quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? - Philip K. Dick

Um título inusitado como esse pode não soar familiar a pessoas não aficionadas com o mundo da ficção científica, mas a situação muda quando se diz Blade Runner - O Caçador de Androides, o clássico absoluto de 1982 que foi baseado nesse livro de Philip K. Dick. Dirigido por Ridley Scott (o mesmo de outro filme supremo, Alien - O Oitavo Passageiro), estrelado pelo "cara" do cinema de aventura e ficção dos anos 80 Harrison Ford (que além desse trabalho "só" fez as trilogias Star Wars e Indiana Jones) e com uma música inesquecível de Vangelis, Blade Runner é o que há de melhor no estilo, e mesmo quem não curte sci-fi pelo menos já ouviu falar sobre esse marco da cultura pop. Porém, ainda é pouco conhecido o livro que deu origem ao filme. Até alguns anos atrás, sequer tinha seu título original traduzido adequadamente - era lançado como Blade Runner: Perigo Iminente, aproveitando o sucesso do filme, usando inclusive o poster de lançamento do cinema como capa. Hoje a editora Aleph presta tributo a esse grande autor lançando novas edições de diversos livros seus, tendo certamente como carro-chefe Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? - mesmo que ainda se apele para o filme com uma meia-capa sobressalente com seu título (nada contra).

Como Blade Runner sempre foi um dos meus filmes favoritos, comprei o livro há alguns anos, o original, Do Androids Dream of Electric Sheeps?, mas só há alguns meses li. Fã de livros e filmes de ficção científica, já conhecia Philip K. Dick e sua fama de monstro do gênero, mas nunca tinha lido nenhum de seus livros. Azar o meu. Sua fama não é injusta ou por acaso. O livro é magnífico, e perdi tempo não conhecendo o trabalho desse cara antes. Quem viu o filme vai se lembrar do clima noir inigualável. O livro é exatamente assim, mas com uma diferença antitética: o cenário é árido, tipicamente pós-apocalíptico, enquanto no filme, por questões técnicas, cai uma chuva incessante e a névoa cerca a cidade. Não obstante, há em ambos o mesmo sentimento de desolação e "perigo iminente", como queria o título da antiga edição brasileira. 

Rick Deckard vive num planeta Terra devastado pela guerra nuclear (como em tantas outras criações da época da Guerra Fria, filhas de seu tempo). Os humanos que não migraram para fora do planeta vivem num mundo assolado pela radiação. Praticamente todas as espécies animais foram extintas. É difícil encontrar alimentos saudáveis e imaginar como a humanidade poderia viver assim. Androides criados para apoiar as pessoas passam a se voltar contra seus criadores, e Deckard é um dos caçadores de recompensa que busca identificar e "aposentar" essas criaturas. Até aí, um roteiro clichê que qualquer nerd daquela época imaginava na sua cama enquanto seus colegas de classe mais populares se divertiam com as garotas em festinhas nas casas de pais em viagem. É quando entra o diferencial entre a produção cultural de entretenimento barato e os gênios da ficção científica. 

Além de uma escrita excelente, Philip K. Dick desenvolve diversas situações que demonstram a natureza humana como única, independente de seu meio. Logo no início do livro, nos deparamos com um mundo evidentemente diferente, porém cheio de familiaridades com o nosso. Os androides não são apenas réplicas de humanos. Eles também emulam todos os tipos de animais. Entretanto, esses são apenas cópias, e não sendo raros, não distinguem seus proprietários. Ter um animal de verdade, isso sim é ser distinto. E é esse o objetivo de Rick Deckard e sua esposa: trocar sua ovelha elétrica, que todos os vizinhos sabem que não é um ser vivo autêntico, por um animal orgânico, verdadeiro. Para isso, Deckard precisa concluir um último trabalho antes de parar de caçar androides: aposentar seis deles de um tipo muito avançado, os Nexus-6, quase indistinguíveis de humanos de verdade. Daí surge outra questão, frequente em toda a carreira do autor: qual seria esse diferencial que nos distingue como humanos? Diversos outros pontos são discutidos através dessa história muito bem contada, como religião, solidão e alienação, por exemplo.

Androides Sonham com Ovelhas Elétrica? é sensacional, assim como Blade Runner, sem querer compará-los, até porque este é baseado no livro, e não uma adaptação fiel. Se faltam alguns conceitos e passagens no filme, como a questão da religião, a vida de aparências e a alienação da televisão, somente com o livro não teríamos essa cena, com essas atuações, essa música... Enfim, essa discussão livro x filme não se sustenta aqui. Adorei o livro e já estou lendo outras coisas de Philip K. Dick, novo membro do meu grupo de heróis. Entrou para o mesmo nível de fixação e bitolação que Kurt Vonnegut para mim. Adoro o filme e ainda preciso ver algumas das sete versões diferentes que já foram lançadas, antes de lançarem Blade Runner 2, que tem notícias animadoras.

Philip K. Dick foi uma das mentes mais férteis da ficção científica, escrevendo 44 livros e 121 contos, mas nunca teve o reconhecimento comercial devido enquanto vivo, apesar de, no mundo da ficção científica, ter recebido já em 1963 o prêmio Hugo, o mais importante da categoria. Hoje o autor é tido como um grande nome da literatura de língua inglesa, mas na época havia muito preconceito contra a ficção científica, considerada somente como uma literatura de entretenimento, sem qualidade literária, e por isso Philip K. Dick, apesar de prestigiado entre os fãs do gênero, passou graves necessidades financeiras - diz-se que chegou a se alimentar de comida de gato. Blade Runner seria a primeira de suas histórias a ser adaptada para o cinema, depois de anos de negociações e ajustes para que ficasse de acordo com suas exigências, mas o autor morreu quatro meses antes do lançamento. Três décadas depois, mais de dez histórias suas já se transformaram em filmes, a maioria superproduções, possivelmente detendo o segundo lugar (só atrás de Júlio Verne) entre os autores de ficção científica ou qualquer outro gênero 

Editora: Aleph
Páginas: 272
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

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