terça-feira, 13 de abril de 2010

Memórias de um Sargento de Milícias em quadrinhos - Manuel Antonio de Almeida, Índigo e Bira Dantas

"Memórias de um Sargento de Milícias" é considerado uma ruptura da literatura brasileira com o romantismo cretino e idealista, e o precursor do realismo, por ser o primeiro romance de temática urbana, retratando os costumes e as situações cotidianas da época. Esta adaptação para os quadrinhos foi bem mais feliz do que a de "O Cortiço". O roteiro de Índigo foi mais bem elaborado, numa narrativa descontraída que possibilita o entendimento para quem não leu o livro - eu mesmo já havia lido há muito tempo, e não lembrava de nada. Os desenhos de Bira Dantas combinaram muito bem com a história do livro: traços arredondados ao estilo cartoon, para rimar com o tom humorístico de Manuel Antônio de Almeida, porém preenchidos com sombreados que tiram o excesso de limpeza deste tipo de estilo e dão um tom mais rústico, dando o clima certo de uma época passada.

A presente adaptação de "Memórias de um Sargento de Milícias" é bastante satisfatória, e além de possibilitar o contato mais fácil com este clássico da literatura brasileira, rende momentos de diversão e boas risadas. Que as outras adaptações em quadrinhos desta coleção dos clássicos da literatura brasileira sigam a boa qualidade desta. Aguardo o lançamento dos próximos volumes nas bancas (quem não mora no Rio pode adquirir qualquer volume diretamente nas livrarias, porém a um preço bem maior).

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Cortiço em quadrinhos - Aluísio Azevedo, Ronaldo Antonelli e Francisco Vilachã


"O Cortiço" foi um dos poucos livros de literatura brasileira que li durante a adolescência e realmente gostei. Todo aquele realismo, cheio de sexo e violência, deixando de lado toda aquela merda romântica e retratando a realidade miserável brasileira, lá pelos meus quinze anos aquilo foi a única coisa que conseguiu atrair meu interesse pelos livros "sérios". Por outro lado, a grande maioria que fui obrigado a ler me tirou o interesse em literatura brasileira por anos, e tenho certeza que promoveu o ódio incondicional à leitura em geral para sempre em muitos estudantes.

Encarei com muita simpatia a chegada às bancas da coleção da editora Escala de literatura brasileira em quadrinhos, pois é uma ótima chance para a garotada conhecer os marcos da cultura brasileira sem aprender a odiá-los - e também para marmanjos como eu que, não fosse isso, nunca voltariam a ler os tais clássicos. Ademais, está sendo uma chance de revisitar alguns dos clássicos que cheguei a ler, a começar pelo Cortiço.

Apesar da esperança depositada nessa inovação, este primeiro volume da coleção que peguei para ler foi uma decepção. Um recurso inteligente que foi desperdiçado por falta de qualidade na produção. Os desenhos de Francisco Vilachã (um dos idealizadores do projeto todo, méritos por isso) são monótonos, repetitivos, e em diversos momentos o leitor não reconhece ou confunde personagens que não apresentam diferenças físicas marcantes. O roteiro adaptado de Ronaldo Antonelli é embolado, muito corrido, e imagino que quem não leu o livro - ou que leu há muito tempo, como eu - vai se perder e perder o interesse logo. Me parece que os autores se preocuparam muito em apresentar todo o conteúdo no número limitado de páginas disponíveis e se esqueceram que os quadrinhos, antes de tudo, são arte sequencial, e não simplesmente uma narração ilustrada, como ocorre nesta versão da obra de Aluísio de Azevedo.

Dando uma olhada nos outros volumes da coleção que já foram lançados, deu para perceber que apresentam bastantes diferenças, e espero que não sejam tão decepcionantes como esta adaptação de "O Cortiço", pelo bem da literatura brasileira e pelo nome dos quadrinhos nacionais.

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Alice: Edição Comentada - Lewis Carroll

"Acabei de dar um check-up geral na situação, o que me levou a reler Alice no País das Maravilhas". Assim começa a música "Check-up" do Raul Seixas, e curioso em saber o que o Maluco Beleza viu nesta história infantil para citá-la numa de suas músicas, corri atrás do texto integral e há alguns anos encontrei "Alice: Edição Comentada". Acabou que o livro foi ficando na fila de espera, aos poucos saiu dela para dar lugar a outros e ficou quase uma década esperando na estante. Agora, com a iminência do lançamento do novo filme de Tim Burton e seu amiguinho Johnny Depp, a curiosidade voltou, e lá estava o livro, novinho e pronto para ser lido.

Reli e ao mesmo tempo li pela primeira vez. Reli porque já ouvi essa história durante toda a minha infância (ainda lembro claramente da voz da Rainha de Copas dizendo "Cortem-lhe a cabeça!" na fita k7), mas li pela primeira vez o texto original. E li uma ótima edição, feita para adultos, cheia de comentários e explicações feitas por gente que passa a vida toda estudando "Alice" e as outras obras de Lewis Carroll.

Não sei se no embalo do lançamento do filme alguma editora já lançou uma nova edição de "Alice no País das Maravilhas", mas acho difícil lançarem algo mais completo do que essa edição comentada (talvez só alguma edição bilíngue com o texto em inglês). As notas explicam tudo, de referências que Carroll faz a situações do mundo real a elucidações de seus joguetes lógico-matemáticos, sua especialidade. Todas as fantásticas ilustrações originais de John Tenniel também estão presentes, com comentários quando se fazem necessários. "Alice: Edição Comentada" contém ainda a continuação de "Alice no País das Maravilhas", chamada "Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá", e um episódio inédito chamado "O Marimbondo de Peruca". Ao final do livro, estão os esboços originais de Tenniel, uma bibliografia de Carroll e seus analistas e uma lista de filmes e desenhos baseados na obra.

Se vivesse hoje, Lewis Carroll certamente estaria em evidência na mídia e respondendo a vários processos por pedofilia, tipo um Michael Jackson, por causa de sua forte atração por garotinhas (e ódio aos garotinhos). Na época, isso não tinha o mesmo peso que nos nossos dias, mas ainda assim o matemático escritor foi impedido de entrar em contato com a Alice da vida real pela mãe da menina (para quem não sabe, ela existiu, e para ela o livro foi escrito), após Carroll sugerir um pedido de casamento com a criança de 11 anos. Independente de suas taras (que seus biógrafos insistem em relevar e considerar algo puramente afetivo) ou de qualquer outra esquisitice de sua vida (que não eram poucas), foi esta figura que criou este clássico da literatura não só infantil (inovador neste aspecto por ser a primeira história feita para crianças que não se preocupava em apresentar uma "moral da história" ao final), mas principalmente de fantasia, banhada em enigmas lógicos e matemáticos, num mundo louco que precedeu Terra Média, quadros de Salvador Dalí, contos de Borges, psicodelismo... E uma ótima maneira de conhecer esse mundo é através de "Alice: Edição Comentada".

Editora: Jorge Zahar
Páginas: 303
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sexta-feira, 26 de março de 2010

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Eu sempre me senti meio envergonhado de conhecer tantos livros, de diversos gêneros, mas ignorar quase completamente os clássicos da literatura brasileira. Até li meia dúzia na escola, alguns ótimos, como "Noite na Taverna" e "O Cortiço", outros terríveis, como qualquer um do José de Alencar, mas a partir do momento que não tinha mais que ler por obrigação, dediquei meu tempo de leitura a outros interesses, e todos esses anos eu ficava, "pô, tenho que tirar um tempo para conhecer Machado de Assis e tal...", mas sempre deixava para depois.

Aí veio essa promoção do Extra da literatura brasileira em quadrinhos, eu comprei o primeiro volume e me senti meio patético em ler as histórias em quadrinhos sem conhecer a obra original, então tirei da estante "Triste Fim de Policarpo Quaresma", depois de mais de uma década intocado. Agradeço muito ao Extra pela promoção, pois se não fosse este estímulo, talvez eu nunca tivesse lido esta excelente história.

Policarpo Quaresma, um dos melhores personagens de romance que já conheci, era um pacato cidadão do Rio de Janeiro dos primeiros anos da república, funcionário público com hábitos estritos, solteirão que vivia com a irmã, mas apaixonado defensor do Brasil em todos os aspectos. Sua inquietude em relação à potencialidade não explorada de seu país o leva à ação radical, primeiramente no aspectos cultural - quando é dado como louco e é internado num hospício -, depois na vida econômica - acabando falido e vencido pela estrutura político-econômica de depreciação do pequeno produtor - e finalmente na política, onde encontra seu triste fim.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é uma história divertida, leve, muito por causa da recusa de Lima Barreto em utilizar a linguagem rebuscada em voga na literatura brasileira do início do século XX, mas principalmente devido às situações cômicas em boa parte do livro, a começar pelos personagens, todos eles muito medíocres: o general que nunca foi à guerra, o contra-almirante a quem foi dado o comando de um navio inexistente, e até mesmo o próprio Quaresma e sua paixão cega pelo Brasil, um dos poucos personagens que o leitor pelo menos tem simpatia por causa de sua inocência e bom coração (o outro é um violeiro que busca as raízes da música brasileira, e atende pela fantástica alcunha "Ricardo Coração dos Outros").

Outro personagem muito medíocre utilizado por Lima Barreto para desnudar a sociedade brasileira da época é um médico que possuía uma biblioteca exemplar, mas nunca conseguia ler mais do que cinco páginas de cada livro, pois dormia, e ao produzir artigos, "escrevia de modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por melestar, ao redor por rededor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral". Um deboche com os intelectuais da época que insistiam na pompa literária, mas também há uma crítica à elitização do conhecimento, pois fica claro que ao doutor era cabível uma biblioteca, mas a loucura de Policarpo Quaresma, que não tinha título acadêmico, é atribuída por outros personagens ao seu hábito de ler - um deles chega até a sugerir a proibição de livros para quem não tivesse título acadêmico.

O exame da loucura também não fica de fora da escrita de Lima Barreto, tanto na figura de Quaresma como na da menina que enlouquece porque é iludida durante cinco anos pelo noivo e depois é abandonada - fica bem sugestivo que o problema não foi a perda de um amor, mas sim da possibilidade de casar para cumprir seu papel social. Lima Barreto teve o pai internado num hospício, o mesmo acontecendo com ele anos depois, num hospício onde hoje se localiza a faculdade na qual me formei. Aliás, este foi outro aspecto que despertou demais o meu interesse nessa leitura: a apresentação do passado de muitas partes do Rio de Janeiro onde nasci e fui criado, tendo sido o próprio livro escrito na minha vizinhança.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é daqueles clássicos que não se lê porque é clássico, mas sim pela criatividade, beleza, qualidade da escrita, e por ser acima de tudo uma ótima história. Seguindo a sequência para acompanhar a coleção do Extra, vou atrás de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e alguns contos de Machado de Assis e Lima Barreto, na medida do possível entre tantas outras leituras e a vida real, e tentarei escrever sobre eles aqui também, além das próprias adaptações para os quadrinhos.

Editora: várias (várias mesmo, talvez mais de 20)
Páginas: variável
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Audiolivro


sábado, 20 de março de 2010

Operação Mahjong - John Trenhaile

Uma trama de espionagem no meio do mundo financeiro de Hong Kong, ao final da Guerra Fria, envolvendo a KGB e o serviço secreto da China, numa luta pelo controle da colônia que estava prestes a sair de mãos inglesas para o domínio chinês - o livro foi escrito no final da década de 1980, e Hong Kong estava para ser devolvida à China em 1997. Uma ótima chamada para um livro do gênero, mas que infelizmente não se desenvolve tão bem e desperdiça o potencial.

Não que falte ingredientes fundamentais de um livro de espionagem - missões secretas, sabotagem, chantagem e assassinatos - mas por outro lado sobra muita coisa desnecessária. A ideia de John Trenhaile foi no mínimo inovadora: o autor trabalhou como advogado em Cingapura e conheceu muito bem o mundo financeiro dos Tigres Asiáticos, o que lhe deu uma boa noção para escrever este romance com uma trama pautada no mundo dos negócios, e não simplesmente espionagem com ação. O problema é que parece que o autor exagerou um pouco, e a primeira metade do livro é tão recheada de termos técnicos do mundo corporativo que chega a ser enfadonha. Além disso, muitas partes são desnecessariamente alongadas sem muito motivo.

Uma leitura que eu imaginava que duraria dois ou três dias de carnaval se estendeu por mais de um mês, algumas dúzias de páginas entre leituras de outros livros. Personagens muito bons também não dão as caras, e eu teria desistido do livro na página 100, não fosse o ambiente oriental e os aspectos da sociedade chinesa bem trabalhados por alguém que lá viveu por um tempo, temas que tanto me atraem, como se pode confirmar com a quantidade de livros a respeito do oriente sobre os quais já escrevi por aqui. Consegui terminar mas, por causa dessa dicotomia tema interessante x desenvolvimento fraco, o resultado foi uma leitura não mais que regular.

Editora: Best Seller
Páginas: 445
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * *

segunda-feira, 15 de março de 2010

Dica para leitores do Rio


O jornaleco Extra, versão, digamos... mais popular do jornal O Globo, decidiu dar sua mínima contribuição para a cultura nacional, e a partir dessa quarta vai publicar semanalmente um clássico da literatura brasileira na forma de história em quadrinho. Serão dez volumes, publicados todas as quartas, por R$ 5,90, começando com "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto. Para quem costuma fazer promoções como "Meu sonho é ser modelo", já é um começo...

Sites especializados deram a dica, mas até agora nenhuma informação no site do jornaleco. Para ver as capas dos outros volumes, clique aqui.

quarta-feira, 10 de março de 2010

As Eras de Eric Hobsbawm



Quando se pensa em História contemporânea, não há personalidade viva mais famosa que Eric Hobsbawm. Em seus 92 anos, teve tempo para escrever sobre muita coisa interessante, como jazz, movimentos sociais, marxismo e nacionalismo, mas o que mais o deixou em evidência foi sua série sobre o mundo contemporâneo, desde 1789 até os dias de hoje, divididos em quatro eras.

A primeira delas é a Era das Revoluções (1789-1848), primeiro livro da série que trata do início do mundo contemporâneo através das duas revoluções que viraram ao avesso tudo que existia antes: a revolução social (Revolução Francesa) e a revolução técnica (Revolução Industrial). A segunda foi denominada Era do Capital (1848-1875), quando o sistema capitalista se estabelece de vez, iniciada logo após a última tentativa de revolução que ameaçou sua sobrevivência (a Primavera dos Povos). A terceira era foi batizada de Era dos Impérios (1875-1914), quando o capitalismo se desenvolve e assume sua nova face, com a extrapolação do sistema de exploração de capitalistas sobre trabalhadores europeus para o resto do mundo. A última das eras é a chamada Era dos Extremos (1914-1991), quando todo esse sistema capitalista, aparentemente solidamente estabelecido, é abalado em várias frentes, e o pandemônio se estabelece na História.

Em princípio, a série seria uma trilogia, terminando na Era dos Impérios, e por isso os três primeiros livros têm estrutura muito parecida, apresentando primeiramente uma análise dos acontecimentos do período, e uma segunda parte discorrendo sobre temas específicos como a terra, o trabalho, as artes, a ciência e a religião. São livros um pouco complexos para quem não tem contato com a área, incorrendo em referências específicas e linguagem pouco popular, mas sem chegar a um ponto de impedimento aos leigos. Todos os três contam com volumosos cadernos de ilustrações.

A Era dos Extremos, apesar de fazer parte da História contemporânea, é uma reviravolta radical ao sistema em vigência anteriormente, assim como o livro se diferencia dos demais da série. Escrito em linguagem mais acessível, e tratando de temas cronologicamente mais próximos de qualquer leitor (até quem está nos seus vinte e poucos anos se lembra de alguns fatos tratados no livro) e, em minha opinião, muito mais interessantes, a conclusão da série de eras de Hobsbawm é, ao mesmo tempo, um excelente livro para quem quer se inteirar de aspectos fundamentais do nosso mundo, como para estudos mais profundos. É leitura obrigatória para formandos em História, bibliografia certa em concursos da área e muito utilizado por pesquisadores, mesmo de áreas distintas, quando fazem citações históricas. Não obstante, é uma leitura muito prazerosa.

Eric Hobsbawm nasceu no Egito britânico em 1917, viveu boa parte do período sobre o qual escreve, sendo militante da esquerda. Uma história parecida com a do rei da arquitetura, Oscar Niemeyer, e assim como ele, continua ocupando o trono de rei em sua área enquanto estiver vivo.

Editora: Paz e Terra (os 3 primeiros) e Companhia das Letras (Era dos Extremos)
Páginas: 600, 540, 608 e 598
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital "A Era dos Extremos"

quinta-feira, 4 de março de 2010

Os Filhos de Duna - Frank Herbert

Terceiro livro da maravilhosa saga de Frank Herbert, "Os Filhos de Duna" mostra a geração seguinte a Paul Atreides, o personagem principal da série. Os gêmeos órfãos Leto e Gahnima, com 9 anos de idade - apesar de possuírem as memórias e a maturidade de todos os membros de sua linhagem, adquiridas através de um processo meio místico, meio químico - estão na posição de herdeiros do império de seu pai, mas aguardam a maioridade para governar. Enquanto isso, Alia, a irmã de Paul que é tida como uma santa viva, permanece no posto de regente. Como nos livros anteriores, uma trama político-religiosa se desenvolve, com alguns envolvidos em busca do produto mais importante do universo - a melange, um tipo de especiaria que só se desenvolve no planeta Duna -, outros do trono do império e ainda alguns Fremen (o povo nativo do planeta) buscando redenção espiritual e a salvação de sua cultura. Os personagens principais, além de lutarem para permanecerem vivos, enfrentam a iminência de uma catástrofe ambiental que pode destruir o planeta e comprometer toda a comunidade do universo. A história é intercalada em três ou quatro frentes, narradas paralelamente, se entrelaçando aos poucos, com personagens que migram de uma linha narrativa para outra.

Depois de ler "Os Filhos de Duna", tive a impressão que o anterior ("O Messias de Duna") funciona como um interlúdio entre o terceiro e o primeiro livro, mas também parece que os três formam uma trilogia coerente. Interlúdio porque o primeiro e o terceiro são muito mais densos que o segundo, tanto pelo número de páginas como pela profundidade da trama, mas trilogia porque ao final de "Os Filhos de Duna" claramente fecha-se um ciclo (dizer aqui qual é este ciclo revelaria informações fundamentais da saga para quem ainda não leu).

Apesar de o segundo e o terceiro livros (e pelo que sei, qualquer outro da série) não atingirem a repercussão e a qualidade do primeiro, "Os Filhos de Duna" fez com que a saga se consolidasse de vez para mim como minha predileta, me estimulando ainda mais a ler todos os outros livros (mais três de Frank Herbert e, até agora, 11 de seu filho Brian Herbert e Kevin Anderson, apesar de fãs mais "puristas" rejeitarem totalmente estes, mesmo sob o argumento de que foram escritos baseados em anotações do criador). Porém, meu maior estímulo foi ler o livro no idioma original, o que me fez descobrir que, independente da criatividade do universo Duna, a qualidade da escrita de Frank Herbert é muito superior ao que eu pensava, e que as traduções brasileiras da série são fracas demais. Acrescido a isso o fato de que os livros em inglês são muito mais baratos do que as versões brasileiras da editora Nova Fronteira (tanto em sebos como em livrarias), e que o primeiro e o último da edição brasileira estão esgotados há anos, já estou correndo atrás dos originais, inclusive dos dois primeiros volumes que li em português para reler.

Editora: Nova Fronteira (publicado em inglês por diversas editoras)
Páginas: 524
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital


terça-feira, 2 de março de 2010

X-Men 50 - Chris Claremont e Marc Silvestri

Muito antes dos X-Men vestirem as roupas de couro preto nos cinemas e ficarem tão conhecidos como o Indiana Jones ou o Super-Homem, eles já tinham uma legião de seguidores entre os fãs de quadrinhos. Desde meados da década de 1970 - com a reformulação do grupo por Chris Claremont e a entrada de personagens que fizeram bastante sucesso, como Tempestade, Noturno, e principalmente, Wolverine - até o lançamento do primeiro filme em 2000, diversas foram as fases do grupo - acredito eu que as de maior qualidade superaram as menos felizes durante estes 25 anos.

Uma dessas boas fases apareceu aqui no Brasil em 1992, por volta da edição brasileira de número 50 da editora Abril. Como todo número redondo tem que ser comemorado (essa mania das pessoas que as empresas e o marketing aproveitam), esta revista teve o formato de edição especial, com mais páginas, e recheada exclusivamente com histórias do próprio grupo (as revistas de super-heróis no Brasil quase sempre misturavam histórias dos personagens do título com outros de menor expressão, hábito perpetuado até hoje pela editora que monopoliza o mercado).

O grupo de então tinha metade dos personagens que todo mundo hoje em dia conhece, como Colossus, Wolverine, Vampira e Tempestade, misturados com outra metade desconhecida por quase todo mundo que só conhece os mutantes pelo cinema - Destrutor, Cristal, Psylocke e Longshot. A revista trazia quatro histórias em sequência, todas escritas por Chris Claremont, mas três delas desenhadas por Marc Silvestri, um ídolo da garotada na época (que manteve a qualidade de seu trabalho por muitos anos), e uma por Rob Liefeld, hoje conhecido como o maior canastrão dos quadrinhos (mas que a garotada também gostava). As histórias são divertidas, misturando humor e ação na dose certa, e apresentam uma personagem que teria papel importante nas histórias dos mutantes nos anos seguintes: Jubileu, uma adolescente-problema que salva a pátria e consegue permissão para se tornar uma X-man.

Esses eram os X-Men na época.


A partir dessa revista, os X-Men entram numa fase de reformulação, com a posterior entrada de uma porção de personagens novos e a volta de outros fundamentais como o Professor Xavier e os membros fundadores (Ciclope, Jean Grey, Homem de Gelo, Arcanjo e Fera, que faziam parte de outro grupo na época). Forma-se uma espécie de Dream Team mutante, que leva o grupo a um sucesso sem precedentes, até culminar na produção do filme.

X-Men 50 não é a melhor revista mutante publicada, nem representa a melhor fase de todos os tempos mas, diferente de 99% dos quadrinhos de super-heróis publicados no Brasil, pode ser lida integralmente sem que esteja escrito "continua na próxima edição" no final. Pode ser encontrada em sebos, se procurada com carinho. Aqui em casa ela fica ali, no meio de tantas outras, e de vez em quando eu a pego para dar uma lida e relembrar. Afinal, já vão quase 20 anos...

Editora: Abril
Páginas: 100
Disponibilidade: esgotada
Avaliação: * * * *


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Guinness World Records 2010 - O Livro da Década


Ganhei este livro como um presente de natal repassado por alguém que não tem o menor interesse por livros, mas sabe que eu tenho. Se esta pessoa tivesse ao menos folheado o "Guinness World Records 2010" talvez tivesse ficado com ele, pois mesmo sem muito costume de analisar qualquer coisa impressa, possivelmente perceberia que, na verdade, a obra é nada mais que um programa de televisão em forma de livro. Como um programa de generalidades, cada item é apresentado com riqueza gráfica e não tem mais do que um ou dois parágrafos explicativos, a maioria desnecessários, pois qualquer ser intermediário entre primatas e seres humanos pode perceber pelas fotos quando se trata do homem com o maior bigode do mundo ou o som mais alto saído de um vulcão.

Sem desmerecer o Guinness, que muito me encantava na infância, não tenho condições de avaliar isso como se fosse um livro, e depois de alguns minutos folheando esse festival de trivialidades, deixei-o num canto e fui lavar a louça do almoço. Desde então ele está no mesmo lugar, esperando para ser repassado como presente de aniversário para alguma criança curiosa. Pelo menos para ela o Guinness vai ser útil, pois renderá algumas tardes de boas risadas com os amigos, se divertindo ao saber quantas pessoas já entraram num Fusca ao mesmo tempo, além de ter um efeito visual ideal para um presente de criança - é grande, capa dura com efeito de brilho, papel de boa qualidade, projeto gráfico descolado e bastante ilustrado.

Editora: Ediouro
Páginas: 288
Disponibilidade: normal

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Raízes do Brasil - Sérgio Buarque de Holanda


Se há livros que nunca perdem a atualidade, Raízes do Brasil é mais do que isso: continua necessário e fundamental para a formação do país. Uma tradução impiedosa do porquê das mazelas desta grande ex-colônia portuguesa, provoca ainda hoje, mais de 70 anos após sua primeira edição, a reflexão sobre como chegamos a níveis tão baixos de ética na coisa pública e quanto atraso isso nos produz.

As tais raízes referidas no título são nossas origens ibéricas, a colonização portuguesa, que recebe do autor maior importância em detrimento das outras contribuições originais do povo brasileiro - africanos e indígenas, mas engana-se quem pensa que isso é um elogio: ao contrário de outros pensadores anteriores (sobretudo Gilberto Freire, autor de "Casa Grande e Senzala"), Sérgio Buarque de Holanda (para quem não conhece, pai do cantor e irmão do autor do dicionário) encara nossas raízes ibéricas justamente como nossa maior desgraça, mas sem apelar para a imaginação de "realidades alternativas", como "teríamos destino melhor se fossemos colonizados pelos holandeses".

Raízes do Brasil começa então analisando a estrutura histórica dos povos ibéricos, para demonstrar características sociais e psicológicas que teriam sido nossa herança maldita. Apoiado em rigorosa pesquisa histórica, o autor aponta aspectos da colonização portuguesa, como a vontade de lucro rápido e fácil, sem planejamento para o futuro, e características do povo que permaneceram na nossa classe dominante, como a emotividade, e a incapacidade de largar isso no trato dos assuntos públicos. Isso foi escrito em 1936, mas ainda em 2010, quem nunca ouviu algum idiota dizer que consegue uma vaga em algum cargo público porque é "amigo" de um vereador?

Outra análise muito interessante presente neste livro é o que o autor chamou de "homem cordial": o brasileiro, em suas relações pessoais, é generoso, hospitaleiro, não por civilidade, mas pela emotividade e horror às relações impessoais - o total oposto do japonês. Lembro sempre disso quando estou numa fila demorada e alguém que eu nunca vi na vida tenta puxar algum assunto bem trivial.

Para Sérgio Buarque, toda essa cultura de emotividade chegou até nós com força via nossa classe dominante, que na época colonial era representada pelos grandes agricultores, que viviam como reis dentro de suas terras, mandando em todos à sua volta, sem serem incomodados por nenhum tipo de poder governamental. Essa mentalidade patriarcalista se manteve intacta por três séculos, e só começou a ser afetada quando a família real veio para o Brasil e o desenvolvimento da vida urbana teve início. O autor classificou este processo como a única revolução brasileira, a superação da vida e da mentalidade rural por uma realidade urbana, ainda em curso durante a escrita do livro.

Em sua época, a urbanização já era bastante avançada quando comparada com o século anterior, mas não chegava nem perto da que nós vivemos hoje. Entretanto, mesmo com as considerações de Sérgio Buarque de Holanda tão atuais, tenho a impressão que a tal revolução ainda não foi concluída e está longe de ser, tendo em vista todo o clientelismo e apadrinhamento existentes mesmo nos grandes centros urbanos, desde as trocas de favores com autoridades, até pequenas atitudes como aquele adiantamento no processo porque você tem um "amigo" no fórum, aquele remédio que o "amigo" enfermeiro conseguiu trazer do hospital público, aquela vaga na escola que sua "amiga" que trabalha na secretaria conseguiu reservar ou até a vista grossa na sua falta no emprego público porque o diretor é seu "amigo". Sérgio Buarque de Holanda não se calará ainda por muito tempo.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 220
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Nota: Nelson Pereira dos Santos dirigiu um excelente documentário com o mesmo nome do livro, em 2004, sobre a vida de Sérgio Buarque de Holanda, no qual podemos ver, entre outras coisas, filmagens privadas do autor cantando em alemão e o Carlinhos Brown (seu genro) declarando que achava que seu sogro era quem havia feito o dicionário...

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Crônicas do Rio - Raul Pompeia


A coleção Biblioteca Carioca era uma publicação do município do Rio de Janeiro que se prestava a publicar livros com temas relacionados à cidade, alguns volumes muito originais, como pesquisas acadêmicas, e outros, na falta daqueles, publicações de autores famosos que retratavam em suas obras o Rio de Janeiro de sua época, como Machado de Assis e Lima Barreto. "Crônicas do Rio", de Raul Pompeia (o autor de um livro considerado por muitos o mais chato da literatura brasileira, "O Ateneu"), foi o volume 41 da coleção.

Um apanhado de crônicas escritas pelo autor de "O Ateneu" para o jornal de Juiz de Fora "Diário de Minas", entre 1888 e 1889, o livro é uma pequena miscelânea de textos sobre o cotidiano da capital na época da derrocada da monarquia, para manter bem informados os leitores provincianos do que se passava na principal cidade de então: críticas sobre o cenário cultural do centro da cidade, alguma coisa sobre política e até notícias sensacionalistas de assassinatos cometidos por maridos traídos.

A pessoa que decidiu pela publicação desta obra pode ter tido a melhor das intenções, mas a minha impressão foi de um livro chatíssimo, de crônicas nem um pouco universais - só fazem sentido no seu contexto estrito - e úteis apenas para quem está pesquisando especificamente o Rio de Janeiro da época ou a obra completa de Raul Pompeia. Todos os livros da coleção estão esgotados, e alguns são bastante difíceis de encontrar. "Crônicas do Rio" até que não é difícil de encontrar em sebos, porém pode ser gratificante procurar os outros volumes mais difíceis da Biblioteca Carioca, pois há muita coisa melhor nos 40 volumes anteriores e em mais alguns lançados posteriormente.

Editora: Biblioteca Carioca
Páginas: 107
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * *

domingo, 24 de janeiro de 2010

Equador - Miguel Sousa Tavares


Apesar do grande sucesso no meio literário e das muitas críticas elogiosas ao livro de estreia de Miguel Sousa Tavares, eu nunca tinha ouvido falar deste autor e nem tinha ideia do que tratava este livro, tendo em vista que, mesmo lendo bastante, não acompanho muito as novidades do mundo literário, pelo simples motivo: há tanta coisa essencial para ler e tão pouco tempo! Na tentativa de reverter um pouco esta deficiência em minhas leituras, tive ótimas recomendações em relação a este autor de uma pessoa que diz ter passado os dois últimos anos se dedicando intensivamente à leitura de literatura contemporânea africana ou que tratasse da África, e comprei "Equador" num sebo, para verificar o que se passa na literatura mundial hoje em dia.

A ficção histórica em questão se passa no início do século XX, nas ilhas de São Tomé e Príncipe, então colônias portuguesas, no contexto da crise da monarquia portuguesa - que chegou ao fim em 1910. Luís Bernardo Valença, um bon vivant que aproveita o melhor de Lisboa com amigos e mulheres, é convocado pelo rei d. Carlos para uma missão nas ilhas equatoriais: governar as colônias com o objetivo de provar aos ingleses que lá não existe trabalho escravo e, consequentemente, evitar o boicote aos produtos portugueses. Viver numa colônia sem nenhum conforto e longe da agitada vida social a qual estava acostumado e convencer os roceiros das ilhas a modificar o sistema de trabalho em vigência há gerações, mesmo sendo famoso por ter escrito artigos criticando o sistema colonial português, esses são só os desafios iniciais do protagonista.

Ao contrário do padrão de livros desta categoria - muita ação e combates - "Equador" é uma história centrada mais nos pensamentos e sentimentos dos personagens do que nos desenrolar dos acontecimentos, e o resultado é ambíguo: longas partes monótonas onde a leitura se arrasta intercaladas por páginas onde algo realmente acontece, e por isso tão aguardadas e de leitura rápida. Tem-se a impressão inicial que a escrita de Miguel Sousa Tavares é boa e inteligente, o que realmente não deixa de ser verdade, mas com o passar do texto, o estilo rebuscado cansa e dá a impressão de pedantismo. Talvez seja isso que os críticos tenham reconhecido neste autor, ou talvez simplesmente pelo fato dele ser um intelectual famoso em seu país, onde escreve colunas em vários jornais, pois a história em si não tem nada de muito surpreendente, apesar de personagens bem trabalhados - um deles dá margem para um minilivro de 50 páginas dentro do livro, que provavelmente é a parte mais interessante da leitura.

Outro ponto positivo que tenho que considerar é a exploração de uma característica comum a todos os bons livros de ficção histórica, que não falta em "Equador": a exposição do ambiente da época em que se passa a história, particularmente o sentimento português em relação ao seu mundo colonial. Méritos para o autor que, além de desenvolver bem esta característica nos personagens, fez um eficiente trabalho de pesquisa em jornais e livros de pesquisas históricas para retratar os pormenores de Lisboa, das ilhas e da diplomacia do colonialismo.

"Equador" não é um livro ruim, mas está muito aquém do estardalhaço que se fez na época de seu lançamento (2003). Para quem ainda tem uma lista interminável de leituras desejadas, acho que suas pesadas 527 páginas podem ser remanejadas para o final da fila.

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 527
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

Livro Digital


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Wildcats: Como matar um Wildcat - Joe Casey e Sean Phillips

Na década de 1990, os quadrinhos da Marvel estavam com a bola toda, com desenhistas superstars como Jim Lee, Todd McFarlene e Marc Silvestri. Seus desenhos super-estilizados, uma novidade para a época (mas que logo se transformariam no estereótipo do machão musculoso e da heroína gostosona) faziam certos títulos chegarem à tiragem de milhões (como a famosa minissérie dos X-Men de Jim Lee), e o que eles ganhavam com isso? Salários de desenhistas, nada mais. Nenhuma porcentagem das vendas, nenhum direito sobre personagens criados por eles. Revoltados – e olhando uma mina de dinheiro à frente – os tais desenhistas-estrelas criaram a Image Comics em 1992, editora na qual cada um teria os direitos de suas criações.

Na época de sua criação, a Image Comics nada mais era do que uma cópia das editoras Marvel e DC, com super-heróis no mesmo estilo, alguns grosseiramente copiados. Um grupo destes super-heróis se chamava WildC.A.T.s, criados por Jim Lee, e como todos os outros, era cheio de fortões e gostosonas, sem nada a acrescentar à cultura de ninguém. Essa foi a imagem dos Wildcats que ficou na minha cabeça, por isso nunca tive muito interesse em acompanhar a série. Porém, acho que todo ser tem em si a possibilidade de evoluir – não vê os Beatles, de boys band à maior banda de rock da história? – e visitando fóruns na internet li comentários muito elogiosos a respeito do que os Wildcats haviam se tornado. A informação que recebi foi que um arco havia sido escrito até por Alan Moore, ou seja, Deus – isso não é pouca coisa. Depois dessa, com certeza alguma coisa havia mudado, e isso ficou na minha cabeça.

Certo dia, forçado a uma viagem de ônibus imprevista, sem tempo para preparar o livrinho para ler durante o trajeto, entrei numa banca para pegar alguma coisa que me distraísse – odeio viagens de ônibus! – e me deparei com dezenas de gibis da Panini, daqueles de super-herói com quatro histórias no miolo, três medíocres e uma razoável, todas já iniciadas em outras edições e com o clássico “continua” no final. Já estava preparado para comprar qualquer porcaria melhor do que isso, talvez até aqueles livrinhos eróticos com casais seminus na capa, quando encontrei enterrada no fundo da banca uma edição encadernada de Wildcats, com o selo da quase finada editora Pixel Media – que não costuma publicar besteiróis americanos – e me salvei de algumas horas de tédio infernal.

Realmente tive uma surpresa e pude comprovar como mudou a orientação das histórias destes personagens. A revista em questão se chama “Como matar um Wildcat”, reunindo varias histórias em 160 páginas. Ainda existem reminiscências de quadrinho-espetáculo em algumas partes, mas a maioria da revista é composta por desenhos sombrios e crus, e os temas são mais adultos do que pura pancadaria. A trama é muito interessante, e mesmo eu, que não conhecia quase nada sobre nenhum personagem, pude entender o que se passava.

A primeira história é independente das outras, sobre um personagem chamado Warblade em busca de vingança contra um vilão que matou sua namorada. Desenhos razoáveis de Carlos Meglia (quem?), e roteiro dispensável de Scott Lodbell, nada mais. A trama principal do volume começa mesmo na segunda história. O grupo original se desfez, e um mistério a respeito do chefe do grupo faz com que alguns deste antigos heróis suspeitem estar sendo manipulados e enganados e se juntem para descobrir a verdade. Uma trama muito bem-feita, com personagens bem caracterizados e um final que aparentemente redefine os rumos do grupo. Bom roteiro de Joe Casey e desenhos estilizados e justos de Sean Phillips. No meio da revista há também outra história da fase besteirol americano, tipo um interlúdio sem motivo algum e sem nenhuma ligação com a trama principal, mas nada demais, é só pular algumas páginas.

Terminando a leitura de “Como matar um Wildcat” dá vontade de comprar o próximo volume encadernado, mas com o vergonhoso fim da Pixel Media, infelizmente creio que vou ficar só na vontade mesmo, até que outra editora adquira os direitos sobre o grupo. Os Wildcats mudaram, e pelo que acompanho dos quadrinhos americanos a Image também – a editora não publica mais os personagens bombados de sua fase inicial, e hoje aparentemente seus títulos são mais sérios, com temática adulta. Um brinde à evolução!

Editora: Pixel
Páginas: 160
Disponibilidade: normal (em lojas especializadas)
Avaliação: * * * *

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Último Imperador - Edward Behr


Geralmente, bons livros são adaptados para o cinema, mas no caso de "O Último Imperador", aconteceu o inverso. A obra-prima de Bertolucci fez tanto sucesso que foi imperativo (sem trocadilhos) que a impressionante história verídica de P`u-i fosse parar nas prateleiras das livrarias.

Também geralmente, as histórias transformadas em filmes perdem muito de sua qualidade - o que também não é o caso aqui, pois "O Último Imperador" é um filme fantástico, onde se destaca a genialidade do diretor -, mas quase sempre elas perdem algo de seu conteúdo, dadas as limitações de tempo até nos maiores longas metragens. O filme de Bertolucci não foi feito para explicar os pormenores da vida de P`u-i, mas sim apresentar esta figura ímpar na história de uma forma artística insuperável. Lendo o livro após ver o filme, percebe-se que muita informação extra foi incluída nesta biografia, mesmo histórias paralelas de coadjuvantes na vida de P`u-i, para o deleite de qualquer espectador que saiu dos cinemas satisfeito na década de 1980.

A biografia do último imperador da China escrita por Edward Behr começa antes do que se mostra no filme, apresentando a situação na China, que era uma quase colônia das potências europeias, humilhada e praticamente saqueada, e as intrigas palacianas que cercaram a sucessão da maligna imperatriz viúva Tz`u-hsi, predecessora de P`u-i. Só então o livro começa a tratar da vida do último imperador, que aos três anos já fora coroado e tornou-se prisioneiro na Cidade Proibida - a China era uma República, mas os líderes não ousaram destituir o povo deste símbolo presente na história do país desde o terceiro milênio antes de Cristo.

Todo o restante da vida de P`u-i - sua expulsão da Cidade Proibida, a aliança com os japoneses que conquistaram a Manchúria antes da II Guerra Mundial, sua captura pelos comunistas de Mao Tsé-Tung no poder, a prisão e sua transformação em cidadão modelo da República Popular da China - além de serem esmiuçados aos mínimos detalhes, são analisados pelo autor, dando muito mais sentido a diversas passagens do filme. Todos que cruzaram seu caminho - esposas, servos, os poucos amigos que o ajudaram e as muitas pessoas que tiraram proveito de sua posição - também tiveram este cuidado do autor. Depois de todas as informações dispostas nas 280 páginas do livro, cabe ao leitor julgar esta personalidade sem igual: bondoso? inteligente? covarde? mesquinho? manipulador? sincero?

Edward Behr utilizou como fontes de sua pesquisa, além de documentos oficiais, jornais e conversas com pessoas que viveram ao lado de P`u-i, dois livros escritos por personagens desta história: um do tutor do jovem imperador, o escocês Reginald Fleming Johnston, que narrou seus dias na Cidade Proibida, e a própria autobiografia de P`u-i, um livro cheio de meias-verdades escrito por um ghost writer chinês. Intitulado "O Último Imperador da China", também teve tradução para o português, e é encontrável em sebos.

O filme de Bertolucci é uma aula de como fazer um filme, e ganhou uma porção de prêmios pelo mundo. O livro, que ganhou um prêmio Gutemberg, é uma aula de história da China e do mundo contemporâneo traçada ao redor de alguém que viveu diferentes mundos da forma mais intensa possível, alguém que nasceu nobre, muito cedo se tornou imperador e morreu jardineiro e cidadão comunista, talvez sinceramente, talvez por interesse. Veja o filme, depois leia o livro (apesar de esgotado, é fácil encontrar em sebos), e ligue o dvd de novo para atentar aos detalhes.

Editora: Record
Páginas: 281
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Fritz the Cat - Robert Crumb


Já citei Rubert Crumb por aqui na resenha sobre a Zap Comix, livro no qual ele é um entre outros excelentes artistas, mas pela sua importância no mundo dos quadrinhos, a editora Conrad publicou há alguns anos boa parte de sua obra em volumes de boa qualidade. A maior parte desta coleção se encontra na minha estante, e um dos livros mais importantes é "Fritz the Cat".

Fritz é um gato antropomorfizado através do qual Robert Crumb criticou a sociedade americana da década de 1960. Ele é um malandro desbocado que faz sexo com todo o tipo de garotas, usa drogas e se mete em situações insólitas muitas vezes alheias à sua vontade. Cada camada social é representada por animais diferentes - por exemplo, os corvos são uma metáfora interessante para os negros, e seus perseguidores, os gatos, são os brancos. Também numa crítica debochada ao macartismo e à fobia anticomunista ainda vivos naquela época, os chineses são retratados como ratos. Outros animais são utilizados somente para representar a diversidade, sobretudo das garotas com quem Fritz transa - jacarés, cadelas, éguas, etc.

O personagem foi inspirado no gato do autor quando criança, "Fred" (segundo suas palavras, "o típico gato miserável, vagabundo e sujo"), e na primeira história ("Vida de Gato"), que é bem diferente das outras, com os gatos em suas formas originais e na única ocasião onde aparecem seres humanos, Fritz é apenas um coadjuvante, sendo Fred a estrela. Estas primeiras páginas são desenhadas a lápis, ainda durante a juventude de Crumb, uma época em que ele desenhava para divertir seus irmãos e evitar ter contato com o resto do mundo. "Vida de Gato", ao invés de zoar com toda a sociedade da época, é uma história simples, inocente (se comparada com o restante) e uma das melhores do livro, mas acho que só pode ser compreendida corretamente por quem tem ou já teve um gato - o que é o meu caso.

O conteúdo começa a ficar mais pesado a partir da segunda história, na qual Fritz, agora bípede e vestido, visita a casa da mãe, revê a irmã que cresceu e acaba trepando com ela. O restante são sátiras a figuras da época - a maioria ainda muito atuais -, como vendedores pilantras, mágicos charlatões, agentes secretos, ídolos do rock, líderes revolucionários. No meio de todas as excelentes histórias, para mim uma se destacou: "Fritz cai fora", que traduz de forma sem igual o climão de fins da década de 1960, meio hippie, meio beatnik, totalmente livre. Aqui, Fritz se cansa de tudo, taca fogo nos seus livros da faculdade (e consequentemente no apartamento que dividia com os amigos), se mete em várias furadas e mete o pé na estrada.

A coletânea "Fritz the Cat" é fundamental na bibliografia básica de quadrinhos por causa da importância histórica do personagem e de sua qualidade, e ignorando erros mínimos, a edição da Conrad merece nota máxima, já que na época de seu lançamento (2004) era a antologia mais completa do gato em todo o mundo, incluindo até desenhos inacabados.

Robert Crumb foi o criador e maior representante dos quadrinhos underground, tendo virado tema do documentário "Crumb", de 1994. Ele está com 66 anos e atualmente se dedica a quadrinizar todo o antigo testamento - palavra por palavra! -, mas quem imagina o lado religioso do autor incorre ao erro: ele mesmo já disse que é exclusivamente pela bela grana que está recebendo para isso - 1 milhão de dólares adiantados só pelo "Gêneses", segundo rumores.

Fritz the Cat nasceu como uma brincadeira entre irmãos, se tornou o principal personagem underground da década de 1960, chegou até a virar uma animação bacana (que dá para encontrar em sites de download) e por causa de todo esse sucesso foi morto pelo seu criador. Sua última história é de 1972.

Editora: Conrad
Páginas: 136
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *



domingo, 13 de dezembro de 2009

O Messias de Duna - Frank Herbert


Para mim, Duna é a melhor série de livros de ficção científica - e talvez a melhor série de livros em geral. Depois que li o primeiro volume da série, demorei mais de um ano para digeri-lo por completo, tamanha a complexidade do universo criado por Frank Herbert. Neste período, pesquisei bastante sobre tudo relacionado à série, li Duna desde o começo mais uma vez para relembrar os muito detalhes e termos criados pelo autor, vi o filme de 1984 (que é uma porcaria!) e só então comecei a ler "O Messias de Duna", o segundo livro da série.

O livro tem início 12 anos após os acontecimentos de Duna, tempo durante o qual a Jihad é estabelecida pelo universo e Paul Atreides comanda o poderoso império através de suas hordas fremem. Atormentado por suas visões do futuro (ou das possibilidades do futuro), o Muad`Dib (como Paul é conhecido entre seus fanáticos seguidores) luta para se desviar de futuros desastrosos e moldar a realidade de acordo com seus planos, enquanto uma conspiração tenta destruí-lo em benefício da grande companhia de comércio, já que o imperador controla sozinho toda a produção de melange, o produto mais importante do universo.

Apesar de ser bom, "O Messias de Duna" não alcança o estrondoso sucesso do primeiro livro, mas para os fãs é uma bela continuação desta maravilhosa saga. Não há tanta ação, e nem tanta reviravolta na história, sendo este volume bastante menor que o primeiro, mas a trama é muito bem elaborada e se transforma quase numa história policial quando se chega ao final e toda a conspiração é finalmente elucidada. O aparecimento de novos componentes do universo de Frank Herbert, como alienígenas e organizações secretas é um prato cheio para quem leu Duna e ficou querendo mais, bem como o destino e o retorno de antigos personagens.

"O Messias de Duna" é fundamental para os fãs da série, mas descartável para quem não leu o primeiro volume, pois para estes será uma leitura incompreensível.

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 283
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital


sábado, 5 de dezembro de 2009

827 Era Galáctica - Isaac Asimov


A fantástica imaginação de Isaac Asimov rendeu à humanidade 463 livros, entre diversos temas, mas principalmente ficção científica, gênero que o tornou venerado por milhões de nerds de diversas gerações. Para minha introdução à sua obra, deixei de lado os famosos contos de robôs (como "Eu, robô" e "O Homem Bicentenário") ou a considerada obra prima "Fundação" e escolhi algo menos conhecido, "827 Era Galáctica", primeiro livro da série "Império Galáctico".

Esta série se passa num futuro aparentemente muito distante, no qual a Terra é um planeta insignificante em relação aos outros milhares habitados por seres humanos, assolado por radiação (provavelmente por causa de uma guerra nuclear), e por isso pobre e vítima de preconceito do resto da humanidade espalhada pelo universo. Entretanto, é ignorado que a própria humanidade surgiu aqui e depois se espalhou pelo universo.

A trama se dá em torno de Joseph Schwartz, um alfaiate americano idoso que, caminhando pela rua fazendo planos para sua iminente aposentadoria, é atingido por uma raio que o transporta para o ano 827 da Era Galáctica, uma época em que as pessoas não têm o direito de viver após os 60 anos, devido aos escassos recursos do planeta - exceto personalidades muito importantes. Paralelamente, um arqueólogo chega à Terra para tentar provar que a humanidade tem origem no nosso planeta (o que contraria a teoria vigente de que os seres humanos teriam se originado de forma dispersa), e um cientista e sua filha trabalham em experiências para aumentar as capacidades mentais dos seres humanos, sob a repressão do governo terrestre e um quadro de tensão crescente deste com o império galáctico.

A trama do livro é bastante interessante, nem tanto pelo que acontece com os personagens e o rumo da história, mas sim pela imaginação de um planeta Terra no futuro, suas instituições, sociedade, ecologia e posição política no universo. Os personagens são bons, mas não ótimos, e o final é um pouco previsível. "827 Era Galáctica" está longe de ser um livro sensacional, mas não deixa de ser uma leitura leve e divertida e uma porta de entrada para o poder da obra de Isaac Asimov.

Editora: Hemus
Páginas: 235
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * *

sábado, 28 de novembro de 2009

Zap Comix - vários autores


No final da década de 1960, em meio à guerra do Vietnã, ao conflito capitalismo x comunismo e ao sistema conservador que reprimia qualquer expressão de liberdade, jovens do mundo todo erguiam suas barricadas, físicas ou simbólicas, jogando pedras em soldados dos regimes ditatoriais no Brasil e no leste europeu, ou fazendo sexo e usando drogas sem parar. Tudo foi afetado: os hábitos, a música, a moda, e também os quadrinhos, que até então eram ingênuos e infantis.

A caretice dos quadrinhos tinha uma base forte: na década de 1950, um tal Fredric Wertham escreveu um livro chamado "A sedução dos inocentes", no qual afirmava "cientificamente" a periculosidade das histórias em quadrinhos nas mentes das criancinhas - segundo essa teoria, os garotos sofriam alto risco em pendurarem um lençol no pescoço e se jogarem das janelas dos prédios achando que iam voar como o Super-Homem... Para salvar sua pele, as próprias editoras entraram num esquema de autocensura através do "Comics Code Authority", um selo obrigatório em todos os gibis, indicando que os mesmo não apresentavam "riscos" para seus pequenos leitores - um longo index indicava o que era permitido e o que não era, como por exemplo, o bem ser derrotado pelo mal... Furar este bloqueio não era fácil, e poucos conseguiram, como em 1952 a revista Mad (que teve que mudar de formato para não ser classificada como gibi e foi investigada pelo FBI sob suspeita de incitar a delinquência juvenil). Contudo, a venerada Mad foi vendida em 1961 por questões fiscais, e então entrou no esquema das grandes editoras, perdendo seu encanto e sua importância. A caretice voltava aos quadrinhos, mas no ambiente de mudanças da década de 1960, surge a Zap Comix, no emblemático ano de 1968.

A Zap Comix é uma lenda entre os fãs de quadrinhos, por ter quebrado a barreira do Comics Code Authority e aberto as portas para os quadrinhos adultos e underground. Seu nascimento já é uma história e tanto: Robert Crumb, seu criador, vendia pessoalmente as revistas nas ruas de São Francisco. Sua namorada, grávida, decidiu ajudá-lo, e o casal perambulava pela capital hippie carregando as revistas dentro de um carrinho de bebê. Com o sucesso do primeiro volume, a publicação passou a contar com mais seis autores: S. Clay Wilson, Robert Willians, Spain Rodriguez, Victor Moscoso, Rick Griffin e Gilbert Shelton, cada um com sua doidice (surfe, drogas, carros, comunismo...), mas todos extremamente talentosos. Após a publicação da edição no. 4, os autores tiveram que enfrentar processo judicial por causa do conteúdo imoral da revista, o que foi, ao lado do julgamento dos oito ativistas de Chicago, um recado de que a repressão armava seu contra-ataque nos Estados Unidos, e a era hippie já era. Apesar disso, a Zap Comix teve 14 números, até 1996, quando Crumb desistiu de participar. As revistas eram lançadas mais ou menos a cada 3 anos. Em 2005 foi lançado o número 15, mas desconheço se Crumb participou.

O conteúdo das revistas era de cunho altamente contestador, apresentando tudo o que era proibido, e ao mesmo tempo mostrando o clima da época. Algumas histórias tinham apenas uma página, outras um pouco mais, mas todas eram recheadas com muito humor. Algumas narrativas apresentam uma organização básica e estrutura normal, outras são puro psicodelismo, e ainda tinham páginas que satirizavam as propagandas dos gibis da época, e outras que eram simplesmente painéis surreais. Zoação com os quadrinhos caretas também não faltam, como o Javali-Maravilha. Uma das histórias mais engraçadas é a de um barco de piratas gays, que expõem seus desejos sexuais com seus companheiros explicitamente (coisas como "adoro que todos os marujos gozem na minha boca!"), e são atacados por um barco de piratas lésbicas. Outra também muito legal é uma passagem da vida real - uma discussão entre três membros da Zap e Crumb, quando este decidiu largar a revista - contada de três maneiras diferentes, cada uma mais engraçada que as outras.

O volume publicado pela editora Conrad é uma compilação de 1968 até 1996, e apesar do belo trabalho dos editores brasileiros, da ótima introdução de Rogério de Campos contextualizando a obra e um acabamento de primeira, justamente aí se localiza um ponto fraco: me pareceu que as histórias compiladas perdem o vigor e muito de seu sentido fora da estrutura independente da época, mas essa é a única maneira de conhecermos esse importante trabalho, pois seria comercialmente inviável a reedição dos originais como foram publicados. O único ponto negativo da edição brasileira foi a falta de créditos dos artistas e datas em algumas histórias, mas pelas referências a acontecimentos contemporâneos a elas, dá para se ter uma noção aproximada de sua data na maioria das vezes. Por causa desses pequenos problemas, minha avaliação da edição brasileira de Zap Comix não vai atingir a nota máxima, mas as histórias em si são excelentes e essenciais para quem curte quadrinhos.

Editora: Conrad
Páginas: 187
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A Formação das Almas - José Murilo de Carvalho

Durante o período da ditadura militar no Brasil, uma quantidade considerável de recursos do país foi utilizada em realizações que muito pouco contribuíram para o avanço na direção de um povo apto para sua autodeterminação, sendo uma delas a ação deliberada no sentido de formar cidadãos sem o menor pensamento crítico em relação ao seu país. Apesar de ter nascido nos últimos anos deste período infame e, portanto, ter passado os primeiros anos da escola já no governo do bigodudo maranhense, lembro bem de ter aprendido que o verde da bandeira representa nossas florestas, o amarelo nossas riquezas e que o sentido de "ordem e progresso" era simplesmente como está no dicionário - resultado dos 20 anos anteriores, tempo em que minha professora aprendeu isso na escola dela.

Com a ditadura chegando ao fim, uma onda de desejos de libertação tomou conta do Brasil, não só com as letras sacanas da Blitz e do Ultraje a Rigor, mas também nas obras dos historiadores da época, como "A formação das Almas", de José Murilo de Carvalho. Este interessante livro aborda o período inicial da república com um pouco menos do glamour contido nos livros didáticos da época da minha mãe, mostrando o real sentido de fatos relacionados ao ato da proclamação.

A questão central abordada no livro é: que país se quis criar com a mudança de regime? E afinal, que país foi criado? Primeiramente, há que se saber quem queria criar este país, e devemos ser apresentados aos personagens que lideraram este processo. O problema é saber quem foram os verdadeiros líderes que promoveram a proclamação da república, já que cada um deles (Deodoro, Constant, Floriano e Bocaiúva) teve seu nome escrito na história de acordo com os interesses da época. Sem que se chegasse a um consenso sobre quem seria o herói da pátria, a grande responsabilidade recaiu sobre Tiradentes, que até então nada tinha a ver com a história em questão, mas sua escolha pegou tão bem que sua imagem foi utilizada (sem sua permissão, diga-se de passagem) tanto por governos militares como por grupos guerrilheiros.

Além da discussão sobre os heróis e formadores de nossa pátria, o livro de José Murilo também discute os símbolos do país, como a bandeira e o hino (de forma muito menos gloriosa do que a história das florestas e das riquezas nas cores do pavilhão), e os que tentaram ser mas não foram - como a tentativa de se identificar a república como uma mulher (que logo foi transformada em prostituta pelos opositores do novo regime). Tudo isso foi fruto de inteligente pesquisa do historiador da UFRJ, com seu característico sarcasmo sutil e muitas figuras de época.

"A Formação das Almas" é um excelente trabalho de nível acadêmico bastante acessível também para leitores de fora da academia, sem chateações eruditas ou linguagem para iniciados no ambiente dos pós-doutores. Essencial para qualquer cidadão que pretende conhecer as origens do país onde vive, compreender as entrelinhas nas palavras da bandeira nacional ou pelo menos saber quem são os senhores representados nas estátuas que dividem lugar com as cotias na Praça da República.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 168
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *