocadilho infame). Com base na ciência nua e crua, Richard Dawkins fez um tratado de respostas a questões tanto metafísicas (por que deus não existe?) como morais (por que a religião é um mal para a sociedade?). Mas o que isso tem a ver com humor? No cabeça de Dawkins, tudo! O livro é irônico, debochado, cínico e suponho que extremamente irritante para ouvidos mais sensíveis, o que para mim o faz um livro muito inteligente.

Richard Dawkins, cientista inglês renomado internacionalmente, autor de obras científicas famosas como “O gene egoísta” e inimigo público da religião inicia seu trabalho a partir de sua raiva contra um status que a religião tem superior a qualquer outro tipo de coisa. A religião é intocável, não se pode falar mal para não ferir as crenças alheias, mas em contrapartida, é totalmente aceitável debochar de alguém em relação ao seu time de futebol, seu partido político, etc. Pois é, é assim que o biólogo vai se referir à religião nas próximas quinhentas páginas, como uma atividade (estúpida) como outra qualquer na vida das pessoas. Um de seus exemplos é uma situação que ocorre nos Estados Unidos: uma seita religiosa tem permissão jurídica para tomar chá alucinógeno por alegar que este é o único jeito de se entrar em contato com deus, enquanto pacientes terminais com dores horríveis não podem usar a maconha como analgésico. O autor admite que gostaria que sua obra servisse como um serviço público para desconverter crentes religiosos ignorantes, mas sabe perfeitamente que isso é uma utopia, e se contenta em fazer com que seu livro pelo menos esclareça mais ainda as mentes abertas que já se libertaram deste mal que assola a Humanidade desde que ela foi criada por Deus, oh, quer dizer, desde que chegamos a um ponto na escala evolutiva que conseguimos produzir cultura...

O livro é dividido em dez capítulos, cada um dedicado a uma explicação como os argumentos dos religiosos (que são refutados com o deboche habitual), as razões porque deus com quase certeza não existe e também um muito interessante que trata do abuso sobre crianças. Não, Dawkins não apela para padres molestadores de criancinhas para comprovar sua tese, muito pelo contrário, se ele fizesse isso ele estaria se contradizendo com sua idéia de que moral e religião não tem relação alguma (existem ateus bons e ruins, como religiosos bons e ruins). O abuso relatado se refere ao abuso mental na mente de uma criança, a opressão, a imposição de uma crença numa mente em formação, as noções de pecado e inferno através do medo. Inclusive isso é, para Dawkins, até mais cruel e absurdo do que o abuso sexual. Ele cita um caso de uma mulher que foi molestada quando criança por um padre, o que para ela não passa de uma lembrança de nojo, mas seu grande trauma é a lembrança de quando uma coleguinha morreu e disseram a ela que a criança estria no inferno por ser protestante. Isso se reflete até hoje na sua cabeça e na sua conta do psicólogo (é sério, tem gente que não consegue viver com isso e procura pessoal especializado).

Os argumentos do autor são explorados por intermédio de dezenas, talvez centenas de exemplos absurdos e engraçados, se não fossem tão tristes. Chegamos a ficar com medo quando temos noção do poder político da religião em países perigosos. Não estou falando do Irã nem da Síria, estou falando dos Estados Unidos. Através de muitas pesquisas, Dawkins mostra estatísticas que apontam para um fundamentalismo religioso absurdo no país mais poderoso do planeta. Não lembro os números milimetricamente, mas posso dizer que a grande maioria daquela “nação de idiotas” acredita em coisas estúpidas como o mundo ter sido criado há cerca de 10 mil anos. Isso é realmente assustador. O Brasil também convive com este problema, pois uma massa de bestializados é capaz de eleger um número considerável de religiosos medíocres para formar uma “bancada religiosa” para nos representar, mas apesar de termos que agüentar este flagelo que barra propostas de pesquisas com células-tronco e afins, não somos capazes de acabar com meio mundo através de uma guerra santa. Já os Estados Unidos... Aliás, o debate a respeito do criacionismo é muito citado em toda a obra. Outro exemplo engraçado é uma pesquisa que foi feita por grupos religiosos para se comprovar se as orações ajudam pacientes a se recuperar. O resultado foi óbvio: nenhuma diferença entre a recuperação de doentes que receberam orações e os que não receberam. Mesmo assim, os “pesquisadores” não admitiram a derrota e afirmaram continuar tentando, até que o resultado esteja de acordo com suas crenças infalíveis para poderem ser publicados nas capas dos jornais... Francamente!

Não vou considerar o livro excelente porque há nele trechos um pouco complicados para leigos como eu, sobretudo nos capítulos 4, 5 e 6, que agrupam cerca de 150 páginas da obra, o que requer senão uma boa lida em livros anteriores do autor – como o já citado “O gene egoísta” e “Desvendando o arco-íris” – pelo menos noções básicas de biologia, física e química em nível acima do escolar (acho que nem isso eu tenho). Isso pode cansar um pouco as mentes menos treinadas. Mesmo assim foi um grande avanço nos meus conhecimentos científicos, descobri, por exemplo, que somos formados mais por espaços vazios do que por matéria, entre outras coisas que eu não poderia deixar de saber antes de morrer. Mas meu interesse maior foi em relação às questões morais e éticas acerca da religião, que tomam mais páginas do livro do que a ciência em si.

“Deus, um delírio” é uma leitura muito esclarecedora e recomendada para todo cidadão, mesmo aquele certo de suas convicções religiosas, para deixarmos de lado de uma vez por todas nossas superstições e medos e avançarmos em direção tanto a uma sociedade menos preconceituosa e intolerante como a um refinamento pessoal de idéias morais. Não precisamos de padres para dizer como nos comportarmos. Não precisamos nos desesperar se não entendemos como funciona a natureza em sua totalidade, não precisamos apelar a deus, um dia estas respostas chegarão através da inteligência humana. E, mesmo se nós deixarmos de existir antes deste dia, de que teria adiantado ficar inventando explicações sem cabimento?

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 528
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *


Na Natureza Selvagem - Jon Krakauer


Muitas vezes, as adaptações de livros para o cinema conseguem destruir uma obra, principalmente se ela é boa (leia Germinal, de Zola, e depois veja o filme, para ter um bom exemplo disso), e por isso é execrada pelos fãs. Outras vezes não, as adaptações conseguem se garantir e agradar. O filme Na Natureza Selvagem está no meio do caminho, não é uma adaptação magistral, mas não se compromete. Mas isso não tem a menor importância, o que interessa é que o lançamento deste filme me fez descobrir o livro homônimo, lançado há mais de dez anos, e agradeço a Sean Penn por isso; não fosse ele, eu não teria lido um livro excepcional.

Na Natureza Selvagem (Into the Wild) conta a história real de Chris McCandless, um jovem que pira e depois de sua formatura, em 1990, sai sem rumo pelos Estados Unidos disposto a viver novas experiências, e depois de dois anos é encontrado morto numa floresta no Alasca. Na época, o jornalista Jon Krakauer foi requisitado pelo editor da revista onde trabalhava para produzir uma reportagem sobre o fato, mas a repercussão foi tão grande – e a identificação do autor com o caso foi tão profunda – que o episódio virou um livro.

Krakauer investiga a jornada e a morte de Chris McCandless correndo atrás de todas as pessoas que se relacionaram com ele durante os dois anos de andança pelos Estados Unidos, México e Canadá, analisando suas relações familiares, as influências intelectuais, comparando com outros casos famosos semelhantes e, além disso, fazendo um paralelo com suas próprias experiências pessoais (ele também era meio doido na juventude). O que teria levado este jovem inteligente, bem sucedido e de família abastada a doar todo o seu dinheiro para uma instituição de combate à fome, abandonar o carro, queimar seu dinheiro e sair pela América do Norte vivendo “da terra”?

A narrativa é rica em detalhes, muito bem escrita, empolgante, muitas vezes até com um pouco de humor e cheia de sentimentos, com uma entrega pessoal do autor que poucas vezes dá certo em investigações jornalísticas. Acompanhando os passos e as aventuras de Chris (que muda de nome para Alex Supertramp – “Super Vagabundo”), não sabemos se o achamos um maluco, um idiota, um herói, uma criança, um cara honesto consigo mesmo ou até um nowhere man, “a bit like you and me”. Pra falar a verdade, mesmo depois de terminar o livro eu não cheguei a esta conclusão, o que realmente não me incomodou. Na Natureza Selvagem é um relato emocionante sobre um cara que preferiu viver 2 anos a mil ao invés de mil anos a 2, pagando seu preço, mas também recebendo um pagamento que poucos conhecem.

Editora: Cia das Letras
Páginas: 213
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

1808 - Laurentino Gomes


Guarde bem esta frase, pois vamos revê-la mais à frente: Há duzentos anos, a corte portuguesa chegou ao Brasil, elevou a colônia a um estatuto superior (com a abertura dos portos e o Reino Unido), modernizou o Rio de Janeiro e abriu as portas para a independência do nosso país.

Pois bem, ótimo motivo para comemorar, fazer reportagens, explorar turisticamente, dar emprego para historiadores na tv (tem um que eu não vou citar nome - até porque eu não lembro de nenhuma obra importante dele - que está se fazendo nos noticiários matinais, explicando os pormenores do cotidiano da corte no Brasil, só falta dizer qual dos amantes de Carlota Joaquina era o mais bem dotado) e escrever livros. Aproveitando este apelo editorial, surgiu nas livrarias "1808", de Laurentino Gomes, jornalista que pesquisou por anos e anos esta passagem da história do Brasil.

“1808” não é uma obra de pesquisa histórica propriamente dita. Geralmente, os historiadores pesquisam aspectos específicos, como economia, política, ou mais específicos ainda, como vestimentas, comportamentos, etc. O que o autor fez foi compilar todo o conhecimento acerca do assunto numa obra generalista e informativa ao grande público. E fez muito bem.

Ao contrário de muitos colegas historiadores, não sou contra a iniciativa de jornalistas que escrevem livros sobre História e fazem dinheiro com isso. Muito pelo contrário, acho muito bom que a História esteja na moda, que os leigos e as pessoas medianas busquem um conhecimento útil, é muito mais produtivo para a sociedade ter um “1808” como best-seller do que um “Marley e eu” ou um “Pai rico, pai pobre”. Até mesmo o medíocre “A cidade do sol” ou o superestimado “O Código da Vinci” têm suas propriedades benéficas à alma: por mais fracas que sejam as histórias, suscitam no leitor uma busca pelo conhecimento daquele contexto. Na época do livro de Dan Brown, surgiram agências de viagens na Europa que refaziam o trajeto de Robert Langdon, o protagonista da aventura. Veja só que resultado interessante o best-seller trouxe para a vida de pessoas não muito ligadas à cultura. E pode-se imaginar também o mesmo efeito de 1808 sobre pessoas que não tem muito conhecimento em História, e isso faz com que, pelo menos por algumas horas, estas pessoas entrem na wikipédia atrás de informações sobre a História do Brasil, ao invés de entrarem em sites de fofoca para descobrir se é verdade, sei lá, o namoro entre a Luana Piovani e o Wolf Maia (putz, imagine só!).

Além da apelação comercial, 1808 está vendendo bem porque o autor escreve de forma agradável aos olhos não treinados em História, apresentando bem a História como um romance, apresentando os personagens de forma didática e narrando o episódio da vinda da corte para o Brasil com humor e curiosidades interessantes e às vezes cavernosas (numa passagem, ele diz que teve um padre que diz ter flagrado um empregado masturbando D. João – grotesco!). Para historiadores ou bons conhecedores desta fase da História do Brasil, o livro não apresenta grandes novidades, mas mesmo as partes mais manjadas da História ficam fáceis de ler na pena de Laurentino Gomes. Não tenho (e nem recomendo a ninguém) a arrogância de achar que não encontraria nada de novo num livro de 408 páginas, e apesar de ter sido um livro escrito para leigos e sua maior parte trazer explicações banais para um historiador, há passagens interessantes de curiosidades e pormenores que não se aprendem em livros técnicos, o que é interessante para professores ou guias de viagem.

Aos mais eruditos, o livro expõe alguns errinhos. Por exemplo, o Império Austro-Húngaro já está fundado no livro na década de 1810, enquanto na verdade estes dois países só juntaram as escovas de dentes em 1867. Mas tudo bem, prefiro que as pessoas sejam informadas que o Império Austro-Húngaro já existia em 1810 (e depois descubram a verdade) do que nem saibam que ele existiu. Outra deixa boa para os implicantes é a questão das fontes utilizadas pelo autor. Apesar de todos os livros de pesquisadores sérios consultados, Laurentino escreve no início da obra que consultou muito a wikipédia, apesar de saber das falhas da enciclopédia virtual e mutante, e recomenda a todos, sem esquecer de advertir para possíveis falhas no conteúdo e sugerir a confirmação das informações. Um historiador chato usaria tudo que um jornalista escritor de livros de História disse contra ele no tribunal, e isso seria um trunfo. Mas não sejamos chatos: o livro foi escrito para pessoas médias ou leigos em História, o tipo de pessoa que não compraria um livro importado de um brasilianista americano na Livraria da Travessa ou na Leonardo da Vinci para se especializar no assunto...

Mas uma ressalva que faço é a certas opiniões do autor. No meu entendimento, apesar dele demonstrar todas as falcatruas da corte e não tentar induzir o pensamento de que a vinda da corte foi importante e tal durante o livro, no final ele faz algumas suposições, insinuando que se não tivesse acontecido dessa maneira o Brasil não existiria, mas sim vários paises, como no restante da América Latina (um englobando Sul e Sudeste, o outro o Nordeste e outro o Norte. O Tocantins ele diz que seria uma incógnita – grande diferença). A partir de então, ele cita várias situações que poderiam decorrer disso, a maioria (ou todas, não me lembro) prejudiciais, argumentos do tipo contundente como “não existindo o Brasil, a Argentina seria a liderança da América Latina”, algo bem coercitivo para os brasileiros que odeiam Messi e cia nas eliminatórias e na Copa América (na Copa do Mundo não é preocupante, a Argentina não bota medo em ninguém). Não sou a favor deste tipo de especulação, a História é o que é, e não o que seria, mas se é para jogar com estas cartas, acho que o autor se esqueceu de dizer que, em contrapartida de o Nordeste se tornar um país pobre (na sua especulação), se livraria também de Vargas, JK, da Ditadura de 64, ou não, quem sabe. A independência não seria feita por uma membro da família real, não seríamos uma monarquia, ou não, quem sabe. É simplesmente inútil pensar sobre isso, mas é útil lembrarmos o que aconteceu, a parte de oportunidades comerciais da mídia e da indústria cultural, e assim retornamos à frase do início do texto, agora com a minha opinião pessoal:

Há duzentos anos, a lamentável, falida e anacrônica corte portuguesa chegou ao Brasil, abriu os portos da colônia numa época totalmente desfavorável, quando uma só potência se beneficiou e teve controle quase que absoluto sobre o comércio, modernizou o Rio de Janeiro às custas do resto da população de todo o território (que se beneficiou um pouco, mas nada comparável ao que teve que pagar) e abriu as portas da independência de nosso país de uma modo absurdo e totalmente alienígena a qualquer coisa que eu tenha estudado na vida, legando corrupção, atraso e desigualdade até hoje.

Editora: Planeta
Páginas: 408
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

O Chamado da Natureza - Jack London

Este simpático livrinho conta a história de Buck, um São Bernardo mestiço que é retirado de sua casa na Califórnia, onde viva com uma família de classe média, e enviado para o Alasca para puxar carrinho de neve. Teria tudo para ser um grande roteiro de um agradável filme da Sessão da Tarde, mas antes de tirarmos conclusões precipitadas, vamos dar uma olhada na biografia do autor?

Jack London nasceu em 1876 em São Francisco. Seu pai abandonou sua mãe ainda na gravidez, mas o menino foi criado por outro marido da mãe. Antes de completar 15 anos, já cometia pequenos delitos e saqueava criações de ostras. Trabalhou nas mais diversas ocupações: fábrica de enlatados, jornaleiro, balconista, etc. Largou tudo, saiu pela estrada nos EUA, criou uma gangue de assalto a trens, viajou para o Japão para caçar focas, buscou ouro no Alasca, virou socialista, foi preso por vagabundagem, teve relações homossexuais com um dos chefes dos presos para não morrer na cadeia, foi correspondente da guerra russo-japonesa, faliu algumas vezes, escreveu vários best-sellers e morreu de overdose de uma mistura de morfina com atropina (além de álcool e anti-depressivos).

Pois é, não dá pra esperar que o cachorrinho volte para casa no final com um cara desses, não é?
London tem uma escrita leve e agradável, o que não impede que sejam criadas cenas fortes e descrição de sentimentos com impacto acentuado. Talvez por isso London não seja muito bem aceito no meio culto e não esteja incluído no hall da alta literatura, mas quem se importa com isso? A narração em terceira pessoa é justa e aceitável para a difícil tarefa de imaginar como seriam os sentimentos e as percepções de um cão, e a história é divertida, fácil e ideal para um dia de ócio, contanto que você não esteja esperando algo como "Beethoven" ou "Lassie" e goste de cachorros realmente maus, pois você vai se deparar com passagens como "Matar ou morrer, comer ou ser comido, era a lei; e a esse imperativo, surgido nos abismos do tempo, ele obedecia".

Detalhe: Eu nunca vi tantas traduçoes para o título de um livro como este. O original é "The call of the wild", que eu já vi traduzido como "O chamado selvagem", "O chamado da selva", "O chamado da floresta", mas acho que fica mais legal "O chamado da natureza", apesar de não ser traduzido literalmente.

Editora: várias
Páginas: 100
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

A Cidade do Sol - Khaled Hosseini


É notório que, após os ataques de 11 de setembro, o mundo ocidental resolveu olhar “com mais carinho” para o Oriente Médio e o Islã. Os cidadãos médios começaram a se interessar por este tema antes ignorado, sobretudo o público norte americano, que tentava (e ainda tenta) compreender o seu outro, surgindo então uma moda. De lá pra cá, uma enxurrada de criações artísticas inundou o mercado mundial, de filmes a livros. Alguns deles se salvam, mas boa parte é uma tremenda porcaria. As exceções geralmente ficam situadas na esfera produtiva do Irã, lembrando filmes recentes muito bons como Persépolis e Fora do Jogo, e um livro que me chamou a atenção e que pretendo ler futuramente chamado Lendo Lolita em Teerã. Porém, junto com estas beldades vieram obras fracas como O caminho de Kandahar e Osama (mais apelação que isso só se o filme se chamasse bin Laden mesmo...). E pode acrescentar aí também o livro A cidade do sol.

Na verdade, este é o tipo de livro que não me interessa nem um pouco, já que tenho uma certa antipatia por best-sellers. Não que eu tenha raiva porque o livro vende muito, inclusive estou lendo o livro 1808, que no momento está há quase 30 semanas na lista dos mais vendidos, e estou gostando. O problema é quando o estilo é best-seller, quando se percebe que o autor está escrevendo para um idiota ler, entender e se entreter efemeramente, e consequentemente vender que nem pastelaria chinesa. Isto posto, você deve estar se perguntando: “Porque você leu isso então?”. Resposta: pressão familiar. Quem me emprestou o livro foi meu pai, um apreciador de best-sellers, e a mesma pessoa que me empurrou O Código da Vinci na época de sucesso. Só que dessa vez ele me garantiu que o livro era excelente, e eu acreditei...

O livro começa mal, numa narração em terceira pessoa batidíssima, com uma estrutura “surpreendente”: primeira parte, a história de Mariam, uma mulher afegã que tinha uma ótima vida e passa a sofrer horrores nas mãos de um homem muçulmano tradicionalista. Segunda parte, a história de Laila, uma mulher afegã que tinha uma ótima vida e passa a sofrer horrores nas mãos de um homem muçulmano tradicionalista (o mesmo citado acima). Terceira parte, que surpresa, as histórias das sofredoras coincidem!, e passam a sofrer mais ainda por causa do malvado talibã... Imaginem o drama que se desenrola nas 364 páginas do livro. É violência doméstica pra lá, bomba pra cá, amor partido aqui, opressão masculina ali na esquina... Tudo sem o menor talento literário.

Quando não gosto de um livro, paro de ler. Já fiz isso várias vezes, lembrando no momento de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, e Cem anos de Solidão, de García Márquez. Quando não gosto de um filme, paro de ver ou durmo. Isso então eu já perdi a conta. Lendo A cidade do sol, tive vontade de parar, mas não fiz para não deixar meu pai sem graça, ele gostou tanto do livro que até comprou outro e deu para a minha avó ler (e ela também está odiando, mas também vai ler em consideração). Mas só a consideração que tenho por meu pai não ia ser suficiente. O outro motivo que permitiu a leitura até o final foi a extrema simplicidade da escrita de Khaled Hosseini, pré-requisito básico para se vender muitos livros. O autor tenta em vão inserir partes descritivas que não é qualquer um que consegue, muito menos alguém sem talento, o que permite a leitura rápida pulando vários parágrafos de encheção de lingüiça. Eu pensei em citar Victor Hugo e a segunda parte de Os Trabalhadores do Mar, só para efeito de comparação, mas seria um sacrilégio comparar um jogador da seleção de 70 com um da seleção da Nova Zelândia. Ou do Afeganistão, se tivesse uma seleção. Para se ter uma idéia, eu lia este livro em três dias (não consecutivos, seria demais), um deles numa fila para abrir uma conta em banco, o que mostra a “profundidade” da prosa e a enorme necessidade de concentração. Acho que a única coisa que salva o livro são passagens da história do Afeganistão, que de tão superficiais não têm risco de estarem muito fantasiosas. Não fosse isso seria considerado “muito ruim” ao invés de “ruim”.

Não conheço detalhes sobre o autor desta “pérola”, mas pelo que li na orelha do livro ele se mudou para os EUA em 1980. Mas escreve com a autoridade de quem passou todos os infortúnios da história do Afeganistão. Francamente!

Recomendo A cidade do sol como leitura de férias para jovens reprovados na escola. Mas só os que fizeram mal-criação durante o ano.

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 364
Disponibilidade: livrarias, farmácias, supermercados, etc.
Avaliação: *

Livro Digital dessa porcaria