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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil - Hermeterio e Olinto Gadelha

Com o movimento republicano em fins do século XIX, o Brasil tinha uma proposta de rompimento com a herança deixada por uma independência política que trouxe consigo toda a tradição patrimonialista desde o início da colonização. Feita a república, rapidamente entram em cena novos atores, mas o roteiro continua basicamente o mesmo. Passam a dominar o país as elites agrárias, sob forma de oligarquia. Deliberações do Convênio de Taubaté eram mais importantes do que a penúria causada pela seca no nordeste ou as péssimas condições de vida dos pobres nas cidades. Em alguns momentos o povo, cansado de tudo isso, explodiu em fúria, tanto no campo como nas cidades, no que os livros didáticos intitulam revoltas da República Velha.

Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil conta na forma de quadrinhos um dos mais famosos desses movimentos do início do século passado, e a comovente biografia de seu líder. O ano era 1910. Mais de duas décadas haviam se passado desde a abolição da escravidão no Brasil, mas a marinha ainda reproduzia com os marujos, a maioria negros e mulatos pobres, o tratamento dispensado aos escravos nas lavouras de café. Péssimas condições de higiene e alimentação já seriam suficientes para tal comparação, mas a analogia se tornava completa com a aplicação de chibatadas nas costas dos que praticavam mínimos atos de indisciplina. No dia 22 de novembro, os marinheiros liderados por João Cândido demonstraram seu descontentamento tomando o comando da frota ancorada na Baía da Guanabara, incluindo o maior navio de guerra do mundo na época, apontando os canhões para a capital brasileira de então. João Cândido se tornou então, de fato, o primeiro almirante negro do Brasil. Os revoltosos conseguiram sair vitoriosos, com a abolição da chibata e o governo se dobrando publicamente, mas a classe dominante brasileira não deixou por isso mesmo: duas semanas depois, após outro motim que nada teve a ver com a primeira revolta, o governo encontrou o pretexto necessário para incriminar João Cândido e os outros envolvidos, impondo-lhes uma terrível punição.

O que Hermeterio e Olinto Gadelha fizeram foi prestar uma homenagem digna a esta passagem épica de nossa história e seu valoroso líder que, após se conhecer sua história e todo o sofrimento de sua vida, não há como não se conformar em não tê-lo como um grande herói nacional. Apesar de incluir diversas passagens e personagens fictícios na narrativa, fica claro que os autores se esforçaram em pesquisar o contexto histórico e o visual da época. Os quadros são bem ricos em detalhes, sobretudo na caracterização dos navios de guerra. O roteiro flui suave, como deve ser toda narrativa em quadrinhos, e os desenhos são ótimos. Toda a criação faz jus a essa história tão importante na luta do povo brasileiro contra a opressão. O trabalho foi lançado em 2008, mesmo ano em que João e seus companheiros finalmente receberam a anistia oficial do governo e da marinha, quase um século depois da heroica revolta. Hoje João Cândido tem seu nome no livro de heróis da pátria e há uma estátua sua na Praça XV, Rio de Janeiro.

Chibata! é um excelente álbum em quadrinhos e merece ser lido prontamente por qualquer um que curta a nona arte e história. Além disso, destaco a obra como ótimo recurso pedagógico, pois tenho a experiência de utilizá-lo com meus alunos com resultados muito satisfatórios. Porém o livro está fora do catálogo da editora por causa de um triste fato: em 2013, a Conrad foi condenada por plágio por conta desse álbum. Os autores foram acusados de utilizarem sem permissão personagens e passagens da peça teatral João Cândido do Brasil: A Revolta da Chibata, de César Vieira. Agora e talvez para sempre, só de segunda mão. Uma pena.

Editora: Conrad
Páginas: 218
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Marvel Comics: A História Secreta - Sean Howe

Poderíamos categorizar como biografia um livro que conta a história de uma editora de quadrinhos, ou seja, uma empresa? Após ler Marvel Comics: a História Secreta, posso afirmar que sim, já que o mote principal abordado por seu autor, o jornalista Sean Howe, é justamente esse: mostrar a dualidade e os conflitos existentes entre o lado empresarial da Marvel, ditado por interesses de mercado, e sua contrapartida humana, que envolve tanto criatividade quanto paixões, desavenças, vingança, orgulho e todo tipo de outras situações que podem ocorrer no convívio de seus diversos membros.

Dificilmente alguém que viva no meio urbano hoje em dia pode não conhecer a Marvel Comics, pelo menos de nome. Seu slogan é praticamente onipresente em livrarias, lojas de brinquedo, brindes de lanchonetes e tudo mais, devido à popularidade que personagens como Homem-Aranha, Capitão América, Hulk, Thor, Homem-de-Ferro, entre outros, vêm alcançando nos últimos 15 anos através de produções milionárias para o cinema. É obvio que todos os personagens citados já fazem parte do imaginário popular há muito mais tempo, a diferença é que hoje sua exposição é muito maior - e sua rentabilidade, mais ainda.

Uma das coisas que se pode conhecer com a leitura desse livro é a trajetória que a editora percorreu até chegar a esse ponto. Começando em 1939 com o nome Timely Comics, a Marvel passou por diversas fases, tendências, acertos e erros, tanto artísticos como comerciais. Mas principalmente, durante essas quase oito décadas, a Marvel passou na mão dos mais variados tipos de pessoas, com suas escolhas, seus dilemas, seus amores e ódios. E é sobre essas pessoas, muito mais do que da história dos personagens famosos e lucrativos da editora, que Sean Howe resolveu escrever.

Quando se fala em Marvel Comics, sob qualquer aspecto, não se pode desvencilhar a imagem de Stan Lee, aquele velhinho simpático que aparece rapidamente em todos os filmes dos super-heróis da editora hoje em dia. Sobrinho de Martin Goodman, criador da Timely, Stan Lee, hoje com mais de 90 anos, esteve presente em praticamente todos os momentos da história da Marvel, direta ou indiretamente, como roteirista, editor ou simplesmente homem de negócios buscando outros nichos de mercado para a editora (sobretudo o cinema, quase uma obsessão sua), mas acima de tudo, sendo o responsável pela criação dos personagens que surgiram na década de 1960 que formaram a espinha dorsal do universo Marvel. Quer dizer, pelo menos na versão oficial, já que uma das grandes discussões que se arrasta até hoje em dia é o papel de Lee na criação desses personagens - os parceiros dele, como Steve Ditko e Jack Kirby, acusaram-no até a morte de ter um papel bastante reduzido nesse processo. Só que Dikto, Kirby e tantos outros permaneceram muito menos tempo na Marvel do que Stan Lee, e como se sabe, a história oficial é sempre a história contada pelos vencedores.

Essa questão de créditos de criação dos personagens e, principalmente, os direitos comerciais sobre eles, é outra discussão importante no livro de Sean Howe, já que sempre acompanhou os artistas e proprietários da Casa das Ideias. Em todas essas décadas de quadrinhos de super-heróis, tanto a Marvel como sua principal concorrente, a DC Comics (editora de outros ícones como Super-Homem e Batman), sempre conseguiram manter sua propriedade sobre os personagens criados para fazer parte do seu universo. A alegação das editoras é que os criadores são contratados no esquema "work-for-hire", algo do tipo freelance, e isso nunca foi revertido a favor dos artistas. A principal tentativa de superar essa situação veio na década de 1990, quando desenhistas de uma nova geração se tornaram superstars no mundo dos quadrinhos e decidiram que era a hora de se vingar do que eles e muitos outros antes encaravam como exploração de seu trabalho. Artistas como Jim Lee, Rob Liefeld e Todd MacFarlane abandonaram a Marvel e criaram uma nova editora, a Image Comics, que por algum momento representou uma ameaça real ao domínio Marvel/DC.

A criação da Image não foi o único momento de crise e risco de extinção da Marvel Comics. O livro apresenta diversos outros períodos de vacas magras, tanto criativa como financeiramente, em que a Marvel quase fechou as portas. Talvez esse seja um ponto fraco na dissertação de Howe, pois o autor negligencia a situação do mundo nos acontecimentos referentes à Marvel - por exemplo, acho que ninguém que escreva sobre uma empresa pode deixar de levar em conta a crise mundial iniciada em 1973 com a alta do petróleo ditada pela Opep. O autor poderia ter trabalhado mais profundamente essas questões, ou outras como a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1960, que são apenas citadas, quando muito.

Porém, como já citado, a linha condutora do livro é mesmo a dicotomia emocional/humano x racional/comercial. Com o tempo, a Marvel foi crescendo, e ao mesmo tempo em que tinha que tomar decisões frias e comerciais que uma empresa precisa ter para sobreviver no capitalismo, seus fãs cresciam, e alguns deles acabaram por entrar na equipe da editora. Esses meninos que tiveram a companhia de seus heróis durante toda a vida não queriam colocá-los em situações constrangedoras por causa de interesses mercadológicos (tipo, qual era a lógica de o Homem-Aranha utilizar um "Aranha Móvel" para se locomover no congestionamento de Manhattan se ele podia simplesmente se balançar entre os arranha-céus?). O livro coloca situações como essas de maneira bastante interessante, citando exemplos de como alguns autores conseguiam furar o bloqueio de editores, principalmente nos títulos menos visados, nos quais alguns roteiristas e desenhistas conseguiam até incluir temas políticos e sociais de forma velada, como o uso de drogas. Esse equilíbrio de tendências foi fundamental para a sobrevivência da editora, já que a radicalização para um ou outro lado certamente quebraria a empresa.

Hoje eu não leio mais quadrinhos de super-heróis como antigamente. Ao passarem os anos da minha vida, fui aos poucos deixando de lado essa vertente mais popular dos quadrinhos e me interessando por criações com temas mais adultos, como mostram as inúmeras resenhas de quadrinhos que eu já escrevi nesse blog. As grandes sagas que se estendem por anos, as reviravoltas, as tramas e subtramas que se encadeiam nas dezenas de revistas mensais já não me interessam como faziam durante minha infância e adolescência. Hoje em dia, as histórias nada mais são do que recauchutagens de tudo o que foi escrito nas décadas passadas por grandes nomes como Chris Claremont, Jim Starlin, Roy Thomas e tantos outros que eu adorava e ainda adoro ao reler minha coleção de gibis antigos. Não vejo mais graça em acompanhar mortes, ressurreições, perda e ganho de poderes e todas essas coisas que não tem fim, enquanto os personagens continuam com a mesma idade da década de 60. Já deu o que tinha que dar pra mim, fica agora para as gerações que iniciam seu caminho nesse mundo. Mas como fã de quadrinhos desde sempre, e com esse sentimento de companheirismo com os super-heróis da minha juventude que nunca me abandonou, obviamente essa leitura foi muito interessante para mim e me despertou muitos sentimentos - além de a leitura ter fluído facilmente e eu ter devorado as páginas em pouco tempo. Quando criança e adolescente, você não pode imaginar que a criação dos personagens e histórias que sempre foram o seu mundo pessoal passe por tantas situações escabrosas, ganância, passadas de perna, puxadas de tapete, jogatinas comerciais. Não se imagina que, para aquelas páginas terem chegado até você, muita gente passou dias e noites sem dormir para cumprir prazos ditados pelo mercado editorial, substituíram momentos com suas famílias nas manhãs de sol por confinamentos em seus estúdios, e alguns até morreram por causa disso. Marvel Comics: A História Secreta mostra todos esses episódios de paixão, dor, sacrifício e tudo o que os heróis passaram em todas essas décadas ao nosso lado - e aí você descobre que, na verdade, foi tudo o que os autores passaram em suas vidas. Foi tudo o que você passou na sua vida. E você chega ao fim do livro com um sentimento de profundo agradecimento por todos os heróis da vida real que fizeram a Marvel existir como ela é ou foi durante a sua existência.

Editora: Leya
Páginas: 560
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A Trilogia Nikopol - Enki Bilal

Nos anos 70, enquanto os quadrinhos norte-americanos de super-heróis passavam por uma ressaca criativa depois da década anterior de criações de sucesso - Homem-Aranha, Quarteto Fantástico, etc. - na Europa se desenvolvia um estilo de quadrinhos de temática adulta, sofisticado, encabeçado pela revista francesa Métal Hurlant (que inspirou a criação posterior da Heavy Metal americana). Enredos de ficção científica e fantasia, acompanhados de uma arte sombria, cheia de imagens de seres bizarros com bastante violência e sexo, apresentavam ao mundo uma nova maneira de fazer quadrinhos. Uma safra de artistas talentosos surgia, dentre eles o franco-iugoslavo Enki Bilal.

Na onda recente de excelentes lançamentos da Editora Nemo, A Trilogia Nikopol é uma bela oportunidade para se entrar em contato com o trabalho de Enki Bilal e os quadrinhos europeus dessa vertente. Com um enredo de ficção científica cyberpunk, misturando viagens espaciais, deuses egípcios, robôs, animais humanizados e tramas políticas influenciadas pelo contexto da guerra fria, a história se passa entre 2023 e 2034, iniciando-se em uma Paris comandada por fascistas com uma pirâmide voadora pairando sobre a cidade em busca de combustível, enquanto uma nave de menor porte cai do espaço com Alcide Nikopol, de volta à Terra depois de décadas de exílio congelado - e após terminada a quarta guerra mundial (nuclear, diga-se de passagem). Essa é a premissa para A Feira dos Imortais (1980), o primeiro volume da trilogia, completada por A Mulher Armadilha (1986) e Frio Equador (1992).

Como se não fosse já bastante complicado esse cenário, o roteiro da Trilogia Nikopol é bem confuso, cheio de pontas soltas e passagens passíveis de interpretações. Não sei se o ato foi proposital ou se essa é realmente uma deficiência do autor, mas o resultado surpreende - tal falta de ordem causa um resultado positivo, cai bem para o clima caótico e surreal do futuro degradante imaginado por Enki Bilal - e algumas passagens são complementadas por trechos jornalísticos imaginados. Os desenhos e cores são excelentes, bem característicos do que é a arte desse estilo de quadrinhos.

Soma-se ao brilhantismo do trabalho de Enki Bilal a excelente edição lançada aqui no ano passado pela Editora Nemo, que vem cumprindo um excelente trabalho no mundo dos quadrinhos (apesar dos preços um pouco indigestos de algumas obras). Em formato grande, papel couché, capa dura e até uma edição fictícia de jornal acompanhando o álbum, a edição da Trilogia Nikopol é um deleite para os fãs brasileiros de quadrinhos, e fica a recomendação para aqueles que ainda não tiveram contato com esse tipo de livro por preconceito ou simplesmente desinteresse.

Editora: Nemo
Páginas: 184
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

*Agradecimento especial ao amigo Marcelo, por ter me apresentado a este fantástico autor - uma parte que eu desconhecia de um mundo que lhe foi apresentado por mim. Espero que a troca de nossas diferentes culturas continue honesta e gentil, como você citou em sua dedicatória, até ficarmos senis de tanto ler fantasia.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Drifting Life - Yoshihiro Tatsumi

O sonho de toda criança é poder ser algo bem divertido e emocionante quando crescer. Eu queria ser jogador de futebol, desenhista ou astronauta, mais tarde astro do rock, e até hoje tenho minhas fantasias profissionais - adoraria trabalhar fazendo programas de viagem para algum canal de tv que pagasse tudo! Poucos de nós podem desfrutar desse prazer que deve ser trabalhar com algo que realmente se sonhou algum dia - sonho inocente de criança, não me refiro a planos para passar em algum concurso público que pague um salário absurdo e morar na orla. Yoshihiro Tatsumi é uma dessas pessoas, e além dessa realização ainda lhe foi possível contar essa história através de um belo livro.

A Drifting Life é um álbum de quadrinhos autobiográfico japonês escrito e desenhado por Tatsumi, um importante autor que criou o termo "gekiga" para distinguir trabalhos mais sérios de mangás de temas infantis - o gekiga em relação ao mangá seria um termo com a mesma conotação que as graphic novels têm em relação aos comics americanos. A história se passa praticamente toda durante a década de 1950, período no qual Hiroshi, o alter-ego do autor, inicia seu amor pelos quadrinhos japoneses e desenvolve sua técnica até se tornar um respeitado artista.

Muito mais que uma autobiografia, A Drifting Life aborda, com muita ternura, a história dos quadrinhos japoneses, além da própria história do Japão. Entre páginas que mostram detalhes da vida pessoal do autor, apresentam-se diversos personagens marcantes para a indústria dos mangás, alguns muito famosos, como seu ídolo Osamu Tezuka (o "Deus do mangá" para os japoneses), outros praticamente desconhecidos aqui no Brasil até para os mais aficionados - editores ou autores underground da época. Ao mesmo tempo é apresentado um Japão que saía do trauma da Segunda Guerra Mundial e iniciava sua ascensão no mundo capitalista como uma nova potência econômica, alguns detalhes também bem estranhos para o público ocidental - ou alguém conhece bem os atletas e cantores japoneses de 60 anos atrás?

O assunto central de A Drifting Life, a criação e o desenvolvimento do gekiga, é mostrado com bastante afinidade com a vida de Hiroshi e a história do Japão, que não aparecem no livro de forma relapsa, sem sentido. Questões de economia do Japão e mercado de mangás tem íntima relação com os trabalhos de Hirsoshi / Tatsumi, bem como seus dramas pessoais e suas preferências. A criação de um "mangá que não é mangá", como o protagonista chama, foi diretamente determinada por uma outra paixão sua que é mostrada quase que em todos os capítulos: o cinema, hábito frequente de Hiroshi que o faz importar esse tipo de linguagem para a arte sequencial japonesa.

Os desenhos vão de simples quadros com dois personagens dialogando sem fundo a painéis mais bem trabalhados. Para as partes históricas, o autor utiliza desenhos até mais realistas, quase representações de fotos de época. Os desenhos do gekiga diferem consideravelmente do mangá regular, sobretudo na falta de artifícios para representar movimentos e nas famosas onomatopeias, utilizadas em menor escala, ainda que existentes.  

Gostei muito de A Drifting Life, mas tenho certas ressalvas em relação à edição da Drawn & Quarterly, até onde sei a única no mercado ocidental. Aqui no Brasil, grande mercado consumidor de quadrinhos japoneses (acho que o maior fora do Japão), estamos acostumados já há mais de dez anos com uma fidelidade à estrutura do mangá. Quase todos os mangás publicados no Brasil mantêm a ordem de leitura japonesa, da direita para a esquerda, mas como os americanos têm fama de resistirem muito à introdução de hábitos de outros povos ou diferenças culturais (isso fica claro no cinema falado em outras línguas), a edição deles foi adaptada para o modo de leitura ocidental, o que, por mais bem feito que seja o trabalho de edição, traz consideráveis prejuízos à narrativa. Outra estranheza para quem está acostumado a ler as edições brasileiras de mangá é a tradução de muitas onomatopeias no próprio quadro, isso também modifica bastante uma importante parte estética do mangá. 

Apesar de alguns problemas editoriais, essa é a única edição ocidental, e vale muito a pena ler esse livro, mesmo para quem nunca leu mangá. A Drifting Life é uma leitura muito boa e uma ode aos quadrinhos japoneses, para mim esse trabalho tem sentido semelhante a Amarcord ou Cinema Paradiso para o mundo do cinema. Infelizmente Yoshihiro Tatsumi não é um artista muito conhecido no Brasil, e não tenho muitas esperanças que algum dia esse trabalho será lançado por aqui, mas não é difícil encontrá-lo em livrarias no exterior e até aqui no Brasil (acabei de verificar que a Livraria Cultura tem disponível, por exemplo). Além da bela história, é um livro grande, grosso, capaz de garantir bastante tempo de entretenimento e esteticamente cai muito bem numa bela prateleira cheia de livros e quadrinhos.

Editora: Drawn & Quarterly
Páginas: 855
Disponibilidade: importado
Avaliação: * * * *

obs: No ano passado foi lançado um filme em animação chamado Tatsumi, baseado no livro, gostaria muito de encontrá-lo.

sábado, 21 de janeiro de 2012

500 Essential Graphic Novels, The Ultimate Guide - Gene Kannenberg, Jr.

Graphic Novel é um termo popularizado na década de 70 por Will Eisner para diferenciar obras em quadrinhos em formato de livro, com histórias completas - e a princípio com temas mais sérios - das tradicionais comics americanas, mensais, com tramas que podem se estender por anos. Geralmente, o leitor de quadrinhos que adquire o hábito na infância tem as Graphic Novels como uma evolução natural de sua paixão, enquanto o leitor que descobre os quadrinhos depois de adulto não tem muita paciência com os formatos mensais e seus temas juvenis e já parte logo para esse formato mais sofisticado. As Graphic Novels foram responsáveis por uma boa parcela do status que os quadrinhos adquiriram como leitura séria nas últimas décadas.

500 Essential Graphic Novels, The Ultimate Guide, é mais um desses livros de listas que tanto fazem sucesso atualmente, e ainda com a marca de "guia definitivo". Obviamente, nenhum guia ou lista pode ser considerado definitivo, pois depende de fatores subjetivos dos autores e de espaço para caber tanta coisa, e este livro não fica imune a isso. Autores indiscutíveis como Alan Moore, Frank Miller, Art Spiegelman, Robert Crumb, Roy Thomas, Neil Gaiman e Stan Lee, é claro, estão amplamente listados; ao lado desses, obras excelentes de artistas nem tão famosos, alguns trabalhos que muitos não gostam e considerarão indignos de estarem ali e muita coisa underground e desconhecida, sobretudo para nós brasileiros. E, naturalmente, um monte daqueles "quadrinhos do coração" para você que não couberam nas 500 primeiras posições, o que vai te deixar indignado, da mesma forma que os livros de listas sobre filmes, discos, etc. Notoriamente, como costuma ocorrer com esses trabalhos, sente-se uma grande falta de títulos de diversas partes do mundo, para nós especificamente trabalhos brasileiros ou argentinos - o livro foca nos mercados mais proeminentes dos quadrinhos, o americano, o europeu e o japonês.

Gene Kannenberg, Jr dividiu o livro em gêneros de quadrinhos, como um lista de filmes - pensar os quadrinhos dessa forma, e não abarcados num único gênero "quadrinhos", sempre me pareceu corretíssimo: aventura, não-ficção, crime/mistério, fantasia, ficção geral, horror, humor, ficção científica, super-heróis e guerra. Antes de cada capítulo, uma introdução sobre a evolução do gênero nos quadrinhos. Na apresentação de cada título, um resumo da trama, resenha, última edição, indicação etária e, como não poderia faltar numa obra dedicada a quadrinhos, o máximo de ilustrações possíveis. Para sanar um pouco o problema da não inclusão de determinados títulos por falta de espaço, o autor ainda disponibiliza indicações de leituras afins ao final de cada resenha.

500 Essential Graphic Novels é um livro indispensável para fãs de quadrinhos, e bastante útil para quem não conhece nada do assunto mas sabe que é um meio artístico sério e deseja começar a entendê-lo. Para o fã, fica a recomendação de tentar adquiri-lo através de importação pela internet, pois é irresistível passar horas relembrando algumas das maiores obras de quadrinhos e conhecendo pequenas preciosidades ainda não descobertas; para o leitor que se interessa mas não tem tanta urgência, pelo menos fique ligado em sites e livrarias brasileiros mesmo ou, em caso de viagem ao exterior, pode ser encontrado nas prateleiras das principais livrarias lá de fora.

Editora: Collins Design
Páginas: 528
Disponibilidade: importado
Avaliação: * * * *

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O Triste Fim de Policarpo Quaresma em quadrinhos - Lima Barreto e outros

Voltando a falar da coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos (depois de um ano), dessa vez li a adaptação de Triste fim de Policarpo Quaresma, esse livro maravilhoso, e por isso mesmo já uma tarefa e tanto fazer uma adaptação. Nesse caso, até que a adaptação de Ronaldo Antonelli se saiu um pouco melhor do que em O Cortiço, mas continuo achando muito difícil essa tarefa de adaptar livros inteiros, pelo tamanho das obras originais comparado com o número de páginas propostas para os quadrinhos - contos são bem mais propícios, e os resultados geralmente são melhores. Os desenhos de Francisco Vilachã, como já havia dito em outra resenha, não são grande coisa, e oscilam de suficientes a fracos em cada trabalho seu na série - no presente caso, estão fracos, sem graça, atrapalhados ainda mais pelo trabalho do colorista Fernando Rodrigues, deixando os personagens quase sempre monocromáticos.

Enfim, essa adaptação de Triste fim de Policarpo Quaresma é razoável, mas foi boa para relembrar algumas passagens de um dos meus livros prediletos. Só recomendo para quem já leu o livro, gostou e, como eu, quer ter contato com a história novamente mas não tem tempo para ler o livro inteiro.

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Mundo Fantasma - Daniel Clowes

Se você não é nerd, não tem obrigação de saber que Mundo Fantasma (Ghost World) é a principal obra de Daniel Clowes, um dos maiores nomes dos quadrinhos alternativos. O que eu e muitos outros semelhantes não entendíamos era por que um trabalho fundamental como esse, lançado nos Estados Unidos em 1997, teve que esperar até 2011 para ser editado aqui no Brasil, já que coisas menos importantes de Clowes têm edições nacionais há bastante tempo, mas agora que finalmente podemos comprar Mundo Fantasma em qualquer livraria, ganhamos também uma explicação convincente: os direitos estavam reservados a uma editora que faliu antes que pudesse publicar o álbum, até que a editora Gal resolveu a situação e conseguiu fechar o negócio, que acredito que será muito lucrativo, mas mesmo que não seja, pelo menos terá a honra de publicar essa maravilha da nona arte.

Mundo Fantasma mostra a vida de duas amigas, Enid e Becky, jovens entediadas e inadaptadas presas na sociedade americana das décadas de 80-90. A mediocridade de seu entorno e a ação dos hormônios próprios da idade as levam a buscar válvulas de escape em trotes, sexo, consumo de artigos peculiares, fofocas e brincadeiras de mau gosto com estranhos. Apesar de o álbum ser composto por histórias curtas (originalmente publicadas na revista Eightball, no final da década de 80), pode-se encontrar um sentido na sequência delas: o difícil processo de superação da adolescência e a entrada na vida adulta.

Os desenhos de Daniel Clowes são perfeitos para o que o artista procura passar: as representações dos personagens variam de monótonas a ridículas, e por mais simples que sejam, seus traços são apaixonantes. Os cenários retratados me parecem aquilo que tenho em mente sobre o cotidiano norte-americano, um ambiente aparentemente equilibrado, eficiente, mas em suas entrelinhas cheio de contradições e decadência. Para mim, Mundo Fantasma compõe, na esfera dos quadrinhos, o que os filmes de Kevin Smith ou as músicas das bandas grunge representaram na década de 90.

Em 2001 foi lançado um filme baseado nos quadrinhos, com muitas passagens idênticas, mas com roteiro bastante diferente da obra original, porém nem por isso deixa de ser um filme excelente. Dirigido por Terry Zwigoff (o mesmo do filme sobre Robert Crumb), com Tora Birch e Scarlett Johansson novinhas e Steve Buscemi.

Eu já tenho Mundo Fantasma escaneado há muitos anos, ainda não tive contato com essa nova edição e, portanto, tudo que posso escrever é sobre a obra em si, mas pelo que li em resenhas na internet, parece ser bem feitinha, com extras interessantes. Contudo, independente da edição ser de qualidade ou não, o que importa nesse caso é o conteúdo, e seu lançamento é uma oportunidade para quem não conhece. É uma obra de quadrinho maravilhosa, um dos melhores álbuns para mim, está aí minha dica.

Editora: Gal
Páginas: 84
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

terça-feira, 7 de junho de 2011

Revista Samba - vários autores


No ano passado, na postagem sobre a Rio Comicon, prometi que escreveria sobre uma publicação alternativa que chamou minha atenção, a revista Samba. Como sempre cumpro minhas promessas, mesmo que quase sempre com bastante atraso, aí está.

Como já escrevi sobre a dita convenção, limito-me a iniciar meu relato da parte em que eu estava tentando me locomover com minha irmã no abarrotado salão que abrigou o evento, observando uma série de fanzines toscos em mesinhas vazias que davam pena, até ficar impedido de andar entre a fila de gente que esperava um autógrafo de Milo Manara e uma muvuca que se acotovelava para alcançar uma mesa cheia de revistas, de onde alguém gritava "Samba 2! Samba 2!" Na hora pensei: "Que porra é essa de Samba 2 que esse cara não para de gritar?", mas confesso que o que despertou meu interesse foi algo parecido com o que acontece com uma mulher do tipo consumista quando vê um monte de outras semelhantes amontoadas em volta de um camelô na rua - o melhor letreiro para um vendedor, que significa "tem coisa boa e barata aqui".

Quando consegui chegar ao "balcão", peguei um exemplar aberto da tal Samba 2, e de cara senti a diferença entre essa publicação e os inúmeros fanzines xerocados em folha A4 dobrada que proliferam nesse tipo de evento. Uma revista em formato 18x26, com uma bela pintura na capa de papel de boa qualidade, daqueles que agradam ao tato. No miolo, diferentes estilos de desenhos, algumas histórias coloridas, do minimalismo quase idiota a traços mais sombrios, séries de pinturas sem textos a textos quase sem desenhos, mas o grande diferencial era uma historinha em 3D e os óculos que acompanham a revista. Levei pra casa, e com mais tempo e tranquilidade para apreciar melhor o trabalho, pude comprovar a qualidade, tanto do acabamento quanto da criação artística da maioria dos autores dessa obra coletiva. Histórias curtas, a maioria levando para o lado do humor, algumas melancólicas e o restante simplesmente nonsense.

Fico realmente feliz quando vejo que artistas independentes - seja de quadrinhos, música ou qualquer outro ramo artístico - conseguem criar e veicular trabalhos dessa categoria, e entrei no blog da revista para comprar o primeiro volume, lançado em 2008. O número de páginas é menor, mas o formato e o tipo de conteúdo são os mesmos, sendo que alguns personagens aparecem em ambos os volumes, porém sem histórias seriadas. Este primeiro volume ganhou um prêmio de melhor revista na Feira de Quadrinhos do Piauí, em 2009, e talvez esse reconhecimento tenha estimulado a continuidade do trabalho. Espero que venha a ser lançado logo o próximo volume e que essa moçada esperta de Brasília encabeçada por Gabriel Góes, Gabrieal Mesquita e Lucas Gehre sirva de exemplo e estímulo para o restante dos quadrinistas independentes do Brasil.

Editora: independente
Páginas: 64 e 136
Disponibilidade: blog da revista ou eventos de quadrinhos.
Avaliação: * * * * *

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Bórgia - Alejandro Jodorowsky e Milo Manara

Durante a Renascença, a Igreja passava por um de seus momentos mais sórdidos: corrupção, luxúria, avareza e abusos de todos os tipos estavam na ordem do dia da maioria do clero, do mais insignificante padre de vilarejos europeus até a representação máxima da instituição, o papa. Qualquer um que tenha passado pelo ensino médio sem dormir nas aulas de história sobre Reforma Protestante já ouviu esse papo sobre os motivos da revolta de Lutero, mas dificilmente um material didático apresenta detalhes do grau de violência e depravação dos homens que se aproveitavam dos limites da racionalidade das pessoas naquela época. Crimes como estelionato, estupro, abuso de poder e assassinato político são apresentados sem clareza de como ocorriam e quem os cometia, diluindo a culpa simplesmente entre "alguns membros da Igreja".

O fato é que quem cometia tais crimes eram pessoas com nomes, famílias, histórias, enfim, pessoas passíveis de serem estudadas e biografadas, e nenhuma dessas pessoas representou o ponto mais baixo deste quadro vil como Rodrigo Bórgia, posteriormente papa Alexandre VI (de 1492 a 1503). Personagem impressionante por utilizar as estratégias mais cruéis para chegar ao poder, Bórgia e sua família foram parar nas mãos de dois artistas que, além de tecnicamente destacados, apresentam características de trabalho perfeitas para retratar uma biografia em quadrinhos cheia de violência, perversões sexuais e situações bizarras: Alejandro Jodorowsky (escritor e cineasta ícone da contracultura) e Milo Manara (talvez o maior nome dos quadrinhos eróticos de todos os tempos).

Bórgia é uma série em quatro volumes iniciada em 2004 ainda não concluída pelos autores, na qual é contada a história do papado de Alexandre VI e sua família, que inclui filhos e amantes. A demora do lançamento de novos volumes da série não se justifica pelo tamanho do material (cada volume não tem mais de 60 páginas), mas talvez pelo apreço dado pelos autores à qualidade do trabalho. Certamente, Bórgia é uma das histórias em quadrinhos mais magníficas dos últimos tempos, do modo como a história é contada à beleza artística de cada quadro.

O título do primeiro volume, Sangue para o Papa, já prepara o leitor para o teor da história, que começa com a iminente morte do papa Inocêncio VIII, que não tem nenhum escrúpulo em sacrificar quem quer que seja para ter alguns momentos a mais de vida. Rodrigo Bórgia, percebendo sua chance, inicia as maquinações para herdar o posto do moribundo Inocêncio, o que inclui subornos, assassinatos, chantagens, sexo e até mutilações de 150 pênis de uma só vez! O segundo voulme, O Poder e o Incesto, mostra Bórgia já como Alexandre VI lutando para manter-se no poder e colocar sua família no mesmo caminho, e o terceiro, As Chamas da Fogueira, lançado no ano passado, continua a saga da família num momento em que o papa é seriamente ameaçado por forças externas, terminando em aberto para que o arco seja concluído no volume seguinte, que sebe-se-lá quando será lançado.

O roteiro de Jodorowsky dá conta do ritmo necessário para uma obra com a quantidade de páginas que esta tem, apesar de exagerado e certamente não realístico - afinal, quem já viu algum filme de Jodorowsky sabe que não pode esperar algo diferente dele. A vida de Bórgia e seus comparsas não é tratada aqui como uma biografia afinada com a história, mas um trabalho livre para explorar aspectos da maldade e sede de poder do ser humano, o que funciona muito bem.

A arte de Manara está impecável. Apesar de ter minhas reservas quanto à qualidade dos desenhos deste artista em outros trabalhos (principalmente quanto ao machismo de colocar o mesmo olhar de puta e boca de boqueteira em todas as suas mulheres!) e não considerá-lo um gênio como outros o fazem, tenho que admitir que nessa série Manara conseguiu me convencer. Diferente de besteiras como "O Clic" (a série que o deixou mundialmente famoso), aqui o artista dá mais atenção a cada quadro para que mostre com clareza as expressões e os sentimentos dos personagens, e quando a cena se afasta para mostrar um plano mais aberto, alguns quadros lembram pinturas de Brueghel, com os detalhes da vida cotidiana daquela época - só que, neste caso, de uma perspectiva mais pervertida.

Há que se enfatizar também que, se os exageros de Jodorowsky na postura dos personagens e nas situações escabrosas tornam a história dificilmente de acordo com o que realmente aconteceu, é notório que houve uma pesquisa séria para que figuras históricas e cenários fossem retratados com a maior fidelidade à realidade. Observando alguns quadros da época, percebe-se a semelhança com os desenhos de alguns personagens, e as vestimentas, ambientes e objetos são bastante fiéis. Ainda assim, alguns personagens foram estilizados e não copiados das pinturas da época, como é o caso de Lucrécia, filha do papa, que foi transformada numa mulher arrasadora, diferente da retratada nos quadros.

Bórgia é uma obra de arte contemporânea que vale a pena ser lida e tê-la em sua estante, até pelo tratamento digno da edição brasileira (capa dura e papel couchê) mas atenção para um detalhe editorial: a editora Conrad vem publicando alguns de seus livros com um selo "edição especial", que nada mais são do que edições mais baratas e com menor qualidade. Comprei recentemente o terceiro volume de Bórgia pela internet, e quando chegou tive a surpresa desagradável: a edição não veio com a bela capa dura dos outros dois volumes, desfigurando a minha coleção. Mais uma da Conrad, a editora que, desde o limiar do milênio, vem publicando excelentes obras que fazem com que se destaque no mercado editorial, mas em contrapartida, frequentemente apronta uma dessas com os leitores.

Editora: Conrad
Páginas: 50 a 60 em cada volume
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Bórgia em pdf

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Derrotista - Joe Sacco


É guerra? Pode crer então que, apesar de todos os riscos, vai haver um monte de gente desarmada indo para lá a trabalho, para produzir relatos dos seus detalhes mais sórdidos. Antes uma grande novidade, a reportagem de guerra foi, através do tempo, produzindo muita coisa sensacional ("Corações e Mentes", filme sobre o Vietnã, e "Guerra dos Bálcãs", fantástico livro de John Reed sobre a I Guerra Mundial - que não sei porque ainda não está nesse blog), mas o tempo não perdoa, e o que era novidade no passado vira banalidade, sobretudo após a proliferação das coberturas televisivas ao vivo. Todo gênero precisa de reinvenções esporádicas, e quando a reportagem de guerra dava seus sinais de acomodação, surge uma figura chamada Joe Sacco com relatos sobre áreas barra-pesadas como a Palestina ou a Bósnia da década de 90... em quadrinhos.

Joe Sacco fez fama e ganhou muitos prêmios ao longo de sua carreira por suas obras de jornalismo em quadrinhos, mas no auge do sucesso, pouca gente conhecia seus trabalhos underground anteriores. Foi quando Derrotista foi lançado, um álbum que mostra o trabalho do artista quando jovem, com toda a sua inexperiência e falhas típicas de um novato, mas por outro lado, as origens de sua exemplar carreira e as influências que o levaram a abordar os temas que o fizeram famoso - guerra e viagens pelo mundo afora.

O trabalho de Joe Sacco nessa fase é claramente influenciado pelos ícones dos quadrinhos underground Robert Crumb e Harvey Pekar, em alguns desenhos e temas autobiográficos (Sacco também já foi desenhista da American Splendor). O primeiro capítulo é um exemplo - Gênio dos Quadrinhos é bem ao estilo "um dia na vida de alguém comum" de Pekar, e o excesso de sombreado vem dos desenhos de Crumb. No meu dia de folga segue a mesma linha de roteiro, mas com um desenho já diferente, e Na companhia do cabelo comprido mostra as experiências de Sacco ao lado de uma banda de rock em turnê pela Europa.

O que mais se parece com os álbuns posteriores de Joe Sacco são as histórias Quando as bombas acontecem para as pessoas más e Mais mulheres, Mais crianças, Mais rápido. A primeira não é uma história em quadrinhos, mas sim ilustrações acompanhadas de citações de personagens reais da II Guerra Mundial que mostram os absurdos e contradições na política de bombardeios de alvos civis. A segunda é bem no estilo do autor, um relato sobre a II Guerra Mundial em Malta, sua terra natal, de acordo com as lembranças de sua mãe - menos história oficial dos livros e mais aspirações, necessidades e sentimentos das pessoas comuns.

Derrotista apresenta também um lado pouco conhecido de Joe Sacco, o humor ficcional, com bons e maus momentos. Oito personagens é uma coleção de pequenas histórias de cerca de quatro páginas sobre nove (!) personagens absurdos, como Johnny Frase-Feita ou Mark Massa-de-Manobra, coisa bastante divertida que contrasta com uma outra coleção chamada Apócrifas, que não é lá essas coisas.

Apesar das séries sobre a Palestina e a Bósnia serem muito melhores do que Derrotista, este álbum é bom, divertido e merece ser lido, mas para quem não conhece o autor, Palestina é o mais indicado - escreverei sobre esta série em breve aqui no blog. Joe Sacco vem ao Brasil em julho, na Flip, que cada vez mais abre espaço para artistas de quadrinhos. Ano passado veio Robert Crumb, mas infelizmente não consegui ir. vamos ver se esse ano eu consigo superar duas dificuldades de sempre em relação a este evento anual: a) lembrar de acompanhar as notícias no site para conseguir comprar os ingresso, que se esgotam rapidamente; b) conseguir algum lugar para dormir com preço razoável em Paraty nessa época, dificuldade maior ainda!

Editora: Conrad
Páginas: 217
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sábado, 18 de dezembro de 2010

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos - Harvey Pekar e Robert Crumb


No meio do ano, coloquei uma nota aqui no blog sobre Harvey Pekar, monstro dos quadrinhos que faleceu na ocasião, mas fiquei devendo uma resenha sobre algum de seus trabalhos. Pago a dívida agora com a resenha de Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos, uma coletânea de trabalhos escritos por ele e desenhados por Robert Crumb, seu principal parceiro.

Harvey Pekar era um funcionário público sem nenhuma expressão, arquivista de hospital, na entediante cidade de Cleveland. Não viajava para lugares exóticos ou perseguia bandidos armados ou qualquer outro tipo de atividade emocionante, apenas colecionava compulsivamente discos de jazz, mas foi justamente escrevendo sobre seu cotidiano que revolucionou os quadrinhos underground americanos. E o que pode haver de interessante no cotidiano de alguém assim? Conversas com colegas de trabalho, esperas em filas de supermercado atrás de velhinhas chatas, tentativas de vendas de discos antigos para comprar outros... Nos fatos em si não há nada que não ocorra na vida de qualquer cidadão, mas o talento de Harvey Pekar em transformar esses momentos triviais em histórias divertidas e envolventes faz o diferencial.

Tudo começou na década de 60, quando Harvey conheceu Crumb por causa de seus gostos musicais semelhantes, e alguns anos depois a parceria teve início. Fazendo seus roteiros com bonecos de palitinhos desenhados em guardanapos, Harvey Pekar logo se tornou um ícone entre os fãs de quadrinhos underground, e suas histórias, desenhadas por diversos artistas desde a década de 70 até 2008 eram apresentadas na revista American Splendor - que, por ser publicada geralmente uma vez ao ano, teve apenas 39 edições. Inicialmente, American Splendor tinha sua publicação bancada pelo próprio autor, mas a partir da década de 90 passou a ser publicada por grandes editoras, primeiro pela Dark Horse, depois pela Vertigo, o que fatalmente fez com que perdesse o clima underground.

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos reúne as histórias de American Splendor que foram desenhadas por Robert Crumb, o mais famoso artista que passou pela revista (que vocês já devem conhecer de tanto eu falar sobre ele aqui). É praticamente o único trabalho de Harvey Pekar publicado no Brasil, já que a outra única publicação de American Splendor aqui no Brasil foi na revista Piratas do Tietê, de Laerte, traduzido e adaptado por ele mesmo sem autorização do autor, como o desenhista brasileiro conta no prefácio do livro. O título da edição brasileira pegou carona na tradução do título do ótimo filme American Splendor (chamado no Brasil de "O Anti-Herói Americano"), que conta a história por trás da criação deste marco da cultura alternativa. Tanto a HQ quanto o filme são fundamentais.

Editora: Conrad
Páginas: 100
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A Nova Califórnia em quadrinhos - Lima Barreto e Francisco Vilachã

Excelente conto de Lima Barreto que conta a história de uma pequena cidade virada ao avesso pela avareza de seus habitantes, "A Nova Califórnia" é mais uma adaptação para os quadrinhos de um clássico da literatura brasileira. A crítica social característica dos escritos de Lima Barreto se faz presente na análise de personagens, através da mesquinharia do povo, dos preconceitos com os que não seguem a linha oficial das coisas e novamente da questão do conhecimento ser tratado como uma propriedade de poucos privilegiados. Há quem diga até que se trata de um conto de ficção científica, o que não deixa de ser verdade. Uma pequena joia da nossa história literária, de fácil leitura e acesso.

Diferente do fraco trabalho em "O Cortiço", um texto muito denso e complexo para o reduzido espaço da publicação, desta vez o artista Francisco Vilachã, responsável tanto por desenhos como roteiro, acertou na medida. Por se tratar de um conto pequeno, o trabalho de transformar prosa em arte sequencial é mais simples, e o artista tem mais espaço para adaptar quase que integralmente todo o texto - e até sobra espaço para uma interpretação pessoal em alguns quadros. É justamente aí que encontra-se a qualidade de Francisco Vilachã, principalmente no roteiro bem elaborado, já que os desenhos não são grande coisa, mas servem bem para o propósito.

Após ler três volume da coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, avalio a média da série como boa, mas percebi muitos erros de português, como palavras escritas de forma errada e falta de crases (duas só neste volume), algo inadmissível numa coleção deste cunho. Não encontrei nenhuma referência a alguma atividade de revisão nos créditos, e caso haja uma nova edição, é imprescindível que ocorra este tipo de trabalho.

"A Nova Califórnia" em quadrinhos é uma boa adaptação e está recomendada, e quem se interessar em ler o texto original antes para comparar e comprovar sua qualidade, este conto e muitos outros da literatura brasileira em domínio público podem ser encontrados aqui.

Editora: Escala Educacional
Páginas: 48
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

terça-feira, 13 de abril de 2010

Memórias de um Sargento de Milícias em quadrinhos - Manuel Antonio de Almeida, Índigo e Bira Dantas

"Memórias de um Sargento de Milícias" é considerado uma ruptura da literatura brasileira com o romantismo cretino e idealista, e o precursor do realismo, por ser o primeiro romance de temática urbana, retratando os costumes e as situações cotidianas da época. Esta adaptação para os quadrinhos foi bem mais feliz do que a de "O Cortiço". O roteiro de Índigo foi mais bem elaborado, numa narrativa descontraída que possibilita o entendimento para quem não leu o livro - eu mesmo já havia lido há muito tempo, e não lembrava de nada. Os desenhos de Bira Dantas combinaram muito bem com a história do livro: traços arredondados ao estilo cartoon, para rimar com o tom humorístico de Manuel Antônio de Almeida, porém preenchidos com sombreados que tiram o excesso de limpeza deste tipo de estilo e dão um tom mais rústico, dando o clima certo de uma época passada.

A presente adaptação de "Memórias de um Sargento de Milícias" é bastante satisfatória, e além de possibilitar o contato mais fácil com este clássico da literatura brasileira, rende momentos de diversão e boas risadas. Que as outras adaptações em quadrinhos desta coleção dos clássicos da literatura brasileira sigam a boa qualidade desta. Aguardo o lançamento dos próximos volumes nas bancas (quem não mora no Rio pode adquirir qualquer volume diretamente nas livrarias, porém a um preço bem maior).

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Cortiço em quadrinhos - Aluísio Azevedo, Ronaldo Antonelli e Francisco Vilachã


"O Cortiço" foi um dos poucos livros de literatura brasileira que li durante a adolescência e realmente gostei. Todo aquele realismo, cheio de sexo e violência, deixando de lado toda aquela merda romântica e retratando a realidade miserável brasileira, lá pelos meus quinze anos aquilo foi a única coisa que conseguiu atrair meu interesse pelos livros "sérios". Por outro lado, a grande maioria que fui obrigado a ler me tirou o interesse em literatura brasileira por anos, e tenho certeza que promoveu o ódio incondicional à leitura em geral para sempre em muitos estudantes.

Encarei com muita simpatia a chegada às bancas da coleção da editora Escala de literatura brasileira em quadrinhos, pois é uma ótima chance para a garotada conhecer os marcos da cultura brasileira sem aprender a odiá-los - e também para marmanjos como eu que, não fosse isso, nunca voltariam a ler os tais clássicos. Ademais, está sendo uma chance de revisitar alguns dos clássicos que cheguei a ler, a começar pelo Cortiço.

Apesar da esperança depositada nessa inovação, este primeiro volume da coleção que peguei para ler foi uma decepção. Um recurso inteligente que foi desperdiçado por falta de qualidade na produção. Os desenhos de Francisco Vilachã (um dos idealizadores do projeto todo, méritos por isso) são monótonos, repetitivos, e em diversos momentos o leitor não reconhece ou confunde personagens que não apresentam diferenças físicas marcantes. O roteiro adaptado de Ronaldo Antonelli é embolado, muito corrido, e imagino que quem não leu o livro - ou que leu há muito tempo, como eu - vai se perder e perder o interesse logo. Me parece que os autores se preocuparam muito em apresentar todo o conteúdo no número limitado de páginas disponíveis e se esqueceram que os quadrinhos, antes de tudo, são arte sequencial, e não simplesmente uma narração ilustrada, como ocorre nesta versão da obra de Aluísio de Azevedo.

Dando uma olhada nos outros volumes da coleção que já foram lançados, deu para perceber que apresentam bastantes diferenças, e espero que não sejam tão decepcionantes como esta adaptação de "O Cortiço", pelo bem da literatura brasileira e pelo nome dos quadrinhos nacionais.

Editora: Escala
Páginas: 64
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

terça-feira, 2 de março de 2010

X-Men 50 - Chris Claremont e Marc Silvestri

Muito antes dos X-Men vestirem as roupas de couro preto nos cinemas e ficarem tão conhecidos como o Indiana Jones ou o Super-Homem, eles já tinham uma legião de seguidores entre os fãs de quadrinhos. Desde meados da década de 1970 - com a reformulação do grupo por Chris Claremont e a entrada de personagens que fizeram bastante sucesso, como Tempestade, Noturno, e principalmente, Wolverine - até o lançamento do primeiro filme em 2000, diversas foram as fases do grupo - acredito eu que as de maior qualidade superaram as menos felizes durante estes 25 anos.

Uma dessas boas fases apareceu aqui no Brasil em 1992, por volta da edição brasileira de número 50 da editora Abril. Como todo número redondo tem que ser comemorado (essa mania das pessoas que as empresas e o marketing aproveitam), esta revista teve o formato de edição especial, com mais páginas, e recheada exclusivamente com histórias do próprio grupo (as revistas de super-heróis no Brasil quase sempre misturavam histórias dos personagens do título com outros de menor expressão, hábito perpetuado até hoje pela editora que monopoliza o mercado).

O grupo de então tinha metade dos personagens que todo mundo hoje em dia conhece, como Colossus, Wolverine, Vampira e Tempestade, misturados com outra metade desconhecida por quase todo mundo que só conhece os mutantes pelo cinema - Destrutor, Cristal, Psylocke e Longshot. A revista trazia quatro histórias em sequência, todas escritas por Chris Claremont, mas três delas desenhadas por Marc Silvestri, um ídolo da garotada na época (que manteve a qualidade de seu trabalho por muitos anos), e uma por Rob Liefeld, hoje conhecido como o maior canastrão dos quadrinhos (mas que a garotada também gostava). As histórias são divertidas, misturando humor e ação na dose certa, e apresentam uma personagem que teria papel importante nas histórias dos mutantes nos anos seguintes: Jubileu, uma adolescente-problema que salva a pátria e consegue permissão para se tornar uma X-man.

Esses eram os X-Men na época.


A partir dessa revista, os X-Men entram numa fase de reformulação, com a posterior entrada de uma porção de personagens novos e a volta de outros fundamentais como o Professor Xavier e os membros fundadores (Ciclope, Jean Grey, Homem de Gelo, Arcanjo e Fera, que faziam parte de outro grupo na época). Forma-se uma espécie de Dream Team mutante, que leva o grupo a um sucesso sem precedentes, até culminar na produção do filme.

X-Men 50 não é a melhor revista mutante publicada, nem representa a melhor fase de todos os tempos mas, diferente de 99% dos quadrinhos de super-heróis publicados no Brasil, pode ser lida integralmente sem que esteja escrito "continua na próxima edição" no final. Pode ser encontrada em sebos, se procurada com carinho. Aqui em casa ela fica ali, no meio de tantas outras, e de vez em quando eu a pego para dar uma lida e relembrar. Afinal, já vão quase 20 anos...

Editora: Abril
Páginas: 100
Disponibilidade: esgotada
Avaliação: * * * *


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Wildcats: Como matar um Wildcat - Joe Casey e Sean Phillips

Na década de 1990, os quadrinhos da Marvel estavam com a bola toda, com desenhistas superstars como Jim Lee, Todd McFarlene e Marc Silvestri. Seus desenhos super-estilizados, uma novidade para a época (mas que logo se transformariam no estereótipo do machão musculoso e da heroína gostosona) faziam certos títulos chegarem à tiragem de milhões (como a famosa minissérie dos X-Men de Jim Lee), e o que eles ganhavam com isso? Salários de desenhistas, nada mais. Nenhuma porcentagem das vendas, nenhum direito sobre personagens criados por eles. Revoltados – e olhando uma mina de dinheiro à frente – os tais desenhistas-estrelas criaram a Image Comics em 1992, editora na qual cada um teria os direitos de suas criações.

Na época de sua criação, a Image Comics nada mais era do que uma cópia das editoras Marvel e DC, com super-heróis no mesmo estilo, alguns grosseiramente copiados. Um grupo destes super-heróis se chamava WildC.A.T.s, criados por Jim Lee, e como todos os outros, era cheio de fortões e gostosonas, sem nada a acrescentar à cultura de ninguém. Essa foi a imagem dos Wildcats que ficou na minha cabeça, por isso nunca tive muito interesse em acompanhar a série. Porém, acho que todo ser tem em si a possibilidade de evoluir – não vê os Beatles, de boys band à maior banda de rock da história? – e visitando fóruns na internet li comentários muito elogiosos a respeito do que os Wildcats haviam se tornado. A informação que recebi foi que um arco havia sido escrito até por Alan Moore, ou seja, Deus – isso não é pouca coisa. Depois dessa, com certeza alguma coisa havia mudado, e isso ficou na minha cabeça.

Certo dia, forçado a uma viagem de ônibus imprevista, sem tempo para preparar o livrinho para ler durante o trajeto, entrei numa banca para pegar alguma coisa que me distraísse – odeio viagens de ônibus! – e me deparei com dezenas de gibis da Panini, daqueles de super-herói com quatro histórias no miolo, três medíocres e uma razoável, todas já iniciadas em outras edições e com o clássico “continua” no final. Já estava preparado para comprar qualquer porcaria melhor do que isso, talvez até aqueles livrinhos eróticos com casais seminus na capa, quando encontrei enterrada no fundo da banca uma edição encadernada de Wildcats, com o selo da quase finada editora Pixel Media – que não costuma publicar besteiróis americanos – e me salvei de algumas horas de tédio infernal.

Realmente tive uma surpresa e pude comprovar como mudou a orientação das histórias destes personagens. A revista em questão se chama “Como matar um Wildcat”, reunindo varias histórias em 160 páginas. Ainda existem reminiscências de quadrinho-espetáculo em algumas partes, mas a maioria da revista é composta por desenhos sombrios e crus, e os temas são mais adultos do que pura pancadaria. A trama é muito interessante, e mesmo eu, que não conhecia quase nada sobre nenhum personagem, pude entender o que se passava.

A primeira história é independente das outras, sobre um personagem chamado Warblade em busca de vingança contra um vilão que matou sua namorada. Desenhos razoáveis de Carlos Meglia (quem?), e roteiro dispensável de Scott Lodbell, nada mais. A trama principal do volume começa mesmo na segunda história. O grupo original se desfez, e um mistério a respeito do chefe do grupo faz com que alguns deste antigos heróis suspeitem estar sendo manipulados e enganados e se juntem para descobrir a verdade. Uma trama muito bem-feita, com personagens bem caracterizados e um final que aparentemente redefine os rumos do grupo. Bom roteiro de Joe Casey e desenhos estilizados e justos de Sean Phillips. No meio da revista há também outra história da fase besteirol americano, tipo um interlúdio sem motivo algum e sem nenhuma ligação com a trama principal, mas nada demais, é só pular algumas páginas.

Terminando a leitura de “Como matar um Wildcat” dá vontade de comprar o próximo volume encadernado, mas com o vergonhoso fim da Pixel Media, infelizmente creio que vou ficar só na vontade mesmo, até que outra editora adquira os direitos sobre o grupo. Os Wildcats mudaram, e pelo que acompanho dos quadrinhos americanos a Image também – a editora não publica mais os personagens bombados de sua fase inicial, e hoje aparentemente seus títulos são mais sérios, com temática adulta. Um brinde à evolução!

Editora: Pixel
Páginas: 160
Disponibilidade: normal (em lojas especializadas)
Avaliação: * * * *

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Fritz the Cat - Robert Crumb


Já citei Rubert Crumb por aqui na resenha sobre a Zap Comix, livro no qual ele é um entre outros excelentes artistas, mas pela sua importância no mundo dos quadrinhos, a editora Conrad publicou há alguns anos boa parte de sua obra em volumes de boa qualidade. A maior parte desta coleção se encontra na minha estante, e um dos livros mais importantes é "Fritz the Cat".

Fritz é um gato antropomorfizado através do qual Robert Crumb criticou a sociedade americana da década de 1960. Ele é um malandro desbocado que faz sexo com todo o tipo de garotas, usa drogas e se mete em situações insólitas muitas vezes alheias à sua vontade. Cada camada social é representada por animais diferentes - por exemplo, os corvos são uma metáfora interessante para os negros, e seus perseguidores, os gatos, são os brancos. Também numa crítica debochada ao macartismo e à fobia anticomunista ainda vivos naquela época, os chineses são retratados como ratos. Outros animais são utilizados somente para representar a diversidade, sobretudo das garotas com quem Fritz transa - jacarés, cadelas, éguas, etc.

O personagem foi inspirado no gato do autor quando criança, "Fred" (segundo suas palavras, "o típico gato miserável, vagabundo e sujo"), e na primeira história ("Vida de Gato"), que é bem diferente das outras, com os gatos em suas formas originais e na única ocasião onde aparecem seres humanos, Fritz é apenas um coadjuvante, sendo Fred a estrela. Estas primeiras páginas são desenhadas a lápis, ainda durante a juventude de Crumb, uma época em que ele desenhava para divertir seus irmãos e evitar ter contato com o resto do mundo. "Vida de Gato", ao invés de zoar com toda a sociedade da época, é uma história simples, inocente (se comparada com o restante) e uma das melhores do livro, mas acho que só pode ser compreendida corretamente por quem tem ou já teve um gato - o que é o meu caso.

O conteúdo começa a ficar mais pesado a partir da segunda história, na qual Fritz, agora bípede e vestido, visita a casa da mãe, revê a irmã que cresceu e acaba trepando com ela. O restante são sátiras a figuras da época - a maioria ainda muito atuais -, como vendedores pilantras, mágicos charlatões, agentes secretos, ídolos do rock, líderes revolucionários. No meio de todas as excelentes histórias, para mim uma se destacou: "Fritz cai fora", que traduz de forma sem igual o climão de fins da década de 1960, meio hippie, meio beatnik, totalmente livre. Aqui, Fritz se cansa de tudo, taca fogo nos seus livros da faculdade (e consequentemente no apartamento que dividia com os amigos), se mete em várias furadas e mete o pé na estrada.

A coletânea "Fritz the Cat" é fundamental na bibliografia básica de quadrinhos por causa da importância histórica do personagem e de sua qualidade, e ignorando erros mínimos, a edição da Conrad merece nota máxima, já que na época de seu lançamento (2004) era a antologia mais completa do gato em todo o mundo, incluindo até desenhos inacabados.

Robert Crumb foi o criador e maior representante dos quadrinhos underground, tendo virado tema do documentário "Crumb", de 1994. Ele está com 66 anos e atualmente se dedica a quadrinizar todo o antigo testamento - palavra por palavra! -, mas quem imagina o lado religioso do autor incorre ao erro: ele mesmo já disse que é exclusivamente pela bela grana que está recebendo para isso - 1 milhão de dólares adiantados só pelo "Gêneses", segundo rumores.

Fritz the Cat nasceu como uma brincadeira entre irmãos, se tornou o principal personagem underground da década de 1960, chegou até a virar uma animação bacana (que dá para encontrar em sites de download) e por causa de todo esse sucesso foi morto pelo seu criador. Sua última história é de 1972.

Editora: Conrad
Páginas: 136
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *



sábado, 28 de novembro de 2009

Zap Comix - vários autores


No final da década de 1960, em meio à guerra do Vietnã, ao conflito capitalismo x comunismo e ao sistema conservador que reprimia qualquer expressão de liberdade, jovens do mundo todo erguiam suas barricadas, físicas ou simbólicas, jogando pedras em soldados dos regimes ditatoriais no Brasil e no leste europeu, ou fazendo sexo e usando drogas sem parar. Tudo foi afetado: os hábitos, a música, a moda, e também os quadrinhos, que até então eram ingênuos e infantis.

A caretice dos quadrinhos tinha uma base forte: na década de 1950, um tal Fredric Wertham escreveu um livro chamado "A sedução dos inocentes", no qual afirmava "cientificamente" a periculosidade das histórias em quadrinhos nas mentes das criancinhas - segundo essa teoria, os garotos sofriam alto risco em pendurarem um lençol no pescoço e se jogarem das janelas dos prédios achando que iam voar como o Super-Homem... Para salvar sua pele, as próprias editoras entraram num esquema de autocensura através do "Comics Code Authority", um selo obrigatório em todos os gibis, indicando que os mesmo não apresentavam "riscos" para seus pequenos leitores - um longo index indicava o que era permitido e o que não era, como por exemplo, o bem ser derrotado pelo mal... Furar este bloqueio não era fácil, e poucos conseguiram, como em 1952 a revista Mad (que teve que mudar de formato para não ser classificada como gibi e foi investigada pelo FBI sob suspeita de incitar a delinquência juvenil). Contudo, a venerada Mad foi vendida em 1961 por questões fiscais, e então entrou no esquema das grandes editoras, perdendo seu encanto e sua importância. A caretice voltava aos quadrinhos, mas no ambiente de mudanças da década de 1960, surge a Zap Comix, no emblemático ano de 1968.

A Zap Comix é uma lenda entre os fãs de quadrinhos, por ter quebrado a barreira do Comics Code Authority e aberto as portas para os quadrinhos adultos e underground. Seu nascimento já é uma história e tanto: Robert Crumb, seu criador, vendia pessoalmente as revistas nas ruas de São Francisco. Sua namorada, grávida, decidiu ajudá-lo, e o casal perambulava pela capital hippie carregando as revistas dentro de um carrinho de bebê. Com o sucesso do primeiro volume, a publicação passou a contar com mais seis autores: S. Clay Wilson, Robert Willians, Spain Rodriguez, Victor Moscoso, Rick Griffin e Gilbert Shelton, cada um com sua doidice (surfe, drogas, carros, comunismo...), mas todos extremamente talentosos. Após a publicação da edição no. 4, os autores tiveram que enfrentar processo judicial por causa do conteúdo imoral da revista, o que foi, ao lado do julgamento dos oito ativistas de Chicago, um recado de que a repressão armava seu contra-ataque nos Estados Unidos, e a era hippie já era. Apesar disso, a Zap Comix teve 14 números, até 1996, quando Crumb desistiu de participar. As revistas eram lançadas mais ou menos a cada 3 anos. Em 2005 foi lançado o número 15, mas desconheço se Crumb participou.

O conteúdo das revistas era de cunho altamente contestador, apresentando tudo o que era proibido, e ao mesmo tempo mostrando o clima da época. Algumas histórias tinham apenas uma página, outras um pouco mais, mas todas eram recheadas com muito humor. Algumas narrativas apresentam uma organização básica e estrutura normal, outras são puro psicodelismo, e ainda tinham páginas que satirizavam as propagandas dos gibis da época, e outras que eram simplesmente painéis surreais. Zoação com os quadrinhos caretas também não faltam, como o Javali-Maravilha. Uma das histórias mais engraçadas é a de um barco de piratas gays, que expõem seus desejos sexuais com seus companheiros explicitamente (coisas como "adoro que todos os marujos gozem na minha boca!"), e são atacados por um barco de piratas lésbicas. Outra também muito legal é uma passagem da vida real - uma discussão entre três membros da Zap e Crumb, quando este decidiu largar a revista - contada de três maneiras diferentes, cada uma mais engraçada que as outras.

O volume publicado pela editora Conrad é uma compilação de 1968 até 1996, e apesar do belo trabalho dos editores brasileiros, da ótima introdução de Rogério de Campos contextualizando a obra e um acabamento de primeira, justamente aí se localiza um ponto fraco: me pareceu que as histórias compiladas perdem o vigor e muito de seu sentido fora da estrutura independente da época, mas essa é a única maneira de conhecermos esse importante trabalho, pois seria comercialmente inviável a reedição dos originais como foram publicados. O único ponto negativo da edição brasileira foi a falta de créditos dos artistas e datas em algumas histórias, mas pelas referências a acontecimentos contemporâneos a elas, dá para se ter uma noção aproximada de sua data na maioria das vezes. Por causa desses pequenos problemas, minha avaliação da edição brasileira de Zap Comix não vai atingir a nota máxima, mas as histórias em si são excelentes e essenciais para quem curte quadrinhos.

Editora: Conrad
Páginas: 187
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Ero-Guro: O erótico-grotesco de Suehiro Maruo


Ero-Guro não é para qualquer leitor. As situações mostradas nos quadrinhos de Suehiro Maruo podem causar diversos tipos de sentimentos negativos, da repulsa ao ódio contra esse pervertido que ousa mostrar todas as insanidades saídas de sua mente perdida, difíceis até de conceber um paralelo com a realidade. Mesmo simples menções ao que ocorre no folhear das páginas dessa obra maldita podem estragar o resto do dia de pessoas sensíveis e sem estômago suficientemente forte. Portanto, se você se inclui nessas categorias ou em semelhantes, sugiro que pare de ler este texto agora.

Para começar, não acho que o título seja coerente com a obra. Ero-Guro é uma simplificação do termo "erótico e grotesco", mas eu não consegui encontrar traço de erotismo em nenhum dos nove contos. Não posso considerar nem mesmo como pornografia, pois acho que esse termo abarca situações sexuais menos doentias do que coprofilia, banho de urina ou sexo com velhas decrépitas mostradas no presente livro. Para mim, só sobra o grotesco, o nojento, o desagradável, o detestável.

A capa do livro, propositalmente contida (mas com a advertência "quadrinhos adultos") pode omitir o conteúdo, mas já no índice o nome de contos como "Receita para uma Sopa de Merda" ou "O Grande Masturbador" preparam o terreno para o que está por vir. Seguem-se então bizarrices de todo tipo, desde mutilações até um garoto faminto se alimentando de uma lombriga que acabara de sair de seu próprio ânus, representadas nas belíssimas ilustrações de Suehiro Maruo, que na verdade se sobressaem em relação ao texto com seus contrastes preto e branco, os pequenos detalhes e a utilização de técnicas diferentes do mangá clássico em algumas páginas. Na maior parte, o sadismo e o prazer resultante da humilhação ou do horror alheio predominam como temas primários. Fora isso, as referências à arte são frequentes: "O Grande Masturbador" é o título de um quadro de Salvador Dali e "Uma Temporada no Inferno" um livro de Rimbaud, dentre outras.

Ero-Guro é, antes de tudo, uma coletânea de histórias de terror, com assassinatos, psicopatas, canibais, mas o aspecto principal é, obviamente, a perversidade das situações. Esse é o ponto forte da obra, a intenção de chocar, já que a arte é isso, e não uma simples representação do mundo sem pretensões. Ao ler este livro, dispa-se dos preconceitos e do que foi estabelecido pela sociedade para não rejeitá-lo logo no primeiro conto, mas não muito, para que não se perca o efeito da ojeriza desta leitura.

A editora Conrad já lançou outros dois livros desse abominável autor: "O Vampiro que Ri" e "Paraíso: o Sorriso do Vampiro", que, se traduzem os cenários insanos de sua mente da mesma forma que em Ero-Guro, valem uma conferida.

Escolhi uma dentre as muitas passagens desagradáveis do livro para fechar este texto: "Quando eu era criança, sem querer, tive a chance de experimentar o gosto da merda, obviamente era a minha própria. O escritor ladrão Jean Genet já escrevia: 'A imundice abomina outras imundices'. É uma frase célebre. Ainda criança, quando sentia vontade de ir ao banheiro, tinha que correr até a minha casa. Até hoje, não consigo fazer minhas necessidades nos banheiros públicos de estações de trem e parques. Quanto ao sabor da merda, mais do que fedido, é amargo. Se não acredita em mim, recomendo que experimente você mesmo. - Ass.: Eu - "

Editora: Conrad
Páginas: 225
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *



segunda-feira, 29 de junho de 2009

Persépolis - Marjane Satrapi


Conheci Marjane no ano passado, através do filme Persépolis e... me apaixonei! Marjane é uma garotinha que nasceu no Irã, presenciou a revolução islâmica, sofreu um bocado com a guerra contra o Iraque, viveu como uma estranha numa terra estranha na Europa e criou a Graphic Novel Persépolis, obra super-elogiada e vencedora do prêmio de melhor história em quadrinhos da feira de Frankfurt em 2004 que conta sua história e que foi transformada em longa-metragem em 2007.

Persépolis foi originalmente lançada em quatro volumes, entre 2000 e 2003, e agora está no mercado brasileiro na forma de compilação com os quatro volumes encadernados. A obra de Marjane Satrapi é feita de desenhos simples e em preto-e-branco, mas que passam bastante sentimento e complementam o texto autobiográfico, que alterna situações cômicas e trágicas. Até o lançamento do filme eu nunca tinha ouvido falar desta HQ, mas acompanhando os poucos filmes baseados em quadrinhos que satisfazem os fãs, Persépolis é um filme muito bacana, que por si só agrada. Recentemente, com uma promoção que deixou o preço do álbum acessível (no momento está custando R$ 28 do site da Saraiva, o preço cheio é R$ 41), pude comprovar que o filme foi bem fiel ao original, com o mesmo traço da desenhista, mas ainda assim faltam algumas passagens só publicadas no papel.

Persépolis é uma autobiografia bem ao estilo American Splendor (outra HQ que foi muito bem transformada em filme), escrachada, engraçada, debochada, mas que ao mesmo tempo mostra situações dramáticas acerca da violência presente no Irã entre as décadas de 1970-90 e da própria vida da autora, que se identifica como “iraniana na Europa e européia no Irã”. O uso do véu, a proibição de qualquer tipo de diversão presente no ocidente (incluindo festas e música), a xenofobia, as situações inusitadas, tudo isso está presente em Persépolis. Recomendo a qualquer pessoa que curta biografias e História, independente de ser fã de quadrinhos ou não.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 352
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *