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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Doutor Jivago - Boris Pasternak


Doutor Jivago é um livro ambientado na Revolução Russa, que deu origem a um filme famoso da década de 60, isso era tudo o que eu sabia quando peguei-o para ler. Ficção histórica, bacana. Após ler mais ou menos até a metade, descobri outras duas coisas a respeito do livro de Boris Pasternak: tem uma trama interessante, com personagens bem elaborados, mas é um dos livros mais chatos da história da literatura!

A história de Doutor Jivago começa na convulsiva Rússia da virada do século XX, e a vida pessoal do protagonista contrasta intencionalmente com o pano de fundo histórico das lutas políticas que desembocaram na revolução dos bolcheviques: a trajetória do médico Iuri Andreievitch Jivago representa a individualidade sufocada pelo coletivismo extremo e forçado dos revolucionários marxistas, e além disso, o livro abre espaço para a discussão sobre a distorção dos ideais revolucionários através do processo histórico.

Aí entra a diferença entre criar grandes histórias e ter capacidade para desenvolvê-las. A escrita de Boris Pasternak é barroca até o tutano, repleta de figuras de linguagem pedantes, produzindo uma leitura cansativa, um desafio até para os maiores maratonistas literários - intercalando esta com diversas outras leituras, demorei quase três meses para sequer chegar à metade dessa grande epopeia eslava, mas então desisti no meio do caminho, abandonei mesmo, não tive forças para tamanha provação. Para se ter uma ideia do que estou falando, um dos temas mais destacados em qualquer resumo rápido que se pegue sobre Doutor Jivago é o romance entre o protagonista e a personagem Lara, mas até onde li, nem sinal de que isso estava para acontecer... aliás, a impressão é de que nada acontece nesse livro! Talvez tenha sido uma estratégia do autor para remeter à solidão de Jivago, ao mesmo tempo que à imensidão da natureza russa, aquela paisagem monótona, a tundra, as coníferas, a Sibéria, o Círculo Polar Ártico, gelo, neve...

Ainda assim, Doutor Jivago foi considerado digno de um Prêmio Nobel de Literatura em 1958, mas expliquemos: o livro foi censurado na União Soviética, chegou clandestinamente ao ocidente, denunciava os erros do socialismo soviético, o autor ainda vivia lá cercado de agentes da KGB, e era época de Guerra Fria e tudo mais, entenderam, né? Por mais que possam defender a qualidade desse livro e dizer (corretamente) que eu não entendo patavina de técnicas literárias para poder criticar assim, continuo achando que não tem desculpa: o livro foi escrito e publicado na época mais fértil da literatura mundial, de gente como Kafka, Fitzgerald e Borges, não havia espaço para uma escrita anacrônica dessa. Que os acadêmicos julguem os méritos literários dos autores através do tempo, para mim Pasternak já está no grupo encabeçado por Stendhal: literatura clássica chata que ninguém aguenta, mas ai de quem falar mal!

Mesmo com todos os problemas, a história por trás da enrolação de Doutor Jivago ainda me parece interessante, e eu poderia simplesmente ler qualquer resumo na internet para saber como termina, mas farei de outra forma: vou procurar o filme, que pode até ser ruim como o livro (e provavelmente é, já que ganhou cinco estatuetas do Oscar), porém apresenta uma música muito bonita e belíssimas atrizes (tanto na versão original, de 3 horas de duração, como na série de tv de 2002, com 6 horas).

Editora: Best Seller
Páginas: 756 (com sensação térmica de 3756)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

domingo, 28 de novembro de 2010

Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

A fascinante história do Império Romano começa com Otávio Augusto, no século I a.C., um dos imperadores mais estáveis, que governou por cerca de 40 anos. Após sua morte, Roma teve imperadores de todos os tipos, desde competentes administradores, como o primeiro, a loucos, usurpadores, paranoicos e irresponsáveis que eram assassinados poucos meses após serem coroados. A lista de imperadores durante a história de Roma é muito extensa, tendo governantes para todos os gostos, e Marguerite Yourcenar, escritora belga educada impecavelmente à maneira clássica (aprendeu latim e grego na infância), utilizou um dos mais bem sucedidos imperadores romanos para criar uma autobiografia fictícia em Memórias de Adriano, seu livro mais famoso e que a levou ao estrelato literário.

Adriano foi um dos chamados "cinco bons imperadores", a era mais gloriosa do império, durante a qual Roma era senhora absoluta e estável de todo o Mediterrâneo, sem riscos de ataques sérios aos seus domínios, e mais nenhuma guerra de expansão sobre outros povos. O imperador Trajano foi o último a conquistar territórios para Roma, situação que Adriano, seu sucessor, não via com bons olhos (pois esses territórios só seriam mantidos com esforços desnecessários), e logo que chegou ao poder tratou de negociar e devolver áreas instáveis, mantendo então a estabilidade conhecida como pax romana. Adraino governou durante 21 anos nessa Era de Ouro, e no livro de Marguerite Yourcenar ele aparece já no final da vida, escrevendo uma longa carta para seu sucessor, Marco Aurélio, onde conta sua vida inteira e orienta o futuro imperador. Nesta carta, Adriano aborda tanto assuntos de Estado (as negociações no Oriente, a guerra contra os judeus) como suas intimidades (sobretudo seu amor por um rapaz chamado Antínoo).

Memórias de Adriano é um livro em primeira pessoa de um homem escrito de forma impecável por uma mulher, tarefa em si difícil, e apresenta muita beleza em diversas passagens, todas cuidadosamente criadas, já que demorou cerca de três décadas para ser concluído, tendo diversas versões preliminares destruídas pela autora (em certo momento de suas anotações, ela escreve: "Projeto abandonado de 1939 a 1948. Pensava nele por vezes, mas com desânimo, quase com indiferença, como no impossível. E quase me envergonhava de ter algum dia tentado semelhante coisa). Mas por que não ter utilizado uma personagem feminina próxima de Adriano para contar sua vida? A autora justifica nas anotações ao final do livro: "Impossibilitada também de tomar como personagem central uma figura feminina, de dar, por exemplo, como eixo à minha narrativa Plotina em lugar de Adriano. A vida das mulheres é demasiado limitada, ou demasiado secreta. Basta que uma mulher narre sua história e a primeira censura que lhe será feita é a de deixar de ser mulher. Já é bastante difícil colocar qualquer verdade na boca de um homem".

Contudo, parece-me que houve uma identificação da autora com a pessoa de Adriano suficiente ao ponto de diferenças sexuais não serem empecilho para uma autobiografia fictícia nesse sentido. Não que seja uma autobiografia da autora nas palavras de um personagem histórico, o que ela própria nega veementemente, mas uma pessoa com uma educação tão refinada não poderia deixar de se identificar com um imperador que tinha tanta afinidade com a cultura de seu tempo, sobretudo a grega. Uma frase muito marcante no livro diz tudo: "O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros".

Prova da erudição de Marguerite Yourcenar é o conhecimento profundo de tudo o que é tratado no livro, ou seja, a narração em primeira pessoa é perfeitamente realista, pois todos os assuntos são abordados com a naturalidade de alguém que vivia na época: nomes de povos, geografia, pessoas, etc. Para isso, a autora se escorou em ampla pesquisa durante todas as décadas da produção do livro, o ao final constam referências bibliográficas específicas, ao ponto de conter livros até sobre numismática romana.

Memórias de Adriano é um livro sem falhas, envolvente e de escrita superior, e não por acaso tornou Marguerite Yourcenar a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa de Letras. Para mim foi muito bom, mas acho que o leitor que não tiver interesse na história de Roma não terá paciência para os longos trechos de divagações filosóficas ou de descrições históricas. Para quem tem esse tipo de interesse ou quer ler um livro essencial entre os grande clássicos, eu recomendo.

Editora: Saraiva
Páginas: 320
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

domingo, 24 de janeiro de 2010

Equador - Miguel Sousa Tavares


Apesar do grande sucesso no meio literário e das muitas críticas elogiosas ao livro de estreia de Miguel Sousa Tavares, eu nunca tinha ouvido falar deste autor e nem tinha ideia do que tratava este livro, tendo em vista que, mesmo lendo bastante, não acompanho muito as novidades do mundo literário, pelo simples motivo: há tanta coisa essencial para ler e tão pouco tempo! Na tentativa de reverter um pouco esta deficiência em minhas leituras, tive ótimas recomendações em relação a este autor de uma pessoa que diz ter passado os dois últimos anos se dedicando intensivamente à leitura de literatura contemporânea africana ou que tratasse da África, e comprei "Equador" num sebo, para verificar o que se passa na literatura mundial hoje em dia.

A ficção histórica em questão se passa no início do século XX, nas ilhas de São Tomé e Príncipe, então colônias portuguesas, no contexto da crise da monarquia portuguesa - que chegou ao fim em 1910. Luís Bernardo Valença, um bon vivant que aproveita o melhor de Lisboa com amigos e mulheres, é convocado pelo rei d. Carlos para uma missão nas ilhas equatoriais: governar as colônias com o objetivo de provar aos ingleses que lá não existe trabalho escravo e, consequentemente, evitar o boicote aos produtos portugueses. Viver numa colônia sem nenhum conforto e longe da agitada vida social a qual estava acostumado e convencer os roceiros das ilhas a modificar o sistema de trabalho em vigência há gerações, mesmo sendo famoso por ter escrito artigos criticando o sistema colonial português, esses são só os desafios iniciais do protagonista.

Ao contrário do padrão de livros desta categoria - muita ação e combates - "Equador" é uma história centrada mais nos pensamentos e sentimentos dos personagens do que nos desenrolar dos acontecimentos, e o resultado é ambíguo: longas partes monótonas onde a leitura se arrasta intercaladas por páginas onde algo realmente acontece, e por isso tão aguardadas e de leitura rápida. Tem-se a impressão inicial que a escrita de Miguel Sousa Tavares é boa e inteligente, o que realmente não deixa de ser verdade, mas com o passar do texto, o estilo rebuscado cansa e dá a impressão de pedantismo. Talvez seja isso que os críticos tenham reconhecido neste autor, ou talvez simplesmente pelo fato dele ser um intelectual famoso em seu país, onde escreve colunas em vários jornais, pois a história em si não tem nada de muito surpreendente, apesar de personagens bem trabalhados - um deles dá margem para um minilivro de 50 páginas dentro do livro, que provavelmente é a parte mais interessante da leitura.

Outro ponto positivo que tenho que considerar é a exploração de uma característica comum a todos os bons livros de ficção histórica, que não falta em "Equador": a exposição do ambiente da época em que se passa a história, particularmente o sentimento português em relação ao seu mundo colonial. Méritos para o autor que, além de desenvolver bem esta característica nos personagens, fez um eficiente trabalho de pesquisa em jornais e livros de pesquisas históricas para retratar os pormenores de Lisboa, das ilhas e da diplomacia do colonialismo.

"Equador" não é um livro ruim, mas está muito aquém do estardalhaço que se fez na época de seu lançamento (2003). Para quem ainda tem uma lista interminável de leituras desejadas, acho que suas pesadas 527 páginas podem ser remanejadas para o final da fila.

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 527
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

Livro Digital


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O Condenado - Bernard Cornwell


Minha relação com os livros de Bernard Cornwell é, no mínimo, engraçada. Veja a primeira postagem deste blog. É sobre "As Crônicas de Artur", um livro que avaliei como excelente, puxei tanto o saco que parece que estou falando de quase uma obra-prima. Não que eu tenha exagerado, os três livros da série são o que há de melhor que já li neste estilo, mas... passe para o segundo livro do autor aqui no blog, "O Tigre de Sharpe". É um bom livro para se divertir, mas comparado com os anteriores, repare os primeiros sinais de decepção no meu discurso. Não dava para acreditar que um livro daquele não era exceção na carreira de alguém que tivesse escrito algo tão bom como "As Crônicas de Artur". A nova chance foi dada na série "As Crônicas Saxônicas", que gira em torno da história dos vikings, povo que sou fascinado. Lida desde o início, esperei dessa série a mesma vitalidade que havia lido anteriormente, mas aí apareceram os mesmos vícios de escrita de Cornwell, a repetição da velha fórmula que gera receita até hoje, e as coisas começaram a ficar claras para mim: Bernard Cornwell seria uma escritor de um livro só.

Uma última chance ainda foi dada no livro "O Condenado", mais porque já o havia comprado anteriormente do que por boa vontade. Neste livro, Bernard Cornwell apresenta uma história diferente das escritas anteriormente, com a violência dos campos de batalha dando lugar à investigação de um crime, como sempre na Inglaterra, mas agora no século XIX. Rider Sandman, um oficial do exército britânico que chega das guerras napoleônicas falido e não encontra nenhuma ocupação digna, se vê envolvido na investigação de um assassinato que pode condenar um inocente à morte. Cabe a ele descobrir quem é o verdadeiro assassino e fazer justiça - a mesma chamada para dezenas de filmes que já passaram no Super Cine, ambientada num período diferente.

O primeiro capítulo do livro descreve a execução de pessoas na forca com um detalhismo impressionante, e isso me empolgou para ler logo o restante do trabalho, mas a partir de então, o bom e velho estilo comercial de Cornwell toma o lugar da criatividade e da beleza descritiva de uma introdução onde o autor deu tudo de si e perdeu toda a energia criativa para continuar as outras centenas de páginas. Começa um texto maçante, uma história paralela de amor platônico e vários trechos monótonos. Dava até para me arrastar mais um pouco na leitura e saber como termina esse livro que não chega a ser tão ruim, mas preferi parar no meio e procurar alguma coisa melhor para ler.

Talvez se eu nunca tivesse lido nada de Bernard Cornwell eu não ficaria tão irritado, mas repito, o que cansa é a falta de recursos do autor para diferenciar seus livros uns dos outros. Talvez eu esteja sendo pouco piedoso também, pois Bernard Cornwell é só um ser humano, e não um semideus como a molecada o trata pelas páginas da internet. Não é todo mundo que nasceu com o dom de um Jorge Luis Borges ou um Ernest Hemingway, não podemos esperar tanto de alguém só porque faz sucesso, Paulo Coelho está aí para provar. Não chego a achar Cornwell um escritor medíocre, há que se levar em conta o que ele fez nas "Crônicas de Artur", mas, daqui pra frente, nada de novos livros dele, só a releitura da sua melhor obra mesmo.

Editora: Record
Páginas: 321
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

Livro Digital

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Portal de Rashomon - Ingrid Parker




Este livro é uma mistura de policial com ficção histórica. Faz parte de uma série de livros com o personagem Akitada Sugawara, um funcionário público do Japão do século XI que costuma desvendar casos. Nesta aventura, Sugawara é requisitado pelo seu antigo professor para solucionar um caso de chantagem na universidade em que estudou, e para isso preenche uma vaga de professor assistente. Durante a investigação, ocorrem alguns assassinatos, e várias tramas paralelas são desenvolvidas.

A história corre num bom ritmo, e os personagens secundários são bem produzidos, com características particulares bem definidas e boas inclusões no roteiro. Apesar de algumas soluções de crimes serem altamente improváveis (característica básica de livros policiais), gostei bastante deste livro, e espero o lançamento no Brasil de outros livros da série.

Ingrid Parker é professora universitária aposentada da Universidade de Virginia (EUA) e pesquisadora do Japão do século XI, e criou a série de Akitada Sugawara no final da década de 1990. Apesar de ganhar alguns prêmios literários e ter livros traduzidos para diversos idiomas, é pouco conhecida aqui no Brasil – nem mesmo os editores brasileiros a conhecem, visto que, na orelha da edição brasileira, é apresentada como um homem! Eu mesmo nunca tinha ouvido falar dela, e só descobri porque peguei o livro emprestado de um amigo que ganhou de natal e não gostou. Mas para mim foi uma boa descoberta, e espero que seus livros se popularizem no Brasil e ganhemos traduções de outros livros seus – as versões importadas têm praticamente o mesmo preço da nacional.

Editora: Best Seller
Páginas: 383
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

O Lobo das Planícies - Conn Iggulden

Sempre achei fantástica a história de Gêngis Khan, simplesmente por ter sido o homem que formou e comandou o maior império que a humanidade já conheceu. Acompanhando em livros, filmes e programas de TV, passei a admirá-lo como exemplo de força e liderança, sempre buscando mais informações sobre esta grande personalidade, quando foi lançado “O Lobo das Planícies”, primeiro livro da série de Conn Iggulden que apresenta a história de Gêngis Khan na forma de romance, estilo conhecido como ficção histórica.

Comecei a gostar de ficção histórica logo na adolescência, através de um livro chamado “Jovita: Missão Trágica no Paraguai”, mas me encantei mesmo com a série de Bernard Cornwell sobre o rei Artur, resenhada no início deste blog. Com o tempo passei a enjoar do estilo repetitivo deste autor, e buscando novos representantes cheguei a Conn Iggulden.

Em “O Lobo das Planícies”, Conn Iggulden mostra a formação do impiedoso conquistador, desde seu nascimento como filho de um cã (chefe tribal mongol) até suas primeiras vitórias como líder militar, passando por todas as dificuldades e momentos de limiar entre a vida e a morte que o fizeram forte. A impressão que tive com este primeiro livro foi muito boa, seu estilo é agradável, em terceira pessoa (diferente de Cornwell, que narra em primeira pessoa como se todos os seus personagens fossem o mesmo), leve, sem descrições enfadonhas e com uma história que, se não apresenta muitas surpresas, pelo menos diverte e prende o leitor para saber até que ponto a história de Gêngis Khan será mostrada neste primeiro volume da série.

Conn Iggulden começou a se enveredar pela ficção histórica com uma série sobre Júlio César (outro grande conquistador – será essa a fixação do autor?), mas escreveu também um best-seller chamado “O Livro Perigoso para Garotos”, um infanto-juvenil que me surpreendeu após uma rápida folheada na livraria, e que pretendo ler futuramente e dar para meu afilhado quando ele atingir idade suficiente. Certamente este autor foi uma boa descoberta neste ano intenso de leituras.

Editora: Record
Páginas: 419
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

As crônicas saxônicas vol.1 e 2 - Bernard Cornwell


Estes são os livros que mais me desapontaram neste ano. Não os piores, mas os que eu mais depositei esperanças de uma boa leitura e não tive uma resposta satisfatória. “As crônicas saxônicas” partem de dois pressupostos fortíssimos: (1) foram escritas por Bernard Cornwell, autor das “Crônicas de Artur”, um de meus livros prediletos, e (2) contam histórias de vikings, um dos povos que mais me fascinam. Depois das “Crônicas de Artur”, li “O tigre de Sharpe”, que apesar de divertido não achei lá essas coisas, mas pensei que fosse uma exceção na sua obra. Mas depois de ler os dois primeiros volumes das “Crônicas saxônicas” começo a pensar que na verdade Bernard Cornwell é daqueles autores de um livro só.

Logo no início do livro, percebi uma coisa que já tinha ficado meio evidente em “O tigre de Sharpe”, que é a repetição de um modelo que deu certo na criação dos personagens de seus livros, mas entre as crônicas saxônicas e as de Artur as semelhanças entre os personagens são tantas que fica parecendo que Uthred, o protagonista das crônicas saxônicas, é a reencarnação de Derfel, o herói das crônicas de Artur. As mais evidentes estão listadas a seguir:

- O personagem principal tem uma namoradinha abusada, sádica e totalmente anti-cristã.
- A mulher do chefe é escrota e não gosta do protagonista.
- O personagem principal zomba do cristianismo, mas no futuro se converte, apesar de continuar acreditando na religião anterior.
- O personagem principal sabe (ou aprende a) ler, e nisso inclui-se também o livro de Sharpe.

As semelhanças são tão grandes que chega ao cúmulo de o último capítulo de ambos os livros terem o mesmo título (“A parede de escudos”). Um pouquinho mais de criatividade não faria mal a ninguém, sobretudo aos seus leitores!

Além dessas identificações desagradáveis, o estilo de Bernard Cornwell, que eu tanto apreciei nas crônicas de Artur, começa a ficar enjoativo para mim. Se não bastassem todas as semelhanças descritas acima, o estilo marcado faz parecer ainda mais que ambos os livros têm o mesmo narrador. Não sei se é problema da tradução, pois li um capítulo de outro livro seu (“Gallows Thief”) no original em inglês, e gostei muito. Posso até tentar daqui pra frente ler só o original, mas não sei, tem algo que já está saturado em sua escrita, como uma mania meio irritante de fechar quase todos os capítulos com uma frase solta do parágrafo. Outra furada que percebi na leitura das crônicas saxônicas foi a narração em primeira pessoa durante a infância do herói, pois ele pensa, age e fala como um adulto, o que fica bizarro e patético.

As “Crônicas saxônicas” contam a saga de Uthred, um menino saxão que vivia num forte na Inglaterra até a chegada dos invasores vikings, que matam sua família e o raptam e criam com seus modos de vida. Uthred então se transforma num autêntico viking, mas já adulto, por ironia do destino, passa novamente para o lado dos saxões, habitantes estabelecidos há alguns séculos na ilha, e tem que lutar contra seus antigos companheiros e sua religião em favor do rei Alfredo e do cristianismo. O que mais me interessou nesta leitura foi o simples fato de abordar a história dos vikings. Isso por si só já me encantou, apesar das limitações já explanadas, pois eu realmente amo os vikings, queria ter nascido um deles para simplesmente invadir a terra dos outros, roubar sua comida, queimar suas casas, estuprar suas mulheres, matar, decapitar, eviscerar, mutilar, e morrer lutando, e depois de tudo isso ser recompensado indo para o Valhalla (como se fosse o paraíso) e passar o resto dos dias lutando e pegando todas as mulheres lá até o Ragnarok (a batalha final dos deuses, como se fosse o Juízo Final). A única coisa que nunca entendi nas lendas vikings é o lance das mulheres, já que elas não entravam no Valhalla. Mas deixa pra lá, a lenda é agradável dessa forma, não quero nem imaginar em chegar lá e me deparar com um monte de cuecas...

Até o momento foram lançados quatro volumes da série, mas depois da leitura dos dois primeiros perdi a vontade de continuar. O primeiro é legal, e a história em si, com descrições de batalhas e estratégias de guerra, impulsionou minha leitura, apesar da decepção inicial com a falta de criatividade na construção dos personagens. Já o segundo começa muito melhor que o primeiro, me fazendo achar que a história enfim andaria num ritmo melhor. Até a metade do livro fiquei com os olhos grudados e ansioso para ver o desenrolar das coisas, mas então começou o momento “O império contra-ataca” da trama, ou seja, quando o inimigo vira o jogo e quase derrota o herói, e até o final do volume ficou numa lengalenga que fez me arrastar na leitura e perder a vontade de continuar até o final da saga. De repente eu até termino daqui a alguns meses (já comprei os outros dois mesmo...), mas agora perdi o interesse completamente, muito pela qualidade regular do livro, mas acho que sobretudo porque após as fantásticas “Crônicas de Artur” esperava muito mais de Bernard Cornwell, e esta decepção me deixou com um pouco de raiva.

Para curtir as histórias e lendas dos guerreiros vikings, mais instrutivo e encantador do que ler a “Crônicas saxônicas” é ouvir a música “Cold Wind to Valhalla”, do Jethro Tull, ou ler os quadrinhos do Thor da década de 80.

Editora: Record
Páginas: 364 (vol.1) e 387 (vol.2)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O Tigre de Sharpe - Bernard Cornwell


Após ler a excelente série "As crônicas de Artur", fiquei curioso para conhecer melhor o trabalho de Bernard Cornwell. Tratei de comprar "O tigre de Sharpe", primeira aventura de Richard Sharpe, então recruta do exército britânico na Índia, com a missão de derrotar um monarca muçulmano que emperra os negócios do Império Britânico no subcontinente.

A saga de Sharpe é a mais volumosa das obras de Bernard Cornwell, contendo até o momento 21 livros e 16 produções para a tv inglesa, e conta a vida e as aventuras de Richard Sharpe, que inicia sua carreira enfrentando inimigos dos ingleses na Índia em 1799 e chega a derrotar o exército de Napoleão em Waterloo, em 1815. Resolvi começar a acompanhar as aventuras de Sharpe pelo primeiro volume cronológico – originalmente, a série não foi lançada na ordem exata dos acontecimentos, mas no Brasil optou-se por seguir a cronologia das histórias. Juro que tentei ler o livro sem compará-lo com a trilogia arturiana, já que me fora avisado previamente que “As crônicas” era o melhor trabalho de Cornwell, mas não consegui resistir à tentação.

“O tigre de Sharpe” é um bom livro de aventura, mas nem se compara às “crônicas”. A marca de Cornwell é perceptível: anti-heróis com defeitos humanos, situações limites com saídas surpreendentes e inimigos de diversos naipes. Alguns deles são sacanas, covardes e traiçoeiros (tem um sargento que exerce a mesma função do bispo Sansum das “crônicas”, características idênticas, até imaginei a mesma voz para eles dois), mas outros capazes, corajosos e honrados. Como fez com Aelle nas “cônicas”, Cornwell banca o advogado do diabo com o comandante Gudin, oficial francês que auxilia os muçulmanos contra os ingleses, e até com o próprio sultão Tipu, mostrando-os como excelentes inimigos, o que é interessante, pois valoriza a vitória do protagonista. O estilo descritivo cáustico do autor também está presente aqui, mas parece que não surte o mesmo efeito com canhões e fuzis; a meu ver, Cornwell é mais feliz com decapitações e eviscerações do que com tiros e explosões. E, como em todos os seus livros, o autor termina com uma interessantíssima nota histórica. Em alguns livros, a imaginação do autor exerce quase toda a função de criação de cenários, personagens e situações, mas neste caso, antagonicamente, Cornwell afirma que em quase todo o livro foi seguida a veracidade histórica dos acontecimentos, incluindo os personagens.

Este primeiro volume da série “As aventuras de Sharpe” me agradou como entretenimento, mas não me fez ter vontade de terminar de ler o mais rápido possível como “As crônicas de Artur”, já que a estória não tem reviravoltas mirabolantes, nem acontecimentos surpreendentes, e ademais os personagens não são muito cativantes. Desde as primeiras páginas já se tem uma idéia de como o livro vai terminar, e fora isso existem muitos furos na narrativa. Não vou citar a maioria deles sob o risco de estragar a leitura de alguém, ainda mais porque não são muitas as surpresas guardadas nas 400 páginas do livro, mas uma pelo menos eu acho que posso contar (afinal, com este título e com as passagens logo no início do livro, quem não suspeita que Sharpe enfrentará tigres?): mesmo com muito esforço imaginativo, não consegui conceber como alguém pode dar um tiro na boca de um tigre saltando em sua direção e depois rolar por debaixo dele. Há também uma parte que, para um personagem, um certo cadeado é um ferrolho que só pode ser aberto com vários tiros, enquanto para outro o mesmo cadeado é frágil e facilmente aberto. Coisinhas pequenas que não interferem no andamento da narrativa, mas que não passam despercebidas.

Pelo que li em uma página da internet, entendi que esta aventura de Sharpe foi escrita depois do andamento da série, como um conto do passado do protagonista, e me pareceu uma criação pressionada pelo sucesso da série de tv, me dando a impressão que eu vou apreciar mais as aventuras anteriores. “O tigre de Sharpe” é uma leitura agradável, mas nada essencial. Se este tivesse sido o primeiro livro de Bernard Cornwell lido por mim, consideraria a possibilidade de ler outras obras do mesmo autor, mas não o acharia genial como ainda acho.

Editora: Record
Páginas: 402
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital

As crônicas de Artur - Bernard Cornwell



Meu interesse pela lenda de Artur começou muito antes de eu saber que esta série existia (na verdade, nem sei se na época já existia mesmo). Qualquer criança (pelo menos da minha época) já ouviu falar dessa história, meio que impregnada na sabedoria popular como um Príncipe Valente, um Davi e Golias ou um Saci-Pererê, e desde então eu já simpatizei com ela. Mas meu interesse maior veio depois que eu li um gibi chamado "Camelot 3000", que mostrava Artur e os cavaleiros da Távola Redonda reencarnados no futuro. Anos depois, eu descobri o primeiro volume da trilogia de Cornwell, li freneticamente e comprei o segundo volume, mas por questões de tempo fui deixando pra depois, pra poder ler com mais calma, até que me dei conta de que não lembrava mais de certas passagens importantes do primeiro volume. Foi então que eu resolvi relê-lo em 2007 e comecei a ler "O inimigo de Deus" no primeiro dia de 2008, finalizando a epopéia semanas depois.

"As crônicas de Artur" são uma série de Bernard Cornwell em três livros que narram a defesa da Britânia (atual Inglaterra) contra as invasões anglo-saxônicas a partir do século V, liderada por uma líder chamado Artur, o mesmo da lenda, mas o qual o autor se recusa a chamar de "rei Artur". A saga trata a lenda de Artur de uma ótica mais realista, baseada em estudos arqueológicos que contestam a existência de Artur como um rei, mas sim como um general que liderou os britânicos contra os invasores saxões. E o realismo não se resume a isso: os personagens são tratados como seres humanos sem nenhuma idealização de lendas. Merlim não é aquele bruxo recluso e misterioso, mas sim um druida que, apesar de respeitado e temido como o mais poderoso sacerdote pagão da Britânia, apresenta atitudes nada nobres. Artur é um homem bom e justo, mas não recusa fazer acordos de conseqüências dramáticas para seu povo para cumprir objetivos maiores. Lancelot está longe de ser o cavaleiro mais corajoso. E por aí vai. É o gênero "romance histórico", pelo qual cada dia me interesso mais.

No primeiro volume da série, “O rei do Inverno”, são apresentados os personagens clássicos, mas à primeira vista a maioria deles só tem mesmo os nomes em comum com a lenda arturiana. Mordred não é o inimigo de Artur? Guinivere não é a rainha apaixonada que trai Artur com seu melhor cavaleiro, Lancelot, e ambos se sentem profundamente arrependidos? Galahad não é o mais puro dos cavaleiros que busca o Santo Graal? Nimue não é a dama do lago que leva Merlin para a perdição? Afinal, Artur não é o “Rei Artur”? Todas estas perguntas pairaram sobre minha cabeça das primeiras até a última página deste volume, mas parece que a genialidade de Bernard Cornwell foi capaz de transformar estas “incorreções” – que poderiam chocar um apreciador da lenda de Artur - em ingredientes viciantes da trilogia, que fazem com que o leitor peça mais e queira saber logo como se desenrolará a trama.

Fora este choque inicial, “O rei do Inverno” mostra a transformação do narrador, Derfel (lê-se Dervel), de um jovem inseguro em um guerreiro respeitado e temido pelos adversários e, posteriormente, em uma incompreensível figura pacata e subserviente a um de seus piores opositores. É claro que esta incompreensão também é resolvida através das páginas da trilogia.
Um dos pontos fortes da narrativa de Cornwell são os detalhes das batalhas e a narração em primeira pessoa de Derfel durante as mais de 1500 páginas da saga. É muito interessante como o autor consegue passar a impressão de que o narrador às vezes esconde seus reais sentimentos, assim como é muito forte o sentimento de nostalgia presente nas ocasiões importantes da vida de Derfel, mas principalmente nas pequenas coisas, como na verdade são os nossos sentimentos a respeito do passado saudoso.

O inimigo de Deus é o segundo livro da trilogia. Confesso que o primeiro volume é muito superior ao segundo, já que este compreende períodos menos tensos da vida dos personagens na maior parte da obra, mas tem o mérito de apresentar reviravoltas e explicações importantes para a trama. A meu ver, o primeiro volume tem um final muito menos aberto e menos dependente de seu volume posterior do que o segundo, o que faz com que este deixe o leitor ainda mais nervoso em devorar logo o terceiro volume da série.

Excalibur é a última parte da trilogia. Tão empolgante quanto os outros livros, este volume ainda tem o mérito de (além de obviamente finalizar a saga) apresentar uma coerência com a lenda arturiana: o terceiro volume coloca os papéis dos personagens clássicos em seus devidos lugares. Mas além disso, em Excalibur Cornwell se responsabiliza em promover a redenção de certos personagens que passamos a odiar nos outros dois volumes, e punir aqueles que merecem, para o prazer do leitor!

Ao mesmo tempo em que devorava as páginas rapidamente para saber logo o destino dos personagens (principalmente Derfel, o narrador, que desde as primeiras páginas do primeiro volume é apresentado no final de sua vida, tão diferente do que ele narra sobre a sua juventude, e por isso a curiosidade aumenta ainda mais), eu não queria terminar o livro, porque isso significaria que a maravilhosa epopéia chegaria ao fim. Mas felizmente não foi isso que aconteceu após a última página, pois posso dizer que o autor me deixou bastante à vontade para imaginar os últimos momentos de Derfel, por quanto tempo e de quantas maneiras eu quiser, e me deu a chance de, caso seja meu desejo, continuar acreditando que Artur não morreu, mas foi levado para Avalon para se curar de seu ferimento mortal e espera calmamente o dia em que irá retornar para nos trazer de volta uma era em que homens se faziam lembrar pelo seu valor e suas realizações, e não por estarem “na casa mais vigiada do Brasil” ou coisas deste nível...

Independente se você gosta de história ou não, "As crônicas de Artur" valem muito à pena como uma leitura deliciosamente viciante, tanto pela imaginação delirante de Bernard Cornwell como pela sua magnífica habilidade como contador de histórias. Se você ainda não conhece o autor, comece por “As crônicas de Artur”, como eu comecei, e garanto que logo em seguida você nem vai saber qual o próximo livro deste autor.
Editora: Record
Páginas: 544 + 513 + 529 = 1586 (os três volumes)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *