sábado, 18 de dezembro de 2010

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos - Harvey Pekar e Robert Crumb


No meio do ano, coloquei uma nota aqui no blog sobre Harvey Pekar, monstro dos quadrinhos que faleceu na ocasião, mas fiquei devendo uma resenha sobre algum de seus trabalhos. Pago a dívida agora com a resenha de Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos, uma coletânea de trabalhos escritos por ele e desenhados por Robert Crumb, seu principal parceiro.

Harvey Pekar era um funcionário público sem nenhuma expressão, arquivista de hospital, na entediante cidade de Cleveland. Não viajava para lugares exóticos ou perseguia bandidos armados ou qualquer outro tipo de atividade emocionante, apenas colecionava compulsivamente discos de jazz, mas foi justamente escrevendo sobre seu cotidiano que revolucionou os quadrinhos underground americanos. E o que pode haver de interessante no cotidiano de alguém assim? Conversas com colegas de trabalho, esperas em filas de supermercado atrás de velhinhas chatas, tentativas de vendas de discos antigos para comprar outros... Nos fatos em si não há nada que não ocorra na vida de qualquer cidadão, mas o talento de Harvey Pekar em transformar esses momentos triviais em histórias divertidas e envolventes faz o diferencial.

Tudo começou na década de 60, quando Harvey conheceu Crumb por causa de seus gostos musicais semelhantes, e alguns anos depois a parceria teve início. Fazendo seus roteiros com bonecos de palitinhos desenhados em guardanapos, Harvey Pekar logo se tornou um ícone entre os fãs de quadrinhos underground, e suas histórias, desenhadas por diversos artistas desde a década de 70 até 2008 eram apresentadas na revista American Splendor - que, por ser publicada geralmente uma vez ao ano, teve apenas 39 edições. Inicialmente, American Splendor tinha sua publicação bancada pelo próprio autor, mas a partir da década de 90 passou a ser publicada por grandes editoras, primeiro pela Dark Horse, depois pela Vertigo, o que fatalmente fez com que perdesse o clima underground.

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos reúne as histórias de American Splendor que foram desenhadas por Robert Crumb, o mais famoso artista que passou pela revista (que vocês já devem conhecer de tanto eu falar sobre ele aqui). É praticamente o único trabalho de Harvey Pekar publicado no Brasil, já que a outra única publicação de American Splendor aqui no Brasil foi na revista Piratas do Tietê, de Laerte, traduzido e adaptado por ele mesmo sem autorização do autor, como o desenhista brasileiro conta no prefácio do livro. O título da edição brasileira pegou carona na tradução do título do ótimo filme American Splendor (chamado no Brasil de "O Anti-Herói Americano"), que conta a história por trás da criação deste marco da cultura alternativa. Tanto a HQ quanto o filme são fundamentais.

Editora: Conrad
Páginas: 100
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Utilidade pública

Listas dos deputados que votaram o aumento dos próprios salários para 26 mil reais.

Por estado e por partido.

Divulgue!

domingo, 28 de novembro de 2010

Memórias de Adriano - Marguerite Yourcenar

A fascinante história do Império Romano começa com Otávio Augusto, no século I a.C., um dos imperadores mais estáveis, que governou por cerca de 40 anos. Após sua morte, Roma teve imperadores de todos os tipos, desde competentes administradores, como o primeiro, a loucos, usurpadores, paranoicos e irresponsáveis que eram assassinados poucos meses após serem coroados. A lista de imperadores durante a história de Roma é muito extensa, tendo governantes para todos os gostos, e Marguerite Yourcenar, escritora belga educada impecavelmente à maneira clássica (aprendeu latim e grego na infância), utilizou um dos mais bem sucedidos imperadores romanos para criar uma autobiografia fictícia em Memórias de Adriano, seu livro mais famoso e que a levou ao estrelato literário.

Adriano foi um dos chamados "cinco bons imperadores", a era mais gloriosa do império, durante a qual Roma era senhora absoluta e estável de todo o Mediterrâneo, sem riscos de ataques sérios aos seus domínios, e mais nenhuma guerra de expansão sobre outros povos. O imperador Trajano foi o último a conquistar territórios para Roma, situação que Adriano, seu sucessor, não via com bons olhos (pois esses territórios só seriam mantidos com esforços desnecessários), e logo que chegou ao poder tratou de negociar e devolver áreas instáveis, mantendo então a estabilidade conhecida como pax romana. Adraino governou durante 21 anos nessa Era de Ouro, e no livro de Marguerite Yourcenar ele aparece já no final da vida, escrevendo uma longa carta para seu sucessor, Marco Aurélio, onde conta sua vida inteira e orienta o futuro imperador. Nesta carta, Adriano aborda tanto assuntos de Estado (as negociações no Oriente, a guerra contra os judeus) como suas intimidades (sobretudo seu amor por um rapaz chamado Antínoo).

Memórias de Adriano é um livro em primeira pessoa de um homem escrito de forma impecável por uma mulher, tarefa em si difícil, e apresenta muita beleza em diversas passagens, todas cuidadosamente criadas, já que demorou cerca de três décadas para ser concluído, tendo diversas versões preliminares destruídas pela autora (em certo momento de suas anotações, ela escreve: "Projeto abandonado de 1939 a 1948. Pensava nele por vezes, mas com desânimo, quase com indiferença, como no impossível. E quase me envergonhava de ter algum dia tentado semelhante coisa). Mas por que não ter utilizado uma personagem feminina próxima de Adriano para contar sua vida? A autora justifica nas anotações ao final do livro: "Impossibilitada também de tomar como personagem central uma figura feminina, de dar, por exemplo, como eixo à minha narrativa Plotina em lugar de Adriano. A vida das mulheres é demasiado limitada, ou demasiado secreta. Basta que uma mulher narre sua história e a primeira censura que lhe será feita é a de deixar de ser mulher. Já é bastante difícil colocar qualquer verdade na boca de um homem".

Contudo, parece-me que houve uma identificação da autora com a pessoa de Adriano suficiente ao ponto de diferenças sexuais não serem empecilho para uma autobiografia fictícia nesse sentido. Não que seja uma autobiografia da autora nas palavras de um personagem histórico, o que ela própria nega veementemente, mas uma pessoa com uma educação tão refinada não poderia deixar de se identificar com um imperador que tinha tanta afinidade com a cultura de seu tempo, sobretudo a grega. Uma frase muito marcante no livro diz tudo: "O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos: minhas primeiras pátrias foram os livros".

Prova da erudição de Marguerite Yourcenar é o conhecimento profundo de tudo o que é tratado no livro, ou seja, a narração em primeira pessoa é perfeitamente realista, pois todos os assuntos são abordados com a naturalidade de alguém que vivia na época: nomes de povos, geografia, pessoas, etc. Para isso, a autora se escorou em ampla pesquisa durante todas as décadas da produção do livro, o ao final constam referências bibliográficas específicas, ao ponto de conter livros até sobre numismática romana.

Memórias de Adriano é um livro sem falhas, envolvente e de escrita superior, e não por acaso tornou Marguerite Yourcenar a primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa de Letras. Para mim foi muito bom, mas acho que o leitor que não tiver interesse na história de Roma não terá paciência para os longos trechos de divagações filosóficas ou de descrições históricas. Para quem tem esse tipo de interesse ou quer ler um livro essencial entre os grande clássicos, eu recomendo.

Editora: Saraiva
Páginas: 320
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Rio Comicon 2010

Terminou ontem a Rio Comicon 2010, um evento internacional de quadrinhos que trouxe gente importante como Milo Manara, Mellinda Gebbie e Kevin O`Neill, além dos maiores quadrinistas brasileiros - Ziraldo, Angeli, OTA, etc. Fui dar uma conferida no sábado, com minha irmã mais nova.
Justificar
O local já foi muito mal escolhido - uma estação de trem desativada e abandonada numa área suja e não muito bem frequentada do Rio, que recentemente vem recebendo este tipo de tentativas de revitalização. Havia atrações noturnas, como as palestras, mas nem considerei acompanhar, pois seria inviável sair desse lugar de ônibus à noite com uma criança (de qualquer forma, é inviável voltar para casa à noite de ônibus no Rio se não for em regiões muito movimentadas da zona sul). A área interna da Estação da Leopoldina também não me pareceu muito adequada, pequena para a quantidade de gente que se acotovelava para conseguir um autógrafo. Sábado à tarde estava cheio demais até para conseguir alcançar algum estande de quadrinhos independentes, só dava para descansar um pouco sentando na beirada da antiga linha do trem ou nas carcaças dos veículos que lá permanecem até hoje.

O evento em si foi bom, porém direcionado para um público muito específico, o de fãs de quadrinhos alternativos, sobretudo a galera que toca fanzines. Alguns pais levaram seus filhos achando que seria um programa legal para eles (no meu caso, minha irmã), mas lá não havia nada de Turma da Mônica ou Super-Heróis. Quase todos os estandes eram de grupos de quadrinistas alternativos, e havia um único espaço de venda de quadrinhos mais conhecidos da Livraria da Travessa, que estava tão cheio ao ponto de os compradores terem que fazer fila para entrar. Fizeram falta grandes editoras de quadrinhos como a Devir e a Conrad, que geralmente fazem ótimas promoções em eventos como esse (e esse foi um dos motivos para que eu fosse no evento). Havia coisas legais para comprar nos estandes de fanzines - comprei um muito bom chamado Samba, depois escrevo sobre ele aqui -, mas não o suficiente.

Eventos como esse são bons para mobilizar o movimento dos quadrinhos no Brasil, mas sendo direcionados para um público específico dessa forma e sem contar com atrativos de maior apelo ao grande público, perdem uma grande oportunidade de popularizar e expandir um mercado que está aí disponível, em cada criança de 8 a 80 anos. Os eventos anuais de animes em São Paulo, como o Anime Dreams (janeiro) e o Anime Friends (julho) com suas dezenas de estandes de produtos em promoção, shows de bandas de rock, sessões de jogos de rpg, luta de espada e pessoas fantasiadas por todos os lados são muito mais divertidos e atraentes. Não deixam de ter suas atrações específicas para fãs radicais, como palestras com dubladores japoneses de desenhos obscuros, mas qualquer um que não tenha esse tipo de conhecimento canônico pode passar um dia inteiro se divertindo lá, o que não aconteceu no Rio Comicon 2010: fiquei pouco mais de meia hora com minha irmã, já que ela não tinha nada o que fazer e nem paciência para ficar em intermináveis filas atrás de autores de quem ela nunca ouviu falar.


Espaço Milo Manara.



Paineis.


Milo Manara autografando (pouco simpático).




Gabriel Bá, Fábio Moon e Rafael Grampá.


Laerte, com seu habitual traje feminino, e o gente-boa Angeli.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A Sombra de Heidegger - José Pablo Feinmann

Em 1933, Hitler chegou ao poder na Alemanha com amplo apoio popular e intelectual (quer dizer, dos intelectuais que não estavam mortos, exilados ou aterrorizados em silêncio), tendo como entusiasta crucial (e surpreendente) Martin Heidegger, talvez o filósofo mais importante do século XX. Neste mesmo ano, o ídolo maior do pensamento alemão vivo naquele tempo aderiu integralmente ao nazismo - visto por ele como a única solução para a situação alemã -, tornou-se reitor da universidade de Freiburg e proferiu um discurso avassalador conclamando a intelectualidade de seu país a seguir seus passos. Meses depois, ciente da perseguição a professores judeus, abandonou o cargo, mas sua forte influência já havia tocado a mente de milhões de alemães que aderiram à loucura coletiva que desencadeou a II Guerra Mundial.

Aproveitando este ótimo cenário histórico, José Pablo Feinmann juntou personagens reais e ficcionais para discutir a relação entre filosofia e política em "A Sombra de Heidegger". O filósofo Dieter Müller narra, através de uma carta a seu filho, os acontecimentos que determinaram sua adesão ao partido nazista sob influência de seu mestre Heidegger e seu posterior arrependimento e exílio na Argentina, onde vive Martin Müller, o filho batizado em homenagem ao mestre. A segunda parte do livro é narrada pelo próprio Martin Müller através de suas impressões sobre a história do pai. Ambas narrações em primeira pessoa, diferem-se pelo estilo e linguajar de gerações diferentes criadas em países distintos.

"A Sombra de Heidegger" é um livro bastante interessante, ao mesmo tempo um passeio pela filosofia de Heidegger e de boa parte dos séculos XIX e XX e um julgamento histórico sobre a controversa adesão do filósofo ao nazismo. Algumas pessoas que tiveram relação direta com Heidegger estão representadas no livro, como Hannah Arendt e Jean-Paul Sarte, e muitas ideias filosóficas são discutidas, como as de Nietzsche, Marx e Hegel, portanto é bom ter noções básicas de história da filosofia antes de começar essa leitura, mas creio que pessoas sem nenhum conhecimento na área não serão impedidas de entender a história, apenas aproveitarão menos, da mesma forma que alguém com conhecimentos básicos deve aproveitar menos que um doutor em metafísica. Independente do nível de conhecimento filosófico do leitor, é certo que, para quem gostar do livro, surgirá naturalmente após a última página um estímulo e interesse para conhecer melhor a filosofia.

José Pablo Feinmann é um filósofo argentino que, além de romances filosóficos, escreve livros de filosofia propriamente dita e dá cursos. Alguns personagens de outros de seus romances aparecem nesse.

Editora: Planeta
Páginas: 197
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sábado, 30 de outubro de 2010

1001 Livros para ler antes de morrer

JustificarO livro que faltava aqui no blog, na minha estante, enfim, no cotidiano de qualquer um que gosta de ler. Seguindo o padrão da série "1001", este volume segue uma linha cronológica dividida em quatro partes:

- Antes de 1800, que gasta não mais do que 60 páginas com uma época em que a literatura se desenvolvia lentamente, começando por "1001 noites", que faz um inevitável trocadilho com o título. Dos poucos livros considerados dignos de entrar nessa lista inicial, há coisas obscuras, como histórias da China e do Japão medievais, porém há também clássicos absolutos, como Voltaire, Sade, Cervantes e Goethe.

- Anos 1800, quando o bicho começa a pegar. Aqui passamos a falar dos monstros da literatura, aqueles clássicos irrefutáveis para os críticos literários que praticamente fundaram a literatura moderna, alguns realmente indispensáveis, como Vitor Hugo, Julio Verne e Émile Zola, ao lado de outros que ninguém tem coragem de tirar de uma lista dessas, mas que nada mais são do que leituras anacrônicas e chatíssimas, que só permanecem nas estantes por consideração à linha evolutiva da literatura. Aí eu colocaria o morno Charles Dickens e os insuportáveis Stendhal e José de Alencar. Digamos que metade das páginas dessa parte despertam meu interesse, até porque entendo que ainda falta muita coisa dessa época para eu conhecer, como os grandes autores russos, por exemplo.

- Anos 1900. Meu interesse sério começa aqui, onde estão 90% dos autores que revolucionaram minha vida e tornam minha realidade mais suportável. Estamos falando de um tempo onde o mundo virou de cabeça para baixo como nunca antes desde a queda do Império Romano, um tempo de violência ao extremo e loucura caminhando lado a lado com progresso científico e tecnologia de ponta, no qual as pessoas comuns olham a sua volta e simplesmente não sabem o que fazer ou pensar sobre isso - mas Eles sabem. Estamos falando de Kafka, Henry Miller, Huxley, Hemingway, Fitzgerald, Lima Barreto, Sartre, Orwell, Borges... Sei lá, nem consigo classificar direito esses caras, tanto que pouco escrevo nesse blog sobre alguns deles, só sei que se eu não os conhecesse ou fosse impedido de conviver com eles, teria menos alguns motivos para continuar vivo. Ao lado dessas feras, muita coisa que não conheço ainda e que me foram apresentadas por este livro, muita coisa aparentemente do mesmo naipe dos meus autores prediletos, e que já comecei a correr atrás para conferir.

- Anos 2000, onde estão as novidades literárias do nosso tempo, as quais conheço muito pouco - dos cerca de 50 livros listados, li apenas um. Não é preconceito por obras novas ou saudosismo pelo tempo que não vivi, simplesmente não tinha informações seguras sobre o que ler - mas agora tenho, e já posso me aventurar na literatura de hoje em dia. O que dá para perceber é que nesse período, a literatura abre-se cada vez mais para autores de culturas diferentes, e que a literatura deixa cada vez mais o centro ocidental. Também é notável o aumento do número de autoras, num mercado antes sufocante de tanto testosterona. Eu, como incansável defensor das mulheres, sinto-me meio envergonhado de não conhecer muitas autoras, portanto surge aí a chance de superar essa grave deficiência literária.

"1001 livros para ler antes de morrer" segue a mesma linha dos outros da série, com os mesmos méritos e problemas. E um livro viciante, dentro do qual você pode passar horas sem conseguir voltar para o mundo real, lendo a resenha de livros que já passaram pela sua vida ou descobrindo novos desejos de consumo literário. Por outro lado, numa lista tão extensa, há sempre aqueles livros ruins que você vai se revoltar por estarem ali, como omissões de livros que para você são os melhores de todos os tempos. No meu caso, o mais incompreensível foi a falta dos livros de Homero, talvez porque originalmente era um poema, mas acredito que a questão foi utilizar as "1001 noites" para iniciar o livro sem perder o trocadilho, excluindo assim tudo que veio antes de 850. Ao ler "1001 discos" e "1001 filmes" senti a mesma coisa - como é que podem colocar Britney Spears no lugar de Laughing Clowns?

Outra coisa legal nessa coleção é a questão das capas, que mudam a cada edição. A edição que tenho de "1001 discos" tem como capa uma maravilhosa foto de Sid Vicious, e já vi uma edição importada com um close do lindo rosto da Debbie Harry. "1001 filmes" tem capas melhores ainda, como a expressão maníaca de Jack Nicholson em "O Iluminado", o pavor da cena clássica de "Psicose", Samuel L. Jackson empunhando uma pistola em "Pulp Fiction", Darth Vader (bem, é o Darth Vader, não preciso dizer mais nada), e até novidades como Avatar e o Coringa de Heath Ledger, o que mostra que as edições vão sendo atualizadas a cada ano. A edição que tenho não podia ter uma capa melhor para mim: Harrison Ford, o herói absoluto da década de 80, como Indiana Jones. Em algumas edições, a editora coloca uma capa genérica, como alguém ouvindo música ou lendo um livro, o que acho meio sem graça. Infelizmente esta primeira edição brasileira de "1001 livros" tem uma dessas capas, uma estante cheia de lombadas dos livros abordados, mas já vi boas capas de edições do exterior, como Laranja Mecânica e American Psycho.

Um grave problema que detectei neste livro foi que, em algumas resenhas, o autor conta muito do enredo, talvez até o final, e isso não é coisa que se faça em lugar nenhum do mundo! De qualquer forma, "1001 livros" é fantástico e essencial para leitores de qualquer gosto, assim como outros da coleção. Outros que quero ter aqui na minha estante são "1001 maravilhas naturais para visitar antes de morrer" e "1001 dias que abalaram o mundo", além de "501 grandes artistas" e "501 grandes escritores", que deve ser um simples mais do mesmo de "1001 livros". Já existem também no Brasil "1001 vinhos", que não tenho nenhum interesse porque não aguento essa chatice de enomodinha, e "1001 comidas", que tem na capa uma foto de um crustáceo que automaticamente repele um vegetariano como eu. No exterior já saiu um que parece ser muito divertido, chamado "1001 livros infantis para ler antes de crescer", mas também existe todo o tipo de apelação, como "1001 buracos de golf para acertar antes de morrer" (duvida? veja você mesmo no site da editora).

domingo, 24 de outubro de 2010

Os Segredos do Nazismo - Sérgio Pereira Couto

JustificarA maioria das compras de livros que faço hoje em dia ocorrem pela internet, por comodidade e principalmente pelas promoções que não são encontradas nas lojas físicas, sobretudo nessas épocas de estiagem comercial como agora que ainda não começou a febre consumista do natal. Durante minha última sessão de realizações de pequenos prazeres no site de uma dessas livrarias, me deparei com um livrinho intitulado "Os Segredos do Nazismo", de Sérgio Pereira Couto, de quem eu nunca havia ouvido falar, pelo ridículo valor de R$ 3,50 - o preço cheio era R$ 19,90. É óbvio para quase todo mundo que qualquer produto com um desconto tão acentuado como esse gera logo suspeitas sobre sua qualidade, mas por esse preço resolvi arriscar, o tema me pareceu interessante, mesmo que o subtítulo "Origem, Filosofia, História, Influência, Simbologia" indicasse algo vasto demais para a quantidade de páginas - tratando-se, obviamente, de um livro bastante introdutório, mas como sou professor, às vezes este tipo de material tem utilidade para mim.

Uma desvantagem em compras pela internet é não poder folhear e ler a orelha ou o prefácio do livro. No presente caso eu poderia ter lido, por exemplo, que o autor é um jornalista que já escreveu outros livros como "A Verdade sobre o Código Da Vinci", "Decifrando a Fortaleza Digital" ou "Os Heróis de Esparta", e isso teria me estimulado a não comprar um livro de um autor tão "generalista" como este - como leitor, gosto de ler e aprender um pouco sobre tudo, mas sinto mais confiança em escritores ao inverso disso, ou seja, que escrevem tudo sobre um pouco. Além disso, acho deprimente que alguém baseie seu trabalho no sucesso alheio e utilize isso com fins estritamente comerciais, como os títulos acima indicam (os livros de Dan Brown e o filme "300").

Isso já seria suficiente para largar o livro na prateleira e folhear outro, mas caso ainda houvesse alguma dúvida, eu poderia abri-lo e ler a introdução. Assim eu teria mais um motivo para abandoná-lo após o seguinte parágrafo: "Esse é o segredo do pensamento nazista: a distorção de ideias místicas e esotéricas retiradas de fontes antigas. Por isso é necessário conhecer essas influências e analisar o que gerou o distorcido regime nazista. A história tende a se repetir (grifo meu, boquiaberto), e evitar a ascensão de outros regimes como o da Alemanha dos anos 1940 é extremamente necessário, ainda mais no muno moderno".

Depois dessa, não teria mais motivo algum para continuar com o livro em mãos, mas como já estava aqui em casa mesmo, não custava nada passar rapidamente por breves capítulos como "Discos Voadores Nazistas", "Nazis no Tibete", "O Lado Esotérico da SS" e algo que relacionava o Santo Graal à turma de Hitler. O que pude notar então foi uma péssima escrita e uma pesquisa amplamente baseada em páginas de internet, já que não há nenhum tipo de referência bibliográfica, enquanto os endereços eletrônicos estão esplhados entre todo o texto. Também não há uma linha condutora, sem relação entre os capítulos e sequer uma conclusão ao final. Parece várias reportagens de revistas do tipo Superinteressante reunidas caoticamente.

Em suma, o livro é ruim demais, e mesmo que fosse bom, não tenho nenhum interesse nessas teorias conspiratórias e nesse tipo de "segredo". Como não pude folhear previamente, comprei achando que seria outra coisa, algo mais historiograficamente sério, ou pelo menos didático. Para mim, não valeu nem os R$ 3,50, e nem tenho coragem de dar de presente para ninguém, mas se você acha legal esse tipo de publicação, é por sua conta e risco.

Editora: Universo dos Livros
Páginas: 127
Disponibilidade: normal
Avaliação: zero!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Solaris - Stanislaw Lem

No futuro, entre as inúmeras conquistas espaciais da humanidade está a descoberta do planeta Solaris, desabitado e cuja superfície é um oceano. Seria apenas um entre tantos planetas prestes a ser estudado e desvendado pela mente humana, porém o fato de Solaris resistir a forças que naturalmente teriam provocado sua destruição leva a um impasse entre os cientistas. Existe uma única estação de estudos em Solaris, e mesmo após décadas de estudos, ninguém consegue sequer uma teoria amplamente aceita sobre o segredo do planeta: o oceano seria um ser vivo, inetligente, capaz de determinar sua rota no cosmo e evitar sua destruição?

O problema de Solaris seria menor se não houvesse tantas dificuldades nas tentativas de estudos in loco. Desde o princípio ocorreram acontecimentos estranhos, comportamentos dúbios de profissionais experientes que viveram na estação e alguns acidentes trágicos. Em determinado momento, Kris Kelvin, um cientista e psicólogo especialista em solarística, é enviado para o planeta a fim de auxiliar três pesquisadores que lá permanecem em missão, Snow, Sartorius e Gibarian, aparentemente afetados pela atmosfera venenosa do planeta. Assim começa Solaris, num clima de terror psicológico ao estilo Alien, num local bem distante do conforto da Terra, claustrofóbico e sem saída como a Nostromo daquele filme, mas pelo menos nesse caso o espectador sabe o que é que se esconde nos cantos mal iluminados. Em Solaris não, e isso me causou medo e até um pesadelo durante a leitura.

Apesar de todo esse clima do início, Solaris não é um livro propriamente de terror, mas a atmosfera sombria ajudar a manter no leitor o estado de espírito que o autor tramou para seu protagonista, alguém que chega numa estação num planeta enigmático e nada encontra além de um ambiente desorganizado e pessoas reclusas aparentemente loucas. É uma ficção científica, podendo até ser classificada como hard - livros onde o autor explora profundamente aspectos técnicos da ciência, ao contrário das ficções científicas soft, nas quais as divagações sobre aspectos sociais são mais proeminentes -, mas não é aí que Solaris foca. Stanislaw Lem diferencia sua obra ao lidar sobretudo com o ser humano, orgulhoso porém ridiculamente fraco diante de problemas insolúveis, tanto na ciência como em sua própria mente.

Tentando cumprir sua missão, Kelvin passa a confrontar fantasmas - reais ou ilusões? -, bem como os outros pesquisadores, numa jornada de desconfianças, vilipêndio, vergonha, culpa e aceitação. Solaris e a solarística são explicados ao longo do livro, durante os raciocínios de Kelvin na tentativa de solucionar o misterioso planeta, com tantos detalhes nas citações de obras e estudiosos do tema que parece uma área de conhecimento realmente existente. A escrita de Stanislaw Lem é diferenciada num gênero onde a imaginação se sobrepõe à qualidade da prosa descritiva, e a divagação psicológica é marcante, às vezes de forma sutil, como na apresentação de remorsos sexuais. Solaris é soberbo e essencial, e me estimula a ler outras obras deste grande autor.

Stanislaw Lem (1921-2006) era polonês, e procurava fazer uma ficção científica bem diferente da americana, a qual criticava sem trégua como escrita sem qualidade cheia de clichês. Por este motivo - e por suas constantes controvérsias com outros autores mais populares - demorou a ser aceito no mundo da ficção científica ocidental (já era o mais famoso no mundo socialista), mas posteriormente se tornou um dos autores mais lidos de todos os tempos. Solaris é seu livro mais famoso, e em 1972 foi lançado um filme soviético inspirado na obra - inspirado, pois é uma versão bem pessoal do diretor Andrei Tarkovsky, com bastantes diferenças em relação ao livro, porém nem por isso deixa de ser uma bela película. Há uma refilmagem americana de 2002, com George Clooney, que ignoro e não faço questão de conhecer.

Editora: várias
Páginas: cerca de 220
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

Livro Digital


terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Homem Invisível - H.G. Wells


O que você faria se pudesse tornar-se invisível? Pode parecer uma questão tola, uma fantasia infantil, mas na verdade é um ponto filosófico interessante, abordado já por Platão em A República, sobre o que o poder pode fazer com a integridade moral dos homens - o mito do anel de Giges, no qual um pastor descobre um anel que o torna invisível, e em posse deste poder, toma o lugar do rei. Baseado nesta reflexão do filósofo grego, Herbert George Wells desenvolveu O Homem Invisível, uma ficção que, além de discutir este aspecto moral, apresentou para os leitores do século XIX questões científicas muito interessantes, que não perderam seu encanto para mentes do século XXI - Que bases físicas permitiriam a invisibilidade? Qual seria a reação de um cachorro frente a um homem invisível? O que aconteceria se este homem engolisse algo ou derramasse alguma substância sobre sua pele?

Ora, independente da moral da pessoa, qualquer um deve achar que seria fabuloso poder tornar-se invisível. Uma pessoa má certamente tentaria levar vantagens pessoais, como o pastor da história de Platão, e uma pessoa boa poderia tentar sanar males da sociedade e lutar pela justiça, como um super-herói, mas o fato é que em todas as histórias em que tal suposição foi abordada - desde Giges até O Senhor dos Anéis, outra cria de Platão -, a ideia era que o poder da invisibilidade fosse reversível, podendo seu possuidor voltar à forma visível e manter uma vida normal. O Homem Invisível de H.G. Wells diferencia-se de todos os outros pelo fato de não possuir essa faculdade. O cientista Griffin desenvolve uma fórmula que torna qualquer ser invisível e, vítima de seu próprio orgulho, utiliza o invento em si mesmo, mas não consegue voltar à sua antiga forma. Em princípio o cientista fica eufórico com todas as possibilidades abertas para si, mas com o tempo ele percebe os diversos empecilhos criados por causa de sua situação peculiar, levando-o à loucura. Desenvolve-se então uma trama com ingredientes de suspense, terror, ficção científica e até um pouco de humor, numa narração em terceira pessoa típica da literatura fantástica do século XIX, onde o autor coloca-se de certa forma como cúmplice do leitor, como se não fosse onisciente e tivesse o mesmo tipo de conhecimento dos outros personagens (visto no trecho "No correr da noite, possivelmente, comeu e dormiu"), o que talvez mexesse mais com a curiosidade dos leitores de então, assim como o uso de pontuações que excitassem sua imaginação ("Seriam passos o que ouvia atrás dele? Mais depressa!").

O Homem Invisível é um livro divertido, sem muita genialidade em seu roteiro, mas com o mérito da criação de uma fantasia original e intrigante até hoje. Imagine o homem invisível querendo ser visível para poder conviver com relativa normalidade com os outros - cobertura total de todas as partes de seu corpo, pois a menor brecha poderia expor sua invisibilidade e fazer com que as pessoas achassem que se tratava de um fantasma. Por outro lado, se ele quisesse aproveitar-se de sua condição, teria que andar totalmente nu, suportando o frio da Inglaterra, onde ocorre a história, e teria que tomar diversos cuidados, como não andar na chuva (já que a água formaria uma silhueta que o denunciaria). Toda essas divagações tornaram O Homem Invisível um clássico indispensável para os amantes da litertura fantástica, bem como H.G. Wells, ao lado de Júlio Verne, um dos pais da ficção científica. Além desse livro, Wells escreveu outros clássicos como A Máquina do Tempo e Guerra dos Mundos.

Editora: várias
Páginas: cerca de 200
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * *

Livro Digital

Nota: Existe um filme de 1992 chamado "Memórias de um Homem Invisível", com Chevy Chase, uma leitura moderna da obra, onde o protagonista é caçado pelo governo americano para se tornar um espião. Divertido.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Entradas e Bandeiras - Fernando Gabeira


Há dois anos, na reta final para as eleições municipais, encontrei e li por acaso O Crepúsculo do Macho, de Fernando Gabeira, então candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Por pura coincidência, nesta semana final de campanha para as eleições na qual Gabeira é candidato novamente, encontrei também por acaso o livro que segue o anterior, Entradas e Bandeiras. No mesmo estilo autobiográfico da série que começa com O que é isso, companheiro?, Entradas e Bandeiras fecha a trilogia contando sua volta ao Brasil após o longo exílio no exterior.

Em 1979, tendo ficado famoso por ter participado do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, Gabeira era tido como um símbolo da luta contra a ditadura, naquele momento em que a sociedade brasileira começava a sair do jugo dos militares e ansiava pela liberdade. Uma grande festa foi armada no aeroporto no momento de sua chegada, todos queriam uma palavra sua, uma atitude de um líder que guiasse as pessoas na direção da democracia. Entretanto, após dez anos de experiências em diversos países, em contato com novas ideias, Gabeira simplesmente estava em outra sintonia - situação já discutida em seu livro anterior -, mais preocupado com ambientalismo e opressão sexual do que com a luta da esquerda. "Entradas e Bandeiras" trata basicamente da relação de Gabeira com o Brasil e do Brasil com Gabeira: o homem, estrangeiro em seu próprio país, e o país decepcionado, mas ao mesmo tempo fascinado com a aquele estranho, se sentindo traído e atraído por ele.

Uma das passagens do livro remete a uma memória de sua infância, a história de um homem que foi à Lua, criando toda uma expectativa na população, mas quando voltou, simplesmente colocou um ovo. Uma situação ridícula, que reflete o que ocorria em sua vida: todos esperavam um guerrilheiro andando por aí com uma metralhadora na mão, mas o que se via era uma pessoa com roupas extravagantes, de sexualidade duvidosa, tendo largado o fumo e a bebida, mas abraçado de vez a maconha e a campanha pela sua legalização, comendo em restaurantes naturais ou tomando sol com sua controversa tanguinha no posto nove de Ipanema - que na verdade não era de crochê, explica o autor, mas pertencia sim à sua prima Leda Nagle. Isso tudo gerava um quadro muito ambíguo, sendo Gabeira odiado por diversos setores da direita e da esquerda, porém cada vez mais atraindo os holofotes para si, com requisições constantes de entrevistas e artigos e o sucesso do lançamento de seu primeiro livro. O que se percebe em Entradas e Bandeiras é um homem feliz, resolvido, disposto a agir como mais lhe conviesse e lhe fosse correto, sem se importar muito com a mentalidade tacanha da maioria dos brasileiros de então (não muito diferentes dos de hoje). Se em O Crepúsculo do Macho Gabeira parecia estar mudando, e talvez até sofrendo com isso, aqui ele já tinha escrachado de vez.

Entredas e Bandeiras é mais um ótimo livro de Fernando Gabeira, divertido, de escrita agradável, porém não sem recursos ou estilo, ao ponto de poder ser facilmente lido de uma vez só em algum dia livre. É um livro muito mais fácil que o anterior, com uma marcação temporal mais compreensível, passado em locais mais familiares à maioria dos leitores brasileiros, e abordando ideias e acontecimentos em vez de sentimentos. Mais leve e concreto, o relato de um perspicaz intérprete das situações absurdas da sociedade e uma clara indicação do porquê das seguidas derrotas de Gabeira nas eleições para cargos executivos, que dependem de votação muito expressiva: sem entrar aqui no mérito de propostas de campanha ou da trajetória política do candidato, o grosso do eleitorado brasileiro nunca vai compreender e aceitar ideias tão avançadas, mesmo que hoje em dia Gabeira não fique mais propagando-as por aí - pelo menos propositalmente, lembram-se da história da "mentalidade suburbana", na campanha de 2008? Por conta de suas posições revolucionárias, fosse com arma na mão, fumando maconha ou indo à praia de tanga feminina, enfim, tudo que foi escrito em O que é isso companheiro?, O Crespúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras, a pequenez da mentalidade brasileira sempre irá considerá-lo algo como viado, maconheiro ou sequestrador.

Editora: Codecri
Páginas: 208
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pedrita

Pedrita

(Uma despretensiosa crônica - ou conto - autobiográfica dirigida aos amigos, para que eu não tenha que contar a mesma história uma porção de vezes.)


Dor na região abdominal e lombar, irradiante até o testículo esquerdo. Aguda, quase insuportável, súbita, constante, sem que haja posição do corpo, movimento ou pressão localizada que tragam o menor alívio. Afirmado pela certeza do senso comum e suposto pelos urologistas como a pior dor que um ser humano pode sentir, como se duas mãos invisíveis fizessem um trabalho silencioso e contínuo: uma dentro do meu corpo, apertando e torcendo meus órgãos internos do lado esquerdo, enquanto a outra, um pouco mais abaixo e do lado de fora, soca repetitivamente meu testículo. Uma dor de intensidade tão abismal que estimula o estômago ao vômito, independente de quanto alimento esteja sendo digerido lá. Uma agressividade tão animalesca que o corpo reage com febre e a urina sai bem escura, misturada com bastante sangue. No meio de uma crise de cólica renal, tem início minha história com Pedrita, intensa, íntima e de difícil compreensão alheia, que durou apenas três dias.

Na verdade, Pedrita e eu já convivíamos há meses, mas eu só fui capaz de notá-la neste momento difícil, que começou numa manhã de domingo. Uma dor de baixa intensidade no testículo esquerdo, supus o mais óbvio, que tivesse ocorrido algum tipo de choque durante a noite sem que eu tivesse percebido. Caminhando na rua, a dor aumenta, paro e sento para almoçar, a dor aumenta, saio do restaurante e tento me acalmar andando um pouco mais, agora já com as pernas abertas, como alguém com assaduras na virilha, a dor não para de aumentar. Volto para casa, ninguém além dos bichos, que percebem algo errado, mas nada podem fazer. Deito na cama, me contorço gemendo, depois de todas as posições possíveis, paro finalmente na fetal, talvez por instinto, o que não faz diferença nenhuma. Não consigo pensar em nada que eu possa fazer sozinho. Descarto a idéia de choque noturno com o testículo, penso em apendicite, uma doença que apresenta sintomas parecidos e que, pelas histórias que já tinha ouvido, sempre temi, principalmente se fosse acometido por ela durante uma viagem para um lugar ermo – e agora, pensava eu, durante uma tarde sozinho em casa. Não consigo pensar direito, mas pelo que me lembrava das aulas de biologia na escola, o apêndice fica no lado direito. Ou seria o duodeno, ou o pâncreas, aquela estrutura amarela toda enrugada? Para que serve o duodeno? E a bílis, será que tinha alguma coisa a ver? Cólon? Havia lido recentemente também sobre um artista com a Doença de Crohn. Não consigo pensar direito. Pego o telefone e ligo para minha mãe, nefrologista, antes que ela possa fazer a primeira pergunta do diálogo (“tudo bem?”) pergunto onde fica o apêndice, ela confirma minhas suspeitas. Antes que eu possa perguntar sobre bílis, pâncreas ou Crohn, ela me pergunta sobre meus sintomas, e constata crise renal. Minha mulher vem chegando mais cedo do plantão no posto de saúde, cancelado graças a uma greve de médicos. Falo ao telefone que não posso buscá-la no ponto de ônibus, que ela pegue um táxi para casa o mais depressa possível, por conta de uma emergência médica, sem mais detalhes. Minutos depois, saio de casa carregado por ela, me escorando pelos cantos, vomitando o que ainda restava dentro do estômago, os cachorros assustados nem ousam pular em mim e lamber minha cara agora.

Chegamos ao hospital, entro amparado na emergência, passando a frente daquelas criancinhas com dor de garganta e daqueles atletas amadores com o tornozelo torcido, e sou colocado na cama. Um rapaz me faz algumas perguntas, arria minha bermuda, aperta meus testículos, me faz mais perguntas, pressiona vários pontos na minha barriga, isso tudo dói demais, até mesmo abrir a boca para responder às perguntas. Ouço “ok, pode levantar a bermuda”, espetam meu braço, a dor continua, mas eu paro de pensar...

Acordei no mesmo lugar, ainda doendo, porém bem pouquinho. Minha mulher estava lá, me explicando algumas coisas, quando entrou outro médico, urologista, também com idade próxima da minha, e também querendo mexer nos meus testículos. Depois disso, fui levado de cadeira de rodas para a sala de ultrassonografia, e lá deitei em outra cama e tive que abaixar a bermuda mais uma vez, para ter minha intimidade invadida pelo terceiro médico da tarde. Ele disse: “Segura o p...” – parando no p de “peru”, ou “pau”, para depois reiniciar a palavra – “...pênis para cima, por favor”, e derramou um gel sobre minha região genital. Ficou alguns minutos passando o aparelho sobre meus testículos, espalhando aqueles gel e lambuzando tudo em volta – pênis, virilha, coxa, pelos –, para finalizar jogando algumas folhas de papel em cima de mim para que eu me limpasse e repetindo a sentença padrão: “Pode levantar a bermuda”. O ultrassom não constatou nada de errado com meu testículo, então fui mandado para a sala de raio X, onde foi feito mais um exame, mas pelo menos ninguém mexeu em mim ou me mandou arriar a bermuda.

Passada toda a tarde de domingo respondendo a perguntas, sendo apalpado, fazendo exames em aparelhos e sobretudo esperando, fui levado à sala do urologista e lá conheci Pedrita, não pessoalmente, mas através da imagem do raio X, que mostrou que ela tinha aproximadamente 3mm, e durante os três dias seguintes, enquanto ela não saiu do meu corpo, também não saiu da minha cabeça.

Voltei para casa no final da tarde, mesmo sentindo a dor voltar a ficar intensa, porque tinha esperança que se estabilizasse em um nível aceitável até que eu acordasse no dia seguinte sem sentir nada. Subestimei Pedrita, que se deslocava lentamente pelo meu rim esquerdo, abrindo caminho do jeito que dava, rasgando o que viesse pela frente. Saí de casa e cheguei ao hospital da mesma forma que anteriormente, diferindo apenas em um ponto: em vez de passar pela enfermaria, fui direto para a internação, carregado na cadeira de rodas.

A partir desse momento, não lembro muito bem o eu aconteceu. Na verdade, as duas vezes em que dei entrada no hospital foram muito parecidas, e realmente não tenho como distinguir o que se passou em cada uma delas nos momentos de dor intensa. Pode ser até que eu tenha imaginado coisas ou alucinado, já que passei a primeira noite inteira e o dia seguinte sendo drogado com uma substância derivada da morfina, e só consigo lembrar-me de duas coisas que certamente ocorreram no segundo momento: as ocasiões em que acordei agonizando durante a madrugada e chamei a enfermeira para me drogar um pouco mais, e a visita do quarto médico, pois lembro de ter falado em tom de humor autodepreciativo com minha mulher que, naquelas poucas horas, eu provavelmente já havia tido os testículos apalpados por mais homens do que em todo o resto da minha vida.

Acordei muito assustado no dia seguinte, de manhã bem cedo, achando que estava morrendo – ouvi várias pessoas rezando, e meu primeiro pensamento foi que estava recebendo a unção dos enfermos, logo eu, que desde a adolescência zombo de todo esse tipo de superstições, morrer desse jeito! O susto foi breve, logo relaxei ao perceber que não teria este lamentável fim, já que, apesar de próximas, as vozes vinham de fora do quarto – dei o azar de me internarem ao lado da capela do hospital, onde o plantão da manhã orava em uma só voz antes do expediente, e tive que acordar da mesma forma nos dias seguintes.

A oração coletiva não foi o único som estranho que me pegou de surpresa. Logo no primeiro dia, escutei uma tosse muito desesperada, a tosse mais gutural que já havia ouvido, e pensei que alguém estava morrendo. Passaram-se alguns instantes após a tosse cessar e não percebi nenhum tipo de movimentação pelos corredores, tudo voltou ao costumeiro de um hospital. Não entendi nada naquele momento, mas depois passei a ouvir a tosse com a mesma intensidade várias vezes ao dia, e cheguei à conclusão que ninguém poderia ficar às portas da morte num hospital tantas vezes sem que nada fosse feito, e que a cena que eu ouvia mas não podia ver era um a de velhinho com um cacoete brabo. Eu me lembrava do meu avô, que quando não tomava remédio para o sistema nervoso ficava do mesmo jeito, e todo mundo que ia lá em casa ficava constrangido e tentava prender o riso, até que a gente não aguentava e começava a rir junto. Eu me lembrava do início de “Minha Menina”, dos Mutantes, e começava a rir cada vez que a sessão de tosse tinha início. E esquecia um pouco de Pedrita, das agulhas espetadas no meu braço e de qualquer outra coisa que me causasse dor.

Tirando o motivo pelo qual fiquei internado aqueles três dias, posso dizer que essa minha temporada no hospital foi bastante agradável. Ora, eu era tratado como um hóspede num hotel, fui dispensado do trabalho, tinha comida pronta e não precisava limpar nada o que sujava, e tinha tempo para me distrair bastante. Se eu não tivesse chegado lá sentindo tanta dor e não tivesse que passar pela quantidade de exames e remédios injetáveis aos quais fui submetido, se eu pudesse paralelamente sair de lá de vez em quando para passear ou praticar alguma atividade física, isso sim seria viver em alto estilo.

A dor no rim e testículo diminuiu bastante já na primeira manhã, graças aos fortes sedativos, e deixaram de incomodar no segundo dia. Contudo, se o problema fosse tão simples assim, não haveria necessidade de internação e nada justificaria minha vida boa lá. A dor inicial simplesmente foi transportada para os braços, furados sem trégua até o momento em que saí do hospital (e doloridos, inchados e cheios de hematomas, durante toda a semana seguinte). Uma agulha ficava constantemente na mão esquerda, recebendo a medicação ininterruptamente, inutilizada para qualquer fim, até que, no segundo dia, a veia entrou em colapso, uma dor que me impedia de executar qualquer movimento, dava para ver o sangue voltando pela borracha que levava os remédios da bolsa suspensa até mim, e a mão direita passou a ser utilizada em seu lugar. Os enfermeiros até que tentavam desentupir a veia algumas vezes, apertando a borracha para que talvez os coágulos abrissem espaço para a medicação, o que me causava uma dor aguda ainda mais forte, mas não teve jeito. Nesse dia e no seguinte, fiquei praticamente inválido das mãos, conseguindo com muito esforço segurar a colher nas refeições ou um livro apoiado, contanto que não fosse necessário nenhum tipo de pressão com os dedos. Minha mulher executou o papel dos meus braços em quase todo o resto.

As outras veias dos braços serviam de bica por onde saía meu sangue para análise no laboratório, mas este não foi o único tipo de exame pelo qual passei nesses dias. Pressão arterial e temperatura eram medidas várias vezes ao dia e anotadas numa prancheta, e pelo menos umas duas vezes tive que urinar em potinhos de coleta. Exames mais apurados, em máquinas, eram minha única oportunidade de passeio pelos corredores do hospital, mesmo que fossem de cadeira de rodas. Raios X simples, que eu já conhecia, foram dois ou três, mas experiência inédita para mim foi entrar numa sala onde se lia na porta “Tomografia”, depois de tomar uns cinco copos d’água para que minha bexiga ficasse bem cheia. Deitei numa cama fria e me aplicaram mais um remédio na veia, que me explicaram que seria para fazer “contraste”, sabe-se lá do que com que. A mulher que estava me atendendo falou que eu poderia sentir enjoo, que ela ficaria em outra sala atrás de mim, e que em caso de qualquer problema era só eu levantar o braço, mas fiquei tão curioso com aquela máquina que nem senti nada. A cama então começou a se mover, me deslocando para dentro de um círculo, como se eu fosse um dedo entrando num anel projetado para um dedo mais largo. Havia um monte de luzes piscando, de várias cores, e não pude examinar todas elas antes que a cama terminasse sua locomoção. Fiquei com a cabeça bem no meio do anel, e observei que dentro dele havia uma espécie de centrífuga girando, com luzes vermelhas, fazendo barulho, o que provocou em mim a sensação de estar estrelando um filme de ficção científica da década de 1970. De repente, uma voz de homem saiu de algum alto-falante dizendo – “respire fundo” –, e uma imagem de um rostinho com a boca aberta se acendeu no aparelho, tipo smile, só que de perfil, bem em frente ao meu rosto. A voz imediatamente ordenou, roboticamente – “prenda a respiração” –, e a imagem mudou para um rostinho de boca fechada com as bochechas cheias de ar, quando um outro painel mostrou uma contagem regressiva começando em seis segundos. Terminada a contagem, a voz liberou minha respiração. O processo teve início novamente, da mesma forma, só que dessa vez a contagem começou em trinta segundos, me pegando desprevenido, pois eu puxei ar preparado para apenas seis! Na terceira vez, jurei que a máquina não ia me surpreender novamente, e puxei o máximo de ar que pude, mas a contagem começou novamente a partir de trinta segundos, e isso foi tudo. A cada tentativa eu podia observar algumas luzes e imagens que não havia tido oportunidade anteriormente, e na última reparei que tinha aquele símbolo de três lados que significa material radioativo, com umas setinhas apontando para a minha direção. Juntei aquilo com as outras vezes em que fui submetido ao raio X nas últimas horas, mais um exame que havia feito há alguns meses e todos os outros em minha vida, e aquele somatório mórbido me apavorou um pouco. Ao final, tive que esperar o resultado deitado na mesma cama, para o caso de algo ter dado errado e eu ter que fazer tudo de novo. O homem que me mandava prender e soltar a respiração disse que minha bexiga estava muito cheia, e que se eu não aguentasse podia ir ao banheiro, mas eu não sentia nenhuma vontade de fazer nada, só pensava na possibilidade de algum futuro filho meu nascer mutante.

Na manhã do segundo dia, o urologista que cuidava do meu caso me fez uma visita no quarto, explicando qual era minha situação. Pedrita já havia saído do rim, e encontrava-se na uretra. A notícia era boa, mas nem tanto: caso ela não saísse naturalmente nos próximos dias, eu teria que ser submetido a um procedimento para sua retirada, o que significava que alguém iria enfiar um tubo pelo meu pênis para sugá-la. A ideia é talvez até mais aterrorizante do que a de realizar uma colonoscopia, portanto passei a beber uma quantidade considerável de água e urinar mais de dez vezes por dia, não na privada, mas numa bacia metálica, tendo que, em todas as ocasiões, verificar se Pedrita já havia saído. Cada tentativa sem sucesso era desanimadora, progressivamente.

Apesar da emergência desse grande problema pessoal, eu tinha bastante tempo para me distrair, já que não havia nada mais o que fazer. Tive a oportunidade de ler Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, em um dia, algo impensável em circunstancias domésticas normais, e assisti a alguns filmes na TV a cabo, dessas porcarias dirigidas pelo Clint Eastwood nos últimos tempos até filmes divertidos da década de 1980, como Karate Kid e uma ótima comédia chamada Private Resort, apresentando um jovem ator chamado Johnny Depp. O resto do tempo eu comia, perturbava minha mulher, falava no telefone com alguém preocupado, dormia e era examinado e medicado.

A contagem regressiva para a devassa definitiva do meu corpo prosseguia, meu pai ligava várias vezes perguntando se eu já tinha dado à luz, até que na manhã do terceiro dia, ao urinar, pude sentir Pedrita saindo pela minha uretra. Fiquei bastante eufórico para conhecê-la pessoalmente, observar seu tamanho certo e sua cor. Esperei a espuma da urina se dissipar para procurá-la, sentindo ainda um desconforto, que supus ser causado pela passagem de Pedrita pela uretra, porém, depois de vasculhar a bacia de todas as maneiras possíveis, não encontrei nada sólido. O desconforto continuava, bem na glande, portanto Pedrita ainda estava lá, mas não pude imaginar uma situação tão insólita: Pedrita estava quase saindo, a ponto de eu poder enxergá-la. Entretanto, cada vez que eu tentava retirá-la, sentia dor e não conseguia sequer movê-la. A agonia era grande, mas não havia nada o que fazer a não ser beber uns cinco copos d’água e esperar.

Minutos depois, finalmente pude expelir Pedrita e me sentir aliviado, tendo a certeza que não seria naquela ocasião que alguém iria enfiar o que quer que fosse pelo meu pênis. Observei bem Pedrita, ela era preta, menor que qualquer grão comestível, um pouco maior que a cabeça de um alfinete, e fiquei ali um tempo refletindo sobre a fragilidade do ser humano, vencido por algo tão pequeno. Deixei a bacia lá intocável, para que o médico também a analisasse – o que só aconteceu à noite. De vez em quando entrava alguma mulher querendo limpar o banheiro, e eu explicava toda a situação e que a bacia de urina tinha que ficar lá esperando o médico e tudo mais, e que além disso em questão de algumas horas eu ia ter alta e não havia necessidade para limpar mais nada para mim. Elas olhavam de modo estranho, achando graça, como se eu fosse um cachorro guardando um osso sem deixar ninguém chegar perto. Talvez elas estivessem achando que eu estava perturbado, obcecado com aquilo tudo, e que naquele momento Pedrita fosse a coisa mais importante para mim.

sábado, 4 de setembro de 2010

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley


Utopia, a sociedade ideal, é imaginada por pensadores desde Platão em A República (pelo menos na cultura ocidental), mas foi no século XVI que o termo foi cunhado por Thomas More através de sua obra mais famosa. Nesses mais de dois mil anos, há diversos exemplos de utopias criadas por filósofos como Santo Agostinho (A Cidade de Deus) ou Tommaso Campanella (A Cidade do Sol), mas no século XIX, com as mudanças trazidas pela revolução industrial, um novo conceito é criado a partir das agradáveis utopias: a distopia, ou anti-utopia, uma sociedade longe de ser ideal (embora pretenda ser), produzida por algum acontecimento ou processo revolucionário - mudança tecnológica, pandemia fatal ou guerra nuclear, por exemplo. A distopia passou então a ser bastante explorada como um subgênero da ficção científica.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, pode ser considerado um dos livros de distopia mais famosos da história (ao lado de 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury), talvez até mais importante que outros por ter sido escrito já na década de 1930, tendo influenciado desde então diversas obras em várias áreas. Um clássico indiscutível, não por sua qualidade literária - o enredo é cheio de furos e situações improváveis, e os personagens são fracos, superficiais -, mas pelas ideias de uma sociedade repressora, que preza acima de tudo o equilíbrio social, sem conflitos, e não admite interferências individuais em seu curso pré-determinado.

O que promoveu o caminho para a sociedade aparentemente perfeita em Admirável Novo Mundo foi a revolução tecnológica que Huxley presenciava em seu tempo, simbolizada principalmente pelo sistema fordista de produção. A imaginação do autor trabalhou então no sentido de desenvolver uma linha temporal, a partir da década de 1930 do mundo real até seis séculos depois, em que o conceito da linha de produção determinasse a sociedade humana (e não o contrário), a ponto de a própria reprodução ser desenvolvida exclusivamente em laboratórios, através de técnicas precisas que produziriam seres humanos destinados biologicamente ao seu papel na sociedade, de acordo com seus atributos físicos e intelectuais. O processo de imposição dos indivíduos ao seu papel social continua após o nascimento, através de condicionamento psicológico de gostos, responsabilidades e preconceitos. Tudo isso gerava castas bem definidas, dos alfa (dirigentes, de inteligência e estatura elevadas) aos ipsilons (trabalhadores braçais que mal conseguem se comunicar), passando pelas castas intermediárias beta, gama e delta. Por todos estes condicionamentos impostos desde a geração do ser humano, não há possibilidade de transferência de um indivíduo de uma casta a outra.

O controle social continua por toda a vida do indivíduo, com regras que impedem seu contato com qualquer tipo de literatura ou arte anterior à época em que teria ocorrido a grande revolução na sociedade (a época de Ford), bem como a inexistência de conceitos de religião, família e fidelidade sexual ou sentimental entre duas pessoas (por isso o estímulo à liberdade sexual ilimitada, desde a infância). A sociedade do Admirável Mundo Novo não abre espaço para as realizações individuais, e para o caso de qualquer dúvida ou pensamento que desvirtue as regras, todos os cidadãos são quase que obrigados a ingerir o soma, uma droga sem efeitos colaterais que tem o papel de tirar qualquer traço de sofrimento psicológico.

Após ler esta resenha, você deve estar com a impressão de um baita spoiler, e que eu tirei a graça de sua leitura, mas você está enganado. O que escrevi até agora, apesar de dar margem para muito assunto, são só os conceitos básicos do futuro imaginado por Aldous Huxley. Neto de Thomas Huxley, um importante biólogo evolucionista, Aldous era um homem bem inserido no conhecimento científico e social de sua época, e pôde imaginar uma sociedade do futuro em detalhes, desde os meios de transporte até os jornais lidos por cada casta, apesar de não ser estritamente um escritor de ficção científica. A história em si, se não é o forte do livro, também não chega a ser ruim, mas só por este quadro que é exposto nos primeiros capítulos já dá para prever mais ou menos o que vai acontecer (como na maioria das histórias de distopia). Mesmo assim, vejo Admirável Mundo Novo como um livro da minha biblioteca básica, recomendado para as gerações futuras e guardado na estante para releituras.

Vinte anos mais tarde, Aldous Huxley escreveu um prefácio para uma nova edição de Admirável Mundo Novo, onde propunha uma alternativa melhor para o final do livro e admitia algumas falhas de enredo e sobretudo de previsões para o futuro - por exemplo, o autor se ressentia de não ter incluído a energia nuclear, que na década de 1950 dava toda a impressão que seria a fonte energética fundamental no futuro, mas se explica: "O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência como tal; é o progresso da ciência na medida em que atinge os indivíduos humanos". E ao que parece, a aventura de Huxley na ficção científica nunca mais saiu de sua cabeça, já que em 1958 o autor publicou uma série de ensaios chamada Regresso ao Admirável Mundo Novo. na qual é discutida a manipulação da vontade humana do livro anterior à luz de novas técnicas descobertas neste período. E o tema é novamente abordado em forma de romance em seu último trabalho, A Ilha - o primeiro livro de Huxley que li, e gostei bastante - porém de forma inversa: uma sociedade utópica onde a busca da felicidade de todos os seus membros é o objetivo.

Editora: várias edições (atualmente edição de bolso da Globo)
Páginas: 398 (edição da Globo)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital (português)

Livro Digital (inglês)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Voz do Fogo - Alan Moore

O que pode haver em comum entre uma jovem queimando na fogueira em 1705, uma forja de falsificação de moedas em 290, a cremação do corpo de um bruxo em 2500 a.C. e o incêndio de um carro em 1931? Alan Moore, o maior de todos os escritores de quadrinhos, juntou estas e mais algumas narrativas em sua estreia na literatura para narrar, através da Voz do Fogo, a história de sua cidade natal, Northampton, na Inglaterra.

Por meio de doze contos, narrados em primeira pessoa, o célebre autor de Watchmen e muitos outros clássicos dos quadrinhos contemporâneos inicia sua visão sobre a cidade em 4000 a.C., nas palavras de um menino no neolítico. Este primeiro conto é um dos mais difíceis do livro, pela escrita extremamente pobre e truncada, sem nenhum respeito por regras ou pontuações, o que causa muita estranheza nos leitores, mas ela dá o tom de todo o resto da obra: criatividade e recurso para escrever cada um dos contos de forma distinta, numa caracterização realista de cada narrador. Na pele de um juiz do século XVII, por exemplo, Moore adota um estilo sofisticado, muito prazeroso de ler, enquanto as palavras de um louco do século XIX irritam, as de uma vigarista da Idade dos Metais causam repulsa, as de um oficial do Império Romano convencem o leitor de suas convicções sobre Roma. Cada conto se interliga com o seguinte de forma sutil, até culminar em 1995, nas visão do próprio autor sobre a cidade em seu tempo.

Além de sua poderosa e criativa escrita, Alan Moore também tem a seu favor uma grande capacidade de produzir uma história com sentidos ambíguos, pouco clara, que dá margem à imaginação e ao gosto do leitor. Os temas místicos e fantasiosos, marcantes na carreira do autor nos quadrinhos, não deixam de aparecer, mas de forma que podem ser entendidos como acontecimentos sobrenaturais ou simplesmente uma interpretação da realidade, como a loucura, coincidência ou a impressão de personagens sobre passagens anteriores do livro.

A Voz do Fogo não é um livro muito fácil, daquelas leituras de passatempo que logo se esquece. É leitura densa, para ficar pensando após o término de cada conto, escrita bonita para ser admirada, para depois ficar tentando decifrar a mente do autor, de como ele teve a ideia de criar tal história. E não é daqueles livros para pegar emprestado, esse é para guardar e reler de vez em quando. Só é uma pena que tenha sido o único, até agora, na premiada carreira de Alan Moore, que já disse ter mais um ou dois livros na cabeça, esperando um tempo entre os trabalhos dele para serem escritos.

Editora: Conrad
Páginas: 331
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Uma resposta de Alan Moore sobre o livro:

G1 – Você certamente conhece um bocado sobre Northampton. Escreveu um livro inteiro só sobre ela, não?

Moore - Sim, tenho uma paixão incrível por Northampton. Escrevi “Voz do fogo”, que era ambientando inteiro em Northampton ao longo de 6 mil anos de sua história. São 300 páginas, mas achei que era um livro muito cosmopolita e abrangente. Então, no novo livro que estou escrevendo, decidi focar em apenas alguns quarteirões de Northampton. “Jerusalém” fala do 1,5 Km2 em que eu cresci. Deverá ter algo como 1.500 páginas. E, provavelmente, o próximo vai ter 8 mil páginas e será só sobre a minha sala de estar (risos). Por um lado, é uma cidade fascinante, a quantidade de história e de eventos estranhos que aconteceram aqui são impressionantes.Mas não estou dizendo que esse lugar é mais importante ou mais extraordinário do que onde qualquer outra pessoa vive. É só o lugar onde eu vivo. E o que estou fazendo por Northampton, que aparentemente é só uma cidade cinzenta e sem graça, é usar minha escrita para transformá-la na cidade de maravilhas que existe dentro da minha cabeça. Acho que muitos artistas se beneficiariam se dessem uma olhada fresca sobre a cidade em que vivem. Faça observações poéticas, tente sentir que é um local maravilhoso. Suspeito que se sentimos que o lugar que estamos vivendo é uma droga, eventualmente chegaremos a conclusão que nós somos uma droga. Por outro lado, se você pensar que o lugar que vive é um templo celestial cheio de seres maravilhosos, nós mesmos nos sentiremos assim.

O resto da entrevista, onde ele fala sobre diversas coisas como pornografia, filmes de Hollywood, Paulo Coelho e Harry Potter, aqui.