quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pedrita

Pedrita

(Uma despretensiosa crônica - ou conto - autobiográfica dirigida aos amigos, para que eu não tenha que contar a mesma história uma porção de vezes.)


Dor na região abdominal e lombar, irradiante até o testículo esquerdo. Aguda, quase insuportável, súbita, constante, sem que haja posição do corpo, movimento ou pressão localizada que tragam o menor alívio. Afirmado pela certeza do senso comum e suposto pelos urologistas como a pior dor que um ser humano pode sentir, como se duas mãos invisíveis fizessem um trabalho silencioso e contínuo: uma dentro do meu corpo, apertando e torcendo meus órgãos internos do lado esquerdo, enquanto a outra, um pouco mais abaixo e do lado de fora, soca repetitivamente meu testículo. Uma dor de intensidade tão abismal que estimula o estômago ao vômito, independente de quanto alimento esteja sendo digerido lá. Uma agressividade tão animalesca que o corpo reage com febre e a urina sai bem escura, misturada com bastante sangue. No meio de uma crise de cólica renal, tem início minha história com Pedrita, intensa, íntima e de difícil compreensão alheia, que durou apenas três dias.

Na verdade, Pedrita e eu já convivíamos há meses, mas eu só fui capaz de notá-la neste momento difícil, que começou numa manhã de domingo. Uma dor de baixa intensidade no testículo esquerdo, supus o mais óbvio, que tivesse ocorrido algum tipo de choque durante a noite sem que eu tivesse percebido. Caminhando na rua, a dor aumenta, paro e sento para almoçar, a dor aumenta, saio do restaurante e tento me acalmar andando um pouco mais, agora já com as pernas abertas, como alguém com assaduras na virilha, a dor não para de aumentar. Volto para casa, ninguém além dos bichos, que percebem algo errado, mas nada podem fazer. Deito na cama, me contorço gemendo, depois de todas as posições possíveis, paro finalmente na fetal, talvez por instinto, o que não faz diferença nenhuma. Não consigo pensar em nada que eu possa fazer sozinho. Descarto a idéia de choque noturno com o testículo, penso em apendicite, uma doença que apresenta sintomas parecidos e que, pelas histórias que já tinha ouvido, sempre temi, principalmente se fosse acometido por ela durante uma viagem para um lugar ermo – e agora, pensava eu, durante uma tarde sozinho em casa. Não consigo pensar direito, mas pelo que me lembrava das aulas de biologia na escola, o apêndice fica no lado direito. Ou seria o duodeno, ou o pâncreas, aquela estrutura amarela toda enrugada? Para que serve o duodeno? E a bílis, será que tinha alguma coisa a ver? Cólon? Havia lido recentemente também sobre um artista com a Doença de Crohn. Não consigo pensar direito. Pego o telefone e ligo para minha mãe, nefrologista, antes que ela possa fazer a primeira pergunta do diálogo (“tudo bem?”) pergunto onde fica o apêndice, ela confirma minhas suspeitas. Antes que eu possa perguntar sobre bílis, pâncreas ou Crohn, ela me pergunta sobre meus sintomas, e constata crise renal. Minha mulher vem chegando mais cedo do plantão no posto de saúde, cancelado graças a uma greve de médicos. Falo ao telefone que não posso buscá-la no ponto de ônibus, que ela pegue um táxi para casa o mais depressa possível, por conta de uma emergência médica, sem mais detalhes. Minutos depois, saio de casa carregado por ela, me escorando pelos cantos, vomitando o que ainda restava dentro do estômago, os cachorros assustados nem ousam pular em mim e lamber minha cara agora.

Chegamos ao hospital, entro amparado na emergência, passando a frente daquelas criancinhas com dor de garganta e daqueles atletas amadores com o tornozelo torcido, e sou colocado na cama. Um rapaz me faz algumas perguntas, arria minha bermuda, aperta meus testículos, me faz mais perguntas, pressiona vários pontos na minha barriga, isso tudo dói demais, até mesmo abrir a boca para responder às perguntas. Ouço “ok, pode levantar a bermuda”, espetam meu braço, a dor continua, mas eu paro de pensar...

Acordei no mesmo lugar, ainda doendo, porém bem pouquinho. Minha mulher estava lá, me explicando algumas coisas, quando entrou outro médico, urologista, também com idade próxima da minha, e também querendo mexer nos meus testículos. Depois disso, fui levado de cadeira de rodas para a sala de ultrassonografia, e lá deitei em outra cama e tive que abaixar a bermuda mais uma vez, para ter minha intimidade invadida pelo terceiro médico da tarde. Ele disse: “Segura o p...” – parando no p de “peru”, ou “pau”, para depois reiniciar a palavra – “...pênis para cima, por favor”, e derramou um gel sobre minha região genital. Ficou alguns minutos passando o aparelho sobre meus testículos, espalhando aqueles gel e lambuzando tudo em volta – pênis, virilha, coxa, pelos –, para finalizar jogando algumas folhas de papel em cima de mim para que eu me limpasse e repetindo a sentença padrão: “Pode levantar a bermuda”. O ultrassom não constatou nada de errado com meu testículo, então fui mandado para a sala de raio X, onde foi feito mais um exame, mas pelo menos ninguém mexeu em mim ou me mandou arriar a bermuda.

Passada toda a tarde de domingo respondendo a perguntas, sendo apalpado, fazendo exames em aparelhos e sobretudo esperando, fui levado à sala do urologista e lá conheci Pedrita, não pessoalmente, mas através da imagem do raio X, que mostrou que ela tinha aproximadamente 3mm, e durante os três dias seguintes, enquanto ela não saiu do meu corpo, também não saiu da minha cabeça.

Voltei para casa no final da tarde, mesmo sentindo a dor voltar a ficar intensa, porque tinha esperança que se estabilizasse em um nível aceitável até que eu acordasse no dia seguinte sem sentir nada. Subestimei Pedrita, que se deslocava lentamente pelo meu rim esquerdo, abrindo caminho do jeito que dava, rasgando o que viesse pela frente. Saí de casa e cheguei ao hospital da mesma forma que anteriormente, diferindo apenas em um ponto: em vez de passar pela enfermaria, fui direto para a internação, carregado na cadeira de rodas.

A partir desse momento, não lembro muito bem o eu aconteceu. Na verdade, as duas vezes em que dei entrada no hospital foram muito parecidas, e realmente não tenho como distinguir o que se passou em cada uma delas nos momentos de dor intensa. Pode ser até que eu tenha imaginado coisas ou alucinado, já que passei a primeira noite inteira e o dia seguinte sendo drogado com uma substância derivada da morfina, e só consigo lembrar-me de duas coisas que certamente ocorreram no segundo momento: as ocasiões em que acordei agonizando durante a madrugada e chamei a enfermeira para me drogar um pouco mais, e a visita do quarto médico, pois lembro de ter falado em tom de humor autodepreciativo com minha mulher que, naquelas poucas horas, eu provavelmente já havia tido os testículos apalpados por mais homens do que em todo o resto da minha vida.

Acordei muito assustado no dia seguinte, de manhã bem cedo, achando que estava morrendo – ouvi várias pessoas rezando, e meu primeiro pensamento foi que estava recebendo a unção dos enfermos, logo eu, que desde a adolescência zombo de todo esse tipo de superstições, morrer desse jeito! O susto foi breve, logo relaxei ao perceber que não teria este lamentável fim, já que, apesar de próximas, as vozes vinham de fora do quarto – dei o azar de me internarem ao lado da capela do hospital, onde o plantão da manhã orava em uma só voz antes do expediente, e tive que acordar da mesma forma nos dias seguintes.

A oração coletiva não foi o único som estranho que me pegou de surpresa. Logo no primeiro dia, escutei uma tosse muito desesperada, a tosse mais gutural que já havia ouvido, e pensei que alguém estava morrendo. Passaram-se alguns instantes após a tosse cessar e não percebi nenhum tipo de movimentação pelos corredores, tudo voltou ao costumeiro de um hospital. Não entendi nada naquele momento, mas depois passei a ouvir a tosse com a mesma intensidade várias vezes ao dia, e cheguei à conclusão que ninguém poderia ficar às portas da morte num hospital tantas vezes sem que nada fosse feito, e que a cena que eu ouvia mas não podia ver era um a de velhinho com um cacoete brabo. Eu me lembrava do meu avô, que quando não tomava remédio para o sistema nervoso ficava do mesmo jeito, e todo mundo que ia lá em casa ficava constrangido e tentava prender o riso, até que a gente não aguentava e começava a rir junto. Eu me lembrava do início de “Minha Menina”, dos Mutantes, e começava a rir cada vez que a sessão de tosse tinha início. E esquecia um pouco de Pedrita, das agulhas espetadas no meu braço e de qualquer outra coisa que me causasse dor.

Tirando o motivo pelo qual fiquei internado aqueles três dias, posso dizer que essa minha temporada no hospital foi bastante agradável. Ora, eu era tratado como um hóspede num hotel, fui dispensado do trabalho, tinha comida pronta e não precisava limpar nada o que sujava, e tinha tempo para me distrair bastante. Se eu não tivesse chegado lá sentindo tanta dor e não tivesse que passar pela quantidade de exames e remédios injetáveis aos quais fui submetido, se eu pudesse paralelamente sair de lá de vez em quando para passear ou praticar alguma atividade física, isso sim seria viver em alto estilo.

A dor no rim e testículo diminuiu bastante já na primeira manhã, graças aos fortes sedativos, e deixaram de incomodar no segundo dia. Contudo, se o problema fosse tão simples assim, não haveria necessidade de internação e nada justificaria minha vida boa lá. A dor inicial simplesmente foi transportada para os braços, furados sem trégua até o momento em que saí do hospital (e doloridos, inchados e cheios de hematomas, durante toda a semana seguinte). Uma agulha ficava constantemente na mão esquerda, recebendo a medicação ininterruptamente, inutilizada para qualquer fim, até que, no segundo dia, a veia entrou em colapso, uma dor que me impedia de executar qualquer movimento, dava para ver o sangue voltando pela borracha que levava os remédios da bolsa suspensa até mim, e a mão direita passou a ser utilizada em seu lugar. Os enfermeiros até que tentavam desentupir a veia algumas vezes, apertando a borracha para que talvez os coágulos abrissem espaço para a medicação, o que me causava uma dor aguda ainda mais forte, mas não teve jeito. Nesse dia e no seguinte, fiquei praticamente inválido das mãos, conseguindo com muito esforço segurar a colher nas refeições ou um livro apoiado, contanto que não fosse necessário nenhum tipo de pressão com os dedos. Minha mulher executou o papel dos meus braços em quase todo o resto.

As outras veias dos braços serviam de bica por onde saía meu sangue para análise no laboratório, mas este não foi o único tipo de exame pelo qual passei nesses dias. Pressão arterial e temperatura eram medidas várias vezes ao dia e anotadas numa prancheta, e pelo menos umas duas vezes tive que urinar em potinhos de coleta. Exames mais apurados, em máquinas, eram minha única oportunidade de passeio pelos corredores do hospital, mesmo que fossem de cadeira de rodas. Raios X simples, que eu já conhecia, foram dois ou três, mas experiência inédita para mim foi entrar numa sala onde se lia na porta “Tomografia”, depois de tomar uns cinco copos d’água para que minha bexiga ficasse bem cheia. Deitei numa cama fria e me aplicaram mais um remédio na veia, que me explicaram que seria para fazer “contraste”, sabe-se lá do que com que. A mulher que estava me atendendo falou que eu poderia sentir enjoo, que ela ficaria em outra sala atrás de mim, e que em caso de qualquer problema era só eu levantar o braço, mas fiquei tão curioso com aquela máquina que nem senti nada. A cama então começou a se mover, me deslocando para dentro de um círculo, como se eu fosse um dedo entrando num anel projetado para um dedo mais largo. Havia um monte de luzes piscando, de várias cores, e não pude examinar todas elas antes que a cama terminasse sua locomoção. Fiquei com a cabeça bem no meio do anel, e observei que dentro dele havia uma espécie de centrífuga girando, com luzes vermelhas, fazendo barulho, o que provocou em mim a sensação de estar estrelando um filme de ficção científica da década de 1970. De repente, uma voz de homem saiu de algum alto-falante dizendo – “respire fundo” –, e uma imagem de um rostinho com a boca aberta se acendeu no aparelho, tipo smile, só que de perfil, bem em frente ao meu rosto. A voz imediatamente ordenou, roboticamente – “prenda a respiração” –, e a imagem mudou para um rostinho de boca fechada com as bochechas cheias de ar, quando um outro painel mostrou uma contagem regressiva começando em seis segundos. Terminada a contagem, a voz liberou minha respiração. O processo teve início novamente, da mesma forma, só que dessa vez a contagem começou em trinta segundos, me pegando desprevenido, pois eu puxei ar preparado para apenas seis! Na terceira vez, jurei que a máquina não ia me surpreender novamente, e puxei o máximo de ar que pude, mas a contagem começou novamente a partir de trinta segundos, e isso foi tudo. A cada tentativa eu podia observar algumas luzes e imagens que não havia tido oportunidade anteriormente, e na última reparei que tinha aquele símbolo de três lados que significa material radioativo, com umas setinhas apontando para a minha direção. Juntei aquilo com as outras vezes em que fui submetido ao raio X nas últimas horas, mais um exame que havia feito há alguns meses e todos os outros em minha vida, e aquele somatório mórbido me apavorou um pouco. Ao final, tive que esperar o resultado deitado na mesma cama, para o caso de algo ter dado errado e eu ter que fazer tudo de novo. O homem que me mandava prender e soltar a respiração disse que minha bexiga estava muito cheia, e que se eu não aguentasse podia ir ao banheiro, mas eu não sentia nenhuma vontade de fazer nada, só pensava na possibilidade de algum futuro filho meu nascer mutante.

Na manhã do segundo dia, o urologista que cuidava do meu caso me fez uma visita no quarto, explicando qual era minha situação. Pedrita já havia saído do rim, e encontrava-se na uretra. A notícia era boa, mas nem tanto: caso ela não saísse naturalmente nos próximos dias, eu teria que ser submetido a um procedimento para sua retirada, o que significava que alguém iria enfiar um tubo pelo meu pênis para sugá-la. A ideia é talvez até mais aterrorizante do que a de realizar uma colonoscopia, portanto passei a beber uma quantidade considerável de água e urinar mais de dez vezes por dia, não na privada, mas numa bacia metálica, tendo que, em todas as ocasiões, verificar se Pedrita já havia saído. Cada tentativa sem sucesso era desanimadora, progressivamente.

Apesar da emergência desse grande problema pessoal, eu tinha bastante tempo para me distrair, já que não havia nada mais o que fazer. Tive a oportunidade de ler Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, em um dia, algo impensável em circunstancias domésticas normais, e assisti a alguns filmes na TV a cabo, dessas porcarias dirigidas pelo Clint Eastwood nos últimos tempos até filmes divertidos da década de 1980, como Karate Kid e uma ótima comédia chamada Private Resort, apresentando um jovem ator chamado Johnny Depp. O resto do tempo eu comia, perturbava minha mulher, falava no telefone com alguém preocupado, dormia e era examinado e medicado.

A contagem regressiva para a devassa definitiva do meu corpo prosseguia, meu pai ligava várias vezes perguntando se eu já tinha dado à luz, até que na manhã do terceiro dia, ao urinar, pude sentir Pedrita saindo pela minha uretra. Fiquei bastante eufórico para conhecê-la pessoalmente, observar seu tamanho certo e sua cor. Esperei a espuma da urina se dissipar para procurá-la, sentindo ainda um desconforto, que supus ser causado pela passagem de Pedrita pela uretra, porém, depois de vasculhar a bacia de todas as maneiras possíveis, não encontrei nada sólido. O desconforto continuava, bem na glande, portanto Pedrita ainda estava lá, mas não pude imaginar uma situação tão insólita: Pedrita estava quase saindo, a ponto de eu poder enxergá-la. Entretanto, cada vez que eu tentava retirá-la, sentia dor e não conseguia sequer movê-la. A agonia era grande, mas não havia nada o que fazer a não ser beber uns cinco copos d’água e esperar.

Minutos depois, finalmente pude expelir Pedrita e me sentir aliviado, tendo a certeza que não seria naquela ocasião que alguém iria enfiar o que quer que fosse pelo meu pênis. Observei bem Pedrita, ela era preta, menor que qualquer grão comestível, um pouco maior que a cabeça de um alfinete, e fiquei ali um tempo refletindo sobre a fragilidade do ser humano, vencido por algo tão pequeno. Deixei a bacia lá intocável, para que o médico também a analisasse – o que só aconteceu à noite. De vez em quando entrava alguma mulher querendo limpar o banheiro, e eu explicava toda a situação e que a bacia de urina tinha que ficar lá esperando o médico e tudo mais, e que além disso em questão de algumas horas eu ia ter alta e não havia necessidade para limpar mais nada para mim. Elas olhavam de modo estranho, achando graça, como se eu fosse um cachorro guardando um osso sem deixar ninguém chegar perto. Talvez elas estivessem achando que eu estava perturbado, obcecado com aquilo tudo, e que naquele momento Pedrita fosse a coisa mais importante para mim.

sábado, 4 de setembro de 2010

Admirável Mundo Novo - Aldous Huxley


Utopia, a sociedade ideal, é imaginada por pensadores desde Platão em A República (pelo menos na cultura ocidental), mas foi no século XVI que o termo foi cunhado por Thomas More através de sua obra mais famosa. Nesses mais de dois mil anos, há diversos exemplos de utopias criadas por filósofos como Santo Agostinho (A Cidade de Deus) ou Tommaso Campanella (A Cidade do Sol), mas no século XIX, com as mudanças trazidas pela revolução industrial, um novo conceito é criado a partir das agradáveis utopias: a distopia, ou anti-utopia, uma sociedade longe de ser ideal (embora pretenda ser), produzida por algum acontecimento ou processo revolucionário - mudança tecnológica, pandemia fatal ou guerra nuclear, por exemplo. A distopia passou então a ser bastante explorada como um subgênero da ficção científica.

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, pode ser considerado um dos livros de distopia mais famosos da história (ao lado de 1984, de George Orwell, e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury), talvez até mais importante que outros por ter sido escrito já na década de 1930, tendo influenciado desde então diversas obras em várias áreas. Um clássico indiscutível, não por sua qualidade literária - o enredo é cheio de furos e situações improváveis, e os personagens são fracos, superficiais -, mas pelas ideias de uma sociedade repressora, que preza acima de tudo o equilíbrio social, sem conflitos, e não admite interferências individuais em seu curso pré-determinado.

O que promoveu o caminho para a sociedade aparentemente perfeita em Admirável Novo Mundo foi a revolução tecnológica que Huxley presenciava em seu tempo, simbolizada principalmente pelo sistema fordista de produção. A imaginação do autor trabalhou então no sentido de desenvolver uma linha temporal, a partir da década de 1930 do mundo real até seis séculos depois, em que o conceito da linha de produção determinasse a sociedade humana (e não o contrário), a ponto de a própria reprodução ser desenvolvida exclusivamente em laboratórios, através de técnicas precisas que produziriam seres humanos destinados biologicamente ao seu papel na sociedade, de acordo com seus atributos físicos e intelectuais. O processo de imposição dos indivíduos ao seu papel social continua após o nascimento, através de condicionamento psicológico de gostos, responsabilidades e preconceitos. Tudo isso gerava castas bem definidas, dos alfa (dirigentes, de inteligência e estatura elevadas) aos ipsilons (trabalhadores braçais que mal conseguem se comunicar), passando pelas castas intermediárias beta, gama e delta. Por todos estes condicionamentos impostos desde a geração do ser humano, não há possibilidade de transferência de um indivíduo de uma casta a outra.

O controle social continua por toda a vida do indivíduo, com regras que impedem seu contato com qualquer tipo de literatura ou arte anterior à época em que teria ocorrido a grande revolução na sociedade (a época de Ford), bem como a inexistência de conceitos de religião, família e fidelidade sexual ou sentimental entre duas pessoas (por isso o estímulo à liberdade sexual ilimitada, desde a infância). A sociedade do Admirável Mundo Novo não abre espaço para as realizações individuais, e para o caso de qualquer dúvida ou pensamento que desvirtue as regras, todos os cidadãos são quase que obrigados a ingerir o soma, uma droga sem efeitos colaterais que tem o papel de tirar qualquer traço de sofrimento psicológico.

Após ler esta resenha, você deve estar com a impressão de um baita spoiler, e que eu tirei a graça de sua leitura, mas você está enganado. O que escrevi até agora, apesar de dar margem para muito assunto, são só os conceitos básicos do futuro imaginado por Aldous Huxley. Neto de Thomas Huxley, um importante biólogo evolucionista, Aldous era um homem bem inserido no conhecimento científico e social de sua época, e pôde imaginar uma sociedade do futuro em detalhes, desde os meios de transporte até os jornais lidos por cada casta, apesar de não ser estritamente um escritor de ficção científica. A história em si, se não é o forte do livro, também não chega a ser ruim, mas só por este quadro que é exposto nos primeiros capítulos já dá para prever mais ou menos o que vai acontecer (como na maioria das histórias de distopia). Mesmo assim, vejo Admirável Mundo Novo como um livro da minha biblioteca básica, recomendado para as gerações futuras e guardado na estante para releituras.

Vinte anos mais tarde, Aldous Huxley escreveu um prefácio para uma nova edição de Admirável Mundo Novo, onde propunha uma alternativa melhor para o final do livro e admitia algumas falhas de enredo e sobretudo de previsões para o futuro - por exemplo, o autor se ressentia de não ter incluído a energia nuclear, que na década de 1950 dava toda a impressão que seria a fonte energética fundamental no futuro, mas se explica: "O tema do Admirável Mundo Novo não é o progresso da ciência como tal; é o progresso da ciência na medida em que atinge os indivíduos humanos". E ao que parece, a aventura de Huxley na ficção científica nunca mais saiu de sua cabeça, já que em 1958 o autor publicou uma série de ensaios chamada Regresso ao Admirável Mundo Novo. na qual é discutida a manipulação da vontade humana do livro anterior à luz de novas técnicas descobertas neste período. E o tema é novamente abordado em forma de romance em seu último trabalho, A Ilha - o primeiro livro de Huxley que li, e gostei bastante - porém de forma inversa: uma sociedade utópica onde a busca da felicidade de todos os seus membros é o objetivo.

Editora: várias edições (atualmente edição de bolso da Globo)
Páginas: 398 (edição da Globo)
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital (português)

Livro Digital (inglês)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

A Voz do Fogo - Alan Moore

O que pode haver em comum entre uma jovem queimando na fogueira em 1705, uma forja de falsificação de moedas em 290, a cremação do corpo de um bruxo em 2500 a.C. e o incêndio de um carro em 1931? Alan Moore, o maior de todos os escritores de quadrinhos, juntou estas e mais algumas narrativas em sua estreia na literatura para narrar, através da Voz do Fogo, a história de sua cidade natal, Northampton, na Inglaterra.

Por meio de doze contos, narrados em primeira pessoa, o célebre autor de Watchmen e muitos outros clássicos dos quadrinhos contemporâneos inicia sua visão sobre a cidade em 4000 a.C., nas palavras de um menino no neolítico. Este primeiro conto é um dos mais difíceis do livro, pela escrita extremamente pobre e truncada, sem nenhum respeito por regras ou pontuações, o que causa muita estranheza nos leitores, mas ela dá o tom de todo o resto da obra: criatividade e recurso para escrever cada um dos contos de forma distinta, numa caracterização realista de cada narrador. Na pele de um juiz do século XVII, por exemplo, Moore adota um estilo sofisticado, muito prazeroso de ler, enquanto as palavras de um louco do século XIX irritam, as de uma vigarista da Idade dos Metais causam repulsa, as de um oficial do Império Romano convencem o leitor de suas convicções sobre Roma. Cada conto se interliga com o seguinte de forma sutil, até culminar em 1995, nas visão do próprio autor sobre a cidade em seu tempo.

Além de sua poderosa e criativa escrita, Alan Moore também tem a seu favor uma grande capacidade de produzir uma história com sentidos ambíguos, pouco clara, que dá margem à imaginação e ao gosto do leitor. Os temas místicos e fantasiosos, marcantes na carreira do autor nos quadrinhos, não deixam de aparecer, mas de forma que podem ser entendidos como acontecimentos sobrenaturais ou simplesmente uma interpretação da realidade, como a loucura, coincidência ou a impressão de personagens sobre passagens anteriores do livro.

A Voz do Fogo não é um livro muito fácil, daquelas leituras de passatempo que logo se esquece. É leitura densa, para ficar pensando após o término de cada conto, escrita bonita para ser admirada, para depois ficar tentando decifrar a mente do autor, de como ele teve a ideia de criar tal história. E não é daqueles livros para pegar emprestado, esse é para guardar e reler de vez em quando. Só é uma pena que tenha sido o único, até agora, na premiada carreira de Alan Moore, que já disse ter mais um ou dois livros na cabeça, esperando um tempo entre os trabalhos dele para serem escritos.

Editora: Conrad
Páginas: 331
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Uma resposta de Alan Moore sobre o livro:

G1 – Você certamente conhece um bocado sobre Northampton. Escreveu um livro inteiro só sobre ela, não?

Moore - Sim, tenho uma paixão incrível por Northampton. Escrevi “Voz do fogo”, que era ambientando inteiro em Northampton ao longo de 6 mil anos de sua história. São 300 páginas, mas achei que era um livro muito cosmopolita e abrangente. Então, no novo livro que estou escrevendo, decidi focar em apenas alguns quarteirões de Northampton. “Jerusalém” fala do 1,5 Km2 em que eu cresci. Deverá ter algo como 1.500 páginas. E, provavelmente, o próximo vai ter 8 mil páginas e será só sobre a minha sala de estar (risos). Por um lado, é uma cidade fascinante, a quantidade de história e de eventos estranhos que aconteceram aqui são impressionantes.Mas não estou dizendo que esse lugar é mais importante ou mais extraordinário do que onde qualquer outra pessoa vive. É só o lugar onde eu vivo. E o que estou fazendo por Northampton, que aparentemente é só uma cidade cinzenta e sem graça, é usar minha escrita para transformá-la na cidade de maravilhas que existe dentro da minha cabeça. Acho que muitos artistas se beneficiariam se dessem uma olhada fresca sobre a cidade em que vivem. Faça observações poéticas, tente sentir que é um local maravilhoso. Suspeito que se sentimos que o lugar que estamos vivendo é uma droga, eventualmente chegaremos a conclusão que nós somos uma droga. Por outro lado, se você pensar que o lugar que vive é um templo celestial cheio de seres maravilhosos, nós mesmos nos sentiremos assim.

O resto da entrevista, onde ele fala sobre diversas coisas como pornografia, filmes de Hollywood, Paulo Coelho e Harry Potter, aqui.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O Imperador-Deus de Duna - Frank Herbert

A grande saga de Duna continua, 3500 anos após os acontecimentos da primeira trilogia. Obviamente, a trama conta com personagens totalmente distintos - exceto o próprio imperador-deus, que por não ser um humano comum, vive durante todos estes anos, e Duncan Idaho, o personagem predileto de Frank Herbert que aparece em todos os livros da série em corpos clonados -, mas não falta nada dos livros anteriores para quem é fã de Duna: todos os conceitos, ideias, tecnologias originais e organizações que manipulam os rumos do universo estão lá.

Até agora, esta foi a continuação de Duna que mais gostei. Assim como o primeiro livro, O Imperador-Deus de Duna não tem uma história surpreendente, e não são necessárias muitas páginas para saber que rumo a trama vai seguir, mas ainda assim o livro é fascinante e pede para ser lido com voracidade. A ótima escrita de Frank Herbert, as divagações dos personagens e a discussão de temas muito pertinentes a qualquer sociedade como política, religião, ética e problemas existenciais, tudo isso me leva a confirmar minhas opiniões sobre a série expostas nas resenhas dos livros anteriores.

E a saga continua.

Editora: Nova Fronteira
Páginas: 504
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

Livro Digital


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Harvey Pekar - 1939-2010


Falando recentemente em Robert Crumb, acabei de receber essa má notícia. Lá se vai mais um pouco da qualidade e criatividade nos quadrinhos.

http://www.universohq.com/quadrinhos/2010/n13072010_08.cfm

Quem quiser conhecer o trabalho dessa figura, procure o filme "American Splendor" ou algum album publicado no Brasil (acho que apenas uma coletânea publicada pela Conrad).

quinta-feira, 27 de maio de 2010

The Rough Guide to Reggae - Steve Barrow e Peter Dalton

Se você é daqueles que, ao ouvir a palavra Reggae, só lhe vem à cabeça Bob Marley e Cidade Negra, está na hora de ler "The Rough Guide to Reggae". Neste ótimo guia, Steve Barrow e Peter Dalton contam a história deste envolvente gênero musical desde os primórdios da cultura jamaicana até as tendências atuais, passando por diversos estilos como o ska, o rocksteady, o dub e o dancehall, fases um pouco diferentes do roots reggae, ritmo mais conhecido por ser representado principalmente por Bob Marley.

O livro é dividido cronologicamente, bem ilustrado, com caixas de texto para personagens importantes e curiosidades, e em cada capítulo há seleções com os principais discos representantes de cada estilo, comentados e classificados de acordo com sua importância. Os últimos capítulos abordam o reggae fora da Jamaica (EUA, Inglaterra e África), e ao final há ainda um glossário das gírias utilizadas nas músicas, uma cronologia e uma sucinta referência de livros e páginas na internet. O texto, como qualquer guia, é generalista, mas capta bem os detalhes mais relevantes e cumpre o difícil objetivo de apresentar bem a história do reggae em menos de 500 páginas. Essencial para quem gosta de guitarras marcadas e metais à vontade, mas não sabe por onde entrar neste mundo de paz, amor, felicidade, justiça e liberdade que é o reggae. Ler este livro há alguns anos contribuiu bastante para o meu vício nessa rebel music e por boa parte do conhecimento que tenho dela, já que, pessoalmente, não conheço ninguém que goste com quem eu pudesse trocar ideias e aprender alguma coisa. O reggae é um dos gêneros que mais atraem a simpatia das pessoas, mas por outro lado um dos que as pessoas menos conhecem.

Para quem é chato e não suporta reggae, está de mal com a vida, ou entediado com a mesmice da cultura pop, recomendo que leia este guia e baixe na internet qualquer coisa de Bob Marley, Burning Spear ou Skatalites, feche os olhos, abra sua mente e se entregue ao ritmo das batidas, às linhas de baixo consistentes e à criatividade dos metais. Se mesmo assim não funcionar, mas você achou interessante a estrutura do guia, há diversos outros livros na coleção, como rock, jazz, música cubana, Beatles, Elvis e até fado, além de guias sobre viagem, história, restaurantes, esportes e o que mais você possa imaginar, mas até onde sei, nenhum deles tem edição brasileira.

Editora: Rough Guides
Páginas: 484
Disponibilidade: normal (importado)
Avaliação: * * * * *

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas - Robert Pirsig


Livros de viagens, Filosofia e Literatura Contemporânea são três coisas que adoro ler, logo, eu deveria adorar "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas - uma investigação sobre valores", não fosse um quarto fator nessa equação: o livro é muito chato!

Escrito por Robert Pirsig, a ideia, apesar do pouco apelo comercial, até que foi boa: ele e seu filho, viajando de moto pelas famosas estradas dos Estados Unidos, bem ao estilo Easy Rider, em meio a lições de filosofia e mecânica de motocicletas. Conta-se que o original foi rejeitado por 121 editoras (recorde no Guiness), mas desde seu lançamento em 1974, conquistou milhões de fãs pelo mundo, sendo não muito difícil encontrar intelectuais de orelha de livros citando-o por aí como seu "livro de cabeceira"...

O personagem principal narra sua viagem com seu filho, e paralelamente há uma narração sobre seu passado e sua trajetória megalomaníaca no mundo da Ciência e da Filosofia em busca de algo inédito e inalcançável. Fala-se sobre muitos conceitos filosóficos interessantes, mas o narrador é um mala, e seu filho mais ainda! Sem contar que a moto em que eles viajam é uma porcaria e precisa de reparos e manutenção constantes. O livro segue então exatamente o ritmo de uma moto velha: corre fácil nas estradas e dá prazer a quem está viajando por belas paisagens, mas quando dá defeito, para e demora um tempão para pegar novamente; quando ela pega de novo, você volta ao ritmo que estava e aproveita a viagem, mas logo logo ela para de novo e te deixa na mão - em outras palavras, eu lia umas dez páginas muito interessantes e pensava, "agora vai!", mas aí voltavam umas cinquenta páginas de besteiras intelectualoides do pai e malcriações do filho. Até que eu desisti da viagem com esses dois chatos e voltei pra casa de ônibus - ou seja, não cheguei ao final da leitura e vendi o livro.

Este livro me foi recomendado por um professor de Filosofia, e provavelmente ele pode vir a ser recomendado a você por algum destes que o consideram "livro de cabeceira". Minha opinião sobre "Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas" é minoria, é só dar uma olhada na internet para ver quantas resenhas elogiosas (e mais sérias do que esta) existem sobre ele. Por isso, se você ficar tentado a ler, se foi recomendado por algum guru ou simplesmente se você quer conquistar alguém intelectual que tenha gostado deste livro, vai à luta. Mas se o seu objetivo for uma viagem filosófica por belas estradas, pelo menos utilize um transporte mais confiável e leve alguém agradável, e não uma criança mimada e chata.

Editora: Martins Fontes
Páginas: 441
Disponibilidade: normal
Avaliação * *



domingo, 2 de maio de 2010

Dividir para Dominar - H. L. Wesseling


Há décadas, o mundo acompanha nos noticiários os trágicos acontecimentos na África pós-colonial: guerras entre grupos étnicos historicamente rivais, fome, economias nacionais atrasadas e todos os problemas que os países não-desenvolvidos passam. Muitas explicações foram dadas ao longo dos anos e reproduzidas pela mídia e nos livros didáticos, tais como “a Europa não respeitou as diferenças e particularidades dos povos africanos”, “a África, depois de explorada, foi deixada pelos europeus à própria sorte”, “grupos rivais foram colocados em um mesmo espaço colonial”.

Todas estas explicações são de conhecimento público e são ensinadas aos estudantes, porém de forma vaga e incompleta: fala-se que os países europeus dividiram a África entre si, mas geralmente não se entra em detalhes de como ocorreu tal divisão (e quando é apresentada tal explicação, recorre-se ao mito da Conferência de Berlim, na qual os europeus teriam partilhado a África da forma mais simples o possível, com um mapa sobre uma mesa rodeada por chefes de Estado das potências envolvidas).


Foi buscando esclarecer para o público o processo de partilha da África pelos europeus que o professor holandês Henk L. Wesseling (Universidade de Leiden) escreveu o livro “Dividir para Dominar: A Partilha da África – 1880-1914”, desmistificando certos aspectos fantasiosos, herdados do frenesi europeu da própria época da partilha e propagados até os dias de hoje.


A importância de “Dividir para Dominar” se dá pelo tema central que o autor explora no livro. Diferentemente de abordar somente como aconteceu a colonização dos territórios e as consequências desta dominação, Wesseling explora as relações entre os países europeus envolvidos na partilha, admitindo que na África do final do século XIX e início do século XX, “as decisões importantes eram no fim tomadas por políticos europeus, embora freqüentemente muita coisa acontecesse antes”. Para o autor, a história da África durante o período (1880-1914) foi feita mais pelos europeus do que pelos africanos. “Por isso é que as decisões e opiniões dos europeus ocupam um lugar central nesse livro”. Wesseling afirma na introdução que sua visão é “antiquada”, mas apresenta bem os argumentos que a legitimam durante as 464 páginas do livro. Apesar de tal posição, o autor é ousado ao promover uma abordagem diferenciada, buscando a compreensão de “como” ocorreu a partilha entre os países envolvidos, ao invés de se fixar somente no tradicional “porquê” dela (apesar de também investigar as motivações de cada um dos países em colonizar territórios africanos).


Numa abordagem panorâmica, Wesseling divide seu livro baseando-se em critérios geográficos e ao mesmo tempo cronológicos, pois para ele a partilha da África começa no norte do continente, partindo em direção ao sul e terminando novamente no norte. Por isso, o livro é iniciado com a disputa entre a França e a Grã-Bretanha no norte da África (sobretudo no Egito) na década de 1880, prossegue com a entrada de novos participantes do “jogo diplomático” à medida que a partilha segue para o sul do continente (Portugal, a Bélgica – na figura de Leopoldo – e a Alemanha), e tem seu epílogo novamente no norte, com a conquista do Marrocos, já no século XX.

Logo na introdução do livro, o autor já apresenta um ponto importante a ser abordado: a diferença entre partilha e possessão. Sobre a clássica apresentação dos mapas da África em 1880 e 1914 lado a lado, muito comum em livros didáticos e enciclopédias, onde cada parte do território africano apresenta uma cor representando a que país “pertencia”, Wesseling rechaça tal visão deturpada e afirma que as respectivas cores representam não o domínio concreto, mas o reconhecimento das outras potências europeias sobre a autoridade que cada país poderia exercer no continente africano.


É nessa ótica que Wesseling vai traçar sua tese e explorar o tema. O livro é basicamente um tratado sobre as relações diplomáticas entre os europeus interessados na colonização da África e as manobras utilizadas por seus participantes para conseguir cumprir seus objetivos. A tese da preponderância das decisões europeias sobre os rumos da África é a todo momento explorada em diversas páginas do livro: o processo de afirmação do domínio é sempre aos modos europeus, desde a autoridade regional que “cede” os direitos através de uma marcação em algum documento, semelhante a uma assinatura de contrato, algo totalmente alienígena a algumas culturas africanas da época, até a pura e simples intimidação através da via militar. Entretanto, apesar de o autor sempre afirmar sua tese, são expostos argumentos ao longo do próprio livro que negam uma passividade que tal tese pode por ventura parecer defender. As dificuldades encontradas pelos europeus nas resistências africanas, sobretudo nas regiões do Sudão e da África Oriental, mostram que, mesmo decidindo o destino dos africanos, os europeus não tomaram decisões sem situações determinantes, não houve a famosa demarcação de protetorados e colônias no mapa sobre a mesa da Conferencia de Berlim. Por mais que as decisões finais fossem europeias, as resistências africanas determinaram as possibilidades destas decisões.

Outro ponto para qual o autor atenta diz respeito às atitudes dos europeus entre si. Wesseling afirma que as nações europeias não chegaram a ultrapassar os limites das negociações diplomáticas no processo da partilha, apesar destas terem sido na maioria das vezes acaloradas e de França e Inglaterra quase terem chegado a um conflito armado em questões referentes à África Ocidental. Entretanto, se o conflito armado não foi promovido pelos Estados europeus, alguns de seus cidadãos o fizeram, e por isso Wesseling dispõe de longas páginas para narrar o conflito ocorrido entre colonos de origem holandesa e inglesa no sul da África conhecido como Guerra dos Bôeres.

As biografias também ocupam um número considerável de páginas na referida obra. Como o autor admite na introdução que o livro “preocupa-se sobretudo com as pessoas e suas motivações”, dando “mais ênfase aos fatores individuais que aos de grupos, aos concretos que aos abstratos”, estão presentes no trabalho as histórias pessoais dos principais envolvidos no processo de partilha da África, geralmente de forma sarcástica e bem-humorada, com detalhes às vezes pouco elogiosos, mas que talvez expliquem o porquê das motivações dos homens que promoveram este episódio da História. Muitos historiadores podem não dar muita importância para as biografias, mas pelo menos na obra de Wesseling, através delas temos pistas de, por exemplo, porque Gladstone ou Bismark modificaram suas idéias sobre o colonialismo e passaram a participar da “corrida pela África”, o que levou Leopoldo a iniciar sua cruzada pessoal obsessiva por uma colônia (onde quer que ela fosse), que influência tiveram as histórias sobre Gordon ou o paxá Emin sobre a opinião pública nos países envolvidos na partilha ou o que motivava homens como Peters ou Stanley a promover suas aventuras que tanto encantaram os povos de todo o mundo através dos jornais, de certa forma legitimando a exploração do continente africano aos olhos da população.


Por sua capacidade de apresentar aspectos desconhecidos ao público e desfazer-se de vícios e meias-verdades reproduzidas ao longo dos anos, e por ser uma novidade historiográfica para os pesquisadores e estudantes brasileiros, “Dividir para Dominar: A Partilha da África – 1880-1914” merece especial atenção de todos os interessados na História da África, e tem potencial para abrir as portas para pesquisas na área, que ainda carece de novidades, e a para a melhor formação de especialistas brasileiros sobre o assunto.


Editora: Revan / UFRJ

Páginas: 464
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O Monge e o Filósofo. O Budismo Hoje - Jean-François Revel e Matthieu Ricard

Um livro com este título tem tudo para ser um autoajuda brabo, daqueles bem oportunistas que pegam carona com outros do mesmo naipe (tipo, "O Monge e o Executivo"). Foi justamente isso que pensei quando me foi recomendada sua leitura por um amigo, mas na verdade não tem nada a ver, e depois de um esclarecimento sobre o tema de "O Monge e o Filósofo - O Budismo Hoje", peguei emprestado e li.

"O Monge e o Filósofo" é a transcrição de conversas entre o filósofo francês Jean-François Revel e o monge budista Matthieu Ricard, sobre vários aspectos do budismo, e os contrapontos com a ciência e a filosofia ocidental. Só com esta chamada já se trataria de um livro bem interessante sobre o contato e as contradições entre Oriente e Ocidente, mas há algo mais que torna a experiência única: os autores são pai e filho. Revel, que faleceu em 2006, era um ilustre membro da Academia francesa e sempre foi ateu, criando seu filho sem nenhum tipo de educação religiosa. Matthieu seguiu a tradição familiar até certo ponto de sua vida. Chegou ao doutorado de Estado (título acadêmico mais alto na França) em biologia molecular, mas em 1972 largou tudo para viver como monge na Ásia.

Em 1996, em ocasião da visita de Dalai-Lama à França (que teve Matthieu como seu guia), a mídia noticiou a singular situação com alarde, já que pai e filho supostamente não se viam desde a mudança de Matthieu. Tudo não passava de especulação ou sensacionalismo, pois o próprio Revel afirmou que houve diversos encontros entre eles durante as duas décadas da vida monástica do filho, tanto na Ásia como na França, ocorrendo muitas conversas a respeito da nova vida de Matthieu nestas oportunidades. Daí a ideia de colocar no papel todas essas informações sobre o budismo, que na década de 1990 conhecia uma expressiva escalada no Ocidente, vindas de alguém de origem ocidental - portanto, consciente de como funciona nossa mentalidade.

O primeiro tema abordado não poderia deixar de ser o mais intrigante: os motivos da conversão de um cientista bem encaminhado na carreira para uma vida de meditação e contemplação. Seguem-se então vários capítulos com questionamentos do filósofo a respeito de diversos temas, como a questão sobre o budismo ser ou não uma religião, sua relação com o Ocidente, sua atuação no mundo, o domínio chinês no Tibete, sua história, etc. O maior destaque nisso tudo é a atuação de Revel, contrapondo as informações cedidas por Matthieu, diferenciando "O Monge e o Filósofo" de um simples livro sobre o budismo entre tantos no mercado. Em muitos momentos, Revel, filósofo experiente em discussões intelectuais, coloca em xeque várias inconsistências e contradições do discurso de Matthieu, o que é muito interessante. Ao final, Matthieu tenta dar o troco no capítulo "O monge interroga o filósofo", quando o mesmo tipo de questões feitas durante todo o livro por Revel são então feitas por Matthieu - algo do tipo "qual é o sentido da vida" para um ocidental.

Para quem procura entender algo sobre o budismo além de karma, samsara e nirvana, e ao mesmo tempo ter uma aula de filosofia, "O monge e o Filósofo" é uma bela leitura. Este livro está esgotado, e não consegui encontrá-lo nem na Estante Virtual, mas uma pesquisa rápida na internet me fez descobrir que Jean-François Revel tem livros com títulos bastante interessantes, como "Nem Marx, nem Jesus" e "A Tentação Totalitária", a conferir seus conteúdos no futuro. Matthieu Ricard também já publicou outros livros sobre o budismo, mas certamente de opiniões apaixonadas e sem a graça deste.

Editora: Mandarim
Páginas: 288
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * *

Nota: A edição que li tem uma capa diferente, acho que a que está acima é da edição portuguesa.

Nota 2: Agradecimento ao dono do livro, Diogo Menezes, mais um amigo a colaborar com o blog. Daqui a uns 5 anos, quando eu arrumar minha estante e lembrar que o livro ainda está comigo, eu te devolvo!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Nova Califórnia em quadrinhos - Lima Barreto e Francisco Vilachã

Excelente conto de Lima Barreto que conta a história de uma pequena cidade virada ao avesso pela avareza de seus habitantes, "A Nova Califórnia" é mais uma adaptação para os quadrinhos de um clássico da literatura brasileira. A crítica social característica dos escritos de Lima Barreto se faz presente na análise de personagens, através da mesquinharia do povo, dos preconceitos com os que não seguem a linha oficial das coisas e novamente da questão do conhecimento ser tratado como uma propriedade de poucos privilegiados. Há quem diga até que se trata de um conto de ficção científica, o que não deixa de ser verdade. Uma pequena joia da nossa história literária, de fácil leitura e acesso.

Diferente do fraco trabalho em "O Cortiço", um texto muito denso e complexo para o reduzido espaço da publicação, desta vez o artista Francisco Vilachã, responsável tanto por desenhos como roteiro, acertou na medida. Por se tratar de um conto pequeno, o trabalho de transformar prosa em arte sequencial é mais simples, e o artista tem mais espaço para adaptar quase que integralmente todo o texto - e até sobra espaço para uma interpretação pessoal em alguns quadros. É justamente aí que encontra-se a qualidade de Francisco Vilachã, principalmente no roteiro bem elaborado, já que os desenhos não são grande coisa, mas servem bem para o propósito.

Após ler três volume da coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, avalio a média da série como boa, mas percebi muitos erros de português, como palavras escritas de forma errada e falta de crases (duas só neste volume), algo inadmissível numa coleção deste cunho. Não encontrei nenhuma referência a alguma atividade de revisão nos créditos, e caso haja uma nova edição, é imprescindível que ocorra este tipo de trabalho.

"A Nova Califórnia" em quadrinhos é uma boa adaptação e está recomendada, e quem se interessar em ler o texto original antes para comparar e comprovar sua qualidade, este conto e muitos outros da literatura brasileira em domínio público podem ser encontrados aqui.

Editora: Escala Educacional
Páginas: 48
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

terça-feira, 13 de abril de 2010

Memórias de um Sargento de Milícias em quadrinhos - Manuel Antonio de Almeida, Índigo e Bira Dantas

"Memórias de um Sargento de Milícias" é considerado uma ruptura da literatura brasileira com o romantismo cretino e idealista, e o precursor do realismo, por ser o primeiro romance de temática urbana, retratando os costumes e as situações cotidianas da época. Esta adaptação para os quadrinhos foi bem mais feliz do que a de "O Cortiço". O roteiro de Índigo foi mais bem elaborado, numa narrativa descontraída que possibilita o entendimento para quem não leu o livro - eu mesmo já havia lido há muito tempo, e não lembrava de nada. Os desenhos de Bira Dantas combinaram muito bem com a história do livro: traços arredondados ao estilo cartoon, para rimar com o tom humorístico de Manuel Antônio de Almeida, porém preenchidos com sombreados que tiram o excesso de limpeza deste tipo de estilo e dão um tom mais rústico, dando o clima certo de uma época passada.

A presente adaptação de "Memórias de um Sargento de Milícias" é bastante satisfatória, e além de possibilitar o contato mais fácil com este clássico da literatura brasileira, rende momentos de diversão e boas risadas. Que as outras adaptações em quadrinhos desta coleção dos clássicos da literatura brasileira sigam a boa qualidade desta. Aguardo o lançamento dos próximos volumes nas bancas (quem não mora no Rio pode adquirir qualquer volume diretamente nas livrarias, porém a um preço bem maior).

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Cortiço em quadrinhos - Aluísio Azevedo, Ronaldo Antonelli e Francisco Vilachã


"O Cortiço" foi um dos poucos livros de literatura brasileira que li durante a adolescência e realmente gostei. Todo aquele realismo, cheio de sexo e violência, deixando de lado toda aquela merda romântica e retratando a realidade miserável brasileira, lá pelos meus quinze anos aquilo foi a única coisa que conseguiu atrair meu interesse pelos livros "sérios". Por outro lado, a grande maioria que fui obrigado a ler me tirou o interesse em literatura brasileira por anos, e tenho certeza que promoveu o ódio incondicional à leitura em geral para sempre em muitos estudantes.

Encarei com muita simpatia a chegada às bancas da coleção da editora Escala de literatura brasileira em quadrinhos, pois é uma ótima chance para a garotada conhecer os marcos da cultura brasileira sem aprender a odiá-los - e também para marmanjos como eu que, não fosse isso, nunca voltariam a ler os tais clássicos. Ademais, está sendo uma chance de revisitar alguns dos clássicos que cheguei a ler, a começar pelo Cortiço.

Apesar da esperança depositada nessa inovação, este primeiro volume da coleção que peguei para ler foi uma decepção. Um recurso inteligente que foi desperdiçado por falta de qualidade na produção. Os desenhos de Francisco Vilachã (um dos idealizadores do projeto todo, méritos por isso) são monótonos, repetitivos, e em diversos momentos o leitor não reconhece ou confunde personagens que não apresentam diferenças físicas marcantes. O roteiro adaptado de Ronaldo Antonelli é embolado, muito corrido, e imagino que quem não leu o livro - ou que leu há muito tempo, como eu - vai se perder e perder o interesse logo. Me parece que os autores se preocuparam muito em apresentar todo o conteúdo no número limitado de páginas disponíveis e se esqueceram que os quadrinhos, antes de tudo, são arte sequencial, e não simplesmente uma narração ilustrada, como ocorre nesta versão da obra de Aluísio de Azevedo.

Dando uma olhada nos outros volumes da coleção que já foram lançados, deu para perceber que apresentam bastantes diferenças, e espero que não sejam tão decepcionantes como esta adaptação de "O Cortiço", pelo bem da literatura brasileira e pelo nome dos quadrinhos nacionais.

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Alice: Edição Comentada - Lewis Carroll

"Acabei de dar um check-up geral na situação, o que me levou a reler Alice no País das Maravilhas". Assim começa a música "Check-up" do Raul Seixas, e curioso em saber o que o Maluco Beleza viu nesta história infantil para citá-la numa de suas músicas, corri atrás do texto integral e há alguns anos encontrei "Alice: Edição Comentada". Acabou que o livro foi ficando na fila de espera, aos poucos saiu dela para dar lugar a outros e ficou quase uma década esperando na estante. Agora, com a iminência do lançamento do novo filme de Tim Burton e seu amiguinho Johnny Depp, a curiosidade voltou, e lá estava o livro, novinho e pronto para ser lido.

Reli e ao mesmo tempo li pela primeira vez. Reli porque já ouvi essa história durante toda a minha infância (ainda lembro claramente da voz da Rainha de Copas dizendo "Cortem-lhe a cabeça!" na fita k7), mas li pela primeira vez o texto original. E li uma ótima edição, feita para adultos, cheia de comentários e explicações feitas por gente que passa a vida toda estudando "Alice" e as outras obras de Lewis Carroll.

Não sei se no embalo do lançamento do filme alguma editora já lançou uma nova edição de "Alice no País das Maravilhas", mas acho difícil lançarem algo mais completo do que essa edição comentada (talvez só alguma edição bilíngue com o texto em inglês). As notas explicam tudo, de referências que Carroll faz a situações do mundo real a elucidações de seus joguetes lógico-matemáticos, sua especialidade. Todas as fantásticas ilustrações originais de John Tenniel também estão presentes, com comentários quando se fazem necessários. "Alice: Edição Comentada" contém ainda a continuação de "Alice no País das Maravilhas", chamada "Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá", e um episódio inédito chamado "O Marimbondo de Peruca". Ao final do livro, estão os esboços originais de Tenniel, uma bibliografia de Carroll e seus analistas e uma lista de filmes e desenhos baseados na obra.

Se vivesse hoje, Lewis Carroll certamente estaria em evidência na mídia e respondendo a vários processos por pedofilia, tipo um Michael Jackson, por causa de sua forte atração por garotinhas (e ódio aos garotinhos). Na época, isso não tinha o mesmo peso que nos nossos dias, mas ainda assim o matemático escritor foi impedido de entrar em contato com a Alice da vida real pela mãe da menina (para quem não sabe, ela existiu, e para ela o livro foi escrito), após Carroll sugerir um pedido de casamento com a criança de 11 anos. Independente de suas taras (que seus biógrafos insistem em relevar e considerar algo puramente afetivo) ou de qualquer outra esquisitice de sua vida (que não eram poucas), foi esta figura que criou este clássico da literatura não só infantil (inovador neste aspecto por ser a primeira história feita para crianças que não se preocupava em apresentar uma "moral da história" ao final), mas principalmente de fantasia, banhada em enigmas lógicos e matemáticos, num mundo louco que precedeu Terra Média, quadros de Salvador Dalí, contos de Borges, psicodelismo... E uma ótima maneira de conhecer esse mundo é através de "Alice: Edição Comentada".

Editora: Jorge Zahar
Páginas: 303
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sexta-feira, 26 de março de 2010

Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Eu sempre me senti meio envergonhado de conhecer tantos livros, de diversos gêneros, mas ignorar quase completamente os clássicos da literatura brasileira. Até li meia dúzia na escola, alguns ótimos, como "Noite na Taverna" e "O Cortiço", outros terríveis, como qualquer um do José de Alencar, mas a partir do momento que não tinha mais que ler por obrigação, dediquei meu tempo de leitura a outros interesses, e todos esses anos eu ficava, "pô, tenho que tirar um tempo para conhecer Machado de Assis e tal...", mas sempre deixava para depois.

Aí veio essa promoção do Extra da literatura brasileira em quadrinhos, eu comprei o primeiro volume e me senti meio patético em ler as histórias em quadrinhos sem conhecer a obra original, então tirei da estante "Triste Fim de Policarpo Quaresma", depois de mais de uma década intocado. Agradeço muito ao Extra pela promoção, pois se não fosse este estímulo, talvez eu nunca tivesse lido esta excelente história.

Policarpo Quaresma, um dos melhores personagens de romance que já conheci, era um pacato cidadão do Rio de Janeiro dos primeiros anos da república, funcionário público com hábitos estritos, solteirão que vivia com a irmã, mas apaixonado defensor do Brasil em todos os aspectos. Sua inquietude em relação à potencialidade não explorada de seu país o leva à ação radical, primeiramente no aspectos cultural - quando é dado como louco e é internado num hospício -, depois na vida econômica - acabando falido e vencido pela estrutura político-econômica de depreciação do pequeno produtor - e finalmente na política, onde encontra seu triste fim.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é uma história divertida, leve, muito por causa da recusa de Lima Barreto em utilizar a linguagem rebuscada em voga na literatura brasileira do início do século XX, mas principalmente devido às situações cômicas em boa parte do livro, a começar pelos personagens, todos eles muito medíocres: o general que nunca foi à guerra, o contra-almirante a quem foi dado o comando de um navio inexistente, e até mesmo o próprio Quaresma e sua paixão cega pelo Brasil, um dos poucos personagens que o leitor pelo menos tem simpatia por causa de sua inocência e bom coração (o outro é um violeiro que busca as raízes da música brasileira, e atende pela fantástica alcunha "Ricardo Coração dos Outros").

Outro personagem muito medíocre utilizado por Lima Barreto para desnudar a sociedade brasileira da época é um médico que possuía uma biblioteca exemplar, mas nunca conseguia ler mais do que cinco páginas de cada livro, pois dormia, e ao produzir artigos, "escrevia de modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia as orações, picava o período com vírgulas e substituía incomodar por melestar, ao redor por rededor, isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho, sarapintava tudo de ao invés, empós, e assim obtinha o seu estilo clássico que começava a causar admiração aos seus pares e ao público em geral". Um deboche com os intelectuais da época que insistiam na pompa literária, mas também há uma crítica à elitização do conhecimento, pois fica claro que ao doutor era cabível uma biblioteca, mas a loucura de Policarpo Quaresma, que não tinha título acadêmico, é atribuída por outros personagens ao seu hábito de ler - um deles chega até a sugerir a proibição de livros para quem não tivesse título acadêmico.

O exame da loucura também não fica de fora da escrita de Lima Barreto, tanto na figura de Quaresma como na da menina que enlouquece porque é iludida durante cinco anos pelo noivo e depois é abandonada - fica bem sugestivo que o problema não foi a perda de um amor, mas sim da possibilidade de casar para cumprir seu papel social. Lima Barreto teve o pai internado num hospício, o mesmo acontecendo com ele anos depois, num hospício onde hoje se localiza a faculdade na qual me formei. Aliás, este foi outro aspecto que despertou demais o meu interesse nessa leitura: a apresentação do passado de muitas partes do Rio de Janeiro onde nasci e fui criado, tendo sido o próprio livro escrito na minha vizinhança.

"Triste Fim de Policarpo Quaresma" é daqueles clássicos que não se lê porque é clássico, mas sim pela criatividade, beleza, qualidade da escrita, e por ser acima de tudo uma ótima história. Seguindo a sequência para acompanhar a coleção do Extra, vou atrás de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" e alguns contos de Machado de Assis e Lima Barreto, na medida do possível entre tantas outras leituras e a vida real, e tentarei escrever sobre eles aqui também, além das próprias adaptações para os quadrinhos.

Editora: várias (várias mesmo, talvez mais de 20)
Páginas: variável
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Audiolivro


sábado, 20 de março de 2010

Operação Mahjong - John Trenhaile

Uma trama de espionagem no meio do mundo financeiro de Hong Kong, ao final da Guerra Fria, envolvendo a KGB e o serviço secreto da China, numa luta pelo controle da colônia que estava prestes a sair de mãos inglesas para o domínio chinês - o livro foi escrito no final da década de 1980, e Hong Kong estava para ser devolvida à China em 1997. Uma ótima chamada para um livro do gênero, mas que infelizmente não se desenvolve tão bem e desperdiça o potencial.

Não que falte ingredientes fundamentais de um livro de espionagem - missões secretas, sabotagem, chantagem e assassinatos - mas por outro lado sobra muita coisa desnecessária. A ideia de John Trenhaile foi no mínimo inovadora: o autor trabalhou como advogado em Cingapura e conheceu muito bem o mundo financeiro dos Tigres Asiáticos, o que lhe deu uma boa noção para escrever este romance com uma trama pautada no mundo dos negócios, e não simplesmente espionagem com ação. O problema é que parece que o autor exagerou um pouco, e a primeira metade do livro é tão recheada de termos técnicos do mundo corporativo que chega a ser enfadonha. Além disso, muitas partes são desnecessariamente alongadas sem muito motivo.

Uma leitura que eu imaginava que duraria dois ou três dias de carnaval se estendeu por mais de um mês, algumas dúzias de páginas entre leituras de outros livros. Personagens muito bons também não dão as caras, e eu teria desistido do livro na página 100, não fosse o ambiente oriental e os aspectos da sociedade chinesa bem trabalhados por alguém que lá viveu por um tempo, temas que tanto me atraem, como se pode confirmar com a quantidade de livros a respeito do oriente sobre os quais já escrevi por aqui. Consegui terminar mas, por causa dessa dicotomia tema interessante x desenvolvimento fraco, o resultado foi uma leitura não mais que regular.

Editora: Best Seller
Páginas: 445
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * *

segunda-feira, 15 de março de 2010

Dica para leitores do Rio


O jornaleco Extra, versão, digamos... mais popular do jornal O Globo, decidiu dar sua mínima contribuição para a cultura nacional, e a partir dessa quarta vai publicar semanalmente um clássico da literatura brasileira na forma de história em quadrinho. Serão dez volumes, publicados todas as quartas, por R$ 5,90, começando com "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto. Para quem costuma fazer promoções como "Meu sonho é ser modelo", já é um começo...

Sites especializados deram a dica, mas até agora nenhuma informação no site do jornaleco. Para ver as capas dos outros volumes, clique aqui.

quarta-feira, 10 de março de 2010

As Eras de Eric Hobsbawm



Quando se pensa em História contemporânea, não há personalidade viva mais famosa que Eric Hobsbawm. Em seus 92 anos, teve tempo para escrever sobre muita coisa interessante, como jazz, movimentos sociais, marxismo e nacionalismo, mas o que mais o deixou em evidência foi sua série sobre o mundo contemporâneo, desde 1789 até os dias de hoje, divididos em quatro eras.

A primeira delas é a Era das Revoluções (1789-1848), primeiro livro da série que trata do início do mundo contemporâneo através das duas revoluções que viraram ao avesso tudo que existia antes: a revolução social (Revolução Francesa) e a revolução técnica (Revolução Industrial). A segunda foi denominada Era do Capital (1848-1875), quando o sistema capitalista se estabelece de vez, iniciada logo após a última tentativa de revolução que ameaçou sua sobrevivência (a Primavera dos Povos). A terceira era foi batizada de Era dos Impérios (1875-1914), quando o capitalismo se desenvolve e assume sua nova face, com a extrapolação do sistema de exploração de capitalistas sobre trabalhadores europeus para o resto do mundo. A última das eras é a chamada Era dos Extremos (1914-1991), quando todo esse sistema capitalista, aparentemente solidamente estabelecido, é abalado em várias frentes, e o pandemônio se estabelece na História.

Em princípio, a série seria uma trilogia, terminando na Era dos Impérios, e por isso os três primeiros livros têm estrutura muito parecida, apresentando primeiramente uma análise dos acontecimentos do período, e uma segunda parte discorrendo sobre temas específicos como a terra, o trabalho, as artes, a ciência e a religião. São livros um pouco complexos para quem não tem contato com a área, incorrendo em referências específicas e linguagem pouco popular, mas sem chegar a um ponto de impedimento aos leigos. Todos os três contam com volumosos cadernos de ilustrações.

A Era dos Extremos, apesar de fazer parte da História contemporânea, é uma reviravolta radical ao sistema em vigência anteriormente, assim como o livro se diferencia dos demais da série. Escrito em linguagem mais acessível, e tratando de temas cronologicamente mais próximos de qualquer leitor (até quem está nos seus vinte e poucos anos se lembra de alguns fatos tratados no livro) e, em minha opinião, muito mais interessantes, a conclusão da série de eras de Hobsbawm é, ao mesmo tempo, um excelente livro para quem quer se inteirar de aspectos fundamentais do nosso mundo, como para estudos mais profundos. É leitura obrigatória para formandos em História, bibliografia certa em concursos da área e muito utilizado por pesquisadores, mesmo de áreas distintas, quando fazem citações históricas. Não obstante, é uma leitura muito prazerosa.

Eric Hobsbawm nasceu no Egito britânico em 1917, viveu boa parte do período sobre o qual escreve, sendo militante da esquerda. Uma história parecida com a do rei da arquitetura, Oscar Niemeyer, e assim como ele, continua ocupando o trono de rei em sua área enquanto estiver vivo.

Editora: Paz e Terra (os 3 primeiros) e Companhia das Letras (Era dos Extremos)
Páginas: 600, 540, 608 e 598
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital "A Era dos Extremos"

quinta-feira, 4 de março de 2010

Os Filhos de Duna - Frank Herbert

Terceiro livro da maravilhosa saga de Frank Herbert, "Os Filhos de Duna" mostra a geração seguinte a Paul Atreides, o personagem principal da série. Os gêmeos órfãos Leto e Gahnima, com 9 anos de idade - apesar de possuírem as memórias e a maturidade de todos os membros de sua linhagem, adquiridas através de um processo meio místico, meio químico - estão na posição de herdeiros do império de seu pai, mas aguardam a maioridade para governar. Enquanto isso, Alia, a irmã de Paul que é tida como uma santa viva, permanece no posto de regente. Como nos livros anteriores, uma trama político-religiosa se desenvolve, com alguns envolvidos em busca do produto mais importante do universo - a melange, um tipo de especiaria que só se desenvolve no planeta Duna -, outros do trono do império e ainda alguns Fremen (o povo nativo do planeta) buscando redenção espiritual e a salvação de sua cultura. Os personagens principais, além de lutarem para permanecerem vivos, enfrentam a iminência de uma catástrofe ambiental que pode destruir o planeta e comprometer toda a comunidade do universo. A história é intercalada em três ou quatro frentes, narradas paralelamente, se entrelaçando aos poucos, com personagens que migram de uma linha narrativa para outra.

Depois de ler "Os Filhos de Duna", tive a impressão que o anterior ("O Messias de Duna") funciona como um interlúdio entre o terceiro e o primeiro livro, mas também parece que os três formam uma trilogia coerente. Interlúdio porque o primeiro e o terceiro são muito mais densos que o segundo, tanto pelo número de páginas como pela profundidade da trama, mas trilogia porque ao final de "Os Filhos de Duna" claramente fecha-se um ciclo (dizer aqui qual é este ciclo revelaria informações fundamentais da saga para quem ainda não leu).

Apesar de o segundo e o terceiro livros (e pelo que sei, qualquer outro da série) não atingirem a repercussão e a qualidade do primeiro, "Os Filhos de Duna" fez com que a saga se consolidasse de vez para mim como minha predileta, me estimulando ainda mais a ler todos os outros livros (mais três de Frank Herbert e, até agora, 11 de seu filho Brian Herbert e Kevin Anderson, apesar de fãs mais "puristas" rejeitarem totalmente estes, mesmo sob o argumento de que foram escritos baseados em anotações do criador). Porém, meu maior estímulo foi ler o livro no idioma original, o que me fez descobrir que, independente da criatividade do universo Duna, a qualidade da escrita de Frank Herbert é muito superior ao que eu pensava, e que as traduções brasileiras da série são fracas demais. Acrescido a isso o fato de que os livros em inglês são muito mais baratos do que as versões brasileiras da editora Nova Fronteira (tanto em sebos como em livrarias), e que o primeiro e o último da edição brasileira estão esgotados há anos, já estou correndo atrás dos originais, inclusive dos dois primeiros volumes que li em português para reler.

Editora: Nova Fronteira (publicado em inglês por diversas editoras)
Páginas: 524
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

Livro Digital


terça-feira, 2 de março de 2010

X-Men 50 - Chris Claremont e Marc Silvestri

Muito antes dos X-Men vestirem as roupas de couro preto nos cinemas e ficarem tão conhecidos como o Indiana Jones ou o Super-Homem, eles já tinham uma legião de seguidores entre os fãs de quadrinhos. Desde meados da década de 1970 - com a reformulação do grupo por Chris Claremont e a entrada de personagens que fizeram bastante sucesso, como Tempestade, Noturno, e principalmente, Wolverine - até o lançamento do primeiro filme em 2000, diversas foram as fases do grupo - acredito eu que as de maior qualidade superaram as menos felizes durante estes 25 anos.

Uma dessas boas fases apareceu aqui no Brasil em 1992, por volta da edição brasileira de número 50 da editora Abril. Como todo número redondo tem que ser comemorado (essa mania das pessoas que as empresas e o marketing aproveitam), esta revista teve o formato de edição especial, com mais páginas, e recheada exclusivamente com histórias do próprio grupo (as revistas de super-heróis no Brasil quase sempre misturavam histórias dos personagens do título com outros de menor expressão, hábito perpetuado até hoje pela editora que monopoliza o mercado).

O grupo de então tinha metade dos personagens que todo mundo hoje em dia conhece, como Colossus, Wolverine, Vampira e Tempestade, misturados com outra metade desconhecida por quase todo mundo que só conhece os mutantes pelo cinema - Destrutor, Cristal, Psylocke e Longshot. A revista trazia quatro histórias em sequência, todas escritas por Chris Claremont, mas três delas desenhadas por Marc Silvestri, um ídolo da garotada na época (que manteve a qualidade de seu trabalho por muitos anos), e uma por Rob Liefeld, hoje conhecido como o maior canastrão dos quadrinhos (mas que a garotada também gostava). As histórias são divertidas, misturando humor e ação na dose certa, e apresentam uma personagem que teria papel importante nas histórias dos mutantes nos anos seguintes: Jubileu, uma adolescente-problema que salva a pátria e consegue permissão para se tornar uma X-man.

Esses eram os X-Men na época.


A partir dessa revista, os X-Men entram numa fase de reformulação, com a posterior entrada de uma porção de personagens novos e a volta de outros fundamentais como o Professor Xavier e os membros fundadores (Ciclope, Jean Grey, Homem de Gelo, Arcanjo e Fera, que faziam parte de outro grupo na época). Forma-se uma espécie de Dream Team mutante, que leva o grupo a um sucesso sem precedentes, até culminar na produção do filme.

X-Men 50 não é a melhor revista mutante publicada, nem representa a melhor fase de todos os tempos mas, diferente de 99% dos quadrinhos de super-heróis publicados no Brasil, pode ser lida integralmente sem que esteja escrito "continua na próxima edição" no final. Pode ser encontrada em sebos, se procurada com carinho. Aqui em casa ela fica ali, no meio de tantas outras, e de vez em quando eu a pego para dar uma lida e relembrar. Afinal, já vão quase 20 anos...

Editora: Abril
Páginas: 100
Disponibilidade: esgotada
Avaliação: * * * *