domingo, 2 de maio de 2010

Dividir para Dominar - H. L. Wesseling


Há décadas, o mundo acompanha nos noticiários os trágicos acontecimentos na África pós-colonial: guerras entre grupos étnicos historicamente rivais, fome, economias nacionais atrasadas e todos os problemas que os países não-desenvolvidos passam. Muitas explicações foram dadas ao longo dos anos e reproduzidas pela mídia e nos livros didáticos, tais como “a Europa não respeitou as diferenças e particularidades dos povos africanos”, “a África, depois de explorada, foi deixada pelos europeus à própria sorte”, “grupos rivais foram colocados em um mesmo espaço colonial”.

Todas estas explicações são de conhecimento público e são ensinadas aos estudantes, porém de forma vaga e incompleta: fala-se que os países europeus dividiram a África entre si, mas geralmente não se entra em detalhes de como ocorreu tal divisão (e quando é apresentada tal explicação, recorre-se ao mito da Conferência de Berlim, na qual os europeus teriam partilhado a África da forma mais simples o possível, com um mapa sobre uma mesa rodeada por chefes de Estado das potências envolvidas).


Foi buscando esclarecer para o público o processo de partilha da África pelos europeus que o professor holandês Henk L. Wesseling (Universidade de Leiden) escreveu o livro “Dividir para Dominar: A Partilha da África – 1880-1914”, desmistificando certos aspectos fantasiosos, herdados do frenesi europeu da própria época da partilha e propagados até os dias de hoje.


A importância de “Dividir para Dominar” se dá pelo tema central que o autor explora no livro. Diferentemente de abordar somente como aconteceu a colonização dos territórios e as consequências desta dominação, Wesseling explora as relações entre os países europeus envolvidos na partilha, admitindo que na África do final do século XIX e início do século XX, “as decisões importantes eram no fim tomadas por políticos europeus, embora freqüentemente muita coisa acontecesse antes”. Para o autor, a história da África durante o período (1880-1914) foi feita mais pelos europeus do que pelos africanos. “Por isso é que as decisões e opiniões dos europeus ocupam um lugar central nesse livro”. Wesseling afirma na introdução que sua visão é “antiquada”, mas apresenta bem os argumentos que a legitimam durante as 464 páginas do livro. Apesar de tal posição, o autor é ousado ao promover uma abordagem diferenciada, buscando a compreensão de “como” ocorreu a partilha entre os países envolvidos, ao invés de se fixar somente no tradicional “porquê” dela (apesar de também investigar as motivações de cada um dos países em colonizar territórios africanos).
Numa abordagem panorâmica, Wesseling divide seu livro baseando-se em critérios geográficos e ao mesmo tempo cronológicos, pois para ele a partilha da África começa no norte do continente, partindo em direção ao sul e terminando novamente no norte. Por isso, o livro é iniciado com a disputa entre a França e a Grã-Bretanha no norte da África (sobretudo no Egito) na década de 1880, prossegue com a entrada de novos participantes do “jogo diplomático” à medida que a partilha segue para o sul do continente (Portugal, a Bélgica – na figura de Leopoldo – e a Alemanha), e tem seu epílogo novamente no norte, com a conquista do Marrocos, já no século XX.

Logo na introdução do livro, o autor já apresenta um ponto importante a ser abordado: a diferença entre partilha e possessão. Sobre a clássica apresentação dos mapas da África em 1880 e 1914 lado a lado, muito comum em livros didáticos e enciclopédias, onde cada parte do território africano apresenta uma cor representando a que país “pertencia”, Wesseling rechaça tal visão deturpada e afirma que as respectivas cores representam não o domínio concreto, mas o reconhecimento das outras potências europeias sobre a autoridade que cada país poderia exercer no continente africano.
É nessa ótica que Wesseling vai traçar sua tese e explorar o tema. O livro é basicamente um tratado sobre as relações diplomáticas entre os europeus interessados na colonização da África e as manobras utilizadas por seus participantes para conseguir cumprir seus objetivos. A tese da preponderância das decisões europeias sobre os rumos da África é a todo momento explorada em diversas páginas do livro: o processo de afirmação do domínio é sempre aos modos europeus, desde a autoridade regional que “cede” os direitos através de uma marcação em algum documento, semelhante a uma assinatura de contrato, algo totalmente alienígena a algumas culturas africanas da época, até a pura e simples intimidação através da via militar. Entretanto, apesar de o autor sempre afirmar sua tese, são expostos argumentos ao longo do próprio livro que negam uma passividade que tal tese pode por ventura parecer defender. As dificuldades encontradas pelos europeus nas resistências africanas, sobretudo nas regiões do Sudão e da África Oriental, mostram que, mesmo decidindo o destino dos africanos, os europeus não tomaram decisões sem situações determinantes, não houve a famosa demarcação de protetorados e colônias no mapa sobre a mesa da Conferencia de Berlim. Por mais que as decisões finais fossem europeias, as resistências africanas determinaram as possibilidades destas decisões.
Outro ponto para qual o autor atenta diz respeito às atitudes dos europeus entre si. Wesseling afirma que as nações europeias não chegaram a ultrapassar os limites das negociações diplomáticas no processo da partilha, apesar destas terem sido na maioria das vezes acaloradas e de França e Inglaterra quase terem chegado a um conflito armado em questões referentes à África Ocidental. Entretanto, se o conflito armado não foi promovido pelos Estados europeus, alguns de seus cidadãos o fizeram, e por isso Wesseling dispõe de longas páginas para narrar o conflito ocorrido entre colonos de origem holandesa e inglesa no sul da África conhecido como Guerra dos Bôeres.

As biografias também ocupam um número considerável de páginas na referida obra. Como o autor admite na introdução que o livro “preocupa-se sobretudo com as pessoas e suas motivações”, dando “mais ênfase aos fatores individuais que aos de grupos, aos concretos que aos abstratos”, estão presentes no trabalho as histórias pessoais dos principais envolvidos no processo de partilha da África, geralmente de forma sarcástica e bem-humorada, com detalhes às vezes pouco elogiosos, mas que talvez expliquem o porquê das motivações dos homens que promoveram este episódio da História. Muitos historiadores podem não dar muita importância para as biografias, mas pelo menos na obra de Wesseling, através delas temos pistas de, por exemplo, porque Gladstone ou Bismark modificaram suas idéias sobre o colonialismo e passaram a participar da “corrida pela África”, o que levou Leopoldo a iniciar sua cruzada pessoal obsessiva por uma colônia (onde quer que ela fosse), que influência tiveram as histórias sobre Gordon ou o paxá Emin sobre a opinião pública nos países envolvidos na partilha ou o que motivava homens como Peters ou Stanley a promover suas aventuras que tanto encantaram os povos de todo o mundo através dos jornais, de certa forma legitimando a exploração do continente africano aos olhos da população.


Por sua capacidade de apresentar aspectos desconhecidos ao público e desfazer-se de vícios e meias-verdades reproduzidas ao longo dos anos, e por ser uma novidade historiográfica para os pesquisadores e estudantes brasileiros, “Dividir para Dominar: A Partilha da África – 1880-1914” merece especial atenção de todos os interessados na História da África, e tem potencial para abrir as portas para pesquisas na área, que ainda carece de novidades, e a para a melhor formação de especialistas brasileiros sobre o assunto.


Editora: Revan / UFRJ

Páginas: 464
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

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