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terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Triste Fim de Policarpo Quaresma em quadrinhos - Lima Barreto e outros

Voltando a falar da coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos (depois de um ano), dessa vez li a adaptação de Triste fim de Policarpo Quaresma, esse livro maravilhoso, e por isso mesmo já uma tarefa e tanto fazer uma adaptação. Nesse caso, até que a adaptação de Ronaldo Antonelli se saiu um pouco melhor do que em O Cortiço, mas continuo achando muito difícil essa tarefa de adaptar livros inteiros, pelo tamanho das obras originais comparado com o número de páginas propostas para os quadrinhos - contos são bem mais propícios, e os resultados geralmente são melhores. Os desenhos de Francisco Vilachã, como já havia dito em outra resenha, não são grande coisa, e oscilam de suficientes a fracos em cada trabalho seu na série - no presente caso, estão fracos, sem graça, atrapalhados ainda mais pelo trabalho do colorista Fernando Rodrigues, deixando os personagens quase sempre monocromáticos.

Enfim, essa adaptação de Triste fim de Policarpo Quaresma é razoável, mas foi boa para relembrar algumas passagens de um dos meus livros prediletos. Só recomendo para quem já leu o livro, gostou e, como eu, quer ter contato com a história novamente mas não tem tempo para ler o livro inteiro.

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Nova Califórnia em quadrinhos - Lima Barreto e Francisco Vilachã

Excelente conto de Lima Barreto que conta a história de uma pequena cidade virada ao avesso pela avareza de seus habitantes, "A Nova Califórnia" é mais uma adaptação para os quadrinhos de um clássico da literatura brasileira. A crítica social característica dos escritos de Lima Barreto se faz presente na análise de personagens, através da mesquinharia do povo, dos preconceitos com os que não seguem a linha oficial das coisas e novamente da questão do conhecimento ser tratado como uma propriedade de poucos privilegiados. Há quem diga até que se trata de um conto de ficção científica, o que não deixa de ser verdade. Uma pequena joia da nossa história literária, de fácil leitura e acesso.

Diferente do fraco trabalho em "O Cortiço", um texto muito denso e complexo para o reduzido espaço da publicação, desta vez o artista Francisco Vilachã, responsável tanto por desenhos como roteiro, acertou na medida. Por se tratar de um conto pequeno, o trabalho de transformar prosa em arte sequencial é mais simples, e o artista tem mais espaço para adaptar quase que integralmente todo o texto - e até sobra espaço para uma interpretação pessoal em alguns quadros. É justamente aí que encontra-se a qualidade de Francisco Vilachã, principalmente no roteiro bem elaborado, já que os desenhos não são grande coisa, mas servem bem para o propósito.

Após ler três volume da coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, avalio a média da série como boa, mas percebi muitos erros de português, como palavras escritas de forma errada e falta de crases (duas só neste volume), algo inadmissível numa coleção deste cunho. Não encontrei nenhuma referência a alguma atividade de revisão nos créditos, e caso haja uma nova edição, é imprescindível que ocorra este tipo de trabalho.

"A Nova Califórnia" em quadrinhos é uma boa adaptação e está recomendada, e quem se interessar em ler o texto original antes para comparar e comprovar sua qualidade, este conto e muitos outros da literatura brasileira em domínio público podem ser encontrados aqui.

Editora: Escala Educacional
Páginas: 48
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

terça-feira, 13 de abril de 2010

Memórias de um Sargento de Milícias em quadrinhos - Manuel Antonio de Almeida, Índigo e Bira Dantas

"Memórias de um Sargento de Milícias" é considerado uma ruptura da literatura brasileira com o romantismo cretino e idealista, e o precursor do realismo, por ser o primeiro romance de temática urbana, retratando os costumes e as situações cotidianas da época. Esta adaptação para os quadrinhos foi bem mais feliz do que a de "O Cortiço". O roteiro de Índigo foi mais bem elaborado, numa narrativa descontraída que possibilita o entendimento para quem não leu o livro - eu mesmo já havia lido há muito tempo, e não lembrava de nada. Os desenhos de Bira Dantas combinaram muito bem com a história do livro: traços arredondados ao estilo cartoon, para rimar com o tom humorístico de Manuel Antônio de Almeida, porém preenchidos com sombreados que tiram o excesso de limpeza deste tipo de estilo e dão um tom mais rústico, dando o clima certo de uma época passada.

A presente adaptação de "Memórias de um Sargento de Milícias" é bastante satisfatória, e além de possibilitar o contato mais fácil com este clássico da literatura brasileira, rende momentos de diversão e boas risadas. Que as outras adaptações em quadrinhos desta coleção dos clássicos da literatura brasileira sigam a boa qualidade desta. Aguardo o lançamento dos próximos volumes nas bancas (quem não mora no Rio pode adquirir qualquer volume diretamente nas livrarias, porém a um preço bem maior).

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Cortiço em quadrinhos - Aluísio Azevedo, Ronaldo Antonelli e Francisco Vilachã


"O Cortiço" foi um dos poucos livros de literatura brasileira que li durante a adolescência e realmente gostei. Todo aquele realismo, cheio de sexo e violência, deixando de lado toda aquela merda romântica e retratando a realidade miserável brasileira, lá pelos meus quinze anos aquilo foi a única coisa que conseguiu atrair meu interesse pelos livros "sérios". Por outro lado, a grande maioria que fui obrigado a ler me tirou o interesse em literatura brasileira por anos, e tenho certeza que promoveu o ódio incondicional à leitura em geral para sempre em muitos estudantes.

Encarei com muita simpatia a chegada às bancas da coleção da editora Escala de literatura brasileira em quadrinhos, pois é uma ótima chance para a garotada conhecer os marcos da cultura brasileira sem aprender a odiá-los - e também para marmanjos como eu que, não fosse isso, nunca voltariam a ler os tais clássicos. Ademais, está sendo uma chance de revisitar alguns dos clássicos que cheguei a ler, a começar pelo Cortiço.

Apesar da esperança depositada nessa inovação, este primeiro volume da coleção que peguei para ler foi uma decepção. Um recurso inteligente que foi desperdiçado por falta de qualidade na produção. Os desenhos de Francisco Vilachã (um dos idealizadores do projeto todo, méritos por isso) são monótonos, repetitivos, e em diversos momentos o leitor não reconhece ou confunde personagens que não apresentam diferenças físicas marcantes. O roteiro adaptado de Ronaldo Antonelli é embolado, muito corrido, e imagino que quem não leu o livro - ou que leu há muito tempo, como eu - vai se perder e perder o interesse logo. Me parece que os autores se preocuparam muito em apresentar todo o conteúdo no número limitado de páginas disponíveis e se esqueceram que os quadrinhos, antes de tudo, são arte sequencial, e não simplesmente uma narração ilustrada, como ocorre nesta versão da obra de Aluísio de Azevedo.

Dando uma olhada nos outros volumes da coleção que já foram lançados, deu para perceber que apresentam bastantes diferenças, e espero que não sejam tão decepcionantes como esta adaptação de "O Cortiço", pelo bem da literatura brasileira e pelo nome dos quadrinhos nacionais.

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

sexta-feira, 26 de março de 2010

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Eu sempre me senti meio envergonhado de conhecer tantos livros, de diversos gêneros, mas ignorar quase completamente os clássicos da literatura brasileira. Até li meia dúzia na escola, alguns ótimos, como "Noite na Taverna" e "O Cortiço", outros terríveis, como qualquer um do José de Alencar, mas a partir do momento que não tinha mais que ler por obrigação, dediquei meu tempo de leitura a outros interesses, e todos esses anos eu ficava, "pô, tenho que tirar um tempo para conhecer Machado de Assis e tal...", mas sempre deixava para depois.

Aí veio essa promoção do Extra da literatura brasileira em quadrinhos, eu comprei o primeiro volume e me senti meio patético em ler as histórias em quadrinhos sem conhecer a obra original, então tirei da estante "Triste Fim de Policarpo Quaresma", depois de mais de uma década intocado. Agradeço muito ao Extra pela promoção, pois se não fosse este estímulo, talvez eu nunca tivesse lido esta excelente história.

Policarpo Quaresma, um dos melhores personagens de romance que já conheci, era um pacato cidadão do Rio de Janeiro dos primeiros anos da república, funcionário público com hábitos estritos, solteirão que vivia com a irmã, mas apaixonado defensor do Brasil em todos os aspectos. Sua inquietude em relação à potencialidade não explorada de seu país o leva à ação radical, primeiramente no aspectos cultural - quando é dado como louco e é internado num hospício -, depois na vida econômica - acabando falido e vencido pela estrutura político-econômica de depreciação do pequeno produtor - e finalmente na política, onde encontra seu triste fim.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é uma história divertida, leve, muito por causa da recusa de Lima Barreto em utilizar a linguagem rebuscada em voga na literatura brasileira do início do século XX, mas principalmente devido às situações cômicas em boa parte do livro, a começar pelos personagens, todos eles muito medíocres: o general que nunca foi à guerra, o contra-almirante a quem foi dado o comando de um navio inexistente, e até mesmo o próprio Quaresma e sua paixão cega pelo Brasil, um dos poucos personagens que o leitor pelo menos tem simpatia por causa de sua inocência e bom coração (o outro é um violeiro que busca as raízes da música brasileira, e atende pela fantástica alcunha "Ricardo Coração dos Outros").

Outro personagem muito medíocre utilizado por Lima Barreto para desnudar a sociedade brasileira da época é um médico que possuía uma biblioteca exemplar, mas nunca conseguia ler mais do que cinco páginas de cada livro, pois dormia, e ao produzir artigos, "escrevia de modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por melestar, ao redor por rededor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral". Um deboche com os intelectuais da época que insistiam na pompa literária, mas também há uma crítica à elitização do conhecimento, pois fica claro que ao doutor era cabível uma biblioteca, mas a loucura de Policarpo Quaresma, que não tinha título acadêmico, é atribuída por outros personagens ao seu hábito de ler - um deles chega até a sugerir a proibição de livros para quem não tivesse título acadêmico.

O exame da loucura também não fica de fora da escrita de Lima Barreto, tanto na figura de Quaresma como na da menina que enlouquece porque é iludida durante cinco anos pelo noivo e depois é abandonada - fica bem sugestivo que o problema não foi a perda de um amor, mas sim da possibilidade de casar para cumprir seu papel social. Lima Barreto teve o pai internado num hospício, o mesmo acontecendo com ele anos depois, num hospício onde hoje se localiza a faculdade na qual me formei. Aliás, este foi outro aspecto que despertou demais o meu interesse nessa leitura: a apresentação do passado de muitas partes do Rio de Janeiro onde nasci e fui criado, tendo sido o próprio livro escrito na minha vizinhança.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é daqueles clássicos que não se lê porque é clássico, mas sim pela criatividade, beleza, qualidade da escrita, e por ser acima de tudo uma ótima história. Seguindo a sequência para acompanhar a coleção do Extra, vou atrás de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e alguns contos de Machado de Assis e Lima Barreto, na medida do possível entre tantas outras leituras e a vida real, e tentarei escrever sobre eles aqui também, além das próprias adaptações para os quadrinhos.

Editora: várias (várias mesmo, talvez mais de 20)
Páginas: variável
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Audiolivro


sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Quarup - Antônio Callado



Quarup é mais um grande clássico da literatura que tentei ler durante este ano cheio de descobertas literárias. Influenciado pelos elogios a este livro de Antônio Callado, peguei-o na biblioteca da escola onde trabalho para verificar se realmente era isso tudo que os outros falam. Mais uma vez me dei mal em cair na propaganda da “alta literatura”. Pode-se argumentar que Quarup é sofisticado, a escrita de Antônio Callado é fina e muito bem trabalhada e que o tema histórico explorado é bastante interessante. Não me oponho a nenhuma das defesas expostas acima, mas... precisava ser tão chato?

A trama do livro se inicia no final do governo Vargas, pouco antes de seu suicídio, e se estende até a ditadura militar. O personagem principal é Nando, um jovem padre pernambucano que sonha em construir uma sociedade indígena baseada nas missões jesuíticas do século XVIII no interior do país, mas com o passar do tempo suas vivências e o contato com a sociedade da capital lhe desiludem e ele vai largando seus ideais e se torna um novo homem.

O pano de fundo não é original (um padre que larga a batina, essa é velha), mas a ligação com a história do Brasil é bem feita e a forma de escrever de Callado é muito bonita, mas teria um efeito mais positivo se o tamanho da história fosse menor. O autor enrola muito, tornando bem difícil a leitura das 601 páginas desta obra clássica. Em alguns trechos, com a boa intenção de passar ao leitor o caos e a velocidade do pensamento dos personagens, o autor alarga um mesmo parágrafo em até cinco páginas! Boa idéia de Antônio Callado, só falta agora algum outro escritor aprimorá-la para não encher tanto o saco de seus leitores. Nem as tantas passagens de sexo e drogas (ainda não tinha rock´n´roll naquela época) são suficientes para amenizar a exaustão mental causada por esta leitura.

Não agüentei ler todo o livro, cheguei até a metade com a sensação de que as coisas não aconteciam e eu estava perdendo meu tempo de outras boas leituras. Minha curiosidade em saber como terminava a história não foi maior que meu tédio, mas graças à uma pesquisa rápida na internet pude dar um ponto final a esta questão e agora tenho uma certeza: Antônio Callado nunca mais!

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 601 (se você agüentar até o final)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *