sábado, 4 de setembro de 2010

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley


Utopia, a sociedade ideal, é imaginada por pensadores desde Platão em A República (pelo menos na cultura ocidental), mas foi no século XVI que o termo foi cunhado por Thomas More através de sua obra mais famosa. Nesses mais de dois mil anos, há diversos exemplos de utopias criadas por filósofos como Santo Agostinho (A Cidade de Deus) ou Tommaso Campanella (A Cidade do Sol), mas no século XIX, com as mudanças trazidas pela revolução industrial, um novo conceito é criado a partir das agradáveis utopias: a distopia, ou anti-utopia, uma sociedade longe de ser ideal (embora pretenda ser), produzida por algum acontecimento ou processo revolucionário - mudança tecnológica, pandemia fatal ou guerra nuclear, por exemplo. A distopia passou então a ser bastante explorada como um subgênero da ficção científica.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, pode ser considerado um dos livros de distopia mais famosos da história (ao lado de 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury), talvez até mais importante que outros por ter sido escrito já na década de 1930, tendo influenciado desde então diversas obras em várias áreas. Um clássico indiscutível, não por sua qualidade literária - o enredo é cheio de furos e situações improváveis, e os personagens são fracos, superficiais -, mas pelas ideias de uma sociedade repressora, que preza acima de tudo o equilíbrio social, sem conflitos, e não admite interferências individuais em seu curso pré-determinado.

O que promoveu o caminho para a sociedade aparentemente perfeita em Admirável Novo Mundo foi a revolução tecnológica que Huxley presenciava em seu tempo, simbolizada principalmente pelo sistema fordista de produção. A imaginação do autor trabalhou então no sentido de desenvolver uma linha temporal, a partir da década de 1930 do mundo real até seis séculos depois, em que o conceito da linha de produção determinasse a sociedade humana (e não o contrário), a ponto de a própria reprodução ser desenvolvida exclusivamente em laboratórios, através de técnicas precisas que produziriam seres humanos destinados biologicamente ao seu papel na sociedade, de acordo com seus atributos físicos e intelectuais. O processo de imposição dos indivíduos ao seu papel social continua após o nascimento, através de condicionamento psicológico de gostos, responsabilidades e preconceitos. Tudo isso gerava castas bem definidas, dos alfa (dirigentes, de inteligência e estatura elevadas) aos ipsilons (trabalhadores braçais que mal conseguem se comunicar), passando pelas castas intermediárias beta, gama e delta. Por todos estes condicionamentos impostos desde a geração do ser humano, não há possibilidade de transferência de um indivíduo de uma casta a outra.

O controle social continua por toda a vida do indivíduo, com regras que impedem seu contato com qualquer tipo de literatura ou arte anterior à época em que teria ocorrido a grande revolução na sociedade (a época de Ford), bem como a inexistência de conceitos de religião, família e fidelidade sexual ou sentimental entre duas pessoas (por isso o estímulo à liberdade sexual ilimitada, desde a infância). A sociedade do Admirável Mundo Novo não abre espaço para as realizações individuais, e para o caso de qualquer dúvida ou pensamento que desvirtue as regras, todos os cidadãos são quase que obrigados a ingerir o soma, uma droga sem efeitos colaterais que tem o papel de tirar qualquer traço de sofrimento psicológico.

Após ler esta resenha, você deve estar com a impressão de um baita spoiler, e que eu tirei a graça de sua leitura, mas você está enganado. O que escrevi até agora, apesar de dar margem para muito assunto, são só os conceitos básicos do futuro imaginado por Aldous Huxley. Neto de Thomas Huxley, um importante biólogo evolucionista, Aldous era um homem bem inserido no conhecimento científico e social de sua época, e pôde imaginar uma sociedade do futuro em detalhes, desde os meios de transporte até os jornais lidos por cada casta, apesar de não ser estritamente um escritor de ficção científica. A história em si, se não é o forte do livro, também não chega a ser ruim, mas só por este quadro que é exposto nos primeiros capítulos já dá para prever mais ou menos o que vai acontecer (como na maioria das histórias de distopia). Mesmo assim, vejo Admirável Mundo Novo como um livro da minha biblioteca básica, recomendado para as gerações futuras e guardado na estante para releituras.

Vinte anos mais tarde, Aldous Huxley escreveu um prefácio para uma nova edição de Admirável Mundo Novo, onde propunha uma alternativa melhor para o final do livro e admitia algumas falhas de enredo e sobretudo de previsões para o futuro - por exemplo, o autor se ressentia de não ter incluído a energia nuclear, que na década de 1950 dava toda a impressão que seria a fonte energética fundamental no futuro, mas se explica: "O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência como tal; é o progresso da ciência na medida em que atinge os indivíduos humanos". E ao que parece, a aventura de Huxley na ficção científica nunca mais saiu de sua cabeça, já que em 1958 o autor publicou uma série de ensaios chamada Regresso ao Admirável Mundo Novo. na qual é discutida a manipulação da vontade humana do livro anterior à luz de novas técnicas descobertas neste período. E o tema é novamente abordado em forma de romance em seu último trabalho, A Ilha - o primeiro livro de Huxley que li, e gostei bastante - porém de forma inversa: uma sociedade utópica onde a busca da felicidade de todos os seus membros é o objetivo.

Editora: várias edições (atualmente edição de bolso da Globo)
Páginas: 398 (edição da Globo)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital (português)

Livro Digital (inglês)

13 comentários:

  1. Vai de quem diz ser uma sociedade ideal né? É uma sociedade perfeitamente organizada mas totalmente sem liberdade de expressão, o livro mostra uma sociedade controlada por um estado autoritário, eu não chamaria de ideal. Mas é sem dúvida o melhor livro que já li.

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  2. Parece que não, mas ainda tem muita gente saudosa dos tempos da ditadura militar, vivendo no mito que naquela época era melhor porque não havia violência - exceto para os "terroristas" e suas famílias. Você vai gostar de ler George Orwell. A Revolução dos Bichos é um excelente livro, pequeno e fácil de ler, só não escrevi sobre ele ainda aqui porque já li há muitos anos, e teria que dar uma relida pra lembrar detalhes e tal.

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  3. Já li também, sei que há muita gente que prefere a ditadura, mas tem explicação, aqui em Curitiba onde eu moro todo mundo diz que a ditadura foi fraca e que ninguem sentiu, ela foi mais forte nos grandes centros políticos, até hoje meus pais dizem que a ditadura foi boa, que teve grande prosperidade econômica(o que é fato), mas o nível de alienação do povo do sul é enorme porque não sentiram na pele a censura, meu pais com seus 18~20 anos saía toda noite pra balada e festa, escutava musica livremente.
    Leia mesmo denovo o revolução dos bichos, é ótimo, e se quiser algumas dicas também leia 2 viagens ao Brasil -Hans Staden e Paraíso Destruído - Frei Bartolomé de Las Casas.
    Grato,
    Guuh.

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  4. Ps: Fernando, você é professor de história ou literatura?Tem algum e-mail/msn/orkut pra trocar uma idéia?

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  5. Comparada com os outros países do conesul, a ditadura brasileira foi realmente a mais branda, mas nem por isso deixou de ser bárbara. A prosperidade econômica foi muito relativa: ocorreu baseada em momento extraordinário do capitalismo internacional e em extenso financiamento estrangeiro. Resultado: quando acabou a farra, após a crise de 73, o Brasil estava com uma dívida externa nunca antes alcançada, e só aumentou junto com os juros de um mundo em crise prolongada, tanto que os anos 80 são lembrados como a década perdida da economia brasileira. Aí os militares se mandaram e deixaram o pepino para a sociedade. Acho que o verdadeiro milagre econômico foi o Brasil conseguir sair dessa situação, quem viveu até a década de 90 nunca poderia acreditar que isso conteceria, principalmente quando o FHC começou a vender o país a preço de banana.

    Respondendo à sua pergunta, sou professor de história, e não tenho nenhuma conta em rede social, minha única interação com a internet é esse blog e meu e-mail frempresarial@yahoo.com.br. Um abraço!

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  6. Imaginei que fosse de história mesmo, leciona onde? Cara na verdade eu sou apaixonado por história...mas como sou muito novo isso não tá muito claro pra mim, futuramente farei uma facul de história... Não vivi essa época da ditadura, mas sim concordo com você, o milagre econômico da ditadura foi apenas com médici e daí foi vindo dívida e dívida e os espertos se mandaram, aí na primeira direta o povo já cagou em tudo elegendo o F. Collor. Mas pra mim milagre econômico é o que rolou no governo Lula, durante a crise mundial a gente tava comprando carro aqui sem problema, até minha empregada conseguiu comprar um carro, coisa que eu nunca imaginei que aconteceria.

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  7. Concordo com você, o governo do PT abusa da nossa paciência com a corrupção sem limites, mas na prática é um governo melhor que tudo o que eu acompanhei desde que me entendo como gente. Tenho lembranças bem claras da década de 80, compra de mês no supermercado antes que o salário desvalorizasse, filas colossais, mesmo quem não era encanado com o risco de um holocausto nuclear era obrigado a fazer estoque de comida em casa por causa disso. E na década de 90, o desemprego absurdo, o país mobilizado exclusivamente para as grandes corporações, o infame neoliberalismo pregado por Margareth Thatcher e companhia alguns anos antes. Foi barra, ainda bem que só comecei a ter que trabalhar e pagas minhas contas no século XXI, hoje com certeza é mais fácil viver.

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  8. Fernando, concordo com essa do PT abusar da paciência, é realmente um grande problema, entretando sou PTista. Esse ano não vou votar, achei ambos os candidatos ridículos. Vai votar em quem?

    ps: qual sua idade?

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  9. Não posso declarar meu voto aqui, vou acabar caindo em lei eleitoral, hehehe. Nem minha idade, não vou ficar me queimando assim com as garotinhas de idade universitária...

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  10. Na verdade foram apenas perguntas de boa, mas ok. e como não entendi direito a sua ultima frase digo que sou homem caso tenha achado em algum momento que sou mulher.

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  11. hahahahahahaha, essa foi boa! Porra Gustavo, também não sou tão burro assim, leio um pouquinho de vez em quando, e já aprendi a diferenciar narradores masculinos de femininos em pequenos textos, como comentários de blog...

    Leva a mal não, é que aqui no Rio somos um bando de bárbaros escrachados, sem a metade da educação do pessoal aí do sul, e com um humor meio grosseiro, compreendo que você não tenha entendido direito.

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. SAHUISHSA Na verdade esse povo do sul nem é tão educado assim! Na verdade são, mas aqui em Curitiba de jeito nenhum. Dizem ser o povo mais frio do Brasil. Aqui ninguém te dá um bom dia quando você entra no elevador, e se você diz um bom dia te olham como se você fosse um bicho estranho cara, é incrível.

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