Mostrando postagens com marcador Ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Café-da-Manhã dos Campeões - Kurt Vonnegut

Dando continuidade ao meu projeto de ler todos os livros de Kurt Vonnegut, esse que se tornou um de meus heróis da literatura, e provavelmente o autor que mais atrai meu interesse nos últimos anos, tomei para ler um de seus livros mais famosos: Café-da-Manhã dos Campeões, esse título que talvez seja o mais fantástico de todos os tempos - eu pelo menos não canso de repeti-lo como lema depois de noites memoráveis... Bem, apesar desse título profundamente inspirado e inspirador - tirado de um cereal matinal amplamente vendido nos Estados Unidos na época do livro - eu já estava ciente desde o início que essa não seria uma leitura excepcional, já que o próprio autor a classificou como "c", mas ainda assim, para mim, como fã de Vonnegut, ela era vista como essencial, pois apresenta personagens e passagens fundamentais na construção do universo vonnegutiano, principalmente a participação de Kilgore Trout, o escritor de ficção científica que serve de alter ego do autor, como um dos protagonistas da história.

A história se passa em Midland City, a representação ficcional de uma típica cidade do meio-oeste americano (que futuramente vem a ser destruída por uma bomba de nêutrons em Deadeye Dick), e gira em torno de dois personagens: Kilgore Trout, que viaja para lá para receber um prêmio por influência de um milionário que o tira da obscuridade (Eliot Rosewater, outro personagem recorrente em seus livros), e Dwane Hoover, um empresário local que, sabemos logo no início, vai surtar depois de ler uma história de Trout. Como em outros de seus livros, Vonnegut se baseia largamente em suas experiências pessoais e passagens marcantes de sua vida para tecer o enredo com minúcias e bizarrices tão características suas. Nesse caso Vonnegut se baseou especialmente no fantasma de sua mãe suicida, da mesma forma que o horror da Segunda Guerra Mundial foi para Matadouro 5

A narrativa é, em parte, semelhante a de outros livros seus, com a ironia e o deboche como fios condutores de toda a história, apoios para suas críticas contundentes à sua realidade de racismo, preconceito, desigualdade, hipocrisia, mas aqui Vonnegut experimenta ao utilizar desenhos seus espalhados por todo o livro - desenhos simplistas, porém espirituosos, que traduzem bem o humor característico do autor. Também seguindo a linha de seus outros livros, cada detalhe da história consegue agir por si só para estimular a imaginação do leitor numa composição compartilhada da história, uma das coisas que mais me encanta em seus livros.

Tudo o que Vonnegut tem de melhor está nesse livro, os personagens, a ironia, os detalhes encantadores, e nada disso se torna repetitivo quando comparado com seus outros livros. Entretanto, para mim (e acredito que também para o autor quando o classificou como um livro médio) parece que  o que ele não conseguiu dessa vez foi aplicar um ritmo empolgante à narrativa, e sua ironia, apesar de ter o mérito de uma tentativa original conjugada com os desenhos, perde um pouco o tom, talvez exagerando demais aqui. Independente de seus defeitos e deficiências, Café-da-Manhã dos Campeões foi essencial para mim como fã de Kurt Vonnegut e seu universo, e acredito que até para quem não conheça o autor e sua obra possa ser uma leitura agradável, mesmo longe de ser excepcional.

Editora: L&PM
Páginas: 310
Distribuição: normal
Avaliação: * * *

p.s: Em 1999 foi filmada uma versão do livro com Bruce Willis no papel de Dwane Hoover. Vou procurar, por curiosidade, mesmo sabendo que foi considerado pelo próprio Vonnegut como "sofrível"...

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Ele Está de Volta - Timur Vermes resenha

Hitler acorda num terreno baldio de Berlim, em 2011, como se nada tivesse acontecido entre os momentos finais da Segunda Guerra Mundial e os dias de hoje, pelo menos para o führer. Essa é a estranha premissa para Ele Está de Volta, romance de estreia do alemão Timur Vermes. De uma situação bizarra como essa só se pode esperar duas coisas: uma comédia ou uma ficção científica bem underground. Ficamos aqui no primeiro caso, e parece que a piada realmente foi boa, já que, só na Alemanha, já foram mais de 1,5 milhão de exemplares. Rapidamente surgiram traduções para mais de 30 idiomas, incluindo nosso português.

Não se sabe ao certo o que aconteceu para Hitler vir parar nos nossos dias da mesma forma que estava em 1945, mas isso não tem a menor importância para os objetivos do autor (aliás, se a coerência científica e histórica tivesse importância nesse livro, seria errado Hitler ter acordado com a saúde perfeita, já que em seus últimos dias ela estava seriamente comprometida). O nazista simplesmente acorda, se levanta, sem nem desconfiar o que ocorria, tanto que seu primeiro pensamento é retornar imediatamente ao seu bunker. Ao caminhar pela Berlim de hoje, ele começa a perceber que algo havia mudado - dada a integridade física da cidade, ele obviamente deduz que seu país ganhou a guerra. O contato com as pessoas o faz descobrir aos poucos o que estava acontecendo; e fazer amizade com um jornaleiro turco e ter acesso aos principais jornais e revistas ajuda a acelerar esse processo. Logo, como era de se esperar, o tirano começa a planejar sua volta ao poder, e vê sua grande oportunidade nos meios de comunicação atuais, com os quais ele nem sonhava em contar no seu tempo. 

O choque de realidade de Hitler com os tempos atuais é o primeiro ingrediente que dá graça ao livro. Seu estranhamento se dá em todos os sentidos: tecnologia, costumes, política, economia. É bem engraçado imaginar seu contato com a internet, sua reação à quantidade de imigrantes na Alemanha atual, ao capitalismo corporativo moderno e suas inimagináveis empatias com situações dos dias de hoje - o Partido Verde alemão, por exemplo, é admirado pelo tirano; já as pessoas recolhendo cocô de seus cachorros na rua são tidas como loucas por ele. O que mais dá mais graça nisso tudo é a narrativa em primeira pessoa pelo próprio Hitler, rebuscada, antiquada, dramática nos mínimos detalhes, com pretensão de ser séria - afinal ele realmente é o Hitler, por que não se levaria a sério?

O outro lado da piada é justamente o contrário: a visão da sociedade atual sobre o suposto Hitler. É obvio que ninguém acredita no absurdo do verdadeiro Hitler ter voltado, e todos o tratam como um excelente ator interpretando seu personagem de forma impressionante. Ninguém vai levá-lo a sério. Em 2011, Hitler é uma piada para todos, como se todo seu ódio e fanatismo tivessem ficado no passado até para o mais fanático neonazista. Pelo menos da forma caricata que seria a interpretação de um comediante nos nossos dias. E por causa dessa "interpretação", Hitler volta a conquistar as pessoas, não mais pela sedução de suas promessas de prosperidade para os alemães e vingança, mas pelo seu talento de ator (que originalmente, na década de 1930, ele já tinha). A partir daí há espaço para uma discussão em voga hoje em dia, inclusive para nós aqui no Brasil: a questão do politicamente correto. Se Hitler em 2011 vira um recordista de visualizações no Youtube e ganha seu próprio programa na televisão, há também aquele lado que se sente ofendido, e aí começa o problema dos limites da liberdade de expressão e censura (que já existia, só que às avessas, na sua época). Essa superexposição de Hitler na mídia também busca satirizar o fascínio atual das pessoas pela mídia popular e a mania de memes ou conteúdos virais que vem crescendo.

É claro que, à parte a sociedade retratada no livro, a nossa própria sociedade deve se questionar sobre a graça de se fazer piada com um personagem como esse, responsável pelo extermínio de milhões de pessoas. Em outros textos na internet, pareceu inevitável aos autores a citação de O Grande Ditador, filme de 1940 de Charles Chaplin que satiriza Hitler, na época que ele ainda era vivo e os Estados Unidos ainda não tinham entrado na guerra (e algumas fontes afirmam que Hitler adorava esse filme e tinha uma cópia em sua coleção). Em minha opinião, a comparação não é válida, pois há uma diferença muito grande entre os dois trabalhos. No filme, o ditador é ridicularizado por uma visão de fora, enquanto que Ele Está de Volta é narrado pelo próprio. Suas ideias apresentam explicações, uma linha de pensamento lógica, que não deixa de ser ridícula, mas é coerente. A crítica não vem de fora, é o próprio personagem que se defende ou se incrimina. E nesse sentido, achei que Timur Vermes encontrou a medida certa para não apresentar o protagonista como um anti-herói que pudesse conseguir a simpatia do leitor, mas também não pegar pesado demais em temas até hoje delicados, sobretudo na Alemanha (eu imaginaria um Hitler verídico muito mais antissemita do que o do livro, por exemplo). Pessoalmente, não vi problema nenhum nesse sentido, me parece que a imagem de Hitler já é bem clara para toda a humanidade para que um livro desse tenha o poder de mudá-la ou suavizá-la (bem, exceto por meia dúzia de revisionistas e os indonésios). 

Ele Está de Volta é interessante por se tratar dessas questões abordadas acima, mas como leitura não é lá essas coisas, apenas um livro razoável. Há que se considerar que o entendimento depende de um conhecimento mínimo sobre a Segunda Guerra Mundial e o mundo atual, mas ainda assim existem pequenas dificuldades para leitores não alemães por causa das referências a inúmeros aspectos da realidade daquele país que nós desconhecemos - e isso transforma alguns trechos em piadas internas deles. No fim das contas, é uma leitura engraçada, mas não chega a ser hilária. Ainda assim, considero válida.

Fora qualquer coisa escrita no livro ou aqui nessa resenha, a capa é sensacional!

Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Suave é a Noite - F. Scott Fitzgerald

A popularidade dos livros de Francis Scott Fitzgerald tem aumentado nos últimos anos, graças a grandes produções de Hollywood  como O Curioso Caso de Benjamin Button e O Grande Gatsby, e novas edições estão sendo lançadas a cada estreia no cinema. Com roteiros baseados na obra de um dos maiores escritores de todos os tempos, seria bem difícil que um filme desse tipo não vingasse - pelo menos o que vi, O Curioso Caso..., é excelente. Quanto ao lançamento de novas edições, é uma oportunidade para o público médio conhecer livros que realmente importam, já que, impulsionados pelo sucesso dos filmes, essas novas edições ganham uma exposição privilegiada nos centros das livrarias ao lado de best-sellers consumidos por esse público voraz por coisas como 50 Tons de Cinza ou a última canastrice do Dan Brown. Esse ano O Grande Gatsby ganhou até uma bela edição bilíngue de capa dura pela editora Landmark, minha chance de reler esse livro tão importante para mim, agora na língua original (e com a molezinha da tradução logo ao lado).

Com a maior exposição dos livros de Fitzgerald nas livrarias, muitos que comprarem no oba-oba do filme podem gostar, não gostar, ou sequer um dia vão ler, mas alguns terão nesses lançamentos uma porta de entrada para o restante da obra desse mestre. O livro de Fitzgerald sobre o qual resolvi escrever é um desses livros que não tem tanta repercussão na carreira de um escritor em meio ao eclipse que um Grande Gatsby pode causar na literatura (a não ser que venha a ser filmado com o DiCaprio), mas nem por isso deixam de ser arrasadores. Suave é a Noite já começa a ser um grande livro desde antes de ser aberto pelo leitor, pois só o título já pode despertar vários tipos de sentimentos - aqueles que escolhem essa hora suave para ler ou fazer qualquer outra coisa vão entender ainda mais essa beleza de título. 

Depois dessa primeira impressão, uma capa com um título desse e o nome de um autor peso pesado, Suave é a Noite tem diversos outros motivos para ser considerado um grande livro. Um dos últimos trabalhos de Fitzgerald, este livro mantém a mesma qualidade narrativa dos anteriores, mas se diferencia de todos os outros por trazer uma maior carga autobiográfica, e talvez por isso o que ele considerava sua melhor criação. À época da produção do livro (que foi lançado em 1934), Zelda Fitzgerald, sua esposa, havia sido internada em uma clínica com diagnóstico de esquizofrenia, após anos de uma violenta relação entre os dois. Scott Fitzgerald havia perdido o pai em 1931 e mantinha um hábito que trazia desde sua juventude: bebia muito acima do padrão considerado "social". Durante sua internação, Zelda escreveu Save me the Waltz (sem tradução para o português), um livro mal recebido e cheio de passagens autobiográficas sobre a vida do casal. Essa publicação de sua vida pessoal enfureceu Scott Fitzgerald, e talvez por isso ele tenha dado uma resposta colocando seu ponto de vista sobre essa relação doentia em Suave é a Noite.

O livro começou a ser desenvolvido logo após o lançamento de Gatsby, porém com uma temática bem diferente. Com os contornos dramáticos que dominavam a vida de Fitzgerald, o enredo foi modificado, utilizando-se as passagens já escritas e os personagens numa nova perspectiva. A história se passa em torno de Dick e Nicole Diver (as representações de Scott e Zelda), um casal americano endinheirado e hedonista vivendo na costa sul da França, em meio e festas e eventos sociais com amigos. Sua situação é cômoda, eles são admirados como um casal perfeito numa vida perfeita, até que começam a aparecer evidências de uma situação explosiva guardada num lugar onde o mundo não pode ver. Esse tema da relação doentia entre duas pessoas é abordado em todo o livro, utilizando-se flashbacks paralelos ao desenvolvimento dos acontecimentos entre Dick e Nicole. Fitzgerald coloca tudo o que lhe fazia sofrer em sua vida nas páginas do livro: seu relacionamento frustrado, seu alcoolismo, sua degradação, a morte de seu pai, os problemas mentais de Zelda.

Geralmente é recomendado que o leitor tenha o primeiro contato com um trabalho mais famoso de determinado autor, mas se alguém ler Suave é a Noite como iniciação a F. Scott Fitzgerald não vai se arrepender. E quem já o conhece por Gatsby ou Benjamin Button e está doido para continuar a explorar esse universo tenso e encantador, esse é o caminho. Um livro estupendo, de construção e desenvolvimento de enredo e beleza que não é qualquer um que consegue, mas não é uma beleza para levantar o astral de ninguém: é uma beleza como a suavidade da noite, que às vezes pode ser melancólica, solitária e triste, bem triste.

Editora: Bestbolso 
Páginas: 448
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Só para constar: Suave é a Noite já foi filmado em 1962...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

V. - Thomas Pynchon

Em Malta durante a Segunda Guerra Mundial, no Sudoeste Africano Alemão durante o colonialismo, nos esgotos de Nova Iorque da década de 1950, nos palcos da Paris do início do século XX, no Egito dominado por britânicos, numa trama na Florença da virada do século... lá está V... Misterioso, complexo e estranho pra cacete, este livro me despertou sensações tão variadas quanto a diversidade de locais nos quais se passa e personagens que se apresentam para depois não mais aparecerem e, aparentemente, não fazerem sentido algum para o resto da história.

Não que V. seja um daqueles livros que você não entende nada, com pouca trama e muito sentimento. Há bastante enredo no roteiro que varia entre todos os lugares citados acima e uma linha mais clara passada em Nova Iorque em 1956, centrada em dois personagens. Há um sentido e uma ligação entre esses capítulos e os outros, que mais parecem contos isolados, só que eu não sou capaz de explicar como (e até onde sei, todo mundo que lê esse livro sente o mesmo)!

Os dois personagens centrais são Benny Profane, um vagabundo sem direção na vida cuja única preocupação é curtir tudo o que puder acompanhado de seu grupo de amigos batizados como a turma muito doida, e Stencil, um homem que segue a investigação de seu pai à procura de V. O problema é que nem ele sabe o que é V - e nem você vai saber ao terminar a leitura, vai no máximo desconfiar ou presumir o que é. Portanto, como não se pode dizer ao certo o que é V, também não se é capaz de afirmar sobre o que trata esse livro, mas nem por isso a leitura perde sua validade - pelo contrário, o livro teve boa aceitação pela crítica na época e concorreu a prêmios. 

Como eu escrevi no início do texto, V. me proporcionou uma variedade de sensações. Quem acompanha o blog já está ciente de minha clara predileção por autores de meados do século passado, gente que viva e escrevia ao som do jazz e à sombra de cogumelos atômicos compreensivelmente imaginários. Busquei um livro de Thomas Pynchon por ter lido resenhas e artigos bastantes elogiáveis sobre ele, já sabia que era um autor da minha área de interesse. Tanto o estilo sem o formalismo da literatura clássica como os temas abordados me prenderam bastante na leitura, mas algumas partes desse extenso livro podem ser maçantes, sobretudo quando se tem a impressão que nada mais faz sentido, quanto você se pergunta por que o autor está lá na Namíbia no meio da guerra de alemães com os Herero, ou o que uma série de nomes como Venezuela, Vesúvio, Verônica ou Vênus podem ter a ver com V... e não garanto a você que há respostas para essas e outras questões levantadas, ou que magicamente tudo vai fazer sentido quando você chegar na última página, como num conto de Borges. Se você tem interesse e vontade de ler esse livro, minha recomendação é: leia com o compromisso da leitura de um livro difícil, complexo, mas sem a preocupação com uma linha condutora; leia a trama de Nova Iorque de forma encadeada, mas cada capítulo fora dela como se fossem contos independentes, sem se importar em fazer sentido (já que boa parte não vai fazer mesmo!).

V. foi uma leitura estranha por esses motivos, de altos e baixos, mas que eu pretendo repetir futuramente, o que me mostra alguma coisa a mais que conta sobre os baixos, que me faz sentir a necessidade de uma nova leitura e que nessa ocasião será mais bem aproveitada que a primeira. V. é o primeiro livro de Thomas Pynchon, um autor que vive até hoje recluso, com poucas concessões à mídia, e que por isso já gerou inúmeros rumores sobre sua personalidade e real identidade (alguns realmente toscos, como a suspeita de que ele era na verdade o Unabomber...). Durante décadas, só se conhecia uma foto sua, de quando ele tinha 18 anos, mas hoje já se sabe um pouco mais mais sobre ele. Seus outros livros de destaque são O Leilão do Lote 49, considerado mais fácil que os outros e uma porta de entrada para sua obra, e O Arco-Íris da Gravidade, sua novela de maior sucesso. Pynchon ainda vive e lança livros esporadicamente, porém sem a repercussão dos anteriores. Infelizmente, as edições brasileiras de seus livros são geralmente caras e algumas estão esgotadas, mas podem ser encontradas baratas em sebos.

Editora: Paz e Terra
Páginas: 559
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * *

domingo, 11 de agosto de 2013

O Livro de Areia - Jorge Luís Borges

Depois que li Ficções de Borges, que automaticamente virou um dos três livros supremos da minha vida, me surgiu um, digamos, dilema literário em relação ao lendário autor argentino: vontade de ler outros de seus trabalhos para conhecê-lo mais detalhadamente, mas ao mesmo tempo vontade de não ler e continuar relendo sua obra-prima por tê-la como definitiva para mim. Talvez por isso tenha demorado cinco anos e muitas releituras de Ficções para que eu pegasse O Livro de Areia para ler.

Fica óbvio que, comparado a Ficções, nenhum outro livro menor da bibliografia de Borges pode ter uma resenha e uma avaliação tão entusiástica como a anterior. O Livro de Areia é composto por 13 contos (o último deles dando nome ao livro), nenhum deles com a genialidade da lógica e dos estratagemas observados em Ficções. Entretanto, isso não tira a qualidade da escrita de Borges - mesmo sem ter as mesmas ideias geniais de antes, o autor não poderia esquecer como escrever bem, apesar de passadas três décadas. Vale lembrar que em Ficções (1944), Borges estava no auge de sua carreira de escritor, enquanto que em O Livro de Areia, escrito 31 anos depois, já estava no final de sua vida, praticamente cego, tendo ditado todos os contos. Se faltam as ideias e a originalidade de outrora, uma das características mais marcantes dos contos borgianos ainda pode ser percebida nesse livro: o ritmo, que prende o leitor do início ao fim de cada conto. Isso por si só, dadas as condições físicas e materiais adversas, faz de Borges um herói da literatura mundial - afinal, não é para qualquer um escrever o que quer que seja de qualidade sem poder enxergar o produto, reler, apagar, corrigir, reescrever, pelo menos eu penso assim.

O Livro de Areia apresenta uma certa coerência / referência entre os contos nele presentes e também com outros trabalhos anteriores. Algumas referências são citações repetidas em vários contos, notoriamente o xadrez e o mundo anglossaxônico, outras são temas sempre abordados em toda a trajetória de Borges, como por exemplo a questão da infinitude e a reavaliação de personagens históricos, além de aspectos de sua vida pessoal e de contos anteriores. Dois dos contos desse livro (Undr e O Espelho e a Máscara) são um contraponto perfeito para A Biblioteca de Babel, para mim a melhor história criada por Borges. E há também temas pouco explorados por Borges anteriormente: um conto de terror (There Are More Things) e um sobre o amor (Ulrica) que, segundo o próprio autor, é comum em sua obra poética, mas inédito na sua prosa.

Não importa se O Livro de Areia não se compara a Ficções: Borges é Borges, e independente de sua idade ou saúde sempre vai ter algo saboroso para servir seus fiéis leitores. Esse é o termo certo para O Livro de Areia: uma leitura gostosa. O próximo que me aguarda é O Aleph, o segundo de seus maravilhosos livros de contos, hierarquicamente falando.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 112
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Black Flag - Valerio Evangelisti

No presente, militares americanos internados em um laboratório subterrâneo durante a invasão do Panamá encontram a oportunidade para fugir; no passado, um grupo de párias liderado por um pistoleiro mexicano luta numa missão de êxito improvável durante a Guerra de Secessão; no futuro, uma garota tenta sobreviver num mundo mergulhado em caos e doença mental generalizada entre a sociedade. Como elo de ligação, uma das maiores maldições da história da ficção repensada de maneira original. 

Ok, confesso que tal premissa mostrou-se muito menos chamativa para mim do que o título, referindo-se a uma de minhas bandas punk prediletas. As citações das letras intensas e agressivas do Black Flag no início de cada capítulo que li ao folhear o livro numa feirinha de rua também determinaram bastante a compra e a leitura desse primeiro trabalho de Valerio Evangelisti publicado no Brasil, tido como um dos principais nomes da literatura fantástica da atualidade, mas por enquanto ainda pouco falado por aqui.

Apesar de o livro não seguir as letras como base para o roteiro, elas caem bem no clima deprimente, violento e holocáustico que permeiam as três gerações de ********** separadas pelo tempo, mas unidas por sua maldição. O italiano Evangelisti consegue imprimir um bom ritmo na história, variando os três momentos sem ordem fixa e em quantidades desiguais (a maior parte do livro ocorre no passado, mais ou menos no futuro e quase nada no presente), mas nada que o justifique como um "grande nome da atualidade" como querem alguns.

Black Flag é um livro bacana, um passatempo rápido para se divertir no caminho para o trabalho ou num fim de semana sem sol no qual nenhum amigo está disponível para uma cerveja (quer dizer, na verdade, Black Flag é uma banda punk muito foda que você deve conhecer, e se este livro for o caminho para tanto, já cumpriu 80% de sua função).

Editora: Conrad
Páginas: 239
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *


p.s: a capa não tem nada a ver com a história do livro, não sei por que escolheram essa imagem...

p.s.2: Lançaram um novo Assassin`s Creed que tem como subtítulo "Black Flag", e agora quando eu busco alguma coisa da banda fica aparecendo esse jogo, que saco!

quarta-feira, 13 de março de 2013

O Estrangeiro - Albert Camus

"Hoje mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem."

A citação de um dos trechos logo do início do livro mostram o que vem pela frente nas páginas de O Estrangeiro, de Albert Camus. Meursalt é um pied-noir (pé negro, em referência aos calçados ocidentais), um franco-argelino que vive como um um homem comum, diria medíocre até, no norte da África colonizada pela França, aparentemente na década de 1930. Tem um emprego burocrático, sem muitas pretensões materiais na vida, busca pequenos prazeres como sair com uma mulher bonita ou fumar um cigarro, mantém relações cordiais e superficiais com pessoas da vizinhança. A diferença dele para os outros homens está em seu modo de sentir as coisas. Mesmo sem refletir sobre isso, Meursalt é uma espécie de niilista. Para ele, não há um sentido profundo em nada, as convenções sociais não lhe dizem nada, Meursalt apenas reage da forma mais natural, como um animal: uma reação imediata aos estímulos sensoriais. O que não faz de Meursalt uma pessoa má. Quando sua mãe morre, eu diria que ele age até racionalmente, como deveríamos nos sentir quando algum idoso morre: todos morrem em algum momento, sua mãe estava idosa, e havia chegado a hora dela. Com essa naturalidade, o protagonista narra esse momento que, para a maioria das pessoas, é difícil demais por causa das lembranças afetivas do ente querido.

O livro é todo narrado em primeira pessoa, e com uma narração seca, limitada ao necessário. A citação inicial nesse texto é um bom exemplo do que Camus queria - o personagem narra os fatos quase como uma pessoa escrevia um telegrama, tentando economizar cada palavra, enquanto Meursalt parece não ver motivos para gastar sentimentos que para ele não existem. Contudo, ao desenrolar o livro, o narrador deixa de ter seus pensamentos limitados exclusivamente pelas experiências sensoriais, e o texto começa a desenvolver uma linguagem mais emotiva, mesmo que seja de revolta, angústia ou incompreensão, mas ainda assim limitando-se ao necessário, sem rodeios, o que produz um livro sucinto, dividido em duas pequenas partes. Na primeira, Meursalt começa sua narrativa seca sobre a morte de sua mãe e seu cotidiano, mostrando-nos suas características psicológicas que definem o livro. Na segunda, o personagem é preso e julgado, com uma certa dose de incompreensão que remete a O Processo, de Franz Kafka. Mas as semelhanças param por aí, pois se no livro do autor tcheco o protagonista é julgado por sabe-se lá o que, aqui o julgamento se dá muito mais por questões morais e julgamentos sociais do que pelo crime cometido (e há um crime concreto, diferente do processo kafkiano). A sociedade julga Meursalt não pelo seu crime, mas por suas ideias e posições. Nada muito diferente do que ocorre hoje e sempre ocorreu nos tribunais - ontem mesmo, no julgamento do assassinato da advogada Mércia Nakashima, todos os jornais mostraram as tentativas do advogado de defesa em desabonar a vítima.

No original, o título de O Estrangeiro pode ter tanto o sentido da tradução para o português como pode significar também estranho. O jogo de sentidos do francês cabe perfeitamente para mim, pois quando leio L'étranger "eu me sinto um estrangeiro", como cantou Humberto Gessinger, mas também me lembro que sempre fui um estranho a este mundo, "um estranho numa terra estranha", como escreveu Robert Heinlein. Tendo sido lido pela primeira vez nos meus vinte e poucos anos, no momento em que eu formava toda a base da minha educação superior, não posso dizer que O Estrangeiro determinou quem eu sou hoje, mas certamente me deixou espantado em como eu me identificava com muito do que sentia (ou não sentia) Meursalt pelo mundo à sua volta, traduzindo um pouco das minhas angústias em ser um estrangeiro/estranho. É e nunca deixará de ser um de meus livros do coração, essas coisinhas tão importantes às quais recorremos ao longo da vida por diversos motivos.

O Estrangeiro está situado nada menos do que na primeira posição da lista dos 100 maiores livros do século XX elaborada pelo jornal Le Monde - tudo bem que é uma lista criada por franceses, recheada de autores franceses, e nunca teria um autor estrangeiro (trocadilho inevitável) acima de um francês nessa lista, mas ainda assim diz algo, não é?

Editora: Best Bolso / Record
Páginas: 112 / 126
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Passo de Caranguejo - Günter Grass

Heróis e vilões são fruto de escolhas políticas e da força de determinados grupos. É o que faz com que Jesus seja considerado historicamente muito mais importante do que Simão bar Kochba, rebelde judeu que deu muito mais dor de cabeça para o Império Romano do que o messias cristão. E é o que faz também com que minorias se pronunciem a favor de determinadas personalidades ou fatos através do revisionismo histórico - termo que hoje é encarado muitas vezes de forma negativa, pois está muito identificado com seu lado mais controverso, o "revisionismo do holocausto" (que por isso é classificado por determinados historiadores como negacionismo, em vez de revisionismo).

O revisionismo histórico é o ponto de partida para Passo de Caranguejo, romance mais recente de Günter Grass, o mais importante escritor alemão vivo, que atingiu seu auge na década de 1960. Paul é um jornalista mal sucedido nascido na Alemanha Oriental no dia 30 de janeiro de 1945, num navio de refugiados que afundava após ser bombardeado por um submarino russo; o navio era chamado Wilhelm Gustloff, em homenagem a um líder nazista assassinado por um judeu em 1936. Apesar de Paul ser um personagem fictício, a história de Wilhelm Gustloff é verídica: responsável pela distribuição do livro Os Protocolos de Sião, foi assassinado por David Frankfurter, e considerado então um mártir da luta do nazismo contra os judeus, tendo por isso sido lembrado com um funeral digno da presença de Hitler e outros líderes nazistas em sua cidade natal (Schwerin, coincidentemente a mesma cidade de Paul). Para completar a glorificação desse ícone da irracionalidade humana, os nazistas utilizaram seu nome para batizar o navio abordado no livro, utilizado o mesmo como cruzeiro turístico em tempos de paz (no qual a mãe de Paul passou férias) e com fins militares durante a guerra.

Esse fato histórico atrelado à sua própria história pessoal o persegue como um fantasma em toda sua vida. O revisionismo histórico começa com sua mãe, uma espécie de entusiasta do navio e guardiã da memória desse fato, considerado por ela injustamente relegado ao esquecimento, apesar de ter sido uma tragédia naval de proporções maiores do que a do Titanic. E o revisionismo vai além, através de grupos neonazistas organizados na internet, a fim de colocar Wilhelm Gustloff (tanto o navio como o "mártir") em seu devido lugar na história. Orientado por uma figura enigmática identificada apenas como "chefe", Paul inicia uma investigação sobre os fatos históricos em questão e narra sua própria trajetória familiar. Seu desejo é que esse assunto finalmente seja encerrado, mas longe disso, Paul terá que lidar com os efeitos que aparentemente nunca acabam, chegando finalmente a seu filho. 

Memória, culpa e até uma internet que engatinhava na época (o livro se passa em 1997, e foi escrito em 2002) são temas abordados em Passo de Caranguejo. O título é referência ao fato de que o narrador tem sempre que voltar para dar um passo à frente, ou seja, é impossível prosseguir sem voltar e examinar a história. Além disso, redenção e perdão por erros cometidos na juventude também me pareceram aspectos bem abordados nesse livro de maturidade de Günter Grass - o fato é que, pelo que pesquisei, esses sempre foram temas recorrentes em seus livros, e em 2005 o autor publicou a primeira parte de sua autobiografia, Nas Peles da Cebola, no qual assume que fez parte de uma tropa de elite nazista quando era adolescente.

Passo de Caranguejo certamente não é o melhor representante da obra de Günter Grass, mas tem uma escrita bastante eficiente e dinâmica, mostrando que um autor de décadas anteriores ainda pode produzir bons trabalhos. Uma leitura acessível e agradável, que me faz ter vontade de conhecer seus trabalhos mais famosos, como O Tambor

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 205
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Matadouro 5 - Kurt Vonnegut Jr.

Considerada a obra-prima de Kurt Vonnegut, Matadouro 5, ou a Cruzada das Crianças é um romance baseado nas experiências do autor na Segunda Guerra Mundial, mais especificamente no episódio do bombardeio da cidade de Dresden, tido como um dos maiores massacres de civis da História. A impressão que se tem é que, dada a profundidade dessa experiência em sua vida, este era o livro que Vonnegut tinha que escrever, e o fez tão bem que recebeu resenhas positivas dos mais variados meios literários na época de seu lançamento, além de indicações para os principais prêmios da ficção científica e fantasia, o Hugo e o Nebula, em 1970 (perdeu ambos para A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula le Guin) . No início do livro, sugere-se que um livro desse deveria ser escrito porque as pessoas se interessam muito por histórias fortes de participantes da Segunda Guerra Mundial, e que isso rende bastante dinheiro, mas é óbvio que tal argumento não passa de um artifício de Vonnegut para impor seu característico humor, debochando de si mesmo e de quem quer que pense dessa maneira.

A estrutura de Matadouro 5 é muito parecida com a de outro livro do mesmo autor que já resenhei aqui, Deadeye Dick, uma narração sem rigor cronológico, pela qual já se sabe mais ou menos diversos acontecimentos logo no início, e talvez por isso mesmo fica-se com uma grande curiosidade de como aquilo vai acontecer. Só que em Matadouro 5, essa estratégia é muito mais radical, já que logo no início o autor deixa bem claro seu teor:

"As pessoas não devem olhar para trás. Eu certamente não farei mais isso. Já terminei o meu livro de guerra. O próximo que eu escrever será divertido. Este aqui é um fracasso. E tinha de ser, já que foi escrito por uma estátua de sal. Começa assim:
Escute:
Billy Pilgrim soltou-se no tempo.
Termina assim:
Piu-piu-piu?"

Os acontecimentos durante a guerra são os únicos narrados de forma linear, mas mesmo assim são interrompidos a todo momento por outras passagens da vida do protagonista, aí então de forma bastante caótica.

As primeiras páginas do livro são narradas por um veterano de guerra, uma breve apresentação na qual o leitor é informado sobre o processo de criação do livro. O narrador é obviamente o próprio Vonnegut, mas não fica claro se estas primeiras páginas, nas quais ele fala sobre um antigo colega que o ajuda a relembrar detalhes e uma visita ao matadouro alemão que dá título ao livro, são realmente acontecimentos da vida real ou se já ali inicia a ficção, através de um tipo de alter-ego. De qualquer forma, esta breve introdução só tem a função de criar o clima para o resto do livro, a história de Billy Pilgrim, e ademais nunca foi a intenção do autor escrever uma biografia fiel aos eventos por ele experimentados em Dresden, tanto que a primeira linha do livro diz: "Tudo isso aconteceu, mais ou menos." - a frase foi incluída na lista de 100 melhores frases iniciais de romances da American Book Review, na posição 38.

Billy Pilgrim, como já se diz logo no início do livro - digo o livro dentro do livro -, está solto no tempo, e por isso não faz sentido citá-lo no passado: ele é um soldado americano na Segunda Guerra Mundial, é um oftalmologista, é casado com a filha de um homem rico, é uma criança lutando para não se afogar numa piscina, é um homem de meia-idade prestes a sofrer um acidente de avião, é tratado como um animal num zoológico em outra dimensão... O tempo é presente em qualquer momento, foi o que Billy Pilgrim aprendeu com os tralfamadorianos, o segredo é focar-se nos momentos bons. Justamente por compreender isso, os tralfamadorianos não temem a morte nem o sofrimento, pois sabem que ninguém morre, apenas está morto em determinado momento, e em outros está vivo - e Billy é um dos poucos humanos que compreendem isso também. Apesar de todas essas discussões sobre viagem no tempo e alienígenas, e do livro ter sido indicado para o Hugo e o Nebula, entendo como um erro de interpretação tratá-lo como ficção científica, por motivos que aqui não posso explicar, sob o risco de interferir no prazer da leitura de quem ainda não leu o livro.

O tema mais aparente de Matadouro 5 é a repulsa pela guerra e pela violência, algo habitual na carreira de Kurt Vonnegut, tanto que o autor considera o ponto mais importante do livro o momento do fuzilamento de um personagem secundário por conta de uma chaleira, após o bombardeio de Dresden. O subtítulo do livro, A Cruzada das Crianças, tem uma conotação profundamente contrária à guerra em seu contexto. No entanto, outros temas talvez tenham a mesma importância ou até mais. A questão do sofrimento, discutida na forma de destino x liberdade é para mim o ponto chave do livro. A viagem no tempo, não de forma convencional da ficção científica (com máquinas), mas sim estar solto no tempo, como Billy Pilgrim, é a chave para o escapismo do protagonista. Os tralfamadorianos estranham o fato de a Terra ser o único planeta conhecido por eles no qual seus habitantes acreditam que dependem de sua vontade para determinar os acontecimentos. Eles inclusive sabem como o universo deixa de existir, e mesmo que para um terráqueo eles possam evitar tal acontecimento, isso simplesmente não faz sentido para eles.

O estilo de narrativa de Kurt Vonnegut, impecável aqui, talvez seja o que me faz gostar cada vez mais desse autor. Frases curtas, sem nenhum tipo de firula, dizendo de maneira certeira o que importa para a história,  algo que só os grandes escritores conseguem desenvolver; algo que, dizem, Hemingway teve que aprender com Gertrude Stein para se tornar o grande escritor que foi. O humor, geralmente negro e ácido, também está presente em Matadouro 5, mas aqui Vonnegut utiliza três palavrinhas que entraram para a história da literatura: So it goes (traduzido na edição brasileira como "coisas da vida", o que não chega a ser tosco, mas eu não gostei). Essa pequena frase se repete 106 vezes ao longo do livro, aparecendo sempre após o relato de algo trágico. Sua interpretação é ambígua: pode remeter a este humor negro característico do autor, como pode também ser um mecanismo para a recusa ao sofrimento tratada ao longo do livro - transformar grandes perdas individuais em algo ínfimo para a história da humanidade (ou, no caso, do universo).

Os personagens de Vonnegut são também um diferencial em sua obra, tanto que diversos dos que aparecem em Matadouro 5 são utilizados em outros livros. Alguns, aqui meros coadjuvantes, são protagonistas em outro momento, como Howard W. Campbell Jr, o narrador de O Espião Americano (Mother Night), ou Kilgore Trout, o escritor de ficção científica considerado o alter-ego de Kurt Vonnegut. Me parece que os coadjuvantes valorizam ainda mais o trabalho do autor, vista sua incrível capacidade de criar características de personagens em poucas linhas, como eu já havia escrito na resenha de Deadeye Dick. Pela quantidade de personagens importantes no universo vonnegutiano, acredito que Matadouro 5 seja o livro ideal para começar a explorar a obra desse autor.

Matadouro 5 é um livro estupendo, simples em suas palavras, pequeno, com parágrafos e trechos curtos, porém complexo em seus detalhes e desdobramentos, como estou me habituando aos livros de Kurt Vonnegut, esse autor que a cada dia se coloca entre meus favoritos. Já encontrei quase todos os seus livros, em inglês, em pdf, e agora o difícil é parar de lê-los para dar chance a outros autores.

Editora: L&PM
Páginas: 226
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Postagens relacionadas:

Deadeye Dick - Kurt Vonnegut

Revolução no Futuro - Kurt Vonnegut

sábado, 19 de novembro de 2011

O Idiota - Fiódor Dostoiévski

Verificando rapidamente os títulos apresentados aqui neste blog, percebe-se que há pouco, quase nada, de literatura produzida antes do século XX. Nunca escondi de ninguém que não é esse tipo de leitura que me interessa, mas sim a cultura do mundo contemporâneo, o modo de pensar surgido no século do jazz e do rock, do cinema, da comunicação instantânea, da produção em massa, da liberdade individual. Quando comecei a ser um leitor razoável, a ter um padrão mínimo de leitura, obviamente passei por diversos clássicos da literatura, alguns dos quais amo até hoje (A Odisseia, ou Germinal, por exemplo), mas muitos que, talvez num contexto diferente, teriam me afastado do caminho das letras, se eu não tivesse conhecido paralelamente alguns dos meus heróis literários. Meu interesse na cultura contemporânea e minhas experiências tediosas com os Stendhals da vida foram decisivos para o meu afastamento da literatura clássica e meu vício na literatura contemporânea, mas de qualquer forma, sempre tive uma grande curiosidade de conhecer alguns desses autores tratados como pais fundadores ou grandes mestres, e venho através dos anos prometendo a mim mesmo que vou encarar um desses caras qualquer dia desses, apesar da longa "lista de espera" dos livros que eu quero muito ler.

Por uma certa ironia, foi a própria cultura contemporânea que me fez "furar a fila" e pegar um livro clássico para ler: O Idiota, de Fiódor Dostoiévski. Explico: o livro, lido por Iggy Pop e David Bowie, serviu de inspiração para o nome de um dos melhores discos de todos os tempos, The Idiot (1977), pelo qual estive obcecado nos últimos meses, obsessão que me fez correr atrás de tudo a respeito dessa obra-prima, desde as histórias por trás das letras até o livro de Dostoiévski.

O Idiota conta a história do príncipe Míchkin, um epilético (como o autor) que volta para a Rússia após passar anos fazendo um tratamento para sua doença na Suíça. A partir daí, desenvolve-se uma trama na medida certa para o personagem dostoievskiano (sendo o protagonista talvez até um paradigma para esse padrão): o homem bom, honesto, cheio de boas intenções, que sofre todos os tipos de males na sociedade perversa justamente por causa de suas qualidades. Por sua bondade e generosidade, Míchkin é constantemente trapaceado, usado e até humilhado pelos que se aproveitam de sua posição, os desonestos, vis, sádicos, covardes, quase todos que o rodeiam.

Desde o início da leitura, pude experimentar essa que é dita a principal qualidade de Dostoiévski, a construção de personagens, habilidade na qual o russo foi mestre. Com o passar das páginas, aparecem outros trechos de extrema perícia, como a descrição de um ataque epilético de Míchkin, algo recorrente na vida do autor. Entretanto, por mais que tenha qualidades incontestáveis, O Idiota ainda é um livro do século XIX, e carrega consigo aquele ranço de rebuscamento que toda obra dessa época traz, algumas mais, outras menos. O ritmo do livro começa muito bem, mas com o passar dos capítulos, a trama começa a se arrastar, algo muito comum em livros naqueles tempos de prazos apertados e quantidades certas de escrita por conta de encomendas de jornais ou, como era o caso de Dostoiévski, pressões financeiras e de contratos editoriais.   Não há habilidade ou criatividade de escritor algum que me faça superar uma narrativa arrastada.

Fora o estilo, confesso que tenho muita dificuldade para assimilar as ideias defendidas por Dostoiévski em seus livros: nacionalismo russo nos moldes oitocentistas, que pregava uma Santa Rússia, herdeira do Império Bizantino por conta da Igreja Ortodoxa (portanto, herdeira do Império Romano, berço do cristianismo; a palavra czar ou tsar vem de César). Caberia à Rússia salvar a Europa, e toda a sociedade ocidental, de sua decadência espiritual durante o avanço do industrialismo e do materialismo. Dostoiévski era um defensor ferrenho da ordem e da monarquia russa, e se opunha ferozmente às ideias mais progressistas de sua época, como o liberalismo, o socialismo e o niilismo. Eu não sou tolo o suficiente para tentar ler um livro desse tipo de autor com os olhos do terceiro milênio, não é esse o caso, mas realmente não tenho muito interesse em digerir tais ideias em livros de narrativa cansativa ao longo de 600 páginas.

Definitivamente, não estou nem um pouco interessado nesse tipo de literatura clássica e não tenho necessidade de recorrer a esses cânones ocidentais para nada. Respeito Dostoiévski pelas qualidades que descrevi acima, assim como outros autores que já li dessa época, como Victor Hugo, mas realmente prometo a mim mesmo que não leio mais esse tipo de livro nos próximos anos, pelo menos (provável exceção para Júlio Verne, o avô da ficção científica). Talvez no futuro, quando eu estiver em outra sintonia, quem sabe, mas por enquanto uma garrafa de Hemingway, um prato de Vonnegut com Frank Herbert, e Borges para a sobremesa.


Editora: 34
Páginas: 688
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

Nota: A imagem acima corresponde à edição mais recente, a única até agora traduzida diretamente do russo - até então, todas as traduções eram feitas a partir de traduções francesas. Essa nova edição é muito bem falada, apesar de bem cara, mas talvez se eu tivesse lido ela, a leitura teria sido um pouco menos penosa para mim.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Crazy Cock - Henry Miller



Paris, 1934. O escritor americano Henry Miller publica seu primeiro livro, Trópico de Câncer, alcançando imediato reconhecimento e abrindo as portas de sua carreira. A partir de então, Miller passa a se dedicar exclusivamente à literatura, ganhando a vida como sempre desejou, até morrer confortavelmente no sul da Califórnia, aos 88 anos.

A chamada acima pode sintetizar os sonhos de quase todas as pessoas que almejam o ofício de escritor, e parece que Henry Miller foi agraciado pelo destino com as coisas tendo saído tão perfeitas - sucesso logo no primeiro romance, na Paris da década de 30, capital mundial da cultura ocidental da época. Contudo, a história torna-se menos colorida se acrescentarmos um dado na biografia do autor: tudo isso ocorreu somente quando ele tinha 44 anos. Até então, Henry Miller era um cidadão humilde de Nova Iorque, que fizera de tudo na vida para se sustentar, mas ao mesmo tempo não conseguia permanecer em nenhuma atividade por reconhecer sua verdadeira vocação na escrita - e por conta disso, era discriminado pela própria família.

Antes de decidir largar tudo de vez e partir para a França para escrever e publicar Trópico de Câncer, Miller alternava bicos e empregos temporários com a elaboração e a produção de livros que ninguém conhecia/reconhecia, e um desses manuscritos deu origem a Crazy Cock, publicado então somente na década de 60, a partir de um manuscrito improvavelmente recuperado. A história da época da produção desse livro é bem descrita na introdução da edição que li:

"Corria o ano de 1927. A segunda mulher de Henry Miller acabara de fugir para a Europa com sua amante lésbica, e ele se recuperava de um longo período que chamou 'desintegração nervosa'. Humilhado e sem dinheiro, ele se vira obrigado a voltar para a casa de seus pais, perplexos com a incapacidade desse filho de 36 anos de viver à altura das expectativas eminentemente burguesas da família. Em desespero, aceitara um emprego sem futuro em um escritório oferecido por um rival dos tempos de infância. Uma noite, porém, permaneceu na firma depois do expediente e começou a datilografar sem parar. Passada a meia-noite, uma pilha de páginas datilografadas em espaço um - uma torrente de palavras - repousava ao lado. Eram notas para o livro que Miller sentiu estar fadado a escrever: a história de seu casamento com June, do amor desta por Jean Kronski, e de sua própria e total degradação com a traição da mulher. Essas notas se transformariam em Crazy Cock, terceiro romance de Henry Miller e seu mais seguro passo em direção a Trópico de Câncer, a grande realização literária que viria poucos anos depois."

O ponto alto da produção literária de Henry Miller são os livros nos quais ele transforma suas experiências pessoais em prosa de altíssima qualidade, mais especificamente os anos ao lado de June, sua musa maldita. Em Crazy Cock, Miller aborda o conturbado período na década de 20 em que viveu com June e Jean, até a fuga destas para a Europa - tema que foi retomado na trilogia A Crucificação Encarnada, publicada entre 1949 e 1960. A ideia inicial para o título era Lovely Lesbians (Amáveis Lésbicas), mas como a prosa é voltada para o protagonista, e não para as duas mulheres, houve a alteração para Crazy Cock (Pinto Louco).

Sendo basicamente um protótipo da escrita posterior de Henry Miller, Crazy Cock é algo diferente de seus livros mais famosos. A narração autobiográfica em primeira pessoa, característica marcante do autor, é substituída pela utilização de personagens em terceira pessoa (Miller é Tony Bring, e as mulheres têm os pseudônimos Hildred e Vanya), certamente uma demonstração de insegurança do escritor inexperiente. Além disso, é uma narração mais linear, mais lógica do que em Trópico de Câncer, porém já apresentando algumas passagens introspectivas próprias de Henry Miller. Outro importante ingrediente milleriano que falta nesse livro são as famosas descrições de atos sexuais, apesar do título sugestivo - um aspecto da obra de Miller que proporcionou seu banimento na moralista e hipócrita América durante décadas.

Crazy Cock é um livro muito tenso, que consegue passar para o leitor o que acontece na cabeça de um homem que, por conta de um amor absurdo, obsessivo, talvez doentio, se submete a dividir o mesmo teto com sua mulher e a amante lésbica, sendo sempre colocado em segundo plano pelas duas. Um livro escrito por um grande autor ainda inexperiente, mas nem por isso sem qualidade.

Me interessei em ler este livro porque Henry Miller é um dos autores mais importantes para mim, um verdadeiro herói literário, alguém com quem eu quero parecer quando crescer, e recomendo essa boa leitura para qualquer um, mas para quem ainda não o conhece, sugiro a leitura de algum de seus livros mais marcantes, pois não dá para comparar esse trabalho da época de amador com os livros que o deixaram famoso. Trópico de Câncer causou em mim uma grande revolução mental na minha época de adolescência, e até hoje pego ocasionalmente para reler trechos marcantes. É uma relação tão especial que tenho com esse livro que talvez por isso eu não consiga escrever mais detalhadamente sobre ele aqui no blog e tenha que pegar outros trabalhos menores para poder falar de Henry Miller, mas a dica está dada.

Editora: Siciliano
Páginas: 198
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Deadeye Dick - Kurt Vonnegut Jr.


Kurt Vonnegut Jr. é um autor que, antes de ler, eu já sabia que me tornaria fã. Cheguei a este autor pesquisando sobre outro assunto, não me lembro ao certo se era sobre a banda Deadeye Dick (da música New Age Girl, que me traz deliciosas lembranças afetivas dos anos 90) ou armas nucleares, mas logo que soube do teor de suas obras e de sua vida, tratei de procurar algo escrito por ele. Coincidentemente, primeiro livro seu que encontrei garimpando num sebo foi justamente Deadeye Dick, não tão conhecido como suas principais realizações, Café da manhã dos Campeões, Cama de Gato e Matadouro 5, que virou filme.

A obra de Vonnegut é caracterizada primeiramente pelo humor inteligente, que se mostra nas situações absurdas criadas pelo autor. Um breve resumo do livro em questão comprova isso: Deadeye Dick (gíria para indicar alguém que tem uma ótima pontaria com armas de fogo) é o apelido pejorativo do protagonista Rudolph Waltz, recebido na adolescência, após dar um despretensioso tiro para o alto e acertar a bala no meio da testa de uma mulher que arrumava a casa a oito quadras. O acontecimento bizarro é apenas a premissa para uma história de humor negro, que tinha tudo para ser deprimente se tivesse sido contada de outra forma que não a de Vonnegut. Como escreveu um crítico a respeito do livro: "Deadeye Dick é tão leve que, quando acaba, você quase esquece que contém uma morte por radioatividade, um duplo assassinato... uma decapitação, uma nevasca que mata centenas, e... a aniquilação de uma cidade inteira por uma bomba de nêutrons".

A segunda característica de Vonnegut é a criação de personagens extremamente cativantes, sejam amáveis ou odiáveis. A vida de Rudolp Waltz sempre foi medíocre - teve um emprego entediante, todos de sua cidade o tratam mal por causa do acidente e nunca amou ou foi verdadeiramente amado nem mesmo pelos seus pais -, porém ao estilo Harvey Pekar, consegue através de sua narração torná-la agradável e engraçada. Paralelamente, o protagonista apresenta histórias de diversas pessoas de sua cidade, como o homem que fugiu para a Ásia com a obsessão de encontrar a cidade de Katmandu, ou seu próprio pai, que na juventude foi amigo e salvador de um jovem pintor austríaco chamado Adolf Hitler. O autor aparenta ter uma facilidade tão grande em criar personagens que em diversas passagens, pessoas são simplesmente citadas pelo narrador, e em apenas uma frase é construído um personagem que, se não complexo, dá margem para a imaginação do leitor correr solta, como neste trecho em que apresenta o destino de alguns destes interessantes coadjuvantes: "Eugene Debs Metziger vivia em Atenas, Grécia, onde possuía vários cargueiros com a bandeira da Libéria."(...) "Sua irmã, Jane Addams Metzger, que encontrou sua mãe morta e o aspirador ligado há tanto tempo, uma garota gorda e feia, como recordo, e ainda gorda e feia, de acordo com Ketchum, vivia com um roteirista tcheco refugiado em Molokai, no Avaí, onde comprou um rancho e criava cavalos árabes". Muitos de seus personagens aparecem em mais de um livro, fazendo parte de um universo vonnegutiano coerente, bem como alguns conceitos e locais.

Outro importante ponto na obra de Kurt Vonnegut Jr. são os temas abordados, sempre de acordo com suas posições em relação à sociedade. A crítica central em Deadeye Dick é a questão das armas nos Estados Unidos, a mesma que Michael Moore abordou em Tiros em Columbine, mas há bastante espaço para outras situações de uma sociedade cheia de contradições como é a americana, como por exemplo o racismo. Vonnegut era socialista, humanista e tinha posições bem liberais em relação a temas delicados como a eutanásia. Sobre religião, ao longo da vida se declarou de diversas maneiras, como cético, agnóstico, ateu, e achava que o que motivava as pessoas a entrarem para alguma igreja era a solidão.

Deadeye Dick serviu-me muito bem como introdução à obra desse fabuloso autor, e já consegui alguns outros livros seus por preços baixos em sebos e feirinhas, porém infelizmente em português. Existe uma antiga versão traduzida de Deadeye Dick, mas com um título adaptado tão absurdo ("Bode Vermelho"!) que me faz temer pelo conteúdo. Os originais são mais difíceis de encontrar aqui no Brasil, mas estou de olho caso me depare com algum deles daqui pra frente.

Editora: Bantam Dell (em inglês) e Difel (em português, se você tiver coragem)
Páginas: 240
Disponibilidade: normal em inglês, esgotado em português.
Avaliação: * * * * *

Links relacionados:

Matadouro 5 - Kurt Vonnegut

Revolução no Futuro - Kurt Vonnegut 

domingo, 23 de janeiro de 2011

Mas não se mata(m) cavalos? Horace McCoy


Antes de qualquer coisa, alguém poderia dar uma explicação científica sobre a correção gramatical deste título adaptado para o português: afinal, "não se mata", ou "não se matam cavalos"? Quase todas as edições brasileiras apresentam a primeira forma, porém a mais atual, da L&PM é escrita do segundo jeito.

O pequeno livro de estreia de Horace McCoy mostra uma maratona de dança em Hollywood na época da Depressão (década de 1930), onde os pares devem dançar ininterruptamente (ou pelo menos balançar o corpo emulando alguma dança) durante semanas, somente com pequenos intervalos de dez minutos. O par campeão leva para casa um prêmio de mil dólares e todos têm abrigo e alimentação garantidos durante o evento. Logo no início, o leitor fica ciente que a história termina com o competidor Robert Syverten assassinando sua parceira Gloria Beatty com um tiro na cabeça, a pedido dela, e então o protagonista conta sua história desde o momento em que conheceu Gloria até sua condenação.

Li uma crítica a respeito de Mas não se mata(m) cavalos? na qual o livro era muito elogiado e o autor comparado a Hemingway, e por isso tive interesse em lê-lo, mas fiquei muito desapontado com esta leitura. Quem fez essa comparação entre os dois autores nunca deve ter lido Hemingway. O sol também se levanta foi um dos primeiros livros sérios que li na adolescência, e lembro-me até hoje do impacto que aquelas passagens introspectivas produziram em mim, uma escrita diferenciada que eu nunca tinha visto (e até hoje tenho-as como exemplo do que eu quero ser quando crescer!). Até O Velho e o Mar, monótono do início ao fim, tem seu mérito pela extrema qualidade da escrita de Hemingway. Nada disso é visto em Horace McCoy, tudo me pareceu superficial em sua escrita: personagens, descrições, impressões do protagonista, além de uma trama sem graça e previsível - e minha leitura foi ainda mais prejudicada pela tradução obsoleta e com trechos claramente equivocados de Érico Veríssimo numa edição de 1982 da editora Abril. Enfim, quem inventou essa comparação com Hemingway forçou a barra.

Apesar dessa comparação ter me causado uma grande decepção, Mas não se mata(m) cavalos? não é um livro ruim, apenas mediano, e se seus méritos não estão nas capacidades literárias do autor, há que se ter boa vontade com a justa análise de Horace McCoy sobre os Estados Unidos de seu tempo. A sociedade apresentada pelo autor é aquela que se desenvolve paralelamente ao modelo industrial do século XX, da produção e consumo em massa, no qual a obsolescência programada e o rápido descarte são as bases para o avanço. A maratona de dança mostra que as próprias pessoas fazem parte deste processo de descarte, sobretudo na indústria cultural de Hollywood, que estava em seu apogeu - a condição para ganhar o concurso não é o talento, ou a qualidade da dança dos participantes, mas a capacidade de resistir a semanas de esforço físico desumano; das dezenas de pessoas inscritas, apenas um par ganharia o prêmio, enquanto os outros sacrificam-se por quase nada. Do lado de fora, o público acompanha e torce por algum desses desconhecidos durante algumas horas, vai para casa, dorme, cumpre seus compromissos, e no dia seguinte volta para mais algumas horas de diversão. Tendo hoje que aturar praticamente todos os meios de comunicação falando sobre Big Brother durante a maior parte do ano, a impressão é que a indústria do entretenimento não evoluiu nesse aspecto durante as últimas oito décadas.

Os personagens, apesar de não muito elaborados, retratam as duas opções numa sociedade como essa: integração total ao sistema ou rompimento definitivo. Robert sonha com o estrelato em Hollywood, e vê a maratona como um dos poucos meios de ser encontrado por alguma figura importante do cinema; Gloria é uma niilista que odeia tudo isso, e aceita participar do evento porque não tem outro meio de sobrevivência. Outros personagens secundários representam o público irracional, os empresários inescrupulosos, representantes de empresas e figuras típicas da ambígua sociedade americana como gangsters e moralistas. A relação entre os participantes e os de fora mostra a condição de exploração a qual são submetidos os despossuídos, chegando em muitos casos à exploração sexual.

Horace McCoy não tem uma escrita exemplar, mas escreve sobre temas importantes como um analista atento ao contexto em que viveu. Na média, Mas não se mata(m) cavalos? é regular, e até por ser pequeno, pode ser lido em uma tarde como passatempo descompromissado. Não fez sucesso à época de seu lançamento nos Estados Unidos (1935), mas recebeu atenção uma década depois, através de uma edição francesa. Foi transformado em filme em 1969 (A noite dos desesperados), com Jane Fonda interpretando Gloria Beatty.

Editora: L&PM
Páginas: 150
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Voz do Fogo - Alan Moore

O que pode haver em comum entre uma jovem queimando na fogueira em 1705, uma forja de falsificação de moedas em 290, a cremação do corpo de um bruxo em 2500 a.C. e o incêndio de um carro em 1931? Alan Moore, o maior de todos os escritores de quadrinhos, juntou estas e mais algumas narrativas em sua estreia na literatura para narrar, através da Voz do Fogo, a história de sua cidade natal, Northampton, na Inglaterra.

Por meio de doze contos, narrados em primeira pessoa, o célebre autor de Watchmen e muitos outros clássicos dos quadrinhos contemporâneos inicia sua visão sobre a cidade em 4000 a.C., nas palavras de um menino no neolítico. Este primeiro conto é um dos mais difíceis do livro, pela escrita extremamente pobre e truncada, sem nenhum respeito por regras ou pontuações, o que causa muita estranheza nos leitores, mas ela dá o tom de todo o resto da obra: criatividade e recurso para escrever cada um dos contos de forma distinta, numa caracterização realista de cada narrador. Na pele de um juiz do século XVII, por exemplo, Moore adota um estilo sofisticado, muito prazeroso de ler, enquanto as palavras de um louco do século XIX irritam, as de uma vigarista da Idade dos Metais causam repulsa, as de um oficial do Império Romano convencem o leitor de suas convicções sobre Roma. Cada conto se interliga com o seguinte de forma sutil, até culminar em 1995, nas visão do próprio autor sobre a cidade em seu tempo.

Além de sua poderosa e criativa escrita, Alan Moore também tem a seu favor uma grande capacidade de produzir uma história com sentidos ambíguos, pouco clara, que dá margem à imaginação e ao gosto do leitor. Os temas místicos e fantasiosos, marcantes na carreira do autor nos quadrinhos, não deixam de aparecer, mas de forma que podem ser entendidos como acontecimentos sobrenaturais ou simplesmente uma interpretação da realidade, como a loucura, coincidência ou a impressão de personagens sobre passagens anteriores do livro.

A Voz do Fogo não é um livro muito fácil, daquelas leituras de passatempo que logo se esquece. É leitura densa, para ficar pensando após o término de cada conto, escrita bonita para ser admirada, para depois ficar tentando decifrar a mente do autor, de como ele teve a ideia de criar tal história. E não é daqueles livros para pegar emprestado, esse é para guardar e reler de vez em quando. Só é uma pena que tenha sido o único, até agora, na premiada carreira de Alan Moore, que já disse ter mais um ou dois livros na cabeça, esperando um tempo entre os trabalhos dele para serem escritos.

Editora: Conrad
Páginas: 331
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Uma resposta de Alan Moore sobre o livro:

G1 – Você certamente conhece um bocado sobre Northampton. Escreveu um livro inteiro só sobre ela, não?

Moore - Sim, tenho uma paixão incrível por Northampton. Escrevi “Voz do fogo”, que era ambientando inteiro em Northampton ao longo de 6 mil anos de sua história. São 300 páginas, mas achei que era um livro muito cosmopolita e abrangente. Então, no novo livro que estou escrevendo, decidi focar em apenas alguns quarteirões de Northampton. “Jerusalém” fala do 1,5 Km2 em que eu cresci. Deverá ter algo como 1.500 páginas. E, provavelmente, o próximo vai ter 8 mil páginas e será só sobre a minha sala de estar (risos). Por um lado, é uma cidade fascinante, a quantidade de história e de eventos estranhos que aconteceram aqui são impressionantes.Mas não estou dizendo que esse lugar é mais importante ou mais extraordinário do que onde qualquer outra pessoa vive. É só o lugar onde eu vivo. E o que estou fazendo por Northampton, que aparentemente é só uma cidade cinzenta e sem graça, é usar minha escrita para transformá-la na cidade de maravilhas que existe dentro da minha cabeça. Acho que muitos artistas se beneficiariam se dessem uma olhada fresca sobre a cidade em que vivem. Faça observações poéticas, tente sentir que é um local maravilhoso. Suspeito que se sentimos que o lugar que estamos vivendo é uma droga, eventualmente chegaremos a conclusão que nós somos uma droga. Por outro lado, se você pensar que o lugar que vive é um templo celestial cheio de seres maravilhosos, nós mesmos nos sentiremos assim.

O resto da entrevista, onde ele fala sobre diversas coisas como pornografia, filmes de Hollywood, Paulo Coelho e Harry Potter, aqui.


sexta-feira, 26 de março de 2010

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Eu sempre me senti meio envergonhado de conhecer tantos livros, de diversos gêneros, mas ignorar quase completamente os clássicos da literatura brasileira. Até li meia dúzia na escola, alguns ótimos, como "Noite na Taverna" e "O Cortiço", outros terríveis, como qualquer um do José de Alencar, mas a partir do momento que não tinha mais que ler por obrigação, dediquei meu tempo de leitura a outros interesses, e todos esses anos eu ficava, "pô, tenho que tirar um tempo para conhecer Machado de Assis e tal...", mas sempre deixava para depois.

Aí veio essa promoção do Extra da literatura brasileira em quadrinhos, eu comprei o primeiro volume e me senti meio patético em ler as histórias em quadrinhos sem conhecer a obra original, então tirei da estante "Triste Fim de Policarpo Quaresma", depois de mais de uma década intocado. Agradeço muito ao Extra pela promoção, pois se não fosse este estímulo, talvez eu nunca tivesse lido esta excelente história.

Policarpo Quaresma, um dos melhores personagens de romance que já conheci, era um pacato cidadão do Rio de Janeiro dos primeiros anos da república, funcionário público com hábitos estritos, solteirão que vivia com a irmã, mas apaixonado defensor do Brasil em todos os aspectos. Sua inquietude em relação à potencialidade não explorada de seu país o leva à ação radical, primeiramente no aspectos cultural - quando é dado como louco e é internado num hospício -, depois na vida econômica - acabando falido e vencido pela estrutura político-econômica de depreciação do pequeno produtor - e finalmente na política, onde encontra seu triste fim.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é uma história divertida, leve, muito por causa da recusa de Lima Barreto em utilizar a linguagem rebuscada em voga na literatura brasileira do início do século XX, mas principalmente devido às situações cômicas em boa parte do livro, a começar pelos personagens, todos eles muito medíocres: o general que nunca foi à guerra, o contra-almirante a quem foi dado o comando de um navio inexistente, e até mesmo o próprio Quaresma e sua paixão cega pelo Brasil, um dos poucos personagens que o leitor pelo menos tem simpatia por causa de sua inocência e bom coração (o outro é um violeiro que busca as raízes da música brasileira, e atende pela fantástica alcunha "Ricardo Coração dos Outros").

Outro personagem muito medíocre utilizado por Lima Barreto para desnudar a sociedade brasileira da época é um médico que possuía uma biblioteca exemplar, mas nunca conseguia ler mais do que cinco páginas de cada livro, pois dormia, e ao produzir artigos, "escrevia de modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por melestar, ao redor por rededor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral". Um deboche com os intelectuais da época que insistiam na pompa literária, mas também há uma crítica à elitização do conhecimento, pois fica claro que ao doutor era cabível uma biblioteca, mas a loucura de Policarpo Quaresma, que não tinha título acadêmico, é atribuída por outros personagens ao seu hábito de ler - um deles chega até a sugerir a proibição de livros para quem não tivesse título acadêmico.

O exame da loucura também não fica de fora da escrita de Lima Barreto, tanto na figura de Quaresma como na da menina que enlouquece porque é iludida durante cinco anos pelo noivo e depois é abandonada - fica bem sugestivo que o problema não foi a perda de um amor, mas sim da possibilidade de casar para cumprir seu papel social. Lima Barreto teve o pai internado num hospício, o mesmo acontecendo com ele anos depois, num hospício onde hoje se localiza a faculdade na qual me formei. Aliás, este foi outro aspecto que despertou demais o meu interesse nessa leitura: a apresentação do passado de muitas partes do Rio de Janeiro onde nasci e fui criado, tendo sido o próprio livro escrito na minha vizinhança.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é daqueles clássicos que não se lê porque é clássico, mas sim pela criatividade, beleza, qualidade da escrita, e por ser acima de tudo uma ótima história. Seguindo a sequência para acompanhar a coleção do Extra, vou atrás de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e alguns contos de Machado de Assis e Lima Barreto, na medida do possível entre tantas outras leituras e a vida real, e tentarei escrever sobre eles aqui também, além das próprias adaptações para os quadrinhos.

Editora: várias (várias mesmo, talvez mais de 20)
Páginas: variável
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Audiolivro


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Quarup - Antônio Callado



Quarup é mais um grande clássico da literatura que tentei ler durante este ano cheio de descobertas literárias. Influenciado pelos elogios a este livro de Antônio Callado, peguei-o na biblioteca da escola onde trabalho para verificar se realmente era isso tudo que os outros falam. Mais uma vez me dei mal em cair na propaganda da “alta literatura”. Pode-se argumentar que Quarup é sofisticado, a escrita de Antônio Callado é fina e muito bem trabalhada e que o tema histórico explorado é bastante interessante. Não me oponho a nenhuma das defesas expostas acima, mas... precisava ser tão chato?

A trama do livro se inicia no final do governo Vargas, pouco antes de seu suicídio, e se estende até a ditadura militar. O personagem principal é Nando, um jovem padre pernambucano que sonha em construir uma sociedade indígena baseada nas missões jesuíticas do século XVIII no interior do país, mas com o passar do tempo suas vivências e o contato com a sociedade da capital lhe desiludem e ele vai largando seus ideais e se torna um novo homem.

O pano de fundo não é original (um padre que larga a batina, essa é velha), mas a ligação com a história do Brasil é bem feita e a forma de escrever de Callado é muito bonita, mas teria um efeito mais positivo se o tamanho da história fosse menor. O autor enrola muito, tornando bem difícil a leitura das 601 páginas desta obra clássica. Em alguns trechos, com a boa intenção de passar ao leitor o caos e a velocidade do pensamento dos personagens, o autor alarga um mesmo parágrafo em até cinco páginas! Boa idéia de Antônio Callado, só falta agora algum outro escritor aprimorá-la para não encher tanto o saco de seus leitores. Nem as tantas passagens de sexo e drogas (ainda não tinha rock´n´roll naquela época) são suficientes para amenizar a exaustão mental causada por esta leitura.

Não agüentei ler todo o livro, cheguei até a metade com a sensação de que as coisas não aconteciam e eu estava perdendo meu tempo de outras boas leituras. Minha curiosidade em saber como terminava a história não foi maior que meu tédio, mas graças à uma pesquisa rápida na internet pude dar um ponto final a esta questão e agora tenho uma certeza: Antônio Callado nunca mais!

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 601 (se você agüentar até o final)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Tristessa - Jack Kerouac


Na década de 1950 surgiu um movimento nos EUA chamado “Geração Beat”, que se caracterizava por autores "toscos", que escreviam espontaneamente sobre experiências pessoais, sobretudo com sexo e drogas (o rock`n`roll ainda não tinha entrado no meio). É uma chamada interessante que me fez buscar algum representante deste movimento para conhecer melhor, e escolhi Jack Kerouac com seu “Tristessa”, primeiramente pelo fato do autor ser um dos mais famosos escritores do movimento, fazendo um tipo de santíssima trindade com Allen Ginsberg e William S. Burroughs; mas também por “Tristessa” ser o nome de uma música do Smashing Pumpkins, uma de minhas bandas prediletas. Ok, também porque foi o livro mais barato de Kerouac que encontrei...


Tristessa é a história autobiográfica do autor num período passado na cidade do México, quando ele se apaixonou por uma prostituta viciada em drogas, quem dá nome ao título, mas na vida real chamava-se Esperanza. No caminho de outros autores como Henry Miller ou Virginia Woolf, não há uma história com início, meio e fim, o livro se prende mais a sensações, emoções, especulações, impressões através do submundo da capital mexicana. O que mais me impressionou foi a habilidade do autor durante a narração no momento em que as drogas começam a fazer efeito. Não sei se ele estava realmente drogado na hora em que estava escrevendo, o certo é que ele conseguiu passar muito bem a loucura da droga através das páginas, de forma gradual. O texto começa a perder o sentido aos poucos, com o autor tentando fazer amizade com uma galinha que vive no quarto de Tristessa, até chegar a um momento de abstração total, e depois, como se a droga começasse a perder o efeito, o texto volta ao normal. Outra peculiaridade da escrita de Kerouac é a inserção de preceitos budistas em sua obra, resultado de seu interesse pelo assunto na vida real.

Seguindo o estilo Beat, Jack Kerouac tem uma escrita extremamente espontânea, escrevendo o que dá na telha, tanto que num certo ponto ele admite: “Eu agora perdi o fio de meu pensamento”. Era assim que eles escreviam, sem voltar para corrigir nada, o que estivesse na cabeça era escrito, o que causa uma estranheza inicialmente. Em muitos momentos senti falta de algumas vírgulas. Mas senti que o texto perdeu muito com a tradução, pois há alguns jogos de palavras que não encaixaram muito bem no português, bem como a inserção de diversas palavras em espanhol no original que perdem a força junto a uma língua tão parecida.

Em principio gostei de Jack Kerouac e pretendo conhecer outros autores da Geração Beat, mas certamente privilegiarei versões originais, pois este tipo de escrita perde muito com traduções, mais do que o que normalmente acontece. “Tristessa” é uma leitura para uma tarde, e se fosse no original acho que minha avaliação seria superior a regular, mas pelo menos me deixou com a música do Smashing Pumpkins na cabeça durante todo o dia. Agradeço a Jack Kerouac por isso, pois fez meu cérebro esquecer um insuportável jingle de campanha de um candidato a prefeito da cidade onde moro e não voto, que insiste em passar pelo menos umas vinte vezes por dia na porta do meu prédio.

Editora: L&PM
Páginas: 101
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *