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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Neil Young - A Autobiografia

Dois são os fatores fundamentais para que uma biografia seja bem-sucedida: uma vida cheia de passagens interessantes, divertidas ou inseridas em um contexto importante, e a forma como ela é narrada. Quando essas duas coisas se conjugam, está pronto um excelente livro ou filme. Sozinhas elas também podem funcionar bem. O primeiro fator se explica por si só, e pode dar um bom resultado mesmo que a execução não seja lá essas coisas. O segundo já se provou viável sozinho também -  veja Harvey Pekar, um arquivista com uma vida medíocre em Cleveland que criou obras-primas dos quadrinhos alternativos reproduzindo papos-furados com os amigos e situações corriqueiras de um americano médio. Em sua autobiografia e primeiro livro publicado, Neil Young não conseguiu impor nenhum dos dois fatores, e se tratando de quatro décadas no mundo do rock, muito disso se deu voluntariamente, por escolha do próprio autor.

Não sou fã de Neil Young. Na verdade, conheço relativamente pouco de sua vasta discografia (contando todas as bandas que ele tocou mais seus discos solo, são pra lá de cinquenta álbuns), mas ultimamente tenho tido muito prazer em tocar no violão algumas das músicas do excelente disco Harvest, e achei pertinente conhecer um pouco do cara que criou essas canções. 

Praticamente tudo contido em sua autobiografia era novidade para mim. Apesar de já ter bastante familiaridade com o Harvest, muita coisa importante produzida por Neil era desconhecida para mim, e passei a conhecer paralelamente à leitura. Foi surpreendente para mim descobrir que o músico teve dois filhos com paralisia cerebral, por exemplo. Bem como seu amor por carros, ferromodelismo e sua obsessão com a melhora na qualidade do som nas mídias atuais. Ou sua relação com seu pai ou sua mulher à época do lançamento do livro. Ok, mas... onde fica a música no meio disso tudo? Relegada a um ou outro dos 68 capítulos. Um terrível erro para alguém que viveu disso por décadas, e poderia ter usado a situação para criar um livro com material bem mais atrativo, ou que pelo menos respondesse às expectativas de alguém que compra a autobiografia de um músico!

Portanto, Neil Young abriu mão de utilizar o que tinha de melhor, sua experiência no mundo da música, para escrever uma autobiografia sem graça, sem apelo e sem conteúdo atrativo. Poderia até ter dado num livro bacana se ele tivesse conseguido impor um ritmo original como Harvey Pekar, mas não deu certo. A estrutura do livro é caótica. Os capítulos são espalhados aleatoriamente. No início, até achei boa a ideia dessa construção heterodoxa, meio solta no tempo como Bill Pilgrim em Matadouro 5,  mas a partir do momento em que você percebe que ele prefere falar do dia em que seu carro deu defeito no meio da estrada com sua cachorrinha como passageira do que do processo de criação em On the Beach ou Zuma, a coisa toda perde o sentido. Acaba virando meio que um diário no qual ele escreve bastante sobre o presente, meio que um livro de memórias bastante pessoais de situações insignificantes para os outros. Há muita atividade atual, muitos projetos que visam salvar o planeta e as almas das pessoas nesses tempos modernos que Neil não consegue absorver bem - de carros elétricos ao Puretone (atualmente Pono), a mídia de altíssima qualidade criada por ele para derrotar o mal que o mp3 traz para a saúde auditiva das pessoas. Só que esses papos enchem o saco, e acho que ninguém quer saber quando compra a autobiografia do Neil Young.

Posso dizer que essa autobiografia me abriu as portas para a vida e a obra de Neil Young, porém mais como um catálogo do que com conteúdo em si - li páginas na internet e ouvi seus discos no youtube como fontes paralelas de informações, muito mais úteis do que no próprio livro. E assim conheci um pouco do criador das músicas que andam fazendo minha cabeça ultimamente... e o coração da pessoa amada...

Editora: Globo
Páginas: 408
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Hey Ho Let's Go: A História dos Ramones - Everett True

Quem é meu chegado ou já leu algumas coisas aqui no blog sabe que Ramones sempre foi minha banda do coração. Musicalmente posso até preferir outros artistas hoje em dia, afinal conheci esses caras quando tinha uns 12 anos, e obviamente a gente muda muito desde então, mas Ramones é a banda que eu mais me identifiquei durante todo esse tempo. As pessoas me identificam com os Ramones, até meus pais que não tem a menor noção de nada de música sabem disso. Minha avó de noventa e tantos anos com princípio de Alzheimer lê o nome da banda nas minhas camisas e acha super engraçado em como soa ao sair de seus lábios. Meus alunos já se acostumaram a assistir às aulas de História olhando para esse nome estampado também. As pessoas simplesmente ouvem o nome Ramones e se lembram de mim, tanto que no meu último aniversário ganhei do meu amigo Dom Pedro essa biografia lançada ano passado aqui no Brasil - e já não é o primeiro livro sobre os Ramones que eu ganho e faço a resenha aqui no blog esse ano.

Em todos esses anos, busquei e tive acesso a bastante material sobre a banda. O primeiro foi uma revista lançada na década de 1990, especial sobre os Ramones, contando sua história, curiosidades, letras de algumas músicas (naquela época não havia internet para se ter acesso a esse tipo de coisa tão comum hoje, e era uma penúria entender o sotaque nova-iorquino anasalado de Joey quando não vinha a letra no encarte). A revista sumiu, alguém surrupiou, mas desde então foram livros, filmes, sites, tudo o que eu pudesse encontrar sobre eles todos esses anos. De todo esse material, nunca tinha encontrado algo tão produtivo, esclarecedor e divertido como Hey Ho Let's Go: a História dos Ramones. 

O livro não pode ser considerado a "biografia definitiva" da banda - afinal, quem define uma biografia assim está mentindo ou se iludindo -, mas o motivo para isso é o mesmo que justifica minha opinião positiva sobre ele: Hey Ho Let's Go foi escrito por um cara muito fã dos Ramones, e passa longe da isenção ou imparcialidade. E isso tornou a leitura muito prazerosa para mim. Apesar de diferenças em relação a gostos e preferências por essa ou aquela música ou álbum, os fãs geralmente concordam em determinados pontos, e nesse sentido ler esse livro foi como conversar com um amigo que gosta da mesma coisa que eu (aliás, pessoalmente não conheço ninguém que goste tanto dos Ramones como eu com quem eu possa conversar...). E não são opiniões sempre entusiásticas de uma fanzoca bitolada. Everett True muitas vezes critica asperamente seus ídolos por posições ou trabalhos abaixo do esperado, ainda mais pelo fato de ter acompanhado tudo na própria época dos ocorridos. É aquele fã que vibra com determinado fato e se decepciona com outro, mas não deixa de amar a banda - como acontece em toda relação humana de amor. Essa é uma perspectiva bem legal para um livro que trata de uma paixão compartilhada por milhões ao redor do mundo.

Hey Ho Let's Go é o tipo de biografia musical que prende minha atenção. Além de apresentar a vida e a personalidade de cada pessoa envolvida, trata especificamente sobre cada álbum lançado, analisa cada música contida nele, contando a história por trás da letra e às vezes até a técnica seguida em determinada gravação. Além disso, são abordados shows, clipes e participações em filmes. São informações relevantes sobre passagens às vezes obscuras, como por exemplo o caso de Richie Ramone, um baterista que fez parte da banda durante quatro anos, três álbuns, centenas de shows, alguns clipes e inclusive tem créditos em composições, mas é tão ignorado por todos os que tem alguma relação com a banda que parece que não existiu, ou pelo menos que, por algum motivo ignorado até hoje, ninguém quer que pareça que existiu. Bem como um tal Elvis Ramone, baterista convocado para substituí-lo que durou apenas dois shows, por não se encaixar na sonoridade característica da banda, e logo deu lugar para a volta do antigo baterista Marc Ramone. Até o fã mais fissurado pode encontrar informações antes desconhecidas que chegam ao público através de entrevistas inéditas para o livro.

O autor consegue impor um ritmo legal ao livro. Paralelamente à narrativa cronológica, são inseridos alguns capítulos temáticos como Na Estrada (várias partes), contando casos das muitas turnês que a banda fez; ou Em Busca do Sucesso, que procura resposta para o fato de os Ramones terem procurado ou não ser uma banda famosa, nas palavras de pessoas próximas e deles mesmos. Há também alguns capítulos nos quais as pessoas apontam seus álbuns ou músicas favoritas dos Ramones, o que abre a conversa entre vários fãs além do leitor e o autor. Além disso, a narrativa é cortada dentro dos próprios capítulos com declarações e trechos de entrevistas que não fazem parte daquilo que está sendo tratado ali no momento, mas se encaixa no contexto. O conjunto de tudo isso torna a leitura bem fluida e gostosa. Daquelas que você diz pra si mesmo "só mais um capítulo" antes de tomar coragem para ir lavar a roupa que se acumula no canto do quarto. 

Quando se fala de Ramones, tem que se ter em mente que a banda sempre funcionou em meio a brigas, disputas, rivalidades, durante seus 22 anos foi assim. Os relatos de quem acompanhou seus primeiros shows no CBGB, em Nova York, apontavam quatro moleques maltrapilhos discutindo durante os vinte e pouco minutos que ficavam no palco, sobre qual música tocar, quem errou em qual parte, esse tipo de coisa. A situação se tornava pior a cada ano de convívio, e um fato se tornou um ícone ilustrativo disso no início dos anos 80: Johnny roubou a namorada de Joey, e os dois nunca mais se falaram, mesmo se aturando até o fim da banda. Mais ou menos como os Beatles, cada membro tinha uma personalidade bem peculiar, coisa que eu já falei um pouco na resenha da autobiografia do Johnny Ramone. E como acontece no caso do Beatles, os fãs se veem obrigados a escolher lados, ter seu Ramone preferido. Everett True, escrevendo pela paixão, deixa bem claro sua preferência, principalmente por Joey, e sua antipatia por Johnny - pelas mesmas razões que apontei na resenha anterior. Tanto que, em um dos apêndices, escrito após a primeira edição do livro, ele admite ter recebido a seguinte chamada de um colaborador: "Você subestimou totalmente o papel dele na banda... Ele foi o maior guitarrista de punk rock que já viveu. Ele foi Johnny Ramone. Você deve tentar e finalmente encontrá-lo: ele está muito doente. É possível que não sobreviva." Acabou que ele não teve tempo de entrevistá-lo, Johnny morreu pouco tempo depois. Mas isso demonstra claramente essa preferência do autor, o que pra mim não é um defeito, só mais um mérito desse livro - até porque essa preferência é a mesma que a minha... Quem sabe o que eu teria achado se fosse o contrário?

Os Ramones terminam como banda em 1996, dignamente, sem se prolongar eternamente como velhinhos safados atrás de uma graninha como muitos fazem por aí, completando meio século ou mais de travessuras no mundo do rock. Contudo, a história dos Ramones continua sendo escrita por seus membros, na medida em que sobreviviam mais alguns anos após duas décadas num estilo de vida perigoso - o que você não tem muita chance de sobreviver se não for o Keith Richards. Cinco anos depois, os fãs já ficariam órfãos de Joey, vitima de câncer, seguido nos anos posteriores por Dee Dee e Johnny, o que rendeu alguns apêndices nas edições seguintes do livro nos Estados Unidos e já vieram incluídos aqui para o Brasil. Esse ano perdemos Tommy, o último dos Ramones originais que ainda sobrevivia. Pode ser que nas próximas edições venha mais um complemento aí. Mas a história permanece viva nos membros secundários que sobrevivem, mas principalmente nos milhões de fãs pelo mundo que participaram de cada show, que ouviram compulsivamente cada disco, que contaram com a ajuda das letras e canções rápidas e toscas para conseguir suportar a realidade na qual nunca conseguiram se colocar. Fãs como eu. E Hey Ho Let's Go está aí para manter a história e a paixão.

Editora: Madras
Páginas:480
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *


E ATENÇÃO: ISSO NÃO É UMA MARCA DE ROUPA OU UM MEME DE INTERNET PARA VOCÊ SAIR POR AÍ OSTENTANDO NA CAMISA SEM NEM TER IDEIA DO QUE SIGNIFICA!

A modinha está irritante e já passou da conta. Como disse uma vez o ex-empresário da banda Danny Fields, "Eles venderam mais camisas do que álbuns, e provavelmente mais camisas do que ingressos".

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Som da Revolução, Um História Cultural do Rock, 1965-1969 - Rodrigo Merheb

Houve um tempo que a juventude decidiu mudar o mundo, e não só como seu antecessores - as mudanças de hábitos dos "anos loucos" da década de 1920, dos beats e do rock'n'roll simplório da década de 1950. Em meados da década de 1960, a juventude queria mudanças pra valer: a guerra tinha que acabar imediatamente, os valores da classe média ocidental deviam ser demolidos, a liberdade individual deixaria de ser só uma alternativa. E essa garotada teve a dádiva de contar com o som perfeito ao seu redor para lutar por tudo que exigiam, o som do rock.

Em O Som da Revolução, Um História Cultural do Rock, 1965-1969, Rodrigo Merheb utiliza as dezenas de bandas maravilhosas que surgiram no período para analisar o ambiente de efervescência social que virou a cultura de cabeça para baixo no período, transformando-a na nova onda de contracultura, e certamente a mais famosa (a primeira foi a dos beats). Como o autor coloca na introdução, "Os anos 1960 forneceram matéria-prima para mais teses acadêmicas, livros, biografias e relatos do que provavelmente qualquer outro período do século XX, com exceção da Segunda Guerra Mundial". Apesar de eu não ter ideia com que base um cara pode dar uma afirmação dessas, valeu, dá pra entender que é para ilustrar o fascínio que essa época exerce sobre as pessoas ainda hoje - a capa da Rolling Stone do mês passado, advinha: Jim Morrison... Realmente, são muitas passagens marcantes e imagens que ficaram na mente das pessoas, como o Jimi Hendrix tacando fogo na guitarra.

E agarrado nesse interesse geral que também lhe é particular, Rodrigo Merheb resolveu escrever sobre essa passagem da longa jornada da humanidade, utilizando o rock como linha condutora. Ou será que é o contrário? É a impressão que o texto às vezes passa, que o autor, na verdade, queria mesmo era falar sobre o rock em si, e pegou a parte da história cultural para justificar ou abonar o trabalho - sem que isso tire seus méritos, claro. Não é difícil perceber a paixão do autor, que trabalha como oficial de chancelaria no austero Itamaraty, em cada frase dedicada às suas bandas prediletas. O resultado é uma enorme quantidade de páginas de trabalho em estilo jornalístico sobre os causos bizarros de Janis Joplin, Keith Moon e cia, intercalados por análises menos expressivas sobre a cultura daqueles anos.

O recorte temporal - segunda metade da década de 1960 - é limitado por dois eventos musicais: Newport, quando Bob Dylan surpreendeu a plateia folk com uma guitarra elétrica, e Altamont, no esfaqueamento de um jovem negro pelos fascistas dos Hell's Angels que decretou o fim da era paz e amor. E entre esses dois eventos chaves, 14 capítulos passam por esses cinco anos, abordando temas como bandas da Califórnia, da costa leste ou britânicas, a cultura das drogas alucinógenas, a reação da sociedade ao rock e, é claro, muitos detalhes sobre o festival dos festivais, Woodstock. Como epílogo, o autor disserta sobre o que aconteceu com o rock nos anos seguintes a Altamont, dando um gostinho de quero mais, de arrumar logo um livro que fale sobre a decadência anunciada por Ziggy Stardust e o fim do mundo profetizado pelo punk. Ao final ainda há uma discografia básica sobre todas as bandas tratadas no texto, bem como filmes e livros a respeito.

Durante a leitura do livro nos certificamos o porquê de tanto interesse das pessoas nessa época, e a gênese da má fama que o rock reserva para si até hoje. O Som da Revolução, apesar de pecar em não se concentrar muito no tema que se propõe a abordar (uma história cultural, até porque o autor não é um historiador e carece de método), é uma bela leitura para quem ama o rock, mas talvez não sirva muito bem para quem desconhece o básico do período, pois como já escrevi, o texto é basicamente sobre bandas.

Hoje, a juventude do nosso país e do resto do mundo voltou a buscar a mudança - dos protestos contra o aumento de passagem à resistência da praça Tahir -, mas infelizmente não há mais uma trilha sonora adequada para isso. O jazz, que embalou os rebeldes da Geração Perdida à Geração Beat, se tornou música de fundo para velhos decadentes em restaurantes caros no exterior pondo em prática seus conhecimentos adquiridos em cursinhos de enologia. O reggae, o ritmo que gritou para o mundo as injustiças que os países pobres passavam, nas letras de gente como Bob Marley e Burning Spear, deixou pra trás sua fase roots e hoje não passa de música pop de baixíssima qualidade, o lixo cultural chamado reggaeton (que felizmente é inexpressivo no Brasil). A rebeldia inerente do rock morreu em Altamont, ressuscitou anos depois em sua forma mais digna de combate, o punk, morreu novamente nos sombrios anos 80, teve sua terceira encarnação no início dos anos 90 com o grunge, mas logo se foi novamente. Desde então os rebeldes, reduzidos a fileiras dignas de guerra de guerrilha, diferente dos exércitos que lotaram os campos dos grandes festivais internacionais, as ruas das cidades brasileiras no início da oposição contra a ditadura militar ou os guetos sujos da Inglaterra tatcheriana, lutam num silêncio simbólico, sem um movimento musical que os represente dignamente. Entretanto, dada a capacidade do rock de voltar dos mortos quando menos se espera, quem sabe ele não nos surpreende em breve? As multidões que estão voltando a reivindicar seus direitos pelo mundo afora merecem.

Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 531
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Commando - A Autobiografia de Johnny Ramone

Bruto, direto, tosco, sem frescura... assim podemos caracterizar o som dos Ramones, e após ler Commando, a Autobiografia de Johnny Ramone, podemos compreender melhor que essa sonoridade nada mais é que o reflexo de seu criador, o lendário guitarrista dos pais fundadores do punk rock. Lançada aqui no Brasil oito anos após a morte de Johnny, essa autobiografia sem concessões não é a história definitiva dos Ramones, mas nos mostra a ótica de quem era o cérebro da banda, o cara que, além da importância nas composições e na criação do espírito Ramone, realmente mandava e decidia questões estratégicas - uma ótica bem peculiar à sua pessoa.

Johnny Ramone era um cara difícil, cheio de escrotices, opiniões babacas, atitudes estúpidas, e talvez por isso nunca tenha sido o membro dos Ramones que eu mais admirava. Enquanto para mim Dee Dee Ramone encarnava a atitude punk por excelência e Joey era muito mais cativante na sua tosquice em volta de uma personalidade inocente, boba, imbecilizada, Johnny Ramone me causava uma certa antipatia por, ao meu ver, não personificar o espírito punk com sua visão muito empresarial e suas posições conservadoras em diversos assuntos. Mas nunca perdi meu respeito por ele, primeiro por ser um membro fundador da minha banda favorita desde que minha voz começou a engrossar, e segundo por ser um cara que colecionou uma legião de detratores, mas ao mesmo tempo um círculo grande de admiradores e amigos no mundo da música - e isso o torna, mesmo que discutamos suas atitudes e valores, uma pessoa bem interessante.

Todas essas características da personalidade de Johnny que eu não simpatizo estão nas páginas do livro, o que prova que um de seus traços que eu valorizo está lá: mesmo que obviamente seja cheia de omissões, é uma autobiografia sincera. Escrito nos últimos momentos de vida de Johnny, quando lutava contra o câncer que o vitimou, Commando é como uma música dos Ramones: rápido, honesto, conciso, e nos faz entender muito sobre os Ramones e algumas de suas canções. Talvez até pelas circunstâncias em que foi escrito, o livro não apresente pudores de seu autor em falar o que pensa sobre ninguém. Entretanto, Johnny não era escritor, e infelizmente no livro ele não consegue fazer como nas músicas da banda, aquela simplicidade arrebatadora que dizia tudo em poucas palavras com três acordes simples ao fundo. É apenas um texto ordinário, retirado de entrevistas cedidas pelo guitarrista e organizado por outras pessoas, mesmo que tenha passado pela edição de gente como John Cafiero e Henry Rollins, mas o livro é tão curtinho e as histórias são tão interessantes que isso não significa muito. A edição brasileira é muito bem cuidada, capa dura, papel de luxo, muitas fotos e vários anexos, como listas de 10 mais de Johnny, cópias de agendas, avaliações dele sobre os discos dos Ramones, até para encher o livro já que o texto é bem pequeno.

Como fã dos Ramones, conheço muita coisa sobre eles, e essa autobiografia elucida muitas passagens da história da banda, mas também contradiz bastante algumas versões. Commando é uma leitura bacana, leve e rápida, que vale uma conferida. Quer você curta ou não, os Ramones são uma das bandas mais importantes da história do rock, e este livro é um dos buracos de fechadura para observar o que passou nesse mundo que tanta gente é apaixonada. Se você se interessa por isso,vale a leitura, mesmo que seja numa cafeteria de livraria no intervalo do almoço.

Editora: Leya
Páginas: 176
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

domingo, 25 de agosto de 2013

Eu Sou Ozzy - Ozzy Osbourne

O que esperar de uma autobiografia de alguém que usou tantas drogas que não consegue se lembrar de metade do que passou na vida? A resposta evidente é a metade de uma autobiografia misturada com um monte de histórias bobas fantasiadas ou, no máximo, "aumentadas mas não inventadas". É mais ou menos por aí que deve ser encarado esse Eu Sou Ozzy, escrito pelo comediante Ozzy Osbourne. 

Quer dizer, "escrito" é um eufemismo elogioso para, no máximo, narrado oralmente, pois pelo que se conhece de Ozzy e pelo que ele mesmo diz no livro, dificilmente ele teria capacidade para redigir um texto com mais de três parágrafos sozinho. O ghost writer encarregado em passar para o papel as histórias escabrosas de Ozzy chama-se Chris Ayres, e ele tenta ao máximo reproduzir a linguagem chula e primária do vocalista do Black Sabbath para dar um ar de autenticidade à narrativa do ídolo metaleiro. Se isso por um lado isso produz um texto tosco e difícil de ser levado a sério, a contrapartida positiva é que a leitura torna-se bastante fácil e rápida. Afinal, o que sobra mesmo são as histórias engraçadas e passagens curiosas para quem gosta de rock.

Desde o começo já se percebe que a piada é o tom do livro. Antes de ser cantor, Ozzy é um showman, um palhaço, um bobalhão. Tudo quanto é passagem de sua vida é narrada como uma comédia pastelão, até as coisas mais sérias, como seus dias na prisão, doenças, acidentes, excessos de drogas - aliás, justamente por isso a mídia teve a ideia de transformar sua vida familiar num reality show. Da sua infância humilde, passando por sua juventude sem perspectivas na classe trabalhadora inglesa, chega-se logo ao que todos querem saber: sua carreira no Black Sabbath e as doideiras do mundo do rock.

É claro que tudo não passa de histórias inventadas, floreadas, enfeitadas com glamour de bom humor, mas nem por o livro deixa de apresentar bons aspectos. Primeiro que é bem engraçado, dá para se divertir um bocado com algumas dessas histórias bobas. E segundo que, apesar de toda a fantasia e o besteirol, Ozzy não esconde quem realmente é como pessoa, intencionalmente ou não. Independente das cores com que trata suas histórias, fica claro que Ozzy é um completo idiota que age de maneira semelhante a qualquer Luciano Huck ou Ivete Sangalo da vida: só quer saber de ganhar dinheiro e gastar da maneira que mais lhe agradar, o que eu encaro como uma grande ofensa ao rock, um estilo musical que tem a rebeldia como substância desde seus primórdios. Tanto é que, lamentavelmente, Ozzy prefere falar mais sobre seus discos de platina e suas turnês milionárias do que de suas composições em si - quer dizer, das composições de seus parceiros musicais que ele interpretava, pois ele deixa bem claro que o processo de composição do Black Sabbath passava primordialmente por Tony Iommi e Geezer Butler. Fora tudo isso, ainda tem espaço para todas as besteiras inconsequentes que sempre marcaram a vida de Ozzy, como a crueldade com animais (e não estou falando só da lenda do morcego, que por sinal ele dá sua versão também).

Eu sou Ozzy é um apanhado de babaquices, ora engraçadas, ora de mau gosto. Não se justifica como um livro, pela sua falta de qualidade literária. Seu conteúdo seria mais indicado para um documentário ou um programa de tv, mas esse tipo de livro está aí nas livrarias porque tem mercado, pessoas que não têm o costume de ler, como as que compram A Cabana ou os livros do padre Marcelo - ou no caso, os fãs de Ozzy, subestimados ou não.  As histórias do mundo do rock sempre me interessam, e confesso que curti as passagens em que Ozzy nos conta sobre a genialidade de Tony Iommi, a morte de Randy Rhoads ou a ditadura de Ian Anderson no Jethro Tull, mas logo torci para que terminasse e eu voltasse para o mundo dos livros de verdade, que é o que realmente me interessa. 

Editora: Benvirá
Páginas: 416
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

sábado, 12 de novembro de 2011

Psychic Confusion: The Sonic Youth Story - Stevie Chick

Quando fiquei sabendo que o Sonic Youth vinha tocar no SWU e vi que no mesmo dia tocariam também uma porrada de bandas que eu curti muito na década de 90, não tive dúvidas: havia chegado a hora de voltar a curtir um grande festival de música, coisa que, desanimado com a decadência do rock na última década, eu não fazia há muitos anos. Apesar de estar longe de ser a principal atração num dia em que Faith no More, Alice in Chains e Stone Temple Pilots vão tocar, o Sonic Youth é o principal motivo para eu ir ao SWU, e como aquecimento, comecei a ler Psychic Confusion: The Sonic Youth Story, um livro que comprei há alguns meses, que conta a história dessa que foi uma das bandas mais importantes da minha vida. 

Psychic Confusion, de Stevie Chick, é relativamente recente (só não inclui o último disco da banda, de 2009), e tem uma estrutura convencional, escrito em ordem cronológica iniciando com as origens dos membros da banda e passando na ordem da produção de cada disco, o que pode não combinar muito com uma banda que de convencional nunca teve nada, mas o importante é que o autor cumpre seu papel, abrindo espaço também para histórias paralelas de diversas outras bandas que cruzaram o caminho dos sonics, como Dinosaur Jr. e Nirvana. É um livro normal sobre uma banda de rock, sem firulas e bem escrito, de caráter informativo, recheado com belas fotos, de interesse apenas para fãs ou admiradores de histórias da cultura ocidental contemporânea, que só conseguirão encontrá-lo em sites de fora ou livrarias no exterior.  

Faltando poucos dias para o festival, lendo o livro e esperando ansiosamente rever os sonics depois de 11 anos (no finado Free Jazz Festival), fui surpreendido por uma notícia no mínimo surpreendente: Kim Gordon e Thruston Moore, o casal fundador da banda, anunciou sua separação após 27 anos de união, lançando especulações sobre o futuro da banda. Como os sonics já vinham fazendo poucos shows no últimos anos e a última data de sua agenda é justamente a apresentação no SWU, daqui a dois dias estarei no que pode ser o show derradeiro do Sonic Youth.

Editora: Omnibus Press
Páginas: 282
Disponibilidade: importado
Avaliação: * * * *

Sobre o show: A apresentação do Sonic Youth foi sensacional, um dos melhores shows que já fui. Confira aqui. Veja também outro show excelente de um japonês chamado Miyavi, no palco secundário.

p.s: Este foi realmente o último show do Sonic Youth! Se essa é a decisão deles, fico satisfeito de que essa banda tão amada por mim tenha encerrado sua carreira de forma tão digna, e  feliz por fazer parte de seu último capítulo. Continuo acompanhando suas carreiras solos que, se não são e nunca mais serão os sonics, mantém a dignidade com canções sinceras e o estilo Sonic Youth de ser.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Bowie in Berlin. A New Career in a New Town - Thomas Jerome Seabrook

Na segunda metade da década de 1970, David Bowie passava por um momento crucial em sua vida: sua carreira estava no auge, produzindo discos anualmente desde 1969, muitos deles com vendas astronômicas, e suas turnês levavam milhões de fãs aos seus shows. Por outro lado, sua vida pessoal passava por turbulências graves - vícios, anorexia, divórcio, paranoia e obsessão por ocultismo e símbolos nazistas - que quase lhe custaram a vida.Justificar
Era 1975 quando Bowie decidiu seriamente que deveria mudar radicalmente de vida, e largou Los Angeles para viver na Europa, até se estabelecer em Berlim, vivendo anonimamente e longe de excessos (para os padrões de um rock star, já que Berlim tinha também uma agitada vida noturna). O resultado foi uma período de alguns anos de intensa atividade artística e cinco discos antológicos - Low, "Heroes" e Lodger, a chamada "trilogia de Berlim", de Bowie e sua parceria com Brian Eno, e The Idiot e Lust for Life, de Iggy Pop, porém com uma intensa participação sua. Bowie in Berlin - A New Career in a New Town, de Thomas Jerome Seabrook, conta a história dessa que é para muitos (incluindo eu mesmo) a melhor fase de David Bowie.

O livro começa com os antecedentes dos anos de Berlim, apresentando um David Bowie que, por um lado, era um dos artistas mais populares da época, e por outro estava no fundo do poço em sua vida pessoal, e com sérios riscos à sua saúde. Bowie vivia em Los Angeles, havia acabado de lançar uma sequência de discos excepcionais, em termos musicais ou sucessos de vendas - começando com Hunky Dory, de 1971, até Station to Station, de 1976. Seus trabalhos eram frequentemente temáticos, com a interpretação de personagens que às vezes chegavam a se misturar com sua própria personalidade, como o alienígena Ziggy Stardust. Seu último personagem dessa época chamava-se "Thin White Duke", um aristocrata demente com inclinações fascistas, que começou a interferir na saúde mental do cantor numa fase em que seus alimentos eram somente cocaína, pimenta e leite.

David Bowie tinha tudo para continuar nese caminho em sua vida profissional, lançando mais um disco com sucessos comerciais e turnês enormes (era tudo o que sua gravadora queria também), mas resolveu dar uma guinada. Sua vida pessoal conturbada pode ter influenciado bastante essa escolha, mas o lado artístico não pode deixar de ser considerado: Bowie é um músico notório pela sua capacidade de enxergar adiante de seu tempo, de ser pioneiro. O que ocorre então é que ele larga tudo nos Estados Unidose vai se refugiar anonimamente na Europa, onde entra em contato com bandas inovadoras como o Kraftwerk e inicia uma parceria com Brian Eno, ex-Roxy Music, que já fazia discos bem diferentes.

A segunda parte do livro de T.J. Seabrook é dividida em quatro capítulos, efetivamente o período em que Bowie viveu em Berlim e criou os melhores discos de sua carreira e de seu amigo Iggy Pop, que tinha saído de sua fantástica banda, The Stooges, e estava em total ostracismo. The Idiot, o primeiro disco dessa fase, teve sua parte musical quase que completamente criada por Bowie e companhia, tendo Iggy Pop criado mais a parte das letras, e serviu como um "piloto" para a sonoridade dos discos seguintes de Bowie. O capítulo seguinte aborda a criação de Low, e os posteriores de Lust For Life e "Heroes". Em cada capítulo, inicialmente é contada toda a história dos músicos à época dos discos, o processo de criação e produção, e ao final há a ficha de cada música, com comentários.

Bowie in Berlin é encerrado com capítulos sobre a produção de Lodger, o último disco dessa fase (que por não ser tão extraordinário quanto os quatro anteriores e ter sido pouco influenciado pela vida em Berlim é tratado à parte), a retomada da carreira de superstar de David Bowie, o fim da parceria dele com Brian Eno e o legado que essa fase de sua carreira deixou para o cenário musical da década de 1980.

Encontrar esse livro até então desconhecido para mim foi uma coincidência e tanto, já que há alguns meses estou obcecado por esses discos e não paro de escutá-los. Sua leitura foi bastante agradável e enriquecedora para melhor compreensão desses trabalhos fundamentais, que influenciaram uma porção de gente, de Joy Division a U2, moldando o clima dark pós-punk que teriam os anos 80. Bowie in Berlin é uma leitura essencial para todo fã de David Bowie, e para quem não conhece os tais discos da fase berlinense do cantor, recomendo fortemente que não perca a oportunidade de entrar em contato com essas obras-primas da música, principalmente The Idiot e Low.

Editora: Jawbone
Páginas: 270
Disponibilidade: importado
Avaliação: * * * *

domingo, 7 de agosto de 2011

Heroes of Blues, Jazz & Country - Robert Crumb

Quem conhece Robert Crumb sabe que, apesar de sua genialidade nos quadrinhos, seu amor verdadeiro sempre foi pela música. Apesar de seu nome estar frequentemente vinculado ao movimento de contra-cultura do final da década de 1960, Crumb nunca negou que não tinha nenhum interesse no rock daquela época, e que sua música vinha de décadas antes, a música que ele escutava quando era criança, em discos das décadas de 1920-30.

Em uma singela homenagem aos seus ídolos, Crumb produziu na década de 1980 uma série de cards com desenhos e um parágrafo de breve biografia dos músicos que produziram a música da sua vida, e agora uma editora americana resolveu compilar todos eles num belo livro chamado Heroes of Blues, Jazz & Country.

A introdução do livro é de Terry Zwigoff, amigo de Crumb, companheiro de banda e diretor do famoso documentário de 1994 sobre o desenhista. Zwigoff nos conta como começou o projeto: Crumb, notório colecionador de discos antigos, queria muito adquirir algumas raridades de um amigo, e este propôs uma troca dos discos por um desenho original. Crumb aceitou, e anos depois, Zwigoff utilizou a mesma estratégia para trocar um disco da coleção dele com Crumb. A partir de então, Crumb passou a produzir desenhos de seus artistas prediletos, baseado em fotos antigas, caso elas existissem - lembre-se que a maioria desses artistas sempre foi extremamente obscura, e sobre alguns deles não se sabe nem ao menos sua data de nascimento.

Na época, os cards foram lançados em pacotes distintos para cada estilo: Heroes of the Blues, Early Jazz Greats e Pioneers of Country Music. Um livro muito bem feito, e com desenhos de Robert Crumb, é um bom motivo para eu querer tê-lo na minha estante, mas o fator determinante para mim foi a inclusão de um cd com 21 músicas de alguns desses artistas. Esse cd me apareceu como um farol para descobrir músicos seminais nesses estilos pouco explorados por mim ainda.

O cd começa com os artistas do blues. Esqueça Robert Johnson, e nem pense em B.B.King ou Eric Clapton. Robert Crumb gosta mesmo é daqueles músicos de rua, que por uma graça do acaso gravaram algumas canções e deixaram seu legado para os garimpeiros culturais das décadas seguintes. As músicas dessas parte são muito agradáveis, simples, e quase completamente desconhecidas por quase todo mundo. Eu só conhecia um artista retratado por Crumb antes de ler o livro - Skip James, e somente porque há uma canção sua maravilhosa no filme Ghost World (dirigido não por acaso por Terry Zwigoff). Outros dois nomes eu já havia ouvido falar, mas não conheço muito de sua obra: Louis Armstrong, o músico de jazz mais famoso de todos os tempos, e Duke Ellington. As canções de blues no cd são bem leves, a exceção fica justamente por conta de Skip James, o mais melancólico de todos os sete artistas apresentados (e talvez por isso o que eu mais gosto).

A segunda parte do cd fica com o country, um estilo um pouco mais familiar para mim. Não que eu conheça qualquer daqueles artistas, mas o antigo country americano tem semelhanças com o folk britânico/irlandês, um estilo que fiquei viciado durante alguns meses há uns dois ou três anos, e que me fez ficar familiarizado com essas músicas que utilizam um dos instrumentos mais bonitos para mim, o banjo.

O cd termina com os músicos de jazz antigos, um estilo que ninguém sabe dizer o nome de qualquer representante, mas todo mundo já ouviu e continua ouvindo em desenhos animados e filmes antigos. É a música mais famosa dos Estados Unidos, mas em contrapartida, uma das mais anônimas.

Essa união de arte gráfica e música produziu uma obra muito bacana, eu ouço a música, leio no livro sobre aquele artista e viajo... Esse livro é importado, e pelo conteúdo muito específico, não tenho a impressão que algum dia venha a ser lançada uma edição brasileira - mas se tratando do crédito que Robert Crumb tem aqui no Brasil, não acho que isso seja impossível, já que há um album lançado pela Conrad chamado Blues, só com histórias sobre o estilo predileto de Crumb.

Editora: Abrams Comicarts
Páginas: 240
Disponibilidade: importado
Avaliação: * * * *

Hoje, com a internet, é muito mais fácil conhecer qualquer tipo de artista do que na época que Crumb produziu os cards. Caso você se interesse em conhecer alguns destes velhos e bons músicos, e tem dificuldade para conseguir importar o livro, aí vai a lista de artistas compilados no cd, para serem caçados na internet (boa sorte!):

Blues - Memphis Jug Band, Blind Willie McTell, Cannon's Jug Stompers, Skip James, Jaybird Coleman, Charley Patton, Frank Stokes.

Country - "Dock" Boggs, Sherlor Family, Hayes Sheperd, Crockett's Kentucky Mountaineers, Burnett & Rutherford, East Texas Serenades, Weems String Band.

Jazz - Bennie Moten's Kansas City Orchestra, "King" Oliver's Creole Jazz Band, Parhman-Pickett Apollo Syncopators, Frankie Franko & His Louisianians, Clarence Williams' Blue Five, "Jelly Roll" Morton's Red Hot Peppers, Jimmy Noone.

E mais: os desenhos dos 36 músicos de blues presentes no livro podem ser encontrados aqui (infelizmente sem os textos). Se alguém achar os desenhos dos outros músicos, me informe o link que eu coloco no blog.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

The Rough Guide to Reggae - Steve Barrow e Peter Dalton

Se você é daqueles que, ao ouvir a palavra Reggae, só lhe vem à cabeça Bob Marley e Cidade Negra, está na hora de ler "The Rough Guide to Reggae". Neste ótimo guia, Steve Barrow e Peter Dalton contam a história deste envolvente gênero musical desde os primórdios da cultura jamaicana até as tendências atuais, passando por diversos estilos como o ska, o rocksteady, o dub e o dancehall, fases um pouco diferentes do roots reggae, ritmo mais conhecido por ser representado principalmente por Bob Marley.

O livro é dividido cronologicamente, bem ilustrado, com caixas de texto para personagens importantes e curiosidades, e em cada capítulo há seleções com os principais discos representantes de cada estilo, comentados e classificados de acordo com sua importância. Os últimos capítulos abordam o reggae fora da Jamaica (EUA, Inglaterra e África), e ao final há ainda um glossário das gírias utilizadas nas músicas, uma cronologia e uma sucinta referência de livros e páginas na internet. O texto, como qualquer guia, é generalista, mas capta bem os detalhes mais relevantes e cumpre o difícil objetivo de apresentar bem a história do reggae em menos de 500 páginas. Essencial para quem gosta de guitarras marcadas e metais à vontade, mas não sabe por onde entrar neste mundo de paz, amor, felicidade, justiça e liberdade que é o reggae. Ler este livro há alguns anos contribuiu bastante para o meu vício nessa rebel music e por boa parte do conhecimento que tenho dela, já que, pessoalmente, não conheço ninguém que goste com quem eu pudesse trocar ideias e aprender alguma coisa. O reggae é um dos gêneros que mais atraem a simpatia das pessoas, mas por outro lado um dos que as pessoas menos conhecem.

Para quem é chato e não suporta reggae, está de mal com a vida, ou entediado com a mesmice da cultura pop, recomendo que leia este guia e baixe na internet qualquer coisa de Bob Marley, Burning Spear ou Skatalites, feche os olhos, abra sua mente e se entregue ao ritmo das batidas, às linhas de baixo consistentes e à criatividade dos metais. Se mesmo assim não funcionar, mas você achou interessante a estrutura do guia, há diversos outros livros na coleção, como rock, jazz, música cubana, Beatles, Elvis e até fado, além de guias sobre viagem, história, restaurantes, esportes e o que mais você possa imaginar, mas até onde sei, nenhum deles tem edição brasileira.

Editora: Rough Guides
Páginas: 484
Disponibilidade: normal (importado)
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Uma temporada no inferno com os Rolling Stones - Robert Greenfield



No início da década de 1970, os Rolling Stones já haviam feito sua fama mundialmente como – além de excelentes músicos – jovens sujos, maus e drogados. A polícia os perseguia regularmente para apreender alguma droga e aparecer na capa dos jornais, e o fatídico show em que um Hell´s Angel que fazia a segurança assassinou um jovem de 17 anos já havia chocado o mundo. Nada disso fazia os Stones temerem qualquer tipo de repressão, fosse da mídia ou da polícia, até eles descobrirem que o leão do imposto de renda do Reino Unido morderia uma fatia absurda de seus rendimentos – mais de 90%!

Contra essa ameaça que nada se pode fazer – nem Al Capone se safou – os Stones decidiram se mandar para a França e lá gravar o próximo disco de estúdio de sua carreira – Exile on Main St. Tinha tudo para ser um paraíso na Terra: se mudar para um balneário mundialmente famoso, como é ainda hoje o sul da França, chamar todos os amigos e tocar rock´n´roll até dizer chega, quem não quer uma vida dessas? Pensando dessa maneira simplista, parece ser o melhor dos mundos, mas analisando mais precisamente o que se passou naquele verão – as drogas, os desentendimentos, os acidentes, o sexo e os problemas com os traficantes e a polícia francesa – fica-se boquiaberto em como foi feito um dos discos mais míticos da história do rock – e como é que todas as pessoas envolvidas neste evento conseguiram sobreviver.

Em “Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones – Exile on Main St.”, Robert Greenfield destaca esta passagem da gloriosa e turbulenta carreira do Stones. Narrado de forma descontraída (às vezes chegando ao ponto da grosseria), os personagens são apresentados como se fosse uma peça de teatro, um filme ou um romance, já que, além dos fatos mostrarem-se dignos de um roteiro fantástico, o tempo (além das drogas) fez com que ninguém se lembre ao certo o que é verdade e o que é lenda – há versões contraditórias em diversos depoimentos das pessoas envolvidas. Keith Richards é o herói (ou anti-herói), Anita Pallenberg a atriz principal, Mick Jagger quase um vilão, e Brian Jones o fantasma. Os coadjuvantes são todos os outros que estiveram presentes em Villa Nellcote, a casa de Keith Richard na França, e o momento era o início da década de 1970, quando os principais expoentes do rock´n´roll morriam de overdose e o sonho se esfacelava. Em meio a todos os problemas enfrentados, desde as drogas até o sumiço de Mick Jagger, que havia acabado de se casar, surge nos porões úmidos de Villa Nellcote a lenda de Exile on Main St., que permitiria aos Stones, ferrados financeiramente, iniciar uma nova turnê pelos Estados Unidos e se reestruturar.

O livro de Greenfiled tem o mérito de apresentar esta fabulosa história de forma clara e divertida, além do que aconteceu depois com todos os envolvidos e com o disco, mas na minha opinião sua obra peca em dois pontos: 1- apesar de descontraída e fácil de ler, sua escrita às vezes é bastante estúpida, criticando sem cerimônia algumas pessoas envolvidas na história e alguns autores que escreveram sobre os Stones antes dele – e que supostamente erraram em algum detalhe da historia, e 2- o livro não foca quase nada na parte técnica, no processo de criação e na produção das músicas, não interpretando o sentido de letras de músicas ou o contexto das gravações, o que aprecio em livros sobre bandas de rock e senti falta. Mas estes são detalhes que não tiram por completo o valor do livro e a diversão em lê-lo, e recomendo a todos os fãs de rock sua leitura.

Editora: Jorge Zahar
Páginas: 241
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

The Beatles: A Biografia - Bob Spitz


Quando Bob Spitz decidiu escrever a biografia dos Beatles, certamente sabia que o trabalho teria que ser proporcional à grandeza da banda mais importante de todos os tempos. Daí saiu “The Beatles: A Biografia”, uma obra grandiosa em todos os sentido – da quantidade de páginas ao refinamento na exploração de uma das mais famosas histórias do mundo contemporâneo, uma lenda moderna.

“The Beatles: A Biografia” é uma história muito bem contada, que passaria perfeitamente como um roteiro de filme por causa da grande quantidade de passagens lendárias, já contadas milhares de vezes através das últimas quatro décadas. Mas o diferencial em contar novamente uma história contada e recontada, quase que já na sabedoria popular, é a complexidade com que Spitz trata sobre a vida dos quatro rapazes de Liverpool e dos personagens coadjuvantes – parentes, namoradas, esposas, empresários, produtores, amigos, fãs e todos que os rodeavam. Não faltam detalhes curiosíssimos sobre todos, a começar pela cidade-base desta história. Cada um que teve alguma influência sobre os personagens é analisado e relacionado com o Fab Four.

Bob Spitz trata com toda honra os principais feitos dos Beatles, desde os recordes batidos na época da beatlemania até as revoluções musicais de Sgt. Pepper e companhia, mas não por isso deixa de apresentar o lado negativo de cada um deles (menos de Ringo, que definitivamente é um cara legal) e das pessoas relacionadas, incluindo as que ainda hoje vivem, já que geralmente os biógrafos tendem a amaciar com quem ainda pode reclamar. Spitz não tem constrangimento algum em mostrar, desde os primórdios da banda, as personalidades de John, Paul e George influenciando os rumos da história da banda (positivamente ou negativamente), as mancadas de Brian Epstein, a segurança de George Martin, a malandragem de dezenas de aproveitadores e, obviamente, a interferência de penetras, principalmente (é óbvio) Yoko Ono – fã de Beatles que não odeia Yoko Ono não é fã de Beatles.

Acho que “The Beatles: A Biografia” foi o melhor investimento em livros que fiz este ano. Comprei em promoção por quase a metade do preço e me diverti por várias semanas, mas mesmo pelo preço cheio (R$ 99) valeria à pena, pois este é daqueles livros que de tanto ler você acaba viciando e sentindo falta depois de terminar. Definitivamente recomendado a todos os fãs de rock e a quem se interessar por como se formou a música de hoje em dia.

Editora: Larousse
Páginas: 982
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

sábado, 20 de setembro de 2008

Eric Clapton: A Autobiografia


Eric Clapton, guitarrista com status de divindade, passou décadas se drogando, bebendo, transando com as mais lindas garotas, se divertindo pacas ao redor do mundo e fazendo muitas merdas com a própria vida, mas desde a década de 1990 ele diz que parou com quase tudo isso, montou uma família e finalmente lançou um livro contando como tudo isso aconteceu. Definitivamente, o rock’n’roll está morto e enterrado, mas como eu gosto muito de história, decidi dar uma conferida em “Eric Clapton – a autobiografia”.

Apesar de o rock estar nas minhas entranhas desde que saí da infância, nunca fui muito fã de Clapton, que leva sua carreira muito para o lado do blues, estilo que não sou aficionado. É só mais um músico que ouço sem fixação, mas sem desconsiderar sua genialidade na guitarra. O que me levou a ler este livro foi o simples fato do cara ter vivido os anos mais loucos do rock’n’roll – estilo musical que morreu em 1996, com o fim dos Ramones, última banda a encarnar o espírito do rock.

Além de Clapton contar as maiores loucuras, irresponsabilidades e escrotices que um astro do rock podia promover, através das páginas de sua autobiografia são apresentadas situações curiosíssimas com outros músicos que cruzaram sua carreira, como Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, Jimi Hendrix e sobretudo George Harrison, grande amigo de Clapton e meu beatle predileto. Seria um livro excelente se as memórias terminassem na década de 1980, pois nos últimos capítulos o guitarrista fala sobre coisas sem graça como sua vida em família e sua abstenção alcoólica.

Adoro biografias, para mim são formas diferentes de se contar a história do que quer que seja – nesse caso, a história do rock’n’roll. Não desqualifico os livros de memórias pessoais como este, mas com certeza neste tipo de biografia perde-se muito, já que é uma visão pessoal, parcial e comprometida com as pessoas próximas do autor. Percebe-se que a cada capítulo o livro fica menos intenso e com menos revelações chocantes, pois passa a falar cada vez mais de pessoas vivas e que convivem com o autor ainda hoje. Por exemplo, até o momento em que ele conhece sua atual esposa, não há um capítulo do livro (exceto o primeiro, quando ele ainda é criança) que Clapton não fale de mulheres que ele pegou e puladas de cerca em suas inúmeras turnês, mas depois de seu casamento não se fala mais nesse assunto. São coisas que é melhor evitar para não serem necessárias desculpas esfarrapadas depois.

Mais do que simples memórias, me pareceu que a autobiografia de Eric Clapton teve um sentido de reconhecer o quão babaca ele foi com diversas pessoas em sua vida e tentar se desculpar e se mostrar arrependido por muitas vezes ter ferido ou tratado os outros como lixo. Clapton é um dos maiores guitarristas de todos os tempos, não um escritor de verdade, por isso seu estilo é fraco, levado pela linguagem, com vícios e gírias, especialmente um “na real” que se repete constantemente. A tradução também não ajuda com a falta de virgulas, a troca de “estada” por “estadia” durante todo o livro e um impressionante “estensos” na página 110 que passou batido pela revisão. Não se espera de um livro como esse uma obra-prima da alta literatura, mas sim histórias fascinantes sobre vários deuses sagrados do mundo do rock. Diversão garantida para quem curte.

Editora: Planeta
Páginas: 399
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *