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quinta-feira, 2 de abril de 2015

Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil - Hermeterio e Olinto Gadelha

Com o movimento republicano em fins do século XIX, o Brasil tinha uma proposta de rompimento com a herança deixada por uma independência política que trouxe consigo toda a tradição patrimonialista desde o início da colonização. Feita a república, rapidamente entram em cena novos atores, mas o roteiro continua basicamente o mesmo. Passam a dominar o país as elites agrárias, sob forma de oligarquia. Deliberações do Convênio de Taubaté eram mais importantes do que a penúria causada pela seca no nordeste ou as péssimas condições de vida dos pobres nas cidades. Em alguns momentos o povo, cansado de tudo isso, explodiu em fúria, tanto no campo como nas cidades, no que os livros didáticos intitulam revoltas da República Velha.

Chibata! João Cândido e a Revolta que Abalou o Brasil conta na forma de quadrinhos um dos mais famosos desses movimentos do início do século passado, e a comovente biografia de seu líder. O ano era 1910. Mais de duas décadas haviam se passado desde a abolição da escravidão no Brasil, mas a marinha ainda reproduzia com os marujos, a maioria negros e mulatos pobres, o tratamento dispensado aos escravos nas lavouras de café. Péssimas condições de higiene e alimentação já seriam suficientes para tal comparação, mas a analogia se tornava completa com a aplicação de chibatadas nas costas dos que praticavam mínimos atos de indisciplina. No dia 22 de novembro, os marinheiros liderados por João Cândido demonstraram seu descontentamento tomando o comando da frota ancorada na Baía da Guanabara, incluindo o maior navio de guerra do mundo na época, apontando os canhões para a capital brasileira de então. João Cândido se tornou então, de fato, o primeiro almirante negro do Brasil. Os revoltosos conseguiram sair vitoriosos, com a abolição da chibata e o governo se dobrando publicamente, mas a classe dominante brasileira não deixou por isso mesmo: duas semanas depois, após outro motim que nada teve a ver com a primeira revolta, o governo encontrou o pretexto necessário para incriminar João Cândido e os outros envolvidos, impondo-lhes uma terrível punição.

O que Hermeterio e Olinto Gadelha fizeram foi prestar uma homenagem digna a esta passagem épica de nossa história e seu valoroso líder que, após se conhecer sua história e todo o sofrimento de sua vida, não há como não se conformar em não tê-lo como um grande herói nacional. Apesar de incluir diversas passagens e personagens fictícios na narrativa, fica claro que os autores se esforçaram em pesquisar o contexto histórico e o visual da época. Os quadros são bem ricos em detalhes, sobretudo na caracterização dos navios de guerra. O roteiro flui suave, como deve ser toda narrativa em quadrinhos, e os desenhos são ótimos. Toda a criação faz jus a essa história tão importante na luta do povo brasileiro contra a opressão. O trabalho foi lançado em 2008, mesmo ano em que João e seus companheiros finalmente receberam a anistia oficial do governo e da marinha, quase um século depois da heroica revolta. Hoje João Cândido tem seu nome no livro de heróis da pátria e há uma estátua sua na Praça XV, Rio de Janeiro.

Chibata! é um excelente álbum em quadrinhos e merece ser lido prontamente por qualquer um que curta a nona arte e história. Além disso, destaco a obra como ótimo recurso pedagógico, pois tenho a experiência de utilizá-lo com meus alunos com resultados muito satisfatórios. Porém o livro está fora do catálogo da editora por causa de um triste fato: em 2013, a Conrad foi condenada por plágio por conta desse álbum. Os autores foram acusados de utilizarem sem permissão personagens e passagens da peça teatral João Cândido do Brasil: A Revolta da Chibata, de César Vieira. Agora e talvez para sempre, só de segunda mão. Uma pena.

Editora: Conrad
Páginas: 218
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O Clube do Filme - David Gilmour

Relacionamentos entre pais e filhos são tratados na cultura universal desde seus primórdios. Encontramos o tema já na Odisseia e mesmo antes, na história de Ganesha ou em alguns livros da Bíblia. Já no nosso tempo, a questão é abordada da psicanálise à cultura pop - Freud, Star Wars, Psicose e músicas de The Doors, Legião Urbana ou Elis Regina. Em outras palavras, a questão é mais velha que trocadilho sobre o pavê em festa de família, e também sempre tem alguém disposto a repeti-la. 

David Gilmour, um crítico de cinema canadense que não tem nada a ver com o cantor e guitarrista do Pink Floyd, resolveu utilizar sua experiência pessoal com seu filho adolescente para escrever mais uma história sobre pais e filhos e seus conflitos de gerações, mas com uma premissa aparentemente diferente. Digo aparentemente porque, que eu saiba, ninguém nunca tinha utilizado especificamente seu método na tentativa de um novo tipo de relacionamento com seu filho, mas se olharmos num sentido mais amplo, a fórmula não é nova. Já voltamos a esse assunto. 

Jesse Gilmour era um jovem de 15 anos que não apresentava o menor interesse pelos estudos. O resultado eram reprovações em sequência, sem que houvesse a menor perspectiva de mudança. Sem saber mais o que fazer, David Gilmour teve uma ideia pouco conservadora: concordaria em deixar o rapaz abandonar a escola, contanto que ele aceitasse assistir a filmes ao lado de seu pai, e depois discutissem alguns temas levantados pelo crítico. Gilmour estava desempregado, e utilizou esse revés em seu favor, pois teve bastante tempo livre para se dedicar ao projeto que ele chamou de Clube do Filme.

David Gilmour então começa as atividades dividindo os filmes de acordo com temas, alguns deles especificamente sobre questões relativas ao cinema em si, outros de acordo com as situações e dilemas da vida do filho. Maravilhas como Ladrões de Bicicleta, Ran ou O Último Tango em Paris dividiam espaço com coisas do nível de Showgirls. O que importava era a discussão que eles podiam gerar, e não um currículo de curso de cinema. 

A experiência durou três anos. Realmente, parece que nenhum pai que se importe com seu filho alguma vez teve a coragem de tomar uma decisão tão radical assim, mas se pensarmos em relação a livros, a ideia não é tão original e remete a um outro grande sucesso da literatura: Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas. Um livro que achei muito chato, e ao ler O Clube do Filme notei essa clara identificação. Apesar da matéria ser diferente, ambos foram escritos por pais que utilizaram seu conhecimento em um tema em especial para instruir seus filhos ao mesmo tempo em que trabalhavam seu relacionamento com os garotos. E em ambos os casos, os resultados foram livros nos quais a graça está no tema de conhecimento dos pais e só. Infelizmente, assim como em Zen, O Clube do Filme dedica pouco à sua proposta de tratar, no seu caso, de cinema, e se concentra muito na história de pai e filho, o que para mim não tem graça nenhuma.

Quando David Gilmour descreve a exibição dos filmes e a discussão resultante disso, O Clube do Filme se torna uma leitura muito gostosa para quem curte cinema. Mas na maior parte do livro, o autor prefere expor o relacionamento de pai e filho, o conflito de gerações, e as questões de um adolescente problemático de modo supervalorizado - quem se importa com um pé na bunda que um moleque qualquer leva de sua namoradinha? Além disso, essa ideia inovadora do pai, ao meu ver, nunca poderia dar certo com os valores que ele passa para o filho: um cara desempregado que janta com frequência no restaurante mais caro da cidade e viaja para o exterior, se preocupa em seu filho usar drogas mas chega bêbado em casa. Essas e outras posturas babacas do pai, como toler o rapaz já maior de idade por ele mastigar de boca aberta me passaram uma imagem do autor sendo um burguesinho medíocre e aumentaram minha antipatia pelo livro. Seu texto simplório e cheio de diálogos fracos chegou a ser um alento para mim, pois agilizou a leitura, isso quando não pulei várias partes mais desinteressantes. Bem, pelo menos existem recomendações de mais de cem filmes fundamentais, a maioria tratados em apenas um parágrafo, e nesse reduzido espaço o autor surpreende sendo eficaz e conciso como um bom crítico de cinema, o que salva o livro de uma catástrofe total.

Editora: Intrínseca
Páginas: 239 
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Neil Young - A Autobiografia

Dois são os fatores fundamentais para que uma biografia seja bem-sucedida: uma vida cheia de passagens interessantes, divertidas ou inseridas em um contexto importante, e a forma como ela é narrada. Quando essas duas coisas se conjugam, está pronto um excelente livro ou filme. Sozinhas elas também podem funcionar bem. O primeiro fator se explica por si só, e pode dar um bom resultado mesmo que a execução não seja lá essas coisas. O segundo já se provou viável sozinho também -  veja Harvey Pekar, um arquivista com uma vida medíocre em Cleveland que criou obras-primas dos quadrinhos alternativos reproduzindo papos-furados com os amigos e situações corriqueiras de um americano médio. Em sua autobiografia e primeiro livro publicado, Neil Young não conseguiu impor nenhum dos dois fatores, e se tratando de quatro décadas no mundo do rock, muito disso se deu voluntariamente, por escolha do próprio autor.

Não sou fã de Neil Young. Na verdade, conheço relativamente pouco de sua vasta discografia (contando todas as bandas que ele tocou mais seus discos solo, são pra lá de cinquenta álbuns), mas ultimamente tenho tido muito prazer em tocar no violão algumas das músicas do excelente disco Harvest, e achei pertinente conhecer um pouco do cara que criou essas canções. 

Praticamente tudo contido em sua autobiografia era novidade para mim. Apesar de já ter bastante familiaridade com o Harvest, muita coisa importante produzida por Neil era desconhecida para mim, e passei a conhecer paralelamente à leitura. Foi surpreendente para mim descobrir que o músico teve dois filhos com paralisia cerebral, por exemplo. Bem como seu amor por carros, ferromodelismo e sua obsessão com a melhora na qualidade do som nas mídias atuais. Ou sua relação com seu pai ou sua mulher à época do lançamento do livro. Ok, mas... onde fica a música no meio disso tudo? Relegada a um ou outro dos 68 capítulos. Um terrível erro para alguém que viveu disso por décadas, e poderia ter usado a situação para criar um livro com material bem mais atrativo, ou que pelo menos respondesse às expectativas de alguém que compra a autobiografia de um músico!

Portanto, Neil Young abriu mão de utilizar o que tinha de melhor, sua experiência no mundo da música, para escrever uma autobiografia sem graça, sem apelo e sem conteúdo atrativo. Poderia até ter dado num livro bacana se ele tivesse conseguido impor um ritmo original como Harvey Pekar, mas não deu certo. A estrutura do livro é caótica. Os capítulos são espalhados aleatoriamente. No início, até achei boa a ideia dessa construção heterodoxa, meio solta no tempo como Bill Pilgrim em Matadouro 5,  mas a partir do momento em que você percebe que ele prefere falar do dia em que seu carro deu defeito no meio da estrada com sua cachorrinha como passageira do que do processo de criação em On the Beach ou Zuma, a coisa toda perde o sentido. Acaba virando meio que um diário no qual ele escreve bastante sobre o presente, meio que um livro de memórias bastante pessoais de situações insignificantes para os outros. Há muita atividade atual, muitos projetos que visam salvar o planeta e as almas das pessoas nesses tempos modernos que Neil não consegue absorver bem - de carros elétricos ao Puretone (atualmente Pono), a mídia de altíssima qualidade criada por ele para derrotar o mal que o mp3 traz para a saúde auditiva das pessoas. Só que esses papos enchem o saco, e acho que ninguém quer saber quando compra a autobiografia do Neil Young.

Posso dizer que essa autobiografia me abriu as portas para a vida e a obra de Neil Young, porém mais como um catálogo do que com conteúdo em si - li páginas na internet e ouvi seus discos no youtube como fontes paralelas de informações, muito mais úteis do que no próprio livro. E assim conheci um pouco do criador das músicas que andam fazendo minha cabeça ultimamente... e o coração da pessoa amada...

Editora: Globo
Páginas: 408
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Hey Ho Let's Go: A História dos Ramones - Everett True

Quem é meu chegado ou já leu algumas coisas aqui no blog sabe que Ramones sempre foi minha banda do coração. Musicalmente posso até preferir outros artistas hoje em dia, afinal conheci esses caras quando tinha uns 12 anos, e obviamente a gente muda muito desde então, mas Ramones é a banda que eu mais me identifiquei durante todo esse tempo. As pessoas me identificam com os Ramones, até meus pais que não tem a menor noção de nada de música sabem disso. Minha avó de noventa e tantos anos com princípio de Alzheimer lê o nome da banda nas minhas camisas e acha super engraçado em como soa ao sair de seus lábios. Meus alunos já se acostumaram a assistir às aulas de História olhando para esse nome estampado também. As pessoas simplesmente ouvem o nome Ramones e se lembram de mim, tanto que no meu último aniversário ganhei do meu amigo Dom Pedro essa biografia lançada ano passado aqui no Brasil - e já não é o primeiro livro sobre os Ramones que eu ganho e faço a resenha aqui no blog esse ano.

Em todos esses anos, busquei e tive acesso a bastante material sobre a banda. O primeiro foi uma revista lançada na década de 1990, especial sobre os Ramones, contando sua história, curiosidades, letras de algumas músicas (naquela época não havia internet para se ter acesso a esse tipo de coisa tão comum hoje, e era uma penúria entender o sotaque nova-iorquino anasalado de Joey quando não vinha a letra no encarte). A revista sumiu, alguém surrupiou, mas desde então foram livros, filmes, sites, tudo o que eu pudesse encontrar sobre eles todos esses anos. De todo esse material, nunca tinha encontrado algo tão produtivo, esclarecedor e divertido como Hey Ho Let's Go: a História dos Ramones. 

O livro não pode ser considerado a "biografia definitiva" da banda - afinal, quem define uma biografia assim está mentindo ou se iludindo -, mas o motivo para isso é o mesmo que justifica minha opinião positiva sobre ele: Hey Ho Let's Go foi escrito por um cara muito fã dos Ramones, e passa longe da isenção ou imparcialidade. E isso tornou a leitura muito prazerosa para mim. Apesar de diferenças em relação a gostos e preferências por essa ou aquela música ou álbum, os fãs geralmente concordam em determinados pontos, e nesse sentido ler esse livro foi como conversar com um amigo que gosta da mesma coisa que eu (aliás, pessoalmente não conheço ninguém que goste tanto dos Ramones como eu com quem eu possa conversar...). E não são opiniões sempre entusiásticas de uma fanzoca bitolada. Everett True muitas vezes critica asperamente seus ídolos por posições ou trabalhos abaixo do esperado, ainda mais pelo fato de ter acompanhado tudo na própria época dos ocorridos. É aquele fã que vibra com determinado fato e se decepciona com outro, mas não deixa de amar a banda - como acontece em toda relação humana de amor. Essa é uma perspectiva bem legal para um livro que trata de uma paixão compartilhada por milhões ao redor do mundo.

Hey Ho Let's Go é o tipo de biografia musical que prende minha atenção. Além de apresentar a vida e a personalidade de cada pessoa envolvida, trata especificamente sobre cada álbum lançado, analisa cada música contida nele, contando a história por trás da letra e às vezes até a técnica seguida em determinada gravação. Além disso, são abordados shows, clipes e participações em filmes. São informações relevantes sobre passagens às vezes obscuras, como por exemplo o caso de Richie Ramone, um baterista que fez parte da banda durante quatro anos, três álbuns, centenas de shows, alguns clipes e inclusive tem créditos em composições, mas é tão ignorado por todos os que tem alguma relação com a banda que parece que não existiu, ou pelo menos que, por algum motivo ignorado até hoje, ninguém quer que pareça que existiu. Bem como um tal Elvis Ramone, baterista convocado para substituí-lo que durou apenas dois shows, por não se encaixar na sonoridade característica da banda, e logo deu lugar para a volta do antigo baterista Marc Ramone. Até o fã mais fissurado pode encontrar informações antes desconhecidas que chegam ao público através de entrevistas inéditas para o livro.

O autor consegue impor um ritmo legal ao livro. Paralelamente à narrativa cronológica, são inseridos alguns capítulos temáticos como Na Estrada (várias partes), contando casos das muitas turnês que a banda fez; ou Em Busca do Sucesso, que procura resposta para o fato de os Ramones terem procurado ou não ser uma banda famosa, nas palavras de pessoas próximas e deles mesmos. Há também alguns capítulos nos quais as pessoas apontam seus álbuns ou músicas favoritas dos Ramones, o que abre a conversa entre vários fãs além do leitor e o autor. Além disso, a narrativa é cortada dentro dos próprios capítulos com declarações e trechos de entrevistas que não fazem parte daquilo que está sendo tratado ali no momento, mas se encaixa no contexto. O conjunto de tudo isso torna a leitura bem fluida e gostosa. Daquelas que você diz pra si mesmo "só mais um capítulo" antes de tomar coragem para ir lavar a roupa que se acumula no canto do quarto. 

Quando se fala de Ramones, tem que se ter em mente que a banda sempre funcionou em meio a brigas, disputas, rivalidades, durante seus 22 anos foi assim. Os relatos de quem acompanhou seus primeiros shows no CBGB, em Nova York, apontavam quatro moleques maltrapilhos discutindo durante os vinte e pouco minutos que ficavam no palco, sobre qual música tocar, quem errou em qual parte, esse tipo de coisa. A situação se tornava pior a cada ano de convívio, e um fato se tornou um ícone ilustrativo disso no início dos anos 80: Johnny roubou a namorada de Joey, e os dois nunca mais se falaram, mesmo se aturando até o fim da banda. Mais ou menos como os Beatles, cada membro tinha uma personalidade bem peculiar, coisa que eu já falei um pouco na resenha da autobiografia do Johnny Ramone. E como acontece no caso do Beatles, os fãs se veem obrigados a escolher lados, ter seu Ramone preferido. Everett True, escrevendo pela paixão, deixa bem claro sua preferência, principalmente por Joey, e sua antipatia por Johnny - pelas mesmas razões que apontei na resenha anterior. Tanto que, em um dos apêndices, escrito após a primeira edição do livro, ele admite ter recebido a seguinte chamada de um colaborador: "Você subestimou totalmente o papel dele na banda... Ele foi o maior guitarrista de punk rock que já viveu. Ele foi Johnny Ramone. Você deve tentar e finalmente encontrá-lo: ele está muito doente. É possível que não sobreviva." Acabou que ele não teve tempo de entrevistá-lo, Johnny morreu pouco tempo depois. Mas isso demonstra claramente essa preferência do autor, o que pra mim não é um defeito, só mais um mérito desse livro - até porque essa preferência é a mesma que a minha... Quem sabe o que eu teria achado se fosse o contrário?

Os Ramones terminam como banda em 1996, dignamente, sem se prolongar eternamente como velhinhos safados atrás de uma graninha como muitos fazem por aí, completando meio século ou mais de travessuras no mundo do rock. Contudo, a história dos Ramones continua sendo escrita por seus membros, na medida em que sobreviviam mais alguns anos após duas décadas num estilo de vida perigoso - o que você não tem muita chance de sobreviver se não for o Keith Richards. Cinco anos depois, os fãs já ficariam órfãos de Joey, vitima de câncer, seguido nos anos posteriores por Dee Dee e Johnny, o que rendeu alguns apêndices nas edições seguintes do livro nos Estados Unidos e já vieram incluídos aqui para o Brasil. Esse ano perdemos Tommy, o último dos Ramones originais que ainda sobrevivia. Pode ser que nas próximas edições venha mais um complemento aí. Mas a história permanece viva nos membros secundários que sobrevivem, mas principalmente nos milhões de fãs pelo mundo que participaram de cada show, que ouviram compulsivamente cada disco, que contaram com a ajuda das letras e canções rápidas e toscas para conseguir suportar a realidade na qual nunca conseguiram se colocar. Fãs como eu. E Hey Ho Let's Go está aí para manter a história e a paixão.

Editora: Madras
Páginas:480
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *


E ATENÇÃO: ISSO NÃO É UMA MARCA DE ROUPA OU UM MEME DE INTERNET PARA VOCÊ SAIR POR AÍ OSTENTANDO NA CAMISA SEM NEM TER IDEIA DO QUE SIGNIFICA!

A modinha está irritante e já passou da conta. Como disse uma vez o ex-empresário da banda Danny Fields, "Eles venderam mais camisas do que álbuns, e provavelmente mais camisas do que ingressos".

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Castelo de Papel - Mary del Priore

Biografia entrecruzada de princesa Isabel e seu marido Gastão, o Conde d'Eu, O Castelo de Papel narra a vida de dois personagens pouco aclamados na História do Brasil, apesar de terem seus nomes ligados a fatos cruciais na nossa trajetória: ela, à Lei Áurea; ele, à Guerra do Paraguai. Escrito por Mary del Priore, historiadora que escreve fácil para o leitor leigo, o livro segue sua linha de popularização da História, sem deixar o ofício de historiadora de lado, tendência seguida também por outros historiadores a quem admiro, como Eric Hobsbawm e José Murilo de Carvalho. Contudo, esse trabalho de Mary del Priore apresenta alguns poréns. 

A começar pelo material que a autora tinha em mãos. A vida do casal nada teve de extraordinário, marcante, nem ao menos muito curioso. Ela mesma os classifica como "Ele, surdo. Ela, feia", numa síntese da mediocridade das personalidades abordadas. Gastão era um típico nobre europeu, com hábitos aristocráticos e vontade quase que exclusiva em participar de ações militares para honrar a tradição da família Orleans - o que só conseguiu por um breve período no Paraguai durante toda a sua vida. Isabel era uma beata criada para ser dona de casa, mãe e esposa, pelo menos assim se apresenta. Mulher mulherzinha, típica da época, nada revolucionária ou radical como uma Anita Garibaldi ou Maria Quitéria (ou Ana Neri, antes que alguma mente menos esclarecida me acuse de algum "ismo" por citar só mulheres em atividades "masculinas"). Nenhum dos dois era levado em muita consideração pelo imperador ou a opinião pública, ela por ser mulher, ele estrangeiro. Aliás, eles mesmos em grande parte dispensavam essa participação na vida pública, preferindo sempre o aconchego do lar em Petrópolis ou Laranjeiras, tomando como suplício as vezes em que tiveram que assumir o comando na ausência de D. Pedro II no Brasil. O que estimula a vontade de ler é quase que exclusivamente o contexto histórico em que estavam inseridos: o Segundo Reinado, sobretudo no período de decadência e queda. Tanto é que, ao período compreendido entre a morte de D.Pedro II e a morte do casal, cerca de trinta anos, são dedicadas apenas as últimas sete páginas do livro! Quase metade da vida morna da princesa em apenas 2% do livro, para se ter uma ideia. A contrapartida para isso é a boa contextualização que Mary del Priore faz do papel do casal na vida pública no período, mas ainda assim, parte considerável da narrativa é composta por transcrições de documentos, tirando sua dinâmica e originalidade.

Essa questão exposta acima nos coloca outra: por que alguém dedicaria um livro a personagens tão monótonos quando poderia escolher qualquer outro mais vivo, colorido? Tudo bem, a importância histórica deles e a contextualização seriam justificativas plausíveis mas, analisando a obra de Mary del Priore, nota-se uma, digamos, interlocução do presente trabalho com outros. O site Botequim Cultural publicou um artigo no qual expõe a tese que questiona a vasta produção da escritora (praticamente um livro por ano), relacionando-a em alguns momentos com uma superficialidade de pesquisa. Em O Castelo de Papel, há citações nas quais se percebe que muito foi retirado de trabalhos anteriores, e até material usado para o trabalho posterior lançado no ano seguinte (Do Outro Lado, a história do sobrenatural e do espiritismo). Cheira a jabá, mas até aí tudo bem. O problema é: quando se vê que, no mesmo período, a autora já escreveu livros de personagens próximos aos abordados aqui, como a Condessa de Barral e Dom Pedro Augusto (o elogiado O Príncipe Maldito), fica claro que o Conde d´Eu e a princesa Isabel não foram foco de uma pesquisa própria com objetivo de se produzir um trabalho sobre eles, mas sim um material paralelo de outras pesquisas, aproveitado para o lançamento de mais um livro! 

Tudo isso dá uma má impressão de oportunismo comercial, o que já cria antipatia, mas o resultado prático mais desagradável, como assinalado pelo artigo citado acima, é uma certa superficialidade da pesquisa. Nada de novo ou original nas interpretações, e questões controversas que teriam uma ótima oportunidade para serem esclarecidas não são abordadas. Nesse ponto, o que mais me incomodou, pela expectativa que eu havia criado ao comprar o livro, foi a falta de discussão sobre a polêmica participação do Conde d´Eu na Guerra do Paraguai. Muito se é dito sobre sua crueldade nos campos de batalha ou sua incompetência à sombra de Caxias, assuntos que alguns concordam totalmente ou com parcimônia, outros atribuem ao clima político de determinados períodos (a ideologia republicana, tentando depreciar a imagem de tudo ligado ao período monárquico, ou as décadas de 1960 e 70, representadas pelo livro O Genocídio Americano, do jornalista Júlio Chiavenato, uma época em que a luta contra o imperialismo e a ditadura militar eram o mote, e acusar o Brasil e o exército de serem representantes dos interesses da Inglaterra significava colocá-los do lado malvado da guerra, incluindo o conde). Quanto à princesa Isabel, essa visão de uma mulher fraca e sem maiores ambições do que ser a filha-esposa-mãe ideal - justamente a propagandeada pelos opositores do regime na época, e por isso, suspeitíssima - me parece contraditória quando exposta sua rivalidade com Dom Pedro Augusto, filho de sua irmã mais nova que se supunha poder iniciar o terceiro reinado no lugar da tia. Pode ser que Isabel não fosse tão bobinha como se dizia e se diz, ou que fosse mesmo, e que essa rixa fosse fruto de ciúme. O fato é que não há essa discussão, e a Isabel mulherzinha é decretada sem contestação. Esses são alguns dos assuntos que não são tocados em O Castelo de Papel. Pelo contrário, às vezes parece até que a autora tomou uma certa simpatia pelo pobre casal, "o surdo e a feia" novamente, deixando de lado uma visão mais crítica, imparcial e profunda que poderia ter sido feita.

Essa questão do Conde d´Eu na Guerra do Paraguai foi um dos principais motivos do meu interesse por essa leitura, posto que minha monografia de graduação foi sobre esse período e conservo até hoje esse particular interesse dentro da História. Há anos guardo essa controvérsia, e não foi dessa vez que a tirei de mim. Fiquei na vontade, insatisfeito... De qualquer forma, comprei o livro também por motivos profissionais - minha experiência como professor já me mostrou que, se você quer conquistar o aluno nas aulas de História, traga-lhe pormenores, detalhes, curiosidades, enfim, fofocas (contanto que elas sejam registradas pela historiografia, claro!). Biografias são sempre bom material para esse tipo de atividade, e apesar de todas as deficiências dessa, considero uma leitura mediana. Pelos temas curiosos abordados por Mary del Priore em outros livros e opiniões positivas da crítica especializada a trabalhos anteriores (além de respeito no mundo acadêmico), pretendo dar outra chance à autora futuramente, acredito que haja pontos mais altos em sua carreira. 

Editora: Rocco
Páginas: 317
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Marvel Comics: A História Secreta - Sean Howe

Poderíamos categorizar como biografia um livro que conta a história de uma editora de quadrinhos, ou seja, uma empresa? Após ler Marvel Comics: a História Secreta, posso afirmar que sim, já que o mote principal abordado por seu autor, o jornalista Sean Howe, é justamente esse: mostrar a dualidade e os conflitos existentes entre o lado empresarial da Marvel, ditado por interesses de mercado, e sua contrapartida humana, que envolve tanto criatividade quanto paixões, desavenças, vingança, orgulho e todo tipo de outras situações que podem ocorrer no convívio de seus diversos membros.

Dificilmente alguém que viva no meio urbano hoje em dia pode não conhecer a Marvel Comics, pelo menos de nome. Seu slogan é praticamente onipresente em livrarias, lojas de brinquedo, brindes de lanchonetes e tudo mais, devido à popularidade que personagens como Homem-Aranha, Capitão América, Hulk, Thor, Homem-de-Ferro, entre outros, vêm alcançando nos últimos 15 anos através de produções milionárias para o cinema. É obvio que todos os personagens citados já fazem parte do imaginário popular há muito mais tempo, a diferença é que hoje sua exposição é muito maior - e sua rentabilidade, mais ainda.

Uma das coisas que se pode conhecer com a leitura desse livro é a trajetória que a editora percorreu até chegar a esse ponto. Começando em 1939 com o nome Timely Comics, a Marvel passou por diversas fases, tendências, acertos e erros, tanto artísticos como comerciais. Mas principalmente, durante essas quase oito décadas, a Marvel passou na mão dos mais variados tipos de pessoas, com suas escolhas, seus dilemas, seus amores e ódios. E é sobre essas pessoas, muito mais do que da história dos personagens famosos e lucrativos da editora, que Sean Howe resolveu escrever.

Quando se fala em Marvel Comics, sob qualquer aspecto, não se pode desvencilhar a imagem de Stan Lee, aquele velhinho simpático que aparece rapidamente em todos os filmes dos super-heróis da editora hoje em dia. Sobrinho de Martin Goodman, criador da Timely, Stan Lee, hoje com mais de 90 anos, esteve presente em praticamente todos os momentos da história da Marvel, direta ou indiretamente, como roteirista, editor ou simplesmente homem de negócios buscando outros nichos de mercado para a editora (sobretudo o cinema, quase uma obsessão sua), mas acima de tudo, sendo o responsável pela criação dos personagens que surgiram na década de 1960 que formaram a espinha dorsal do universo Marvel. Quer dizer, pelo menos na versão oficial, já que uma das grandes discussões que se arrasta até hoje em dia é o papel de Lee na criação desses personagens - os parceiros dele, como Steve Ditko e Jack Kirby, acusaram-no até a morte de ter um papel bastante reduzido nesse processo. Só que Dikto, Kirby e tantos outros permaneceram muito menos tempo na Marvel do que Stan Lee, e como se sabe, a história oficial é sempre a história contada pelos vencedores.

Essa questão de créditos de criação dos personagens e, principalmente, os direitos comerciais sobre eles, é outra discussão importante no livro de Sean Howe, já que sempre acompanhou os artistas e proprietários da Casa das Ideias. Em todas essas décadas de quadrinhos de super-heróis, tanto a Marvel como sua principal concorrente, a DC Comics (editora de outros ícones como Super-Homem e Batman), sempre conseguiram manter sua propriedade sobre os personagens criados para fazer parte do seu universo. A alegação das editoras é que os criadores são contratados no esquema "work-for-hire", algo do tipo freelance, e isso nunca foi revertido a favor dos artistas. A principal tentativa de superar essa situação veio na década de 1990, quando desenhistas de uma nova geração se tornaram superstars no mundo dos quadrinhos e decidiram que era a hora de se vingar do que eles e muitos outros antes encaravam como exploração de seu trabalho. Artistas como Jim Lee, Rob Liefeld e Todd MacFarlane abandonaram a Marvel e criaram uma nova editora, a Image Comics, que por algum momento representou uma ameaça real ao domínio Marvel/DC.

A criação da Image não foi o único momento de crise e risco de extinção da Marvel Comics. O livro apresenta diversos outros períodos de vacas magras, tanto criativa como financeiramente, em que a Marvel quase fechou as portas. Talvez esse seja um ponto fraco na dissertação de Howe, pois o autor negligencia a situação do mundo nos acontecimentos referentes à Marvel - por exemplo, acho que ninguém que escreva sobre uma empresa pode deixar de levar em conta a crise mundial iniciada em 1973 com a alta do petróleo ditada pela Opep. O autor poderia ter trabalhado mais profundamente essas questões, ou outras como a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos na década de 1960, que são apenas citadas, quando muito.

Porém, como já citado, a linha condutora do livro é mesmo a dicotomia emocional/humano x racional/comercial. Com o tempo, a Marvel foi crescendo, e ao mesmo tempo em que tinha que tomar decisões frias e comerciais que uma empresa precisa ter para sobreviver no capitalismo, seus fãs cresciam, e alguns deles acabaram por entrar na equipe da editora. Esses meninos que tiveram a companhia de seus heróis durante toda a vida não queriam colocá-los em situações constrangedoras por causa de interesses mercadológicos (tipo, qual era a lógica de o Homem-Aranha utilizar um "Aranha Móvel" para se locomover no congestionamento de Manhattan se ele podia simplesmente se balançar entre os arranha-céus?). O livro coloca situações como essas de maneira bastante interessante, citando exemplos de como alguns autores conseguiam furar o bloqueio de editores, principalmente nos títulos menos visados, nos quais alguns roteiristas e desenhistas conseguiam até incluir temas políticos e sociais de forma velada, como o uso de drogas. Esse equilíbrio de tendências foi fundamental para a sobrevivência da editora, já que a radicalização para um ou outro lado certamente quebraria a empresa.

Hoje eu não leio mais quadrinhos de super-heróis como antigamente. Ao passarem os anos da minha vida, fui aos poucos deixando de lado essa vertente mais popular dos quadrinhos e me interessando por criações com temas mais adultos, como mostram as inúmeras resenhas de quadrinhos que eu já escrevi nesse blog. As grandes sagas que se estendem por anos, as reviravoltas, as tramas e subtramas que se encadeiam nas dezenas de revistas mensais já não me interessam como faziam durante minha infância e adolescência. Hoje em dia, as histórias nada mais são do que recauchutagens de tudo o que foi escrito nas décadas passadas por grandes nomes como Chris Claremont, Jim Starlin, Roy Thomas e tantos outros que eu adorava e ainda adoro ao reler minha coleção de gibis antigos. Não vejo mais graça em acompanhar mortes, ressurreições, perda e ganho de poderes e todas essas coisas que não tem fim, enquanto os personagens continuam com a mesma idade da década de 60. Já deu o que tinha que dar pra mim, fica agora para as gerações que iniciam seu caminho nesse mundo. Mas como fã de quadrinhos desde sempre, e com esse sentimento de companheirismo com os super-heróis da minha juventude que nunca me abandonou, obviamente essa leitura foi muito interessante para mim e me despertou muitos sentimentos - além de a leitura ter fluído facilmente e eu ter devorado as páginas em pouco tempo. Quando criança e adolescente, você não pode imaginar que a criação dos personagens e histórias que sempre foram o seu mundo pessoal passe por tantas situações escabrosas, ganância, passadas de perna, puxadas de tapete, jogatinas comerciais. Não se imagina que, para aquelas páginas terem chegado até você, muita gente passou dias e noites sem dormir para cumprir prazos ditados pelo mercado editorial, substituíram momentos com suas famílias nas manhãs de sol por confinamentos em seus estúdios, e alguns até morreram por causa disso. Marvel Comics: A História Secreta mostra todos esses episódios de paixão, dor, sacrifício e tudo o que os heróis passaram em todas essas décadas ao nosso lado - e aí você descobre que, na verdade, foi tudo o que os autores passaram em suas vidas. Foi tudo o que você passou na sua vida. E você chega ao fim do livro com um sentimento de profundo agradecimento por todos os heróis da vida real que fizeram a Marvel existir como ela é ou foi durante a sua existência.

Editora: Leya
Páginas: 560
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Quando eu era o Tal - Sam Kashner

Todo mundo já teve um ídolo na vida, um modelo a seguir, seja um artista, um jogador de futebol ou seu próprio pai ou avô, por mais iconoclasta que alguém possa ser. Alguém em quem se espelhar, que se deseja ser igual, enfim, alguém que você ache foda e quer pelo menos estar com essa pessoa. Sam Kashner, um judeu americano de classe média e vida tranquila de subúrbios de Nova York, um menino sem muitos atrativos para as garotas além do talento e gosto pela poesia, encontrou seus ídolos na Geração Beat: Allen Ginsberg, Jack Kerouac, William Burroughs, Gregory Corso. Ele queria ser um deles, queria viver aquela vida de liberdade e irmandade cáusticas narrada em On the Road, Howl, Naked Lunch ou Bomb. E o que era uma ilusão juvenil pareceu se transformar em realidade quando Ginsberg fundou a Escola Jack Kerouac de Poetas Desencarnados, que contava com a presença do próprio Ginsberg e todos os beats vivos na época (meados dos anos 70): Burroughs, Corso, Peter Orlovsky, além de grandes autores que não formaram o núcleo Beat original mas se destacaram posteriormente, como Anne Waldman. Sam Kashner não teve dúvidas em abandonar uma vaga no conceituado Hamilton College para se tornar o primeiro (e por um bom tempo o único) aluno de poesia da Jack Kerouac School. 

Inicialmente, o jovem poeta se vê realizando um sonho ao conhecer pessoalmente todos os seus heróis, fazer parte de seu mundo, comer na mesma mesa que eles, mas logo percebe que nunca poderia se tornar um deles, pois eles simplesmente não existiam mais! Como a excelente foto da capa mostra - Allen Ginsberg, Philip Whalen e William Burroughs como três pacatos vovôs em uma sauna -, os antigos Beats não estavam mais cruzando a América do Norte atrás de experiências extremas com sexo, drogas e jazz. Agora eles conversavam sobre problemas com hemorroidas, decadência sexual e questões administrativas de uma universidade em busca de um certificado. Bem, talvez exceto por Gregory Corso, que se negava a abrir mão de seu lado selvagem, e de quem Sam mais se aproximou durante sua passagem pela Jack Kerouac School, numa relação de amor e ódio.

Logo na primeira página, o autor emite uma advertência: "Por favor, não leia o livro se você estiver procurando (como eu estava no começo da década de 70) por uma história da Geração Beat." Não sei qual era a intenção dele em escrever isso, mas simplesmente não procede. Quando eu era o Tal é um livro de memórias sobre seu tempo ao lado das lendas Beat já velhas, sim, mas não por isso deixa de ser recheado das mais saborosas histórias dos velhos tempos daquela turma. Entre algumas tarefas como manter Corso longe das drogas para que termine seu livro ou finalizar um poema de Ginsberg sobre sua experiência em fazer sexo oral em Neal Cassady, Sam Kashner esmiúça o tanto que pode sobre as personalidades (quase sempre conflitantes) de seus heróis e descobre histórias que vão do emocionante ao perturbador. Pode não ser uma história da Geração Beat no sentido cronológico, de cabo a rabo, mas uma história que se faz por pequenas passagem esparsas. As citações a personalidades contemporâneas às histórias como Patti Smith, Bob Dylan, Keith Richards e os Beats mortos Kerouac e Cassady são constantes.

Entretanto, o ponto central do livro é mesmo a desconstrução dos ídolos, sua transformação em seres humanos comuns com todos os seus defeitos e qualidades, a mudança da idolatria para um sentimento de maior proximidade, a admiração através da amizade. Isso fica bem claro quando o autor começa a descobrir que seu ídolo pode ser tão fraco ao ponto de se deixar manipular por um guru de meia tigela que bebe, anda de Rolex e está sempre cercado de belas garotas, mas ao mesmo tempo recebe pequenos atos de ternura que só o convívio é capaz de produzir. E fica claro também que mesmo seres humanos comuns podem continuar a ser ídolos.

Paralelo a tudo isso, Quando eu era o Tal não deixa de ser um livro de memórias pessoais, com lembranças familiares, experiências amorosas, medos e expectativas. A intercalação de fotos dos Beats com fotos da vida privada do autor ao final do livro deixa claro esse viés. Acho que para alguém que não conhece a Geração Beat esse livro não será de muita utilidade e proveito, devido às suas referências do início ao fim, mas para os fãs da era mais doida da literatura, é uma leitura bastante útil em uma abordagem original.

Editora: Planeta
Páginas: 360
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Mente Espontânea - Allen Ginsberg

Conhecer a vida de um autor, suas experiências, ideias e posições perante sua realidade, é sempre vantajoso para quem aprecia sua obra e busca maior compreensão sobre ela. No caso de alguns esse conhecimento é menos necessário, de outros mais, porém o que dizer da obra poética de Allen Ginsberg, que é basicamente tudo o que o poeta beat experimentou e viveu nos anos mais intensos da história recente da humanidade? Uma biografia ou um livro de memórias poderia ser bastante proveitoso para tal fim, mas no caso de Ginsberg, uma cabeça brilhante que funcionava sempre a mil por hora, me pareceu bem adequado o lançamento de Mente Espontânea - Entrevistas 1958-1996, livro no qual suas memórias e posicionamentos acerca da política, sexualidade, religião e os mais variados temas foram capturados no calor das discussões e após perguntas imediatas, sem tempo para pensar o que dizer para os entrevistadores, seguindo o lema budista tão apreciado pelo fiel seguidor de seus preceitos que Ginsberg foi: primeiro pensamento, melhor pensamento.  

Mente Espontânea é uma coletânea de trinta entrevistas nas mais diversas fases de sua vida, nas quais diversos assuntos são abordados, pelos mais variados tipos de entrevistadores (de ativistas gays a reacionários religiosos ultraconservadores, e até um interrogatório em um julgamento). Seus pensamentos e interesses podem variar de acordo com o ano da entrevista, mas a franqueza em suas respostas e o despudor para abrir sua privacidade a estranhos são as mesmas em qualquer momento, seja explicando métodos de meditação ou divagando sobre o pênis de Jack Kerouac. Ao mesmo tempo em que Ginsberg abre sua mente para seus leitores, histórias e lembranças surgem, elucidando diversas passagens de poemas que podem parecer obscuros numa primeira leitura. 

É verdade que de trinta entrevistas não podemos considerar todas excelentes, já que alguns temas podem não agradar a todos - utilizar uma entrevista inteira para, por exemplo, explicar aspectos técnicos de poesia não é bem a coisa que alguém que não é poeta de ofício vá se interessar -, mas a maioria delas é um deleite para os fãs de Ginsberg e, mais do que isso, tais entrevistas são essenciais para os que desejam se aprofundar em seu universo e do movimento beat em geral. É uma pena que a obra de Allen Ginsberg não seja tão difundida no Brasil, até porque, como eu já disse anteriormente, seu trabalho é bem atrelado à sua realidade e sua linguagem é deveras heterodoxa para uma tradução adequada, mas eu recomendo o esforço de pelo menos se tentar conhecer esse grande poeta que a cada dia me encanta mais com seus trabalhos revolucionários que estou conhecendo mais profundamente aos poucos, processo que se intensificou mais ainda depois da leitura dessa coletânea.

Editora: Novo Século
Páginas: 615
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * *

p.s.: o livro chegou a mim com a seguinte dedicatória: "Acredito em fazer por merecer nosso caminho, mas também acredito em um presente inesperado. - Borboletas - Charles Bukowski" "Obrigada por surgir. Da sua." - Obrigado digo eu, boba...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Commando - A Autobiografia de Johnny Ramone

Bruto, direto, tosco, sem frescura... assim podemos caracterizar o som dos Ramones, e após ler Commando, a Autobiografia de Johnny Ramone, podemos compreender melhor que essa sonoridade nada mais é que o reflexo de seu criador, o lendário guitarrista dos pais fundadores do punk rock. Lançada aqui no Brasil oito anos após a morte de Johnny, essa autobiografia sem concessões não é a história definitiva dos Ramones, mas nos mostra a ótica de quem era o cérebro da banda, o cara que, além da importância nas composições e na criação do espírito Ramone, realmente mandava e decidia questões estratégicas - uma ótica bem peculiar à sua pessoa.

Johnny Ramone era um cara difícil, cheio de escrotices, opiniões babacas, atitudes estúpidas, e talvez por isso nunca tenha sido o membro dos Ramones que eu mais admirava. Enquanto para mim Dee Dee Ramone encarnava a atitude punk por excelência e Joey era muito mais cativante na sua tosquice em volta de uma personalidade inocente, boba, imbecilizada, Johnny Ramone me causava uma certa antipatia por, ao meu ver, não personificar o espírito punk com sua visão muito empresarial e suas posições conservadoras em diversos assuntos. Mas nunca perdi meu respeito por ele, primeiro por ser um membro fundador da minha banda favorita desde que minha voz começou a engrossar, e segundo por ser um cara que colecionou uma legião de detratores, mas ao mesmo tempo um círculo grande de admiradores e amigos no mundo da música - e isso o torna, mesmo que discutamos suas atitudes e valores, uma pessoa bem interessante.

Todas essas características da personalidade de Johnny que eu não simpatizo estão nas páginas do livro, o que prova que um de seus traços que eu valorizo está lá: mesmo que obviamente seja cheia de omissões, é uma autobiografia sincera. Escrito nos últimos momentos de vida de Johnny, quando lutava contra o câncer que o vitimou, Commando é como uma música dos Ramones: rápido, honesto, conciso, e nos faz entender muito sobre os Ramones e algumas de suas canções. Talvez até pelas circunstâncias em que foi escrito, o livro não apresente pudores de seu autor em falar o que pensa sobre ninguém. Entretanto, Johnny não era escritor, e infelizmente no livro ele não consegue fazer como nas músicas da banda, aquela simplicidade arrebatadora que dizia tudo em poucas palavras com três acordes simples ao fundo. É apenas um texto ordinário, retirado de entrevistas cedidas pelo guitarrista e organizado por outras pessoas, mesmo que tenha passado pela edição de gente como John Cafiero e Henry Rollins, mas o livro é tão curtinho e as histórias são tão interessantes que isso não significa muito. A edição brasileira é muito bem cuidada, capa dura, papel de luxo, muitas fotos e vários anexos, como listas de 10 mais de Johnny, cópias de agendas, avaliações dele sobre os discos dos Ramones, até para encher o livro já que o texto é bem pequeno.

Como fã dos Ramones, conheço muita coisa sobre eles, e essa autobiografia elucida muitas passagens da história da banda, mas também contradiz bastante algumas versões. Commando é uma leitura bacana, leve e rápida, que vale uma conferida. Quer você curta ou não, os Ramones são uma das bandas mais importantes da história do rock, e este livro é um dos buracos de fechadura para observar o que passou nesse mundo que tanta gente é apaixonada. Se você se interessa por isso,vale a leitura, mesmo que seja numa cafeteria de livraria no intervalo do almoço.

Editora: Leya
Páginas: 176
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * *

domingo, 25 de agosto de 2013

Eu Sou Ozzy - Ozzy Osbourne

O que esperar de uma autobiografia de alguém que usou tantas drogas que não consegue se lembrar de metade do que passou na vida? A resposta evidente é a metade de uma autobiografia misturada com um monte de histórias bobas fantasiadas ou, no máximo, "aumentadas mas não inventadas". É mais ou menos por aí que deve ser encarado esse Eu Sou Ozzy, escrito pelo comediante Ozzy Osbourne. 

Quer dizer, "escrito" é um eufemismo elogioso para, no máximo, narrado oralmente, pois pelo que se conhece de Ozzy e pelo que ele mesmo diz no livro, dificilmente ele teria capacidade para redigir um texto com mais de três parágrafos sozinho. O ghost writer encarregado em passar para o papel as histórias escabrosas de Ozzy chama-se Chris Ayres, e ele tenta ao máximo reproduzir a linguagem chula e primária do vocalista do Black Sabbath para dar um ar de autenticidade à narrativa do ídolo metaleiro. Se isso por um lado isso produz um texto tosco e difícil de ser levado a sério, a contrapartida positiva é que a leitura torna-se bastante fácil e rápida. Afinal, o que sobra mesmo são as histórias engraçadas e passagens curiosas para quem gosta de rock.

Desde o começo já se percebe que a piada é o tom do livro. Antes de ser cantor, Ozzy é um showman, um palhaço, um bobalhão. Tudo quanto é passagem de sua vida é narrada como uma comédia pastelão, até as coisas mais sérias, como seus dias na prisão, doenças, acidentes, excessos de drogas - aliás, justamente por isso a mídia teve a ideia de transformar sua vida familiar num reality show. Da sua infância humilde, passando por sua juventude sem perspectivas na classe trabalhadora inglesa, chega-se logo ao que todos querem saber: sua carreira no Black Sabbath e as doideiras do mundo do rock.

É claro que tudo não passa de histórias inventadas, floreadas, enfeitadas com glamour de bom humor, mas nem por o livro deixa de apresentar bons aspectos. Primeiro que é bem engraçado, dá para se divertir um bocado com algumas dessas histórias bobas. E segundo que, apesar de toda a fantasia e o besteirol, Ozzy não esconde quem realmente é como pessoa, intencionalmente ou não. Independente das cores com que trata suas histórias, fica claro que Ozzy é um completo idiota que age de maneira semelhante a qualquer Luciano Huck ou Ivete Sangalo da vida: só quer saber de ganhar dinheiro e gastar da maneira que mais lhe agradar, o que eu encaro como uma grande ofensa ao rock, um estilo musical que tem a rebeldia como substância desde seus primórdios. Tanto é que, lamentavelmente, Ozzy prefere falar mais sobre seus discos de platina e suas turnês milionárias do que de suas composições em si - quer dizer, das composições de seus parceiros musicais que ele interpretava, pois ele deixa bem claro que o processo de composição do Black Sabbath passava primordialmente por Tony Iommi e Geezer Butler. Fora tudo isso, ainda tem espaço para todas as besteiras inconsequentes que sempre marcaram a vida de Ozzy, como a crueldade com animais (e não estou falando só da lenda do morcego, que por sinal ele dá sua versão também).

Eu sou Ozzy é um apanhado de babaquices, ora engraçadas, ora de mau gosto. Não se justifica como um livro, pela sua falta de qualidade literária. Seu conteúdo seria mais indicado para um documentário ou um programa de tv, mas esse tipo de livro está aí nas livrarias porque tem mercado, pessoas que não têm o costume de ler, como as que compram A Cabana ou os livros do padre Marcelo - ou no caso, os fãs de Ozzy, subestimados ou não.  As histórias do mundo do rock sempre me interessam, e confesso que curti as passagens em que Ozzy nos conta sobre a genialidade de Tony Iommi, a morte de Randy Rhoads ou a ditadura de Ian Anderson no Jethro Tull, mas logo torci para que terminasse e eu voltasse para o mundo dos livros de verdade, que é o que realmente me interessa. 

Editora: Benvirá
Páginas: 416
Disponibilidade: normal
Avaliação: * *

domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Drifting Life - Yoshihiro Tatsumi

O sonho de toda criança é poder ser algo bem divertido e emocionante quando crescer. Eu queria ser jogador de futebol, desenhista ou astronauta, mais tarde astro do rock, e até hoje tenho minhas fantasias profissionais - adoraria trabalhar fazendo programas de viagem para algum canal de tv que pagasse tudo! Poucos de nós podem desfrutar desse prazer que deve ser trabalhar com algo que realmente se sonhou algum dia - sonho inocente de criança, não me refiro a planos para passar em algum concurso público que pague um salário absurdo e morar na orla. Yoshihiro Tatsumi é uma dessas pessoas, e além dessa realização ainda lhe foi possível contar essa história através de um belo livro.

A Drifting Life é um álbum de quadrinhos autobiográfico japonês escrito e desenhado por Tatsumi, um importante autor que criou o termo "gekiga" para distinguir trabalhos mais sérios de mangás de temas infantis - o gekiga em relação ao mangá seria um termo com a mesma conotação que as graphic novels têm em relação aos comics americanos. A história se passa praticamente toda durante a década de 1950, período no qual Hiroshi, o alter-ego do autor, inicia seu amor pelos quadrinhos japoneses e desenvolve sua técnica até se tornar um respeitado artista.

Muito mais que uma autobiografia, A Drifting Life aborda, com muita ternura, a história dos quadrinhos japoneses, além da própria história do Japão. Entre páginas que mostram detalhes da vida pessoal do autor, apresentam-se diversos personagens marcantes para a indústria dos mangás, alguns muito famosos, como seu ídolo Osamu Tezuka (o "Deus do mangá" para os japoneses), outros praticamente desconhecidos aqui no Brasil até para os mais aficionados - editores ou autores underground da época. Ao mesmo tempo é apresentado um Japão que saía do trauma da Segunda Guerra Mundial e iniciava sua ascensão no mundo capitalista como uma nova potência econômica, alguns detalhes também bem estranhos para o público ocidental - ou alguém conhece bem os atletas e cantores japoneses de 60 anos atrás?

O assunto central de A Drifting Life, a criação e o desenvolvimento do gekiga, é mostrado com bastante afinidade com a vida de Hiroshi e a história do Japão, que não aparecem no livro de forma relapsa, sem sentido. Questões de economia do Japão e mercado de mangás tem íntima relação com os trabalhos de Hirsoshi / Tatsumi, bem como seus dramas pessoais e suas preferências. A criação de um "mangá que não é mangá", como o protagonista chama, foi diretamente determinada por uma outra paixão sua que é mostrada quase que em todos os capítulos: o cinema, hábito frequente de Hiroshi que o faz importar esse tipo de linguagem para a arte sequencial japonesa.

Os desenhos vão de simples quadros com dois personagens dialogando sem fundo a painéis mais bem trabalhados. Para as partes históricas, o autor utiliza desenhos até mais realistas, quase representações de fotos de época. Os desenhos do gekiga diferem consideravelmente do mangá regular, sobretudo na falta de artifícios para representar movimentos e nas famosas onomatopeias, utilizadas em menor escala, ainda que existentes.  

Gostei muito de A Drifting Life, mas tenho certas ressalvas em relação à edição da Drawn & Quarterly, até onde sei a única no mercado ocidental. Aqui no Brasil, grande mercado consumidor de quadrinhos japoneses (acho que o maior fora do Japão), estamos acostumados já há mais de dez anos com uma fidelidade à estrutura do mangá. Quase todos os mangás publicados no Brasil mantêm a ordem de leitura japonesa, da direita para a esquerda, mas como os americanos têm fama de resistirem muito à introdução de hábitos de outros povos ou diferenças culturais (isso fica claro no cinema falado em outras línguas), a edição deles foi adaptada para o modo de leitura ocidental, o que, por mais bem feito que seja o trabalho de edição, traz consideráveis prejuízos à narrativa. Outra estranheza para quem está acostumado a ler as edições brasileiras de mangá é a tradução de muitas onomatopeias no próprio quadro, isso também modifica bastante uma importante parte estética do mangá. 

Apesar de alguns problemas editoriais, essa é a única edição ocidental, e vale muito a pena ler esse livro, mesmo para quem nunca leu mangá. A Drifting Life é uma leitura muito boa e uma ode aos quadrinhos japoneses, para mim esse trabalho tem sentido semelhante a Amarcord ou Cinema Paradiso para o mundo do cinema. Infelizmente Yoshihiro Tatsumi não é um artista muito conhecido no Brasil, e não tenho muitas esperanças que algum dia esse trabalho será lançado por aqui, mas não é difícil encontrá-lo em livrarias no exterior e até aqui no Brasil (acabei de verificar que a Livraria Cultura tem disponível, por exemplo). Além da bela história, é um livro grande, grosso, capaz de garantir bastante tempo de entretenimento e esteticamente cai muito bem numa bela prateleira cheia de livros e quadrinhos.

Editora: Drawn & Quarterly
Páginas: 855
Disponibilidade: importado
Avaliação: * * * *

obs: No ano passado foi lançado um filme em animação chamado Tatsumi, baseado no livro, gostaria muito de encontrá-lo.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Tempos Interessantes. Uma Vida no Século XX - Eric J. Hobsbawm


Tempos Interessantes - Uma Vida no Século XX é a autobiografia de Eric Hobsbawm, historiador vivo mais famoso na atualidade. Sua vida em si nada tem de muito interessante que justifique uma autobiografia, mas como diz o título, é como Hobsbawm trata o tempo em que viveu que diferencia este excelente livro de uma bobagem egocêntrica qualquer. Mesmo sem muitas situações emocionantes ou anedóticas, não é muito difícil que alguém que nasceu em Alexandria em 1917, cresceu bilíngue na Áustria e na Alemanha (onde logo tornou-se comunista na época do advento do nazismo) e começou sua vida adulta como órfão pobre na Inglaterra da década de 1930 tenha o bastante para relatar. Acrescente a isso a genialidade de um historiador que interpreta fatos de modo bem originais e escreve de dentro da academia para o mundo leigo e você tem um ótimo livro para vários dias de leitura.

A produção de um autobiógrafo historiador já começa com táticas utilizadas no próprio ofício, ou seja, a utilização de fontes históricas além da própria memória, como fotos e documentos de familiares. Assim tem início o livro, com uma investigação de sua família para mostrar o ambiente em que foi criado, até suas primeiras memórias, e ao longo das páginas, muitos diários e publicações em jornais foram úteis para o então octogenário historiador lembrar o que havia acontecido décadas antes, e ao mesmo tempo tentar interpretar o que se passava na cabeça do jovem Hobsbawm. Entrevistas e diversos outros registros também são amplamente explorados pelo autor para traçar pequenas biografias dentro da autobiografia, de pessoas que cruzaram sua vida e tiveram importância em sua formação, como professores e companheiros de partido.

Se levarmos em conta que Hobsbawm trabalha com o conceito de curto século XX (que vai de 1914 a 1991, ao contrário do longo século XIX, que começa em 1789, com a Revolução Francesa), conclui-se que o autor viveu praticamente durante todo este século e, com exceção da I Guerra Mundial e da Revolução Russa, ele pode ter algum tipo de percepção sobre todos os acontecimentos relevantes para a história do período, a começar pelo advento do nazismo (ele é de família judaica e vivia na Alemanha) e a crise de 1929 aos olhos de uma criança de 12 anos. Uma experiência de vida invejável.

O livro continua através de sua vida posterior na Inglaterra, durante a II Guerra Mundial (quando teve apagada participação, pois era comunista assumido e despertava suspeitas das autoridades inglesas) e na década de 1950, auge de sua produção intelectual. A partir de então, no final da década de 1960, Hobsbawm passa a se sentir mais espectador do que ator nos acontecimentos do mundo, já que admite que, se não conseguia vestir calças jeans, não podia mais se sentir como protagonista - exageros à parte, sua carreira continua a progredir rumo ao estrelato, com as publicações de importantes livros como as continuações de A Era das Revoluções (1962), participações em debates e programas de televisão, aulas em diversas universidades do mundo (inclusive uma visita à Unicamp, em plena ditadura militar), entre outras atividades sem visibilidade do grande público, mas de grande expressão no mundo intelectual. Na verdade, o que Hobsbawm quis dizer foi que, à luz dos acontecimentos de 1968, já sentia-se fora do clima de ação daquela época e podia interpretar os fatos como um observador, mesmo que de forma equivocada - como admite em certo trecho.

Exceto por alguns capítulos muito específicos, como um em que o autor escreve sobre a atividade acadêmica de historiador ou outro em que a política interna britânica é abordada, quase tudo da história do século XX que é analisado por Hobsbawm é muito interessante, mas para mim os quatro últimos capítulos se destacam, onde o autor reserva espaço para discutir a situação dos países que marcaram sua vida: França (especialmente Paris, o centro do mundo para quase todos de sua geração, para onde o autor viajou em todos os anos de sua vida adulta, exceto durante a dominação nazista), Itália (que exerceu atração pelas suas belas localidades e pela particularidade de seu comunismo), o Terceiro Mundo (que não podia deixar de atrair um comunista nessa época) e os Estados Unidos (que o autor considera o centro do mundo atual, como o que foi a França para sua geração, e onde ele passava vários meses do ano dando aulas). Sua análise sobre tais países ultrapassa muito a abordagem de um historiador e de um viajante em férias, sendo a visão perspicaz de um observador que discorre temas tanto do passado como do momento em que escrevia, "De FDR (Franklin Delano Roosevelt) a Bush" como o título de um desses capítulos. Ainda assim, parece que estes últimos capítulos deixam escapar alguns "pormenores" da vida de Hobsbawm, como a perda da virgindade em um bordel parisiense, uma gracinha em relação a aventuras sexuais com sua esposa num parque na Hungria e até a confidência da utilização de um chaveirinho do PT que recebeu quando visitou Porto Alegre durante um governo petista! Escrito em 2002, o livro coloca o PT sendo lembrado com admiração e carinho, e sua criação como um movimento proletário tardio respeitado pelo autor.

Tempos Interessantes é mais um livro de História do que uma autobiografia, mas vale lembrar que em A Era dos Extremos, no qual o século XX é tratado de maneira mais acadêmica e menos passional, Hobsbawm já havia utilizado muito de sua experiência pessoal para tratar de determinados temas, e quem já leu este reconhecerá muitos destes trechos novamente abordados. Tempos Interessantes apresenta uma escrita já familiar a quem costuma ler Hobsbawm: densa - mas não cansativa -, capaz de prender a atenção do leitor durante dias, e acrescentar muita informação de qualidade de modo acessível.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 482
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

sábado, 18 de dezembro de 2010

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos - Harvey Pekar e Robert Crumb


No meio do ano, coloquei uma nota aqui no blog sobre Harvey Pekar, monstro dos quadrinhos que faleceu na ocasião, mas fiquei devendo uma resenha sobre algum de seus trabalhos. Pago a dívida agora com a resenha de Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos, uma coletânea de trabalhos escritos por ele e desenhados por Robert Crumb, seu principal parceiro.

Harvey Pekar era um funcionário público sem nenhuma expressão, arquivista de hospital, na entediante cidade de Cleveland. Não viajava para lugares exóticos ou perseguia bandidos armados ou qualquer outro tipo de atividade emocionante, apenas colecionava compulsivamente discos de jazz, mas foi justamente escrevendo sobre seu cotidiano que revolucionou os quadrinhos underground americanos. E o que pode haver de interessante no cotidiano de alguém assim? Conversas com colegas de trabalho, esperas em filas de supermercado atrás de velhinhas chatas, tentativas de vendas de discos antigos para comprar outros... Nos fatos em si não há nada que não ocorra na vida de qualquer cidadão, mas o talento de Harvey Pekar em transformar esses momentos triviais em histórias divertidas e envolventes faz o diferencial.

Tudo começou na década de 60, quando Harvey conheceu Crumb por causa de seus gostos musicais semelhantes, e alguns anos depois a parceria teve início. Fazendo seus roteiros com bonecos de palitinhos desenhados em guardanapos, Harvey Pekar logo se tornou um ícone entre os fãs de quadrinhos underground, e suas histórias, desenhadas por diversos artistas desde a década de 70 até 2008 eram apresentadas na revista American Splendor - que, por ser publicada geralmente uma vez ao ano, teve apenas 39 edições. Inicialmente, American Splendor tinha sua publicação bancada pelo próprio autor, mas a partir da década de 90 passou a ser publicada por grandes editoras, primeiro pela Dark Horse, depois pela Vertigo, o que fatalmente fez com que perdesse o clima underground.

Bob & Harv: Dois Anti-Heróis Americanos reúne as histórias de American Splendor que foram desenhadas por Robert Crumb, o mais famoso artista que passou pela revista (que vocês já devem conhecer de tanto eu falar sobre ele aqui). É praticamente o único trabalho de Harvey Pekar publicado no Brasil, já que a outra única publicação de American Splendor aqui no Brasil foi na revista Piratas do Tietê, de Laerte, traduzido e adaptado por ele mesmo sem autorização do autor, como o desenhista brasileiro conta no prefácio do livro. O título da edição brasileira pegou carona na tradução do título do ótimo filme American Splendor (chamado no Brasil de "O Anti-Herói Americano"), que conta a história por trás da criação deste marco da cultura alternativa. Tanto a HQ quanto o filme são fundamentais.

Editora: Conrad
Páginas: 100
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Entradas e Bandeiras - Fernando Gabeira


Há dois anos, na reta final para as eleições municipais, encontrei e li por acaso O Crepúsculo do Macho, de Fernando Gabeira, então candidato à prefeitura do Rio de Janeiro. Por pura coincidência, nesta semana final de campanha para as eleições na qual Gabeira é candidato novamente, encontrei também por acaso o livro que segue o anterior, Entradas e Bandeiras. No mesmo estilo autobiográfico da série que começa com O que é isso, companheiro?, Entradas e Bandeiras fecha a trilogia contando sua volta ao Brasil após o longo exílio no exterior.

Em 1979, tendo ficado famoso por ter participado do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, Gabeira era tido como um símbolo da luta contra a ditadura, naquele momento em que a sociedade brasileira começava a sair do jugo dos militares e ansiava pela liberdade. Uma grande festa foi armada no aeroporto no momento de sua chegada, todos queriam uma palavra sua, uma atitude de um líder que guiasse as pessoas na direção da democracia. Entretanto, após dez anos de experiências em diversos países, em contato com novas ideias, Gabeira simplesmente estava em outra sintonia - situação já discutida em seu livro anterior -, mais preocupado com ambientalismo e opressão sexual do que com a luta da esquerda. "Entradas e Bandeiras" trata basicamente da relação de Gabeira com o Brasil e do Brasil com Gabeira: o homem, estrangeiro em seu próprio país, e o país decepcionado, mas ao mesmo tempo fascinado com a aquele estranho, se sentindo traído e atraído por ele.

Uma das passagens do livro remete a uma memória de sua infância, a história de um homem que foi à Lua, criando toda uma expectativa na população, mas quando voltou, simplesmente colocou um ovo. Uma situação ridícula, que reflete o que ocorria em sua vida: todos esperavam um guerrilheiro andando por aí com uma metralhadora na mão, mas o que se via era uma pessoa com roupas extravagantes, de sexualidade duvidosa, tendo largado o fumo e a bebida, mas abraçado de vez a maconha e a campanha pela sua legalização, comendo em restaurantes naturais ou tomando sol com sua controversa tanguinha no posto nove de Ipanema - que na verdade não era de crochê, explica o autor, mas pertencia sim à sua prima Leda Nagle. Isso tudo gerava um quadro muito ambíguo, sendo Gabeira odiado por diversos setores da direita e da esquerda, porém cada vez mais atraindo os holofotes para si, com requisições constantes de entrevistas e artigos e o sucesso do lançamento de seu primeiro livro. O que se percebe em Entradas e Bandeiras é um homem feliz, resolvido, disposto a agir como mais lhe conviesse e lhe fosse correto, sem se importar muito com a mentalidade tacanha da maioria dos brasileiros de então (não muito diferentes dos de hoje). Se em O Crepúsculo do Macho Gabeira parecia estar mudando, e talvez até sofrendo com isso, aqui ele já tinha escrachado de vez.

Entredas e Bandeiras é mais um ótimo livro de Fernando Gabeira, divertido, de escrita agradável, porém não sem recursos ou estilo, ao ponto de poder ser facilmente lido de uma vez só em algum dia livre. É um livro muito mais fácil que o anterior, com uma marcação temporal mais compreensível, passado em locais mais familiares à maioria dos leitores brasileiros, e abordando ideias e acontecimentos em vez de sentimentos. Mais leve e concreto, o relato de um perspicaz intérprete das situações absurdas da sociedade e uma clara indicação do porquê das seguidas derrotas de Gabeira nas eleições para cargos executivos, que dependem de votação muito expressiva: sem entrar aqui no mérito de propostas de campanha ou da trajetória política do candidato, o grosso do eleitorado brasileiro nunca vai compreender e aceitar ideias tão avançadas, mesmo que hoje em dia Gabeira não fique mais propagando-as por aí - pelo menos propositalmente, lembram-se da história da "mentalidade suburbana", na campanha de 2008? Por conta de suas posições revolucionárias, fosse com arma na mão, fumando maconha ou indo à praia de tanga feminina, enfim, tudo que foi escrito em O que é isso companheiro?, O Crespúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras, a pequenez da mentalidade brasileira sempre irá considerá-lo algo como viado, maconheiro ou sequestrador.

Editora: Codecri
Páginas: 208
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Último Imperador - Edward Behr


Geralmente, bons livros são adaptados para o cinema, mas no caso de "O Último Imperador", aconteceu o inverso. A obra-prima de Bertolucci fez tanto sucesso que foi imperativo (sem trocadilhos) que a impressionante história verídica de P`u-i fosse parar nas prateleiras das livrarias.

Também geralmente, as histórias transformadas em filmes perdem muito de sua qualidade - o que também não é o caso aqui, pois "O Último Imperador" é um filme fantástico, onde se destaca a genialidade do diretor -, mas quase sempre elas perdem algo de seu conteúdo, dadas as limitações de tempo até nos maiores longas metragens. O filme de Bertolucci não foi feito para explicar os pormenores da vida de P`u-i, mas sim apresentar esta figura ímpar na história de uma forma artística insuperável. Lendo o livro após ver o filme, percebe-se que muita informação extra foi incluída nesta biografia, mesmo histórias paralelas de coadjuvantes na vida de P`u-i, para o deleite de qualquer espectador que saiu dos cinemas satisfeito na década de 1980.

A biografia do último imperador da China escrita por Edward Behr começa antes do que se mostra no filme, apresentando a situação na China, que era uma quase colônia das potências europeias, humilhada e praticamente saqueada, e as intrigas palacianas que cercaram a sucessão da maligna imperatriz viúva Tz`u-hsi, predecessora de P`u-i. Só então o livro começa a tratar da vida do último imperador, que aos três anos já fora coroado e tornou-se prisioneiro na Cidade Proibida - a China era uma República, mas os líderes não ousaram destituir o povo deste símbolo presente na história do país desde o terceiro milênio antes de Cristo.

Todo o restante da vida de P`u-i - sua expulsão da Cidade Proibida, a aliança com os japoneses que conquistaram a Manchúria antes da II Guerra Mundial, sua captura pelos comunistas de Mao Tsé-Tung no poder, a prisão e sua transformação em cidadão modelo da República Popular da China - além de serem esmiuçados aos mínimos detalhes, são analisados pelo autor, dando muito mais sentido a diversas passagens do filme. Todos que cruzaram seu caminho - esposas, servos, os poucos amigos que o ajudaram e as muitas pessoas que tiraram proveito de sua posição - também tiveram este cuidado do autor. Depois de todas as informações dispostas nas 280 páginas do livro, cabe ao leitor julgar esta personalidade sem igual: bondoso? inteligente? covarde? mesquinho? manipulador? sincero?

Edward Behr utilizou como fontes de sua pesquisa, além de documentos oficiais, jornais e conversas com pessoas que viveram ao lado de P`u-i, dois livros escritos por personagens desta história: um do tutor do jovem imperador, o escocês Reginald Fleming Johnston, que narrou seus dias na Cidade Proibida, e a própria autobiografia de P`u-i, um livro cheio de meias-verdades escrito por um ghost writer chinês. Intitulado "O Último Imperador da China", também teve tradução para o português, e é encontrável em sebos.

O filme de Bertolucci é uma aula de como fazer um filme, e ganhou uma porção de prêmios pelo mundo. O livro, que ganhou um prêmio Gutemberg, é uma aula de história da China e do mundo contemporâneo traçada ao redor de alguém que viveu diferentes mundos da forma mais intensa possível, alguém que nasceu nobre, muito cedo se tornou imperador e morreu jardineiro e cidadão comunista, talvez sinceramente, talvez por interesse. Veja o filme, depois leia o livro (apesar de esgotado, é fácil encontrar em sebos), e ligue o dvd de novo para atentar aos detalhes.

Editora: Record
Páginas: 281
Disponibilidade: esgotado
Avaliação: * * * * *

sábado, 29 de agosto de 2009

Abusado - Caco Barcellos


No início desta semana, o Bope matou o bandido conhecido como "Joaozinho", braço direito de Fernandinho Beira-Mar, o maior traficante de drogas em atividade no Brasil, mesmo atrás das grades. Na segunda-feira, uma multidão acompanhou o enterro de Joaozinho, que era tido como herói por causa de seu assistencialismo nas favelas que comandava. Comerciantes do centro da cidade de Duque de Caxias, vizinha do Rio de Janeiro, fecharam as portas com medo de arrastões. Segundo alguns colegas que moram lá, motoqueiros armados e carros de som soltavam ameaças a quem quer que ouvisse. As autoridades negam o fato, afirmando tratar-se de boatos.

A demonstração de vitalidade da figura do bandido-herói me fez lembrar uma leitura de alguns anos atrás que aborda o tema, o livro "Abusado: o dono do morro Dona Marta", de Caco Barcellos. Nessa polêmica obra, o jornalista acompanhou parte da vida de Marcinho VP, chefe do tráfico na favela carioca de Botafogo, "abusado" (bandido que troca tiros com a polícia) e herói da comunidade. Apesar de ser uma reportagem, o livro foi feito em forma de romance, sendo "JulianoVP" (pseudônimo, como para todas as outras pessoas relacionadas a ele) o protagonista que atua numa história cheia de passagens chocantes e curiosas (como a filmagem do clip "They don´t care about us", do Michael Jackson) intercalada com sub-tramas de personagens da favela, como a do homem educado que subia o morro para cheirar cocaína ou da mulher que cansa de ser "otária" e vai viver a vida do jeito que quer.

Caco Barcellos vivenciou muitos momentos com o traficante, se arriscando quando ele era foragido na Argentina ou subindo o morro para gravar entrevistas. Talvez essa proximidade com Marcinho VP tenha interferido na imparcialidade jornalística do autor, que apresentou o marginal com seu lado humano, sua infância, sua religiosidade, seu carinho por Jovelina Pérola Negra, seu gosto por pequenas coisas como feijão, dentre outras características que muitas vezes ofuscavam o lado perverso de alguém que lucra com o vício alheio e ameaça a vida de outras pessoas - apesar de Caco Barcellos em momento algum ter demonstrado apoio ou sequer simpatia por suas ações criminosas.

A exposição pessoal de Caco Barcellos no processo de produção deste livro foi bem maior do que se tivesse sido qualquer outro jornalista, já que ele não era nada desconhecido pela polícia, pois após escrever "Rota 66", livro que trata de grupos de extermínio formados por policiais, teve que viver um bom tempo longe do Brasil por causa de ameaças de morte. Apesar de algumas falhas, "Abusado" é resultado de um trabalho bastante competente de investigação e interpretação, atrelado a uma escrita envolvente.

Editora: Record
Páginas: 588
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *

Livro Digital

Nota: algum tempo depois do lançamento do livro, Marcinho VP foi encontrado morto dentro de uma lixeira no presídio onde cumpria pena.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Persépolis - Marjane Satrapi


Conheci Marjane no ano passado, através do filme Persépolis e... me apaixonei! Marjane é uma garotinha que nasceu no Irã, presenciou a revolução islâmica, sofreu um bocado com a guerra contra o Iraque, viveu como uma estranha numa terra estranha na Europa e criou a Graphic Novel Persépolis, obra super-elogiada e vencedora do prêmio de melhor história em quadrinhos da feira de Frankfurt em 2004 que conta sua história e que foi transformada em longa-metragem em 2007.

Persépolis foi originalmente lançada em quatro volumes, entre 2000 e 2003, e agora está no mercado brasileiro na forma de compilação com os quatro volumes encadernados. A obra de Marjane Satrapi é feita de desenhos simples e em preto-e-branco, mas que passam bastante sentimento e complementam o texto autobiográfico, que alterna situações cômicas e trágicas. Até o lançamento do filme eu nunca tinha ouvido falar desta HQ, mas acompanhando os poucos filmes baseados em quadrinhos que satisfazem os fãs, Persépolis é um filme muito bacana, que por si só agrada. Recentemente, com uma promoção que deixou o preço do álbum acessível (no momento está custando R$ 28 do site da Saraiva, o preço cheio é R$ 41), pude comprovar que o filme foi bem fiel ao original, com o mesmo traço da desenhista, mas ainda assim faltam algumas passagens só publicadas no papel.

Persépolis é uma autobiografia bem ao estilo American Splendor (outra HQ que foi muito bem transformada em filme), escrachada, engraçada, debochada, mas que ao mesmo tempo mostra situações dramáticas acerca da violência presente no Irã entre as décadas de 1970-90 e da própria vida da autora, que se identifica como “iraniana na Europa e européia no Irã”. O uso do véu, a proibição de qualquer tipo de diversão presente no ocidente (incluindo festas e música), a xenofobia, as situações inusitadas, tudo isso está presente em Persépolis. Recomendo a qualquer pessoa que curta biografias e História, independente de ser fã de quadrinhos ou não.

Editora: Companhia das Letras
Páginas: 352
Disponibilidade: normal
Avaliação: * * * * *